quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Planeta, pessoas e economia, o que vem primeiro?

Por favor se comentar deixe um email para contato.

A discussão sobre sustentabilidade está a todo vapor, em função das descobertas das ciências da Terra sobre o funcionamento dos ecossistemas e a nossa dependência e vulnerabilidade em relação a eles. Não dá mais para ignorar que nossos corações só batem porque há um ser vivo na Terra que armazena luz do sol, que nossos pulmões se enchem de oxigênio porque há um ser vivo no oceano que produz um excedente, que a comida chega nos nossos pratos através das abelhas, e por aí vai. Todos os seres vivos dependem de todos os seres vivos, declaram os cientistas. Charles Darwin escreveu que nada diferencia o ser humano dos demais animais, mas possuímos a capacidade de separar as causas das conseqüências. Possuimos o nosso exosomatismo, que torna o impacto das populações sobre os ecossistemas muito maior. Um urso vem à Terra e vive só com seu próprio corpo, nós vivemos com carro, casas, celulares, hotéis, barcos, ou seja, um monte de trecos.

Os ecossistemas não estão aí apenas para serem comidos, eles desempenham funções vitais sem os quais não estaríamos vivos. O planeta Terra era originariamente rocha, material semelhante ao sol, podendo até ser uma parte dele, fruto de alguma explosão e se assemelha a um ovo, uma casca fina, que é a nossa crosta terrestre, preenchida com o magma incandescente. A Terra, bilhões de anos atrás não tinha água, que aqui foi trazida através do bombardeamento continuo dos cometas, que são feitos de gêlo. Esse bombardeamento de cometas impediria o surgimento da vida; estamos numa zona sideral perigosíssima, mas Jupíter, um planeta gigante muito maior que a Terra, ao nascer, com sua gravidade começou a atrair todos os elementos móveis para si, dando paz cósmica à Terra. Foi criada a primeira condição da vida desse planeta: sem Júpiter com certeza não estaríamos aqui.

Se a água entrou nos sistemas da Terra através dos cometas, então sabemos que ela é finita. E de nada adianta dizer que a maior parte da água salinizou e que resta ao ser humano desalinizar, porque o que fazer com o sal? E os riscos para o equilíbrio oceânico? Toda vida desse planeta esteve um dia somente na água e aos poucos os animais foram ganhando os continentes. Mesmo assim, até hoje, 70% dos seres vivos estão nos oceanos. A água é fundamental: nossos corpos são compostos 60% de água, nossa reprodução sexuada é na água e o bebê nasce numa bacia de água. Água é vida, um recurso finito que não foi preservado e que está sob intenso ataque de todos os povos. A vida que segue inexplicada é uma bênção, os cientistas quando descobriram o mundo atômico esperavam achar um átomo nos nossos braços diferente dos átomos de uma mesa, mas descobriram que eram idênticos. Nossos corpos são feitos de material estelar (parte do sol) e de água dos cometas. É ou não é um milagre?

Mas o milagre maior está como todos os seres vivos mantém uma comunhão em prol da vida, que sem ela, toda a teia desmorona e todos desaparecerão. Os ecossistemas e sua biodiversidade não estão aí só para serem transformados em atividades agrícolas ou econômicas, eles existem como reguladores químicos do solo, do ar e da água e sem eles a Terra seria uma tocha incandescente. A autora do livro Biomimicry escreveu que toda espécie que não for capaz de compartilhar o ecossistema com outras espécies está fadada a desaparecer. Lógicamente ela se referia a nós, onde os únicos bichos que permitimos são ratos, pombos, baratas e pernilongos e que sempre somos obrigados a matar ou exterminar.

Os ecossistemas se forem comidos além dos limites que garantem a sustentação de toda a vida na Terra irão deixar de funcionar e quem irá perder será a vida do planeta, onde nós somos uma pequena parte e bem vulnerável. Se somarmos a massa de todas as bactérias desse planeta, ela será maior que a massa de todos os nossos corpos juntos. Infelizmente, o ser humano no seu sistema de consumo e produção que precisa ser refeito, acabamos destruindo os ecossistemas ao ponto de termos produzido a maior extinção da vida na Terra dos últimos 65 milhões de anos. E é muita ingenuidade achar que essa extinção jamais irá se voltar contra os causadores.

O planeta é muito maior que a economia e as pessoas são muito maiores que a economia. Na verdade a economia depende do planeta e das pessoas e não o contrário. Adicionalmente, a economia não pode ser maior que o planeta e nós temos só um planeta para obter paz entre os povos, equilíbrio e para poder compartilhá-lo com os demais condôminos, ao invés de destruí-los, processo que acabará destruindo a nós mesmos. Aos economistas cabe parar de colocar ênfase em crescimento fazendo de conta que a economia é um bicho sem boca nem estômago (de onde vem os recursos não importa) e sem intestino nem reto (para onde vão os resíduos pouco interessa). Esse bicho só tem sistema circulatório e não está em contato com o meio ambiente, poderia estar em qualquer lugar, inclusive em Marte. A economia do descarte e do desperdício ligada a uma montanha de mitos injustificáveis é também uma grande barreira à sustentabilidade e nesse modelo mental, quando há fome, dizemos que falta produção de alimentos e não que há desperdício (de fato, as classes mais altas e os países ricos jogam um quarto da comida no lixo).

A sustentabilidade é uma mudança profunda, interna, voltada para novas atitudes e para novos atores no cenário econômico, social e político. A boa notícia é que depende de muito pouco: depende da vontade de cada um de nós e quanto mais esse grupo aumentar, mais o impacto do nosso pensamento fará diferença. Lembrem-se que tudo que existe à nossa volta esteve um dia na mente de alguém. Vamos começar a pensar em como ter um mundo limpo, com pessoas felizes e em equilíbrio, sem pressões desnecessárias e onde as relações entre nós e com o planeta tenham um grau de respeito e humildade muito grandes.

Hugo Penteado

Um comentário:

Anônimo disse...

Caro Hugo:

Gostaria apenas de dizer que seus textos são de extrema utilidade e serventia aos que pretendem compreender os novos rumos da economia.

Críticas balizadas e bem fundamentadas aos economistas clássicos, reflexões lúcidas sobre a insustentabilidade do modelo de desenvolvimento vigente, questionamentos pertinentes sobre a obsessão pelo crescimento são contribuição fundamentais para quem, como eu, deseja comprender melhor a realidade que nos cerca.

Hugo, parabéns.

André Trigueiro