sábado, 13 de dezembro de 2008

O mito da separação da economia com o meio ambiente

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Desculpem falar na primeira pessoa, mas não posso deixar de falar como eu estou me sentindo hoje. Eu sei que para a humanidade ser salva, o pronome na primeira pessoa tem que ser abolido, eu e meu não podem existir mais, porque no fundo não existem, aqui na Terra, todos os seres vivos dependem de todos os seres vivos e está tudo interligado. Assistindo ao documentário “Planet Earth” (Planeta Terra) da BBC com voz de Sigourney Weaver, fiquei impressionado ao saber que as monções estão ligadas com o Saara que está ligado à fertilização da Amazônia que está ligada ao regime de chuvas e formação de recursos hídricos das regiões Sul e Sudeste brasileiras. Desculpa mencionar, mas, caro amigo Blairo Maggi, por favor, o mundo econômico tem limites, a economia não pode ser maior que o planeta, você está certo que comemos os ecossistemas, mas precisamos fazer isso com o maior cuidado, porque os ecossistemas não estão aí apenas para serem comidos, estão aí para nossos pulmões se encherem de ar, estão aí para nossos corações baterem, estão aí para respirarmos. Eu sei, há fome no mundo, mas vamos parar com isso: se há falta de algo, é porque falta produzir algo. Se há fome no mundo, não é porque há excesso de gente, não é porque há desperdício (um quarto da comida termina no lixo), não é porque há má distribuição e ineficiência. O mesmo vale para tudo. Na crise imobiliária dos Estados Unidos, é chocante saber que esse setor está em crise com cada família tendo em média quase três casas. Enfim, tem que ficar claro que sem os ecossistemas que exercem funções vitais como regulação química da atmosfera, a Terra seria uma tocha incandescente e nem estaríamos batendo papo por aqui. Na verdade a causalidade da vida na Terra é tão improvável, que é um milagre estarmos aqui sem dúvida alguma. Por exemplo, sem Jupíter, cuja enorme gravidade criou paz cósmica para nosso planeta azul ao absorver para si mesmo todos os elementos móveis que transitam nesse espaço sideral perigoso, não estaríamos também batendo papo. Ainda bem que Jupíter demorou a se formar, porque do contrário os cometas não teriam batido intensamente no nosso planeta. Sem essa colisão maciça e ininterrupta de bilhões de anos, a Terra não teria uma gota de água. Nossos corpos são feitos de matéria base de carbono do sol e água de cometas. Milagre, mas a água é e sempre será finita, para aumentar sua quantidade, mais cometas deveriam bater contra a Terra. Vamos rezar para que nem cometa nem asteróides nos visitem, porque nossa conversa também pode não continuar depois disso. Somos muito vulneráveis no fundo e devíamos nos proteger e proteger o planeta. Fazemos o oposto, cada um na sua individualidade estúpida e nas suas riquezas desnecessárias e temporárias.

Somos dependentes de todos e da natureza e do planeta e ponto final. A economia não pode ser maior que o planeta. Se o objetivo de todos é vender mais, ganhar mais dinheiro, construir mais, estamos fritos, isso não funcionará. É a receita do colapso total. A crise global agora traz mais cavaleiros do apocalipse diante de nós. Um setor prioritário é o automobilístico, setor que precisa imediatamente se deter de transformar o transporte humano numa rota suicida, baseada na queima de combustíveis fósseis que estavam na crosta terrestre há milhões de anos e que altera nossa atmosfera ao ponto de estarmos a mercê de uma mudança climática crítica. A natureza não via esses materiais da crosta há milhões de anos (no caso de metais, são bilhões de anos). Não há portanto ciclos naturais regenerativos para isso. Cada carro produzido na Terra requer o asfaltamento de 0,6 hectare de Terra ou será que alguém acha que um carro vai para cima da copa de uma árvore? Além de ser ineficiente, porque são duas a quatro toneladas de material para transportar um ou mais corpos humanos (de preferência um só...). Precisamos do novo, isso não é o novo, a indústria automobilística destruiu empregos à velocidade da luz, de 150.000 postos em 1950, hoje só possui no Brasil 50.000 produzindo muito, mas muito mais carros. Essa lógica não funciona: as pessoas precisam de função social, de emprego (e não de trabalho). A saturação material do modelo consumista frusta todo mundo e também não é capaz de sustentar as economias em lugar nenhum, mesmo as mais prósperas, como Estados Unidos e Europa. Está tudo errado. É chocante.

Mais chocante é ver o novo mascarado de velho nas práticas de sustentabilidade com metas surrealistas de crescimento que jamais e em nenhum momento diminuíram as demandas absolutas por recursos finitos da Terra, tangíveis, como recursos naturais, e intangíveis, como os serviços da natureza. Estamos só disfarçando o inevitável. O inevitável chegou e isso me deixou muito preocupado. De um lado os cientistas já avisaram que o dêgelo total do Ártico não ocorrerá mais no final do século XXI mas em três ou sete anos. Meu Deus, três ou sete anos!!!! Anunciaram agora que a meta de descarbonização do sistema econômico tem que ser 100%!!! E alguém ainda questiona o fato de eu não querer mais prazeirosamente viajar de avião. Está na hora de cortar muitos luxos, estancar o crescimento populacional, adotar eficiência e distribuição, implementar programas sociais, economias comunitárias, focar no local e não no global. O único efeito do comércio global foi permitir que a prosperidade dos países ricos fosse mantida sem eles viverem seu próprio colapso ambiental, pois as trocas ambientais entre os países aí são invisíveis e saem a custo zero. Se os Estados Unidos estivessem sozinhos no mundo, sem nenhum território ou país para explorar seus recursos da natureza, já teria entrado em colapso há muito tempo. Agora quem corre risco de entrar em colapso é o planeta inteiro. Não dá mais para manter essa cegueira, mas será mantida, Obama quer trabalhar para fazer sua economia crescer - crescer e importar recursos ambientais de outros lugares que não mais possui.

Não estamos fazendo nada direito. A população segue crescendo violentamente em números absolutos (são 200.000 por dia já descontados os mortos). O "iluminado" Julien Simon dizia ser possível sermos um trilhão de pessoas, mas vemos o oposto: com muito menos, os cadáveres e dejetos humanos, sem falar na sua poluição dantesca, vão criando desafios extremos a todas as cidades do mundo. Isso só seria verdade se fôssemos deuses. Será que somos e estou enganado ao dizer que não passamos apenas de uma espécie animal a mais e Charles Darwin errou mais ainda ao dizer que nada diferencia o ser humano dos demais animais? Esse Simon influenciou outro iluminado chamado Bjorn Lomborg, que diz não haver nenhum problema ambiental na Terra ou algum problema ambiental que seja prioritário. De iluminados estamos cheios, não tenhamos dúvidas sobre isso, encarar o problema de frente nem pensar.

A lista é infindável. Para se ter uma idéia os programas de ajuda nessa crise atual é fazer mais obras, construir mais coisas, construir, construir, construir para empregar e vender, vender. Seguimos achando que a economia é um bicho que pode viver, mesmo sem ter boca nem estômago (de onde vem os recursos pouco importa), sem ter intestino nem reto (para onde vão os resíduos pouco importa). A economia é um bicho que vive só com sistema circulatório. Os economistas mais famosos do mundo acreditam que um bicho como esse, sem boca, estômago, intestino e reto pode crescer, viver e ser maior que o planeta. E ainda ganham prêmio Nobel por isso. Fantástico, mas Aristóteles explica isso muito bem: “quando nossos interesses estão em foco somos os piores juízes das nossas ações.” Criar um bicho igual a células cancerígenas que morrem ao matar seu hospedeiro virou o principal modelo econômico de todos os países, como se não houvessem alternativas discutidas há mais de 50 anos.

Eu estou atônito (perdoem-me o pronome na primeira pessoa, estou procurando evitar) com as soluções da crise, com o Congresso dos Estados Unidos ajudando as empresas automobilísticas que se opões a metas de redução do gás carbônico. Estou atônito ao saber que o Ártico irá degelar inteiramente em 3 a 7 anos e o urso polar irá desaparecer, mas que não será a única espécie animal ameaçada por esse triste fim. Nós também iremos pelo mesmo caminho, ao que tudo indica. Perdoem-me falar que a crise global é a menor das nossas crises, sei que vocês estão com medo do desemprego e com medo de tudo. É o medo que nos inspira muito mal. Leiam André Gorz, porque eu não li, mas já gostei dele.

No fundo, a nossa crise maior é a da consciência. A da falta de consciência. E ainda achar que não temos responsabilidade por esses problemas que serão resolvidos pelas nossas instituições, as mesmas que gastaram e gastam trilhões de dólares em armas de destruição em massa, protegem práticas socioambientais repulsivas, promovem guerras e destruição contínua de florestas e ecossistemas. Achamos que elas serão capazes de resolver nossos problemas. Não estamos sendo ingênuos ao delegar essa responsabilidade a instituições claramente incapazes de mudar, simplesmente porque não mudamos nós mesmos? As instituições somos nós. Nós temos que mudar para mudar as instituições. Não há como se eximir jamais dessa responsabilidade. É hora de enfrentar a realidade de termos transformado a Terra numa enorme lixeira acreditando que a economia pode ser maior que o planeta e mudarmos.

Antes que seja tarde demais.

(grifos meus, Claudia Chow)

3 comentários:

Danielle Conor Kawase Krizanovski disse...

Adorei a matéria da GNT com o Hugo. Se todos começassem ter esta visão, com certeza poderíamos mudar o nosso futuro. Fico feliz que existem pessoas com este pensamento. Abraços

Sílvia disse...

Estou tentando fazer a minha parte, também me preocupo com o futuro do planeta, criei o projeto Transforme ruas Periféricas emn ruas Ecológicas e montei uma Organização Gente com Consciência pra cuidar de três ruas onde estamos implantando o projeto.
Quem quiser conhecer o trabalho entre no blog http://gentecomconsciencia.zip.net e no site www.silviaferreira.com.br/projetoeco.htm e-mail:silviaferreira11@hotmail.com Abraços

J.Machado disse...

Boa noite!
Tava vendo um programa de TV com o Hugo Penteado e por isso descobri este blog.
Irrita-me muito o fato de que apesar de tudo, de alertas e seja lá o que for, nada ainda efetivamente em grande escala tem sido feito pra se mudar.
Caminhamos felizes e descontraídos para um buraco quente, cheio de lanças afiadas no seu fundo.
Ser racional e preocupado com o futuro, parece ser economicamente impraticável.
Sou leigo em muitos aspectos, mas não é preciso ser nenhum letrado ou superdotado pra saber que tá tudo errado.
Grande blog.
Parabéns.
Juliano Antunes
juliano-a@bol.com.br