terça-feira, 11 de novembro de 2008

O mito da sustentabilidade

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Maurício Andrés Ribeiro

Atualmente, múltiplas empresas genuinamente procuram praticar a sustentabilidade, em lugar de se bastarem em fazer o que se pode chamar de maquiagem ou marketing ecológico. Elas são expressões legítimas da decência empresarial. De uma ou de outra forma, essas empresas e organizações fazem sua tarefa. Desenvolveram métodos de ação, indicadores, relatórios de sustentabilidade que englobam o desempenho econômico, ambiental e social; as práticas de trabalho decente; de respeito aos direitos humanos e de responsabilidade por seu produto. Em direção à sustentabilidade, empresas adotam a ecoeficiência e meios de produção limpos, com a redução de desperdícios de materiais e de energia, novo design de produtos e de processos.

Há, também, esforços por parte das pessoas que adotam práticas de vida frugais, como a simplicidade voluntária e a austeridade feliz, buscando novas formas de se organizar em sociedade. Vemos hoje um número crescente de iniciativas no sentido da adoção de práticas sustentáveis na vida pessoal, empresarial, das organizações, da sociedade. Para cada lado que se olhe, enxergamos ou ouvimos dizer da existência de tais iniciativas.

Todas essas práticas são ações importantes, necessárias. São, porém, insuficientes.

Precisamos ir além e ver o resultado destas iniciativas, no conjunto.

Essa necessidade de uma visão holística exige tomar distância, à maneira dos astronautas que, ao se afastarem da Terra, puderam vê-la como uma unidade, fotografá-la e trazer essa imagem para influir na consciência da humanidade. O distanciamento analítico e crítico permitem enxergar a floresta na qual se situam as árvores específicas das práticas de sustentabilidade em empresas e organizações.

Se nos colocarmos num ângulo de perspectiva mais amplo, cuja questão central seja manter a saúde de nosso planeta Gaia, emergem questões interessantes, que se ocultam se permanecemos num ângulo mais restrito de visão. Significa que podemos e devemos nos exercitar e aplicar as práticas e os indicadores de sustentabilidade a unidades maiores – sociedades, estados nacionais, culturas, civilizações, ao planeta; ter visão holística ou global da sustentabilidade e não apenas uma perspectiva individual ou local, com foco em uma empresa, organização, unidade de produção. Os ganhos de eficiência e de produtividade no nível de uma unidade empresarial podem vir a ser rapidamente neutralizados pelo aumento do consumo e da demanda coletiva, o que leva a resultados negativos em termos de pressão sobre a já limitada biocapacidade do planeta. Os ganhos no nível micro não necessariamente se traduzem em ganhos no nível mais amplo, podendo inclusive ocorrer o contrário, caso não se adotem práticas sustentáveis específicas e direcionadas para esses patamares mais amplos, que atingem até a escala da espécie humana e do planeta.

E o que significa a sustentabilidade na escala macro, do planeta, e não apenas de países, empresas, organizações ou indivíduos?

Essa questão é desafiadora.

O todo é mais do que a soma de suas partes. Ainda que cada parte se comportasse exemplarmente, isso não garantiria a sustentabilidade do todo. Refletindo sobre a escala do planeta, e tendo em vista a gravidade da crise climática James Lovelