quarta-feira, 27 de março de 2013

Nicholas Georgescu-Roegen, lixo

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Nicholas Georgescu-Roegen


Nicholas Georgescu-Roegen (1906-1994) está sendo lembrado esse ano com uma publicação em português dos seus livros, pelas mesmas pessoas que o desprezaram no tempo dele, o que é uma ironia.  Ele nasceu no mesmo ano que Albert Sabin, ou seja, em 1906, mas não teve a mesma sorte dele. Enquanto Sabin que salvou milhões de vidas foi respeitado pelos seus pares, Georgescu foi ignorado e poderia ter salvo milhões de vidas se tivesse sido ouvido nos anos 1970.  Com uma acurada análise do funcionamento físico do sistema econômico ele previu antes de toda comunidade científica algo que aprendemos mais claramente a partir dos anos 1990: “Se a economia do descarte imediato dos bens e do desperdício continuar, seremos capazes de entregar a Terra ainda banhada em sol apenas à vida bacteriana.”   Essa é a conclusão da comunidade científica nos anos 1990, pois do ponto de vista biológico somos todos um e é muita ingenuidade achar que a maior extinção da vida dos últimos 65 milhões (e a mais acelerada) não irá se voltar contra os causadores (a humanidade).   Segundo a UICN, conseguimos contrar por dia ou horas o número de espécies animais e vegetais perdidas enquanto o crescimento econômico assola os serviços ecológicos de sustentação da vida.  Recomendo veementemente o Wonders of Universe, coletânea em DVD da BBC capitaneada por Brian Cox e é uma continuidade dos trabalhos do Carl Sagan.  Impressionante a vinculação das regras do Universo com os ciclos da vida, como por exemplo, o planeta não seria verde se as plantas não tivessem se especializado a usar todas as cores da luz solar exceto as verdes. E se as plantas não tivessem conseguido fazer isso, eu não estaria escrevendo esse texto agora.

Voltando ao lixo, está sendo muito difícil desmamar a economia atual das atividades que não irão nos levar a lugar algum.  Essa matéria do jornal de Portugal ilustra bem isso: se a produção do lixo diminuir o setor irá enfrentar dificuldades:http://www.publico.pt/portugal/jornal/volume-de-lixo-no-pais-caiu-quase-7-em-2012-e-complica-contas-do-sector-26273978#/0 .  Em outras palavras: a solução é aumentar o lixo, lembrando que do ponto de vista da física o lixo deveria ser nulo, não existe o “jogar fora” num sistema fechado para a matéria como a Terra.  Acho que nunca a humanidade esteve tão resistente de migrar atividades como agora.  Fez sentido abandonar cavalos para carros, telégrafos para telefones, máquinas de escrever para computadores, porque tudo isso aumentou lucros.  Migrar as atuais atividades insustentáveis para outras mais equilibradas significa provavelmente menores lucros, maiores custos e maior distribuição dos ganhos ao invés da sua terrível concentração (porque como alguns estudos mostram os lucros se explicam em mais de 50% pelas externalidades socioambientais, o mais chocante é o da News Economic Foundation: para cada $100 dólares adicionado a renda per capita, só 0,60 centavos chegam aos mais pobres).

Uma das metas principais para as empresas com boas práticas é reduzir o lixo em números absolutos, para não incorrer no mito do quociente (menos dejetos por unidade de produto, multiplicado por uma producão exponencialmente maior significa pressão crescente contra os ecossistemas da Terra, uma vez que, embora os economistas não saibam isso, a Terra é finita...).

Hugo

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Riqueza Cultural perdida...

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Nós não somos importante pelo que temos (riqueza ou poder), nem pelo que somos (beleza ou inteligência). Nós só importamos por tudo aquilo que fazemos aos outros e toda a natureza.  Essa é a nossa única herança.
 
Como Saramago escreveu, “pobre é aquele que tem mais do que precisa para si”. Ou Sócrates: Rico é aquele que precisa de pouco.
 
Como a riqueza e poder andam de mãos dadas, falhamos também ao ignorar que “o poder foi feito para servir e não para se servir dele”. Mais uma de Sócrates.
 
Essa cultura do ter é abominável, ia colocar no twitter ontem uma frase, mas o sistema travou e era mais ou menos isso: “Uma das maiores ilusões humanas é acreditar que os ricos são mais importantes”.
 
No nosso modelo atual, símbolo de sucesso é ter mais, ganhar mais, ascender mais. Enquanto o símbolo de sucesso for justamente um distanciamento intransponível entre as pessoas, não iremos a lugar algum. O símbolo de sucesso seria conquistar maneiras das pessoas viverem mais próximas, mais viáveis, não o contrário.
 
Não sei se me expressei bem, mas eu não consigo ver distinção alguma entre as pessoas, exceto a sua capacidade ou tentativa de ser útil. 
 
Abraço Hugo
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Justas reflexões, Hugo!

Para ter apenas uma vaga idéia do quanto poderíamos aprender nesta perspectiva de muitas sociedades indígenas, lembramos que em muitas destas sociedades não há acumulação individual de bens, e menos ainda uma correlação entre “ter” objetos materiais e/ou poder econômico e prestigio ou poder político. Muitas vezes o que mais tem “poder” é o que mais tem obrigações e responsabilidades para com os outros... Na vivência que tive o privilégio de compartilhar numa aldeia indígena, acompanhando o campo etnográfico de minha esposa, com nossa primeira filha, vi que o chefe da aldeia, um ancião muito humilde e respeitado por todos, era quem menos possuía objetos materiais em sua casa...

Acho que a sociedade capitalista moderno-ocidental é a única que concentra e associa cada vez mais poder político e poder econômico. Até na idade média feudal acredito que, diferentemente do que nos ensinaram na escola, as duas coisas não estivessem tão interligadas e “livres” de qualquer obrigação social para com o povo...

Mesmo que fosse só para continuar tendo esta diversidade humana e de valores socioculturais para nossa sociedade (des)envolvente ter a oportunidade de se comparar e espelhar nela, inclusive para melhor entender a si mesma e buscar se melhorar... Mesmo que fosse só para isso (e claro que os benefícios e os valores da diversidade e da vida vão muito além disso), já valeria a pena lutar para protégé-la. E, apesar de não resolver todos os problemas, claro, o direito à terra, de acordo com seus próprios usos, costumes e tradições (como reza nossa Carta Magna), é uma condição imprescindível para preservar os valores da diversidade socio-cultural humana, provavelmente o recurso mais precioso que temos na busca da sustentabilidade planetária. De longe mais valioso que todos os minérios e demais recursos naturais que tal ou tal outra Terra Indígena pode (ter a sorte, ou muitas vezes o azar!!! de) abrigar.

Enzo


Excelentes informações que você colocou vejo o quanto pouco sei sobre os índios e o quanto essa diversidade cultural pode ajudar a nossa atual sociedade, como você bem lembrou. Um ponto muito importante que tenho ouvido: fala-se muito de como esse sistema causa a extinção das espécies, mas pouco se fala sobre outra fatalidade dele: a extinção de culturas.  Concordo com tudo.
 
Abraço Hugo

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Sistema econômico só gera miséria, o resto é ilusão

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Esse sistema nunca quis nem nunca vai querer ajudar as pessoas.  Enquanto só as minorias e uma elite estiverem no comando, as regras são ajudarem a si mesmos, negando o ensinamento de Sócrates, essas almas que vão para o Universo na forma de moléculas de rochas praticam uma imensa crueldade.

O poder foi feito para servir e não para se servir dele.

O país mais rico do mundo é também hoje o mais injusto, o maior destruidor das forças da vida desse planeta e esse modelo está se disseminando para China, onde não há mais céu azul e para outros emergentes.

Com a crise mais aguda, miséria bate às portas dos EUA
15/1/2013 11:26
Por Redação, com agências internacionais - de Washington

http://correiodobrasil.com.br/destaque-do-dia/com-a-crise-mais-aguda-miseria-bate-as-portas-dos-eua/570254/


Mais famílias nos EUA dependem de programas de ajuda para sobreviver
Mais famílias nos EUA dependem de programas de ajuda para sobreviver

A pobreza é, cada dia que passa, uma realidade mais tangível para os norte-americanos. Acostumadas à fartura e ao desperdício, as famílias que antes da crise integravam a vasta faixa da classe média naquela sociedade, vêem-se diante de necessidades básicas que, há algumas décadas, foram resolvidas de forma artificial. O crédito fácil, criado por sucessivos golpes bancários no escândalo dos subprimes, transformou-se no fantasma do desemprego e da fome. Mesmo aquelas famílias que têm empregos empobrecem. Pesquisa divulgada nesta terça-feira mostra que os números do empobrecimento continuaram crescendo nos EUA.
Mais gente voltou a trabalhar, segundo a pesquisa realizada com amostragens de 2011, mas geralmente em funções mal remuneradas no setor de serviços. Segundo o estudo, mais chefes de família trabalham como caixas, empregados domésticos, garçons e outras atividades em setores que oferecem baixos salários, baixa carga horária e poucos benefícios. As vagas são oferecidas dentro do Projeto dos Pobres Trabalhadores, um esforço da sociedade com financiamento privado, que busca a melhoria da segurança econômica para famílias de baixa renda.
Segundo o relatório divulgado pela agência inglesa de notícias Reuters, baseado em dados recentes do Censo, em 2011 havia 200 mil famílias de “pobres trabalhadores” a mais do que em 2010. Cerca de 10,4 milhões dessas famílias – ou 47,5 milhões de norte-americanos – agora vivem na linha da pobreza, definida nos EUA como sendo uma renda inferior a US$ 22.811 por ano, para uma família de quatro pessoas.
Na realidade, quase um terço das famílias trabalhadoras dos Estados Unidos atualmente enfrenta dificuldades, segundo a análise. Em 2007, quando a recessão nos EUA começou, eram 28%.
“Embora muita gente esteja voltando a trabalhar, elas estão muitas vezes assumindo vagas com salários menores e menos segurança no emprego, em comparação aos empregos de classe média que tinham antes da crise econômica”, disse o estudo. As conclusões ocorrem quase três anos depois de o país ter oficialmente deixado a recessão, no segundo semestre de 2009.
Brandon Roberts, coautor da pesquisa, nota que os resultados são surpreendentes pois, no ano passado, funcionários do Censo disseram que a taxa de pobreza no país se estabilizara. Vários outros dados recentes, no entanto, demonstram ao longo do tempo que há uma contração da classe média, apesar da recuperação econômica gradual dos últimos anos e um aumento vertiginoso na concentração de renda. Os dados mostram que os 20% mais ricos dos EUA receberam 48% de toda a renda nacional, enquanto os 20% mais pobres ficaram com apenas 5%. Este fenômeno pode ser observado nos Estados do Sul, como Geórgia e Carolina do Sul, e do Oeste, como Arizona e Nevada, onde há o maior crescimento no número de famílias trabalhadoras pobres.
O efeito da pobreza sobre o crescente número de crianças que vive nessas famílias – um aumento de quase 2,5 milhões de menores em cinco anos – também coloca em xeque o modelo econômico do país. Em 2011, cerca de 23,5 milhões (ou 37%) das crianças dos EUA viviam em famílias trabalhadoras pobres, contra 21 milhões (33%) em 2007, segundo o relatório. Parte do problema é que mais pais estão trabalhando no setor de serviços, o que resulta em longas jornadas noturnas, com as decorrentes dificuldades para cuidar dos filhos, além de salários baixos e um involuntário status de trabalhador de meio período, segundo a análise.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Your warming world – O seu mundo se aquecendo

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Muito interessante esse infográfico da NewScientist, que mostra mudanças de temperaturas em todas as localidades do mundo.


O mais assustador são as áreas próximas ao Polo Nórte.

Outra área assustadora é a Amazônia. No gráfico abaixo é o que está acontecendo lá.  Quer ficar com medo? Só pensar que sem a Amazônia ficaremos sem água, sem chuva, sem comida... Mas não tem problema porque teremos SUV, viagens de avião, churrasco...

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Planeta Proibido - George Monbiot

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Embora o George Monbiot tenha virado árduo defensor da energia nuclear,quando deveria defender o fim do desperdício de energia (73% do total mundial) e a mudança de paradigma, esse texto está muito bom.  Mudança de paradigma enfrenta os economistas tradicionais que simplesmente acreditam que a economia pode ser maior que o planeta e os que acham que existe algum desgaste ambiental, pregam cegamente que isso se resolve com política ambiental. Nesse ramo estão Joseph Stiglitz, Paul Krugman, Cristina Romer, ou seja, 99,9% de todos os economistas com idéias aplicadas na realidade... A resposta dos economistas “verdes” é que com uma oferta limpa e infinita de energia, não há restrição planetária alguma e podemos crescer (ou se desenvolver) de forma limpa. Esse grupo não percebe que cometem o mesmo erro – ou malefícios – do primeiro grupo. Parecem diferentes, mas não são. Representam 0,1% dos economistas com idéias aplicadas, mas sempre na direção de aumentar os fluxos de demanda... Os economistas ecológicos não possuem ainda, infelizmente, idéias aplicadas, mas sabem que o ponto de partida de qualquer discussão não é energia limpa nem nuclear, mas a restrição planetária.

Hugo

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“...Prevenção do colapso climático: os quatro, cinco ou seis graus de aquecimento agora previstos para este século por “extremistas verdes” como o Banco Mundial, a Agência Internacional de Energia e a PriceWaterhouseCoopers (4, 5, 6) - implicam enfrentar as indústrias do petróleo, gás e carvão. Isso significa forçar estas indústrias a abandonar 4/5 ou mais das reservas existentes de combustíveis fósseis, as quais não poderemos nos dar ao luxo de queimar (7). Significa cancelar a prospecção e desenvolvimento de novas reservas - para que, se não podemos usar nem os estoques atuais? - e reverter a expansão de qualquer infraestrutura (tal como de aeroportos) que não possa vir a ser operada sem estes combustíveis...”


 Planeta proibido

 George Monbiot - The Guardian - 4 de dezembro 2012

 A maior crise da humanidade coincide com a ascensão de uma ideologia que a torna impossível resolver. Ao final dos anos 1980, quando se tornou claro que as mudanças climáticas provocadas pelo homem colocavam em perigo a vida no planeta e a própria humanidade, o mundo estava sob o domínio de uma doutrina política extrema, cujos princípios proibiam o tipo de intervenção necessária para enfrentá-las.

 O neoliberalismo, também conhecido como o fundamentalismo de mercado ou economia laissez-faire, pretende libertar o mercado de interferência política. O estado, afirma, deve fazer pouco, mas defender o status-quo, proteger a propriedade privada e eliminar os obstáculos aos negócios. O que os teóricos neoliberais chamam encolher o estado mais parece com o encolhimento da democracia: a redução dos meios pelos quais os cidadãos podem restringir o poder da elite. O que eles chamam de "mercado" parece mais com os interesses das empresas e dos ultraricos (1) . O neoliberalismo parece ser pouco mais do que uma justificativa para a plutocracia.

 A doutrina foi aplicada pela primeira vez no Chile, em 1973, onde ex-alunos da Universidade de Chicago, treinados nas receitas extremas de Milton Friedman e financiados pela CIA, trabalharam ao lado de Pinochet para impor um programa que seria impossível em um estado democrático. O resultado foi uma tragédia, na qual os ricos - que assumiram as indústrias chilenas privatizadas e os recursos naturais desprotegidos daquele país - prosperaram muito (2).

 O credo foi adotado por Margaret Thatcher e Ronald Reagan. Foi imposto ao mundo pobre pelo FMI e pelo Banco Mundial. No momento em que James Hansen apresentava a primeira tentativa detalhada de modelar a temperatura futura do planeta ao Senado dos EUA, em 1988 (3), a doutrina estava sendo implantada em toda parte.

 Como vimos em 2007 e 2008 (quando os governos neoliberais foram forçados a abandonar seus princípios para salvar os bancos), dificilmente poderia haver pior conjunto de circunstâncias para enfrentar uma crise de qualquer tipo. Até que não tenha mais escolha, o estado neoliberal não vai intervir, mesmo que a crise se agudize a as consequências se agravem. O neoliberalismo protege os interesses da elite contra todos.

 Prevenção do colapso climático: os quatro, cinco ou seis graus de aquecimento agora previstos para este século por “extremistas verdes” como o Banco Mundial, a Agência Internacional de Energia e a PriceWaterhouseCoopers (4, 5, 6) - implicam enfrentar as indústrias do petróleo, gás e carvão. Isso significa forçar estas indústrias a abandonar 4/5 ou mais das reservas existentes de combustíveis fósseis, as quais não poderemos nos dar ao luxo de queimar (7). Significa cancelar a prospecção e desenvolvimento de novas reservas - para que, se não podemos usar nem os estoques atuais? - e reverter a expansão de qualquer infraestrutura (tal como de aeroportos) que não possa vir a ser operada sem estes combustíveis.

 Mas o estado neo-liberal não pode agir. Capturado por interesses que a democracia espera que mantenha contidos, só pode sentar na estrada, de orelhas em pé e bigodes eriçados, esperando ser atropelado pelo caminhão que se aproxima. O confronto é proibido, a ação é um pecado mortal. Talvez se possa dispersar algum dinheiro para energia renovável, mas não legislar contra o velho.

 Assim, Barack Obama persegue o que chama de politica de "todos os itens acima": promoção da energia eólica, petróleo, energia solar e gás (8). Ed Davey, o secretário britânico de mudança climática, na semana passada lançou um projeto de lei no parlamento britânico cuja finalidade era descarbonizar o fornecimento de energia. Mas no mesmo debate prometeu "maximizar o potencial" de produção de petróleo e gás no Mar do Norte e de outros campos 'offshore' (9).

 Lord Stern descreveu a mudança climática como "a maior e mais abrangente falha de mercado jamais vista" (10). A inútil Cúpula da Terra (Rio+20) de junho, as medidas débeis agora em discussão em Doha, o projeto de lei sobre energia (11) e o estudo sobre redução da demanda por eletricidade (12) lançado na Grã-Bretanha na semana passada (melhores do que poderiam ter sido, mas incomensuráveis à escala do problema) expõe o mais vasto fracasso do fundamentalismo de mercado: sua incapacidade para resolver a crise existencial da nossa espécie.

 O legado de 1000 anos das atuais emissões de carbono é amplo o suficiente transformar em lascas qualquer coisa parecida com a civilização humana (13). Sociedades complexas, por vezes, sobreviveram à ascensão e queda de impérios, pragas, guerras e fome. Mas não sobreviverão a seis graus de mudança climática sustentada por um milênio (14). Em troca de 150 anos de consumo explosivo, muito do qual nada contribuiu para o avanço do bem estar humano, estamos destruindo o mundo natural e os sistemas humanos que dele dependem.

 A Cúpula do Clima em Doha, e o som e a fúria das novas medidas do governo britânico sondam os limites atuais de ação política. Ir mais longe é quebrar a aliança com o poder, uma aliança tanto disfarçada quanto validada pelo credo neoliberal.

 O neoliberalismo não é a raiz do problema: é a ideologia usada, muitas vezes retrospectivamente, para justificar a tomada global do poder, dos bens públicos e dos recursos naturais por uma elite desenfreada. Mas o problema não pode ser resolvido até que a doutrina seja desafiada por alternativas politicas eficazes.

 Em outras palavras, a luta contra as alterações climáticas - e todas as crises que agora afligem os seres humanos e o mundo natural - não pode ser vencida sem uma ampla luta política: a mobilização democrática contra a plutocracia. Acredito que esta deve começar com um esforço de reforma do financiamento de campanha: o meio pelo qual as corporações e os muito ricos compram políticas e políticos. Alguns de nós lançaremos uma petição no Reino Unido nas próximas semanas, e espero que se você for inglês a assine.

 Mas este é apenas um começo. Temos de começar a articular uma nova política: uma que veja a intervenção como legítima, que contenha um propósito maior do que a emancipação corporativa disfarçada de liberdade de mercado, que coloque a sobrevivência das pessoas e do mundo vivo acima da sobrevivência de algumas indústrias favorecidas. Em outras palavras, uma política que nos pertença, e não apenas aos superricos.

 Referências:

 1. See Colin Crouch, 2011. The Strange Non-Death of Neoliberalism. Polity Press, Cambridge.

 2. Naomi Klein, 2007. The Shock Doctrine: the rise of disaster capitalism. Allen Lane, London.


 4. Potsdam Institute for Climate Impact Research and Climate Analytics, November 2012. Turn Down the Heat: why a 4C warmer World Must be Avoided. Report for the World Bank.


 6 . PriceWaterhouseCoopers, November 2012. Too late for two degrees? Low carbon economy index 2012. http://www.pwc.co.uk/sustainability-climate-change/publications/low-carbon-economy-index-overview.jhtml





 11. Nicholas Stern, 2006. The Economics of Climate Change. http://www.hm-treasury.gov.uk/d/Executive_Summary.pdf


 13. Susan Solomon, Gian-Kasper Plattner, Reto Knutti, and Pierre Friedlingstein, 10th February 2009. Irreversible climate change due to carbon dioxide emissions. PNAS, vol. 106, no. 6, pp1704–1709. doi: 10.1073/pnas.0812721106. http://www.pnas.org/content/early/2009/01/28/0812721106.full.pdf+html

 14. Estou falando vagamente aqui, como Salomão et al propuseram que não 100%, mas cerca de 40% do CO2 produzido neste século permanecerá na atmosfera até pelo menos o ano 3000. Por outro lado, as emissões desenfreadas e o aquecimento global não vão parar por conta própria em 2100: as temperaturas poderão subir muito além de 6 oC no próximo século: sem mitigação afiada agora, estamos criando 1000 anos de caos absoluto.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Lesmas-do-mar ficam vulneráveis com aumento da acidez na Antártida

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Acho que não é uma notícia muito boa e até desmonta um pouco o mito do problema único (de energia, de clima) e lembra a nossa “pequenina” vulnerabilidade num ambiente no qual todos somos um.  Mas para alegrar mesmo e ter um pouco de esperança com a mudança suscitada com as discussões de sustentabilidade, só subir no topo de um prédio e olhar as línguas brancas e vermelhas dos faróis das avenidas em 360 graus: aquela montanha de carro queimando combustível para ficar parado e ter uma velocidade média igual a de uma galinha é um excelente sinal de “estamos caminhando para sustentabilidade e ficamos mais inteligentes”.  Para se convencer mesmo, é só ir olhar de perto os carros de cinco toneladas (SUVs) que carregam corpos de 70 quilos e o jumento dentro se sente exultante, porque o que importa não é ter um meio de transporte, mas ter mais que o resto.

Enquanto sinal de sucesso no nosso sistema for distanciamento material uns dos outros – e não o contrário – dentro do modelo casa-carro-viagem-ao-exterior, não poderemos mais contar com as lesmas.  Sim, acho que não é notícia muito boa...

Lesmas-do-mar ficam vulneráveis com aumento da acidez na Antártida

26/11/2012 13:58,  Por Redação, com BBC - de Londres
http://correiodobrasil.com.br/imagens/bbc.gif
Antártida
O aumento da acidez na região está afetando o ecossistema, segundo pesquisa
Lesmas-do-mar que vivem na Antártida estão sendo afetadas pelo alto nível de acidez das águas marinhas, segundo uma nova pesquisa científica.
Uma equipe internacional de cientistas descobriu que a concha das lesmas está sendo corroída pela água do mar.
Segundo especialistas, a descoberta é importante para se determinar o impacto da acidificação do oceano na vida marinha. Os resultados foram publicados na revista científica Nature Geoscience.
Ecossistemas
As lesmas-do-mar são importantes na cadeia dos alimentos dos oceanos. Além disso, elas são um bom indicador de quão saudável está o ecossistema.
- Eles são um item importante para diversos predadores, como plânctons maiores, peixes, pássaros, baleias – disse Geraint Tarling, que é coautor do estudo e diretor de Ecossistemas Oceânicos da entidade britânica de pesquisas British Antarctic Survey.
O estudo foi um projeto de pesquisadores da BAS, da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), a US Woods Hole Oceanographic Institution e da faculdade de ciências ambientais da Universidade de East Anglia.
A acidificação do oceano ocorre devido à queima de combustíveis fósseis. Parte do dióxido de carbono que está na atmosfera é absorvido pelo oceano. Esse processo altera a composição química da água, que fica mais ácida.
Os dados foram coletados em uma expedição do barco Southern Ocean, em 2008. Os cientistas analisaram o que acontece quando a água marinha do fundo é empurrada para a superfície por ventos.
Essa água é mais ácida e acaba corroendo a aragonita – a substância que forma as conchas das lesmas-do-mar. ”As lesmas-do-mar não necessariamente morrem por conta da corrosão nas suas conchas, mas isso as deixa mais vulneráveis a predadores e a infecções, o que tem consequências no resto da cadeia de alimentação.”
Tarling disse que o estudo ainda é um piloto para outras pesquisas que virão, mas que ele já forneceu dados importantes sobre como o ecossistema reagirá a mudanças futuras no oceano.
- Foram necessários vários anos para que desenvolvêssemos uma técnica sensível o suficiente para que analisássemos o exterior das conchas, com auxílio de microscópios de alta potência, já que as conchas são muito finas e os padrões de dissolução são muito súteis – afirmou o pesquisador.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Para ninguém ter dúvida que estamos num processo de marcha-ré total chamado de sustentabilidade

