terça-feira, 23 de dezembro de 2014

III Seminário do CEDE

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Grupo Decrescimento:
Prezados participantes do grupo,
A Teresa, doutoranda em Economia na UFF, solicitou a participação de alguém do grupo no III Seminários do CEDE, mesa: Desigualdade, Sustentabilidade e Decrescimento. Por indisponibilidade de tempo de pessoa mais qualificada, prontifiquei-me a participar do evento, ocorrido em 12/11/2014, e gostaria de compartilhar com o grupo nossas impressões.
Os presentes eram poucos; talvez 10 pessoas. Eram doutorandos, mestrandos e professores da UFF de diferentes áreas. A Professora Claude Cohen fez uma introdução que contextualizou o uso do termo DECRESCIMENTO, como utilizado hoje, e seus principais divulgadores. Depois dela, foi a minha vez de participar. Tive dificuldade para preparar minha fala, pois, como leigo no assunto e simpatizante do DECRESCIMENTO, não sabia bem como abordar o tema para pessoas muito qualificadas em Economia, formação que não é a minha. Decidi, então, propor várias questões para a reflexão dos presentes e sugerir algumas possibilidades de respostas. As perguntas foram divididas em duas partes. A primeira sugeria o caráter destrutivo e concentrador de poder inerente à teoria econômica predominante, com base no livro Consciência e Abundância. A segunda compartilharia uma discussão ocorrida no nosso grupo sobre o nome adequado para o “movimento”:
DECRESCIMIENTO ou DESCRECIMIENTO. Reproduzo, abaixo, as perguntas e possibilidades de respostas sugeridas.
PRIMEIRA PARTE:
Por que DESIGUALDADE “entrou na moda”? R: porque, segundo alguns estudiosos, ela nunca foi tão intensa.
A Teoria Econômica Predominante teve (e tem) papel importante para esta Desigualdade sem precedentes? R: suspeito que sim; muito importante.
Então, a Desigualdade sem precedentes que experimentamos hoje é, em grande parte, decorrência do fracasso ou do sucesso da Economia? R: suspeito que do seu SUCESSO!
Por que a Desigualdade é, em grande parte, resultado do sucesso da Teoria Econômica Predominante? R: porque ela está fundamentada num conceito destrutivo e excludente.
Algo pode crescer sem que sua base se expanda? R: suspeito que não.
E qual é a base da Teoria Econômica Predominante? R: ESCASSEZ!
O que é necessário para que uma economia baseada na escassez cresça? R: o crescimento da escassez.
Crescimento da escassez é bom ou ruim? R: penso que ruim.
Qual é o objetivo de uma economia baseada na escassez? R: CONCENTRAÇÃO DE PODER!
Como uma economia baseada na escassez promove a concentração de poder? R: Com outra pergunta: o que acontece com o detentor de um recurso que se torna mais escasso? R: CONCENTRA PODER!
Qual é a conseqüência natural da concentração de poder? R: Suspeito que seja a desigualdade.
Logo, se uma economia concentradora de poder obtiver sucesso, nós teremos igualdade ou desigualdade? R: suspeito que desigualdade.
Se nós desejamos um mundo menos desigual, deveríamos estimular o crescimento ou o decrescimento de uma economia baseada na escassez? R: suspeito que DECRESCIMENTO.
SEGUNDA PARTE:
DECRESCIMENTO: um dos vários movimentos interessantíssimos que estão ocorrendo no Brasil e no mundo.
O que é o “movimento” DECRESCIMENTO? R: Até onde conheço, não existe consenso – vide brigas no grupo...rsrsrs.
O que eu gostaria de compartilhar hoje? R: discussão no grupo que participo sobre DECRESCIMENTO sobre o nome mais adequado para o movimento: DECRESCIMIENTO ou DESCRECIMIENTO. DECRESCIMIENTO seria, grosseiramente, reduzir PIB (profa. Cohen falou sobre esse entendimento na sua introdução). DESCRECIMIENTO seria se desvincular do PIB e da teoria que o suporta.
Qual seria o melhor entendimento? R: suspeito que seria “DESCRECIMIENTO”.
Por que”DESCRECIMIENTO” seria melhor? R: porque se harmoniza com a EBA! (Economia Baseada na Abundância), proposta no livro Consciência e Abundância, fundamentada em outra visão de mundo, que possui outro conceito de riqueza e que não vê a concentração de poder (base da desigualdade) “com bons olhos”.
Encerro minha partilha por aqui e estou disponível para conversas, debates, trocas etc.
MUITO GRATO!
Após minha participação, o prof. Emmanuel Boff, sobrinho do Leonardo Boff, fez sua apresentação alinhavando a introdução da profa. Cohen, minha partilha e sustentabilidade (conotação de preservação ambiental).
Comentário sobre o evento:
Gostei muito de participar, rever conhecidos e conhecer outros. Apesar das minhas significativas limitações, fui acolhido com tolerância e gentileza. Por isso, agradeço a todos que, direta ou indiretamente, contribuíram para que essa experiência se realizasse: organizadores do evento, Teresa (que solicitou participante), Edson (nosso moderador) e todos os demais membros deste grupo. MUITO GRATO A TODOS!
Também aproveito para pedir desculpas pelas minhas falhas e forma simplória pela qual conduzi minha participação. 
Grato pela atenção.
Abraços fraternais.
Paulo


Paulo,


Crescimento do PIB só produz destruição da natureza, destruição dos empregos (e todo seu caráter social, como criatividade, liberdade, etc.) para apenas um objetivo: concentrar riqueza e poder nas mãos de cada vez menos pessoas.

Gostei muito, por isso escrevi essa frase que antes era: crescimento do PIB só produz concentração da riqueza, destruição da natureza e destruição dos empregos.

Depois do que você escreveu, os dois primeiros são os meios e o último é o objetivo.  Você está certo: a escassez foi inventada. Ela só existe através de uma série de maus atos.  Sem eles, sim, haveria a abundância.  Teríamos que cortar os maus atos, focar nos elos. Sair da economia dos invisíveis (produção global de marcas via transporte excessivo) para a economia dos visíveis (produção local de pessoas conhecidas com enormes interações sociais).  A idéia de migrar do invisível para o visível me parece ainda mais interessante no sentido que é impossível colocar uma grande corporação na cadeia.  Os maus atos são também inatingíveis e o “accountability” é praticamente impossível.  Nos invisíveis não temos a menor idéia como é produzida, que ecoterrorismo está associado e que destruições sociais estão sendo impingidas.  Vez ou outra aparece um caso, mas o todo nunca saberemos.  Pelo estado da água, do lixo, da saúde física e psíquica de todos, além do clima colapsando na Terra dá para se ter uma idéia, embora tudo pareça uma normose.

Mas isso é uma armadilha: justamente aqueles que podem mudar esse sistema, são os que mais se beneficiam dele.  A mudança só poderia vir de baixo (o número de desalentos está ficando grosseiro).  Como disse outro dia aqui nesse espaço: hoje uma empresa que produz 10% da demanda por televisores do mundo tem só três turnos de 15 funcionários cada... Os economistas tradicionais comemoram, chama “robolution” ou destruição acelerada de empregos. Só faltou se preocupar com o assalariado que vai comprar os produtos num consumo que precisa crescer exponencialmente.

Esse sistema tem sido muito bem sucedido nisso. Só que já sabemos e isso é fato: irá colapsar, mas não apenas para alguns. Dessa vez para todos.

Nunca estivemos tão perto do colapso como agora. O fim da água em São Paulo e em outros lugares é uma prova do erro fatal da teoria econômica tradicional que fundamenta a idéia estúpida e falsa de crescimento do PIB.

Abraço

Hugo

Café de máquinas residenciais com cápsulas

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Querido amigo Hugo,

Caramba, virou moda já, mas não é que descobri que essas cápsulas de café tem dois problemas sérios, óbvios mas não tão óbvios, porque vivemos na inconsciência. Voilà:

1)      o que fazer com o resíduo? (  ) Mandar para marte? ( ) Acumular mais esse lixo num planeta já soterrado por lixo (como por exemplo resíduo da energia nuclear que não tem destino final até hoje) (  ) Fingir que somos sustentáveis e atirar tudo no oceano? (  ) Por que não podemos tratar a Terra como uma lixeira, que mal há nisso? (  ) Ajudar na contaminação da água num país que trata quase nada do seu esgoto? (  ) Todas as alternativas, sempre que só houver custo para o contribuinte otário...

2)      o café ali depositado, que desmatou uma floresta, consumiu água, solapou biodiversidade, queimou lotes e lotes de combustível para o transporte estúpido em caminhões, desse total que há na cápsula, 1/3 não é utilizado. Abra uma e veja você mesmo... Devíamos doar as cápsulas usadas para os necessitados.

Sabe esse monte de TV pendurado nas paredes de tudo quanto é canto dos espaços públicos, hotéis, hospitais, necrotérios, etc., ligados para ninguém ver ou ouvir ou usufruir? Então os exemplos de desperdício são a única forma agora desse sistema colapsado sobreviver um pouco mais.

O desperdício é nosso rei, junto com a obsolescência e o convencimento de consumir aquilo que não precisamos.  Realmente somos uma espécie que parte do princípio que não há mais amanhã ou que talvez acreditam que não precisamos do amanhã.  Estamos sem norte e sem modelo crível que funcione. A caminho do colapso agora de forma frenética, Paris não vai dar em nada, o tratado do Kyoto e os créditos do carbono previsivelmente terminaram em nada e em fraudes.  Sensacional! 

Mas existe trabalho grande daqueles que querem otimizar esse sistema a caminho do precipício com suas idéias ainda dentro do mesmo esquema da teoria neoclássica, pela qual o sistema econômico é um sistema isolado equivalente ao universo.  Mudança? Não, apenas desenvolvimento sustentável. Até a OCDE assina esse capricho... alguma frase em mente? A do Einstein: querer fazer sempre o mesmo esperando resultados diferentes...

O sucesso é medido pelo distanciamento material uns dos outros (só seremos bem sucedidos se comprarmos uma casa de 3.000 metros quadrados igual a da Gisele Bunchen ou do Luciano Hulk), não pelo bem que podemos fazer uns aos outros.  Esse distanciamento material é muito menor nas celebridades ou cenourinhas como Gisele Bunchen ou Luciano Hulk, do que quando olharmos os capitães do processo ou a superclasse de poucos indivíduos.

E esse distanciamento material só é obtido através da única forma de avaliar as economias: crescimento do PIB.  Pelo menos 80% do PIB é ineficiência, desperdício e coisas desnecessárias e eu estou impressionado com o assassinato do bom senso nesse planeta, mesmo nos lugares onde ainda não há guerras, como na Syria (e lá o motivo foi falta de água durante cinco anos, um pouco talvez de ponta do iceberg do que pode acontecer com o resto do mundo se não revorgarmos a teoria neoclássica, se a megalomania e a ganância não for estancada e se não dermos atenção às ciências dignas na Terra...).

Não sou católico, mas lhe desejo um bom Natal.  Tenta beber um pouco, eu sei que você não bebe, mas acho que é hora de beber um pouco,

Seu amigo idoso que o admira muito,

Virasin Ohmin

PS: Descarte sua máquina de café de cápslas, se você fez a burrice de comprar e volte para o coador de pano da vovó… Ah, transformar energia elétrica em calor (é o que esse troço faz) é extremamente ineficiente, prometo que aquecer água com o seu gás encanado é muito melhor...

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Fim da água em São Paulo à vista?

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Amigos,


A entrevistada é do Instituto Socioambiental, que faz parte da Aliança pela Água (www.aguasp.com.br).

Meus comentários:

A questão da água é resultado direto de uma teoria econômica que ignora os elos do sistema econômico – e sua dependência – com a natureza.  Nicholas Georgescu Roegen mostrou mais de 50 anos atrás porque através de um erro epistemológico sério os economistas assumiram corajosamente a total separação entre o sistema econômico e o ambiental.   Mesmo assim, a explicação esquisofrênica em defesa desse modelo econômico é que a regra de escassez e os mercados irão resolver o problema ambiental (e social).  Na verdade com esse erro, os mercados só agravam a situação, o modelo teórico e mental que precisa ser revisto, do contrário, suicídio coletivo.

Conforme apontado por Paulo Roberto da Silva, como a regra de escassez só se aplica aos bens econômicos (oferta limitada e sujeita a apropriação) e não se aplica aos bens livres (inesgotáveis e não sujeitos a apropriação e inclui aqui todos os itens da natureza e seus serviços), a escassez desses últimos jamais é observada (finitude planetária ou da natureza) e as leis do mercado (preços mais altos como limitador do consumo) não valem aqui.  Ao contrário, como já escreveu várias vezes Hugo Penteado, quanto mais viável for economicamente uma atividade, mais inviável ela é do ponto de vista ambiental (e social).  Esse conflito não foi resolvido, porque para tal, é necessário a revogação dos erros da teoria econômica tradicional, algo que a Economia do Meio Ambiente que conhecemos, em grande parte ligada a essa visão neoclássica, também não resolveu (e o tratado de Kyoto expirou em 2012 sem nenhuma grande fanfarra...).

Na prática vivemos um suicídio coletivo progressivo.  Conforme se retira  mais água de reservatórios que vão sendo degradados (desmatamento, poluição, mudança climática), não há nenhum estímulo de demanda para evitar o seu consumo e o extremo desperdício dos paulistas e paulistanos.  Todos seguem lavando a calçada com mangueira e construindo piscinas, não há limitação alguma para outorga de água, mesmo que seja em sacrifício de atividades e populações do interior.  O desperdício galopante se observa em regiões como a de São Paulo cidade e satélites, mesmo com uma proporção per capita de água comparada a regiões semi-áridas (ou desertos), de apenas 200 litros /dia (à guisa de comparação, o estado tem 2800, Brasil 8200 e a ONU recomenda como limite mínimo 2000).   Portanto, toda a distribuição, usinas de filtragem, estações de tratamento, conexões de reservatórios, etc. disponibilizaram uma oferta acima do que rezava a finitude desse recurso na região a ponto de criar a possibiilidade de um colapso total que irá requerer que 20 milhões de habitantes sejam evacuados, porque sem água, a única opção é caminhão-pipa, mas a magnitude é impensável. Dos 13 hospitais da região da Paulista, só um, o Hospital das Clínicas requer 350 caminhões pipa por dia...

Além da água, o fim das reservas pesqueiras é um exemplo idêntico.  Você começa retirando peixes com cada vez maior frota de pesqueiros. O preço cai e a demanda sobe, culminando com nova alta de preços.  Aumenta a frota e retira-se mais peixes. O ciclo vai se repetindo até a reserva pesqueira colapsar com uma quantidade grotesca de barcos acima da linha do mar à toa.  As atividades ganham subsídios do governo para piorar.  Das 17 reservas pesqueiras mundiais, 11 entraram em colapso e as outras já estão bem encaminhadas na mesma direção. A indústria pesqueira mundial suicida tem rede suficiente para embalar a Terra sete vezes.  O mais assustador é que mesmo após a proibição da pesca em lugares importantes, não houve melhora, o colapso foi irreversível.  Mas essa “falsa escassez” fomentou uma outra atividade, nociva à saúde humana (uso de antibióticos, hormônios, tintas, metais pesados) que é a cultura de peixes fora do mar.  Salmão cultivado foi relatado num artigo do Guardian Sustainability Blog como um dos alimentos mais nocivos à saúde humana do mundo, senão o pior.

Jamais foi impedida pelo mercado e pela escassez a morte do solo em regiões agrícolas como no vale do Paraíba do Sul com o ferro e fogo arrasador na Mata Atlântica braslieira e o café, seguido por um êxodo e fuga ambiental de porte elevado na nossa história.  Nada se tirava do solo de alimentos, essa destruição é visível até os dias de hoje.  O modelo econômico opera até o colapso, não há nenhuma regra pertinente ao uso dos recursos da natureza que detenha esse suicídio ou que produza ganhos de eficiência, tecnologia, contenção da demanda que deveria engerar o limite ecológico.  Isso porque outro erro dessa teoria autista é que os bens da natureza são considerados substituíveis, o que podemos chamar de mito tecnológico e da substituição perfeita ou quase perfeita dos fatores.

Na prática é o que vemos na proposta do governo estadual e federal: na crise hídrica atual as três obras propostas (usina de reúso, canais transposição da água dos rios São Lourenço e Paraíba do Sul) são como se fossem substitutos para água.  Vamos imaginar que por conta do desmatamento, poluição, comprometimento de nascentesm, etc. a água não seja mais produzida nesses rios. As obras “substitutas” irão criar uma estrutura que não poderá ser usada.  A água é insubstituível e ela vem da natureza. Ponto. Podem construir as usinas e canais cinzas, eles podem ficar secos.  Isso tudo antes da morte da Amazônia e da mudança climática. Ou seja, como não fazemos nada como espécie animal, o pior ainda está por vir...

No limite, somente com finitude da demanda ou sua redução (decrescimento de matéria e energia e não do PIB, que já deveria ter sido abolido há décadas) conseguiremos amenizar a situação.  Não é mais possível revertê-la, isso era possível décadas antes, não agora com uma pegada ecológica global acima da capacidade terrestre, de 1,5 planeta (hoje mesmo li uma matéria que até 2050 o número de carros no Brasil irá quadruplicar, não só é uma cegueira total, como estamos copiando o modelo carrocentrista monodirigido que claramente não pode ser replicado para todos).  O quadro de alterações planetárias é irreversível e tudo indica que estamos levando o sistema para o limite, onde não podemos mais descartar cenários possíveis de ruptura.

Tudo isso para dizer que apesar dessa evidência – o fim da água - contrária ao pensamento tradicional, os economistas seguem acreditando que a água vai ser regulada pela escassez e pelos mercados, mas não explicam porque mesmo com essas regras pré-existentes não se conseguiu evitar a situação extrema que temos diante dos nossos olhos em várias áreas, as mais importantes, água, energia e clima.   Hoje existe um risco palpável de colapsar o reservatório da Cantareira até o terceiro volume morto e acabar totalmente a água se o regime de chuvas for tão ruim quanto em 2013-2014 ou se a perda de impermeabilidade for muito mais severa do que se imagina (uma vez que o fim do primeiro volume morto e o esgotamento do segundo e seu efeito sobre o eservatório nunca foi observado antes).  Quando isso acontecer, gostaria de ser o primeiro a perguntar aos economistas onde estão o mercado e a escassez que iriam evitar esse colapso? Por que não funcionaram?  Será que irão sustentar as suas falsas teorias mesmo após isso? Ou vão fazer como os mafiosos: só assumem a culpa por alguma coisa quando podem atribuir a alguém...

O volume morto guardava o selo da impermeabilidade da Cantareira, mas com o seu fim hoje 80% do fundo do reservatório está exposto a céu aberto e totalmente craqueado.  Apesar de tudo isso, a única estratégia do governo é esperar chuvas que tragam 75% da vazão no mínimo da média histórica para recuperar o reservatório para 10% acima dos dois volumes mortos já utiilizados.  Todas as três obras – que não são solução – só ficarão prontas depois do próximo ano hídrico (de outubro de 2014 a setembro de 2015).  A relação chuva e vazão pode ter quebrado, ou seja, para a mesma quantidade de chuva de antes, não se produz a mesma vazão histórica, ou seja, os reservatórios podem não encher mesmo com chuvas acima ou na média histórica.  Finalmente, a aposta de chuvas já não deu certo: outubro e novembro teve chuvas e vazão ridiculamente baixas (tanto por poucas chuvas quanto por falta de impermeabilidade nos reservatórios).  Dezembro vai pelo mesmo caminho.  Se janeiro a março continuar assim, evacuação das cidades à vista ou paralisação de todo o trânsito motor da cidade para deixar apenas centenas de milhares de caminhões-pipa circularem. Ah, e quem vai pagar a conta deles? Qual vai ser seu preço? Porque aí a escassez dos economistas autistas se aplica: quantos caminhões-pipa existem para movimentar água na cidade?

Virasin Ohmni

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Convite - Seminário Homenagem a Nicholas Georgescu-Roegen

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Participação do Hugo num dos paineis!

(Clique na imagem para ver melhor)

AMAZÔNIA E OS “ADORADORES” DO CRESCIMENTO, QUE SE ACHAM HETERODOXOS...

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Sabemos agora, depois dos estudos do Antonio Donato Nobre, que nem desmatamento zero resolve. É preciso recuperar o que foi destruído.  Mas como acomodar um conflito enorme entre uma visão econômica de crescimento do PIB com a visão planetária dos cientistas pela qual precisamos reduzir o consumo absoluto de matéria e energia já para mitigar os danos que já começaram a ocorrer?  

A visão de crescimento do PIB busca sempre mais atividades para atender demandas que não param de crescer num ambiente de total desmazelo social já presente, impossível de ocorrer sem maior pressão sobre os mecanismos do planeta.  Surgiram visões oportunistas dos “adoradores” do crescimento que fingem acomodar a demanda dos cientistas preocupados com as questões planetárias através de uma série de mitos, como energia limpa, mecanismos de desenvolvimento limpo, discussão do sexo dos anjos como a precificação dos serviços ambientais que o Grupo Meadows estimou ser equivalente ao PIB global, e outras estratégias para enganarem a si mesmos ou os demais.

São visões conflitantes, dissonantes, sem intersecção alguma, é quase um mundo bipolar. Duas esferas que não se comunicam.  Até agora a única tendência observada dessa crise vem ainda dos “adoradores” do crescimento, que alegam ser possível manter o status do crescimento do PIB e obter ao mesmo tempo salvação ambiental e social.  Defendem ferreamente tais idéias, que só existem no ambiente teórico, sem tocar nenhuma questão mais urgente das populações e a situação planetária e social ao nosso lado só se deteriora dia após dia. 

Nem preciso falar que o fim da água em São Paulo, por mais aterrador que seja, é uma prova do erro fatal da teoria econômica que essa sim, deveria ser inteira revista, ao invés de ser acomodada dentro da visão oportunista e clientelista dos “adoradores” do crescimento que acreditam, sem base teórica alguma, que crescimento do PIB pode ser acomodado dentro desse planeta finito, tese verdadeira só se aqui realmente for o Jardim do Éden.

Analistas criticam falta de transparência em dados sobre desmatamento na Amazônia


terça-feira, 18 de novembro de 2014

Para não ter dúvida...

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Isso é consequência do crescimento do PIB num modelo em rota de colisão com a Terra. Não é possível mudar a consequência sem mudar a causa. Não é mais possível evitar os efeitos da consequência, só conseguimos agora mitigar o dano...  A meta atual é 450 ppm, a anterior era 350 ppm. A diferença entre as duas metas é que cenários crítico de ruptura podem ocorrer mesmo que consigamos ficar dentro da meta atual.

https://scripps.ucsd.edu/programs/keelingcurve/wp-content/plugins/sio-bluemoon/graphs/co2_800k.png



quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Uma prova do erro da teoria econômica está vindo a galope

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A falta de água em São Paulo é sistêmica. É o encontro de uma demanda alucinada de construções, sistemas e pessoas, contra uma barreira: a finitude da água potável, agravada desmedidamente pela mudança climática, destruição da Amazônia e outros processos que desconhecemos.  E que tendem a se agravar.  Que a natureza é inesgotável é fácil de acreditar com mitos econômicos os mais variados possíveis, mas que estoques de solo e água são e sempre serão finitos (ou declinantes) é impossível negar.

Enquanto discutíamos sustentabilidade, isso tudo estava acontecendo debaixo dos nossos pés. Isso será um rude awakening, an unconvenient truth: o erro da teoria econômica tradicional evidenciado no seu mais alto grau de gravidade.  E não só aqui no Brasil. A situação californiana é surreal também. Outros lugares vão pelo mesmo caminho.

Não se preocupem, nem tudo está perdido. Podemos continuar advogando a tese de crescimento econômico eterno num planeta finito, essa que seria uma das idéias mais estúpidas da nossa espécie animal, acabou sendo superada pelas soluções tecnológicas ou tecnocráticas propostas, como a sustentabilidade com definição tão aberta que qualquer coisa cabe dentro dessa política, energia limpa, mecanismos de desenvolvimento limpo, precificação das externalidades, etc. etc. etc., tudo aquilo que serviu até o momento para ignorar a crítica irrefutável de Nicholas Georgescu-Roegen ao sistema econômico que vigorava na sua época e que seguiu a céleres passos desde então, posto que sua contribuição ao pensamento econômico foi ignorada, por defesa de interesses próprios.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

NADA A COMEMORAR MESMO

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O nada a comemorar tem que se referir ao fato que esse atual modelo de consumo e produção, mesmo que bem sucedido, é um desastre suicida e não tem o menor grau de sustentação.  Trata-se de um processo auto-liquidante ao ignorar o sistema natural no qual se insere, do qual depende em 100% para sua concretização. 

O nada a comemorar também se aplica a um modelo de consumo e produção que alijou as pessoas do processo, criando um sistema moderno de escravidão que talvez na forma seja mais ameno, mas em abrangência nunca foi tão amplo como agora.  Ninguém tem poder algum para interferir positivamente no processo, exceto os 6.000 integrantes da superclasse apátrida e invisível que cria um grupo de celebridades via uma indústria de marketing que estão na sola dos seus sapatos. 

Apesar disso, ainda temos uns iluminados falando no poder da sociedade para transformar as empresas e suas práticas.  É de um autismo total: se pegarmos cada uma das iniciativas, vamos ver que as implicações publicitárias são enormes, mas as mudanças são praticamente nulas. Por exemplo, no balanço dos bancos se procurarmos quais operações de créditos foram bloqueadas pela análise de crédito socioambiental, encontraremos nenhuma ou praticamente nenhuma.  Ou seja, apesar dos descalabros socioambientais avassaladores que estão despencando sobre nossas cabeças (o fim da água de São Paulo iminente é apenas um deles), o fluxo de crédito segue inalterado como se estivéssemos num mundo de empresas magnânimas como Alice no Páis das Maravilhas.

Ah, é um desfrute caloroso para o espírito ler os textos de transformações induzidas pela sociedade.  Arremata aí com o mercado sendo capaz de dar os sinais corretos com a escassez de petróleo e induzir um boom de energia renovável.  Erro duplo: primeiro porque energia renovável tem limitações tecnológicas severíssimas, algo que ninguém quer ouvir, principalmente os vendedores dessa idéia como salvação do planeta e segundo porque o boom que o mercado está produzindo é de mineração submarina, ataques ao Alaska, Alberta, “shale gas”, etc.  Finalmente, não podemos esquecer: 73% da energia produzida é simplemente desperdiçada, mas o PIB é feito de desperdício, guerras e destruição e mede o sucesso das economias, portanto... melhor para nós é manter o desperdício e a geração de lixo grosseira que desmantela nossos ecossistemas.

Autismo novamente. O autismo aqui não é uma referência pejorativa, até porque minha irmã mais velha era autista.  Isso é apenas uma analogia de como o discurso atual parece que está acoplado a uma realidade fantasiosa impossível de ser vista ou percebida.  Os autistas não aprendem a falar (minha irmã só falou aos 16 anos, isso porque segundo os médicos possuía um QI elevadíssimo) porque não escutam nem vêem nada a sua volta, embora os sentidos estejam perfeitos.  O autismo dos economistas atuais explica grande parte das suas conclusões e propostas.   As eleições estão ricas deles, mesmo os que não são economistas mas colam no discurso clientelista e interesseiro dos economistas que só falam o que eles querem ouvir e não o que nossa ciência deveria mostrar. Excetuando o Eduardo Jorge que fala de entropia e Marina Silva que pensa nas questões socioambientais, mas ainda não na visão da entropia, o resto parece estar ainda com vendas nos olhos.

A venda nos olhos de todos os sete bilhões de habitantes coloca nossa espécie animal como uma das mais burras da Terra. E consequentemente, duramente ameaçada.  Quando ficarmos sem florestas, sem chuva, sem água e sem alimentos, aí sim acho que iremos discutir a revogação desse paradigma econômico de crescimento quantitativo a qualquer custo dentro de um planeta finito como a Terra.  Mas com certeza poderá ser tarde demais.  Sem perdas já sabemos que é impossível, não dá mais tempo para uma mudança sem perdas. Até porque as perdas já estão sendo contabilizadas desde o final dos anos 1990.


Nada a comemorar
CELSO MING
02 Outubro 2014 | 21:00
Não há nenhuma indicação de que esteja em curso uma recuperação sustentável da produção industrial.
Agosto foi melhor do que julho para a atividade da indústria. Cresceu 0,7%, com ajustes que levam em conta as variações sazonais. É um resultado um tanto inesperado, que merece atenção pelo simples fato de que se trata do segundo avanço mensal consecutivo – embora ainda pequeno – depois de cinco meses seguidos de queda.
Mas, decididamente, não dá para comemorar. Não há nenhuma indicação de que esteja em curso uma recuperação sustentável da produção industrial. Toda a economia fraqueja e o nível de confiança do empresário segue despencando, o que também é prenúncio de que a fase ruim tende a continuar. Nos oito primeiros meses de 2014, os resultados do setor são ruins: queda de 3,1% sobre igual período de 2013.
ProdIndlAGO2014
A disposição de investir por parte da indústria quase não existe, como vai sendo mostrado pelo desempenho do setor de bens de capital (máquinas e equipamentos). Nos oito primeiros meses deste ano, esse subsetor ostenta queda de produção de 8,8%. O número ruim é reforçado pelas estatísticas de importação de bens de capital que, em 2014, até setembro, mostram recuo de 5,7% quando comparado com igual período do ano passado.
Isso reforça a impressão de que ainda está longe o movimento de modernização do parque produtivo da indústria, hoje envelhecido. Seu maquinário tem, em média, 17 anos, contra 7 a 8 anos nos países que concorrem mais diretamente com o Brasil (dados do Ministério do Desenvolvimento). E, se não há a perspectiva de modernização do parque produtivo, também não há a de ganhos de competitividade. Ou seja, a indústria brasileira não terá condições de reagir para conquistar mais fatias do mercado externo e deve continuar perdendo mercado aqui dentro para o produto importado.
As autoridades do governo Dilma vêm repisando que o comportamento da produção no segundo semestre será melhor do que o do primeiro. Esse resultado melhor não pode ser descartado, mas se ele se confirmar, não deverá indicar uma virada firme do setor. Seria construído sobre uma base muito fraca, sem arranque para os meses seguintes. É como comparar o desempenho de uma mesma tartaruga medido na subida com o produzido no terreno plano. É muito difícil que, ao longo de todo 2014, a contribuição da indústria para o PIB deixe de ser negativa.
Enquanto não ficarem mais claras as diretrizes de política econômica que prevalecerão a partir de 2015, o empresário brasileiro permanecerá na defensiva, adiará decisões mais importantes e tenderá a perder ainda mais confiança na recuperação. Mas do ponto de vista de quem tem responsabilidade pela administração de um patrimônio – e não só de uma indústria – essa atitude de esperar e ficar olhando pode ser ruim.
Como a Coluna desta quinta-feira procurou mostrar, mesmo se a presidente Dilma vencer as eleições, parece bem mais provável uma virada na política econômica do que a manutenção pura e simples das atuais condições fortemente desfavoráveis. Se isso se confirmar, o administrador que tiver permanecido parado, poderá reagir tardiamente e perder oportunidades de sair na frente.
CONFIRA:
ICECConfiancaSET2014