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Alguém com alguma dúvida se estamos caminhando na direção de uma economia sustentável?

Podem derrubar essa dúvida. Não estamos. Caminhamos na direção do colapso e o mais engraçado que quanto mais se fala em mudar o sistema, mais idéias “brilhantes surgem” e mais próximos ficamos do colapso.  O texto da marcha-ré que damos da Cecília Herzog deixa bem claro isso.

Por exemplo, famoso texto sobre investimentos privados em conservação da natureza, sem falar os mesmos de sempre, carros elétricos, energia limpa, mecanismos de desenvolvimento limpo, economia verde, blablablá.

Cada carro a mais no planeta, elétrico ou não, requer o asfaltamento de 0,6 hectare de terra para garagem, ruas, estacionamentos e estradas. O solo é finito – provavelmente decrescente com a elevação dos oceanos, portanto, mesmo com carros elétricos e todas as ziguilhões de coisas jogadas nesse sistema finito, estamos testando o limite da sustentação da vida na Terra.  Ah, se o carro elétrico é abastecido com eletricidade de carvão, isso é sustentável? Ah, se a matéria-prima de determinadas indústrias vem da maior destruição florestal do planeta na Malásia para produção de óleo de palma e  faz um trajeto transoceânico, isso é sustentável?  Acho que não estou entendendo nada, detalhe, grande parte dos produtos com óleo de palma são na verdade supérfluos, embelezamento de uma espécia que botou o resto da vida a caminho da extinção e ela própria terá o mesmo destino.

Legal, temos um excelente exercício laboratorial que pode ser eventualmente aproveitado por extraterrestres que nos observam de longe. Nós não teremos chance de fazer o registro dessa pesquisa...

Hugo

Olá a todos,

No Rio de Janeiro estamos assistindo à eliminação de ecossistemas (nativos ou regenerados) inteiros de importância capital para a sustentabilidade da cidade. As áreas úmidas estão sendo aterradas em pleno século XXI. Tudo à revelia de conhecimentos científicos, vários grupos acadêmicos estudam as áreas em questão, mas não há o menor interesse neles por parte dos tomadores de decisões.

Precisamos do apoio de todos os cientistas e especialistas nessas questões emergenciais. Precisamos de cidades resilientes e sustentáveis, e para isso a biodiversidade urbana é fundamental.

Vejam mais um artigo que escrevi para mobilizar o máximo que puder http://ceciliaherzog.wordpress.com/atualidades-2/

Precisamos que as cidades entrem no campo de pesquisa da ecologia urbana de forma abrangente urgentemente. Estamos fazendo isso aqui no Rio de Janeiro em uma escala pequena que nos é possível, porém precisamos de suporte nacional e colaboração de instituições de pesquisa.

Saudações ecológicas,

Cecilia P. Herzog

Presidente
INVERDE
Instituto de Estudos, Pesquisas e Projetos em Infraestrutura Verde e Ecologia Urbana