O índice de confiança do Comércio também continua lá embaixo.
Desencontro
Nesta quinta-feira, a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, observou que a economia mundial evolui de forma desigual. O Fed, o banco central dos Estados Unidos, prepara-se para começar a retirar moeda do mercado. Enquanto isso, o Banco Central Europeu ainda não começou a injetar moeda. O G-4, o G-7, o G-8 e o G-20 foram criados para coordenar a economia mundial. Com o mesmo objetivo, os presidentes dos grandes bancos centrais se reúnem em Basel. E o resultado é esse aí.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Mais uma da série: "Querida, acho que destruí o mundo com minha SUV, meu churrasco, minhas viagens para Disney e meus eletrônicos"

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Previsão que já circula por aí é que em poucos anos a aviação estará inviabilizada pelas alterações atmosféricas. Assim como aconteceu com o começo da aviação nos anos 1950, quando as janelas quadradas foram convertidas para ovais e evitavam a ruína do casco do avião em pleno vôo como começou a acontecer com frequência.  Dessa vez o caso será mais sério, antes foi só uma questão de engenharia que ceifou muitas vidas até ser descoberto o motivo, agora será uma alteração global na atmosfera.  Há alguns que dizem que certos males virão para o bem. O Financial Times escreveu que o transporte aéreo já se tornou o inimigo ambiental número um.

Inmet confirma tornado em Brasília, o primeiro da história do DF


Fenômeno registrado na capital é semelhante aos de grandes proporções que causam prejuízos nos Estados Unidos e na Ásia. No entanto, há várias categorias e o de Brasília é um dos mais leves, de categoria 0 ou 1. A escala vai até 5.
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Renato Alves
Publicação: 01/10/2014 18:08 Atualização: 01/10/2014 19:40


Leitores do Correio Braziliense registraram um tornado próximo ao Aeroporto Internacional de Brasília, durante a forte chuva desta terça-feira, que acabou causando estragos no terminal aéreo e fechando a pista para pousos e decolagens. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), é a primeira vez que um tornado é registrado e confirmado no Distrito Federal. O fenônemo foi considerado de pequena proporção e aparentemente não ofereceu risco por ter acontecido em uma área descampada.
Tornado registrado perto do Aeroporto de Brasília (Kleber Alves dos Santos/Divulgação)
Tornado registrado perto do Aeroporto de Brasília


O tornado registrado na capital é semelhante aos de grandes proporções que causam prejuízos nos Estados Unidos e na Ásia. No entanto, há várias categorias e o de Brasília é um dos mais leves, de categoria 0 ou 1. A escala vai até 5.

A imagem do alto desta página foi enviada ao Correio pelo sargento Kleber Alves dos Santos, do Grupamento de Aviação Operacional do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal, que tem um hangar no aeroporto. Já a imagem abaixo é do leitor Alexandre Rios, feita a partir do Anexo I da Câmara dos Deputados.
Imagem feita a partir do Anexo I da Câmara dos Deputados (Alexandre Rios/Divulgação)
Imagem feita a partir do Anexo I da Câmara dos Deputados

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Mais uma da série: "Querida, acho que destruí o planeta"

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Somos todos um, do ponto de vista biológico. Charles Darwin escreveu que nada diferencia o ser humano dos demais animais.  Essa perda ou extinção é aterradora, porque podemos ter certeza, ela irá se voltar contra nós. Portanto, é muito importante que todas as atividades acessórias que estão sendo criadas (energia limpa, sustentabilidade, mecanismos de desenvolvimento limpo, economia verde, precificação dos serviços da natureza, tecnologias, crédito socioambiental, investimentos responsáveis, etc.) consigam provar ou mostrar que esse quadro de extinção da vida e de mudança climática está sendo revertido com essas atividades.  Se a resposta for não, temos que rever todas essas propostas e entender porque elas estão dando com os burros n´água.

Planeta perdeu 50% de sua fauna em 40 anos

Herton Escobar
30 setembro 2014 | 17:02
http://blogs.estadao.com.br/herton-escobar/files/2014/09/hi_257770-1024x681.jpg
Um gorila das montanhas em Ruanda, país assolado por pobreza e guerras. Foto: © Andy Rouse / naturepl.com

O planeta perdeu metade de seus animais nos últimos 40 anos, segundo um relatório divulgado hoje pela rede WWF, em parceria com a Sociedade Zoológica de Londres. Segundo o estudo, chamado Living Planet Report (Relatório Planeta Vivo), ao mesmo tempo que a população humana cresceu substancialmente, a população global de animais vertebrados terrestres, aquáticos e marinhos encolheu 52% desde 1970.
Em outras palavras, o número de animais em terra firme, nos rios e nos mares de todo o planeta (a soma de todos os elefantes, ursos, tucanos, onças, peixes e baleias, etc) caiu pela metade em menos de meio século, enquanto que o número de seres humanos seguiu o caminho inverso: praticamente duplicou no mesmo período, passando de aproximadamente 3,5 bilhões para mais de 7 bilhões de pessoas. Uma coisa, obviamente, tem tudo a ver com a outra.
E a tendência é que a situação piore ainda mais daqui para frente, considerando que a população humana global poderá passar de 12 bilhões de pessoas até o final deste século, conforme relatei na semana passada, no post: Água no feijão, que mais 5 bilhões de pessoas vêm aí
O quadro mais preocupante é justamente na “casa do Brasil”, a América Latina: a redução populacional dos vertebrados no continente foi de 83% desde 1970, segundo o WWF.
Apesar de não ser uma publicação científica propriamente dita, o relatório está em consonância com vários trabalhos publicados por cientistas nos últimos anos, que apontam nessa mesma direção de uma “sexta extinção em massa” provocada pelo homem. Em julho, a revista Science publicou uma edição especial dedicada ao tema, com o título Vanishing fauna(Fauna em desaparecimento). Um dos artigos da edição, intitulado Defaunação do Antropoceno, é de co-autoria do pesquisador brasileiro Mauro Galetti, da Unesp de Rio Claro. O artigo destaca que 322 espécies de vertebrados terrestres foram extintas desde o ano 1500, e que as populações das espécies remanescentes mostram declínios da ordem de 25% para vertebrados e 45%, para invertebrados.
Um planeta e meio. Segundo o relatório, a espécie humana já consome e deteriora recursos naturais (incluindo itens básicos de sobrevivência como água, comida e fertilidade do solo) numa velocidade 50% maior do que a Terra é capaz de repor naturalmente. O que significa dizer que, pelas nossas práticas atuais de consumo, nós precisaríamos de um planeta 50% maior para garantir nossa sobrevivência a longo prazo.
Precisaríamos de 1 Terra e meia; mas, infelizmente, só temos 1. Qual a consequência disso para o futuro? Basta pensar no que aconteceria se você gastasse 50% mais do que o valor do seu salário a cada mês: Você pode até viver uma vida de bacana por um tempo, mas em algum momento a conta chega, e aí a casa cai.
Os números de biodiversidade do relatório são baseados na avaliação de mais de 10 mil populações de mais de 3 mil espécies de vertebrados de mamíferos, aves, répteis, anfíbios e peixes. (ou seja, não leva em conta os invertebrados, como insetos e moluscos, que também passam por maus bocados)
Abaixo, mais alguns destaques do sumário executivo do relatório, que pode ser baixado aqui: http://goo.gl/DJCFim. A versão na íntegra, em inglês, está disponível aqui: http://goo.gl/rtMHq4
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Um jovem rinoceronte que teve seu chifre arrancado por caçadores. Veja reportagem: Matança de rinocerontes é recorde na África do Sul
Espécies Terrestres:
“Espécies terrestres diminuíram 39% entre 1970 e 2010 e esta tendência não mostra sinal de desaceleração. A perda de habitat para abrir o caminho para atividades humanas – particularmente para a agricultura, desenvolvimento urbano e geração de energia – agravada pela caça, continua a ser uma grande ameaça.”
http://blogs.estadao.com.br/herton-escobar/files/2014/09/P1040135.jpg
Peixe fisgado no Sri Lanka. Foto: Herton Escobar/Estadão — Veja reportagem sobre a crise da pesca em São Paulo: Cadê o peixe que estava aqui?
Espécies de água doce:
“O LPI (Living Planet Index) de espécies de água doce diminuiu em média 76%. As principais ameaças para espécies de água doce são a perda e fragmentação de habitat, poluição e espécies invasoras. Mudanças no nível da água e conectividade dos sistemas de água doce – causado, por exemplo, por irrigação e represas de usinas hidrelétricas – têm um grande impacto nos habitats de água doce.”
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Uma raia marinha australiana. Foto: Australian National Fish Collection, CSIRO — Veja reportagem: 25% das raias e tubarões correm risco de extinção
Espécies marinhas:
“Espécies marinhas diminuíram 39% entre 1970 e 2010. A redução mais acentuada aconteceu no período entre 1970 e meados dos anos 80, seguido por um período de certa estabilidade, antes de outro período de declínio em anos recentes. As reduções mais marcantes são nos trópicos e Oceano Austral– espécies em declínio incluem tartarugas marinhas, várias espécies de tubarões, e grandes aves marinhas migratórias como o albatroz-errante.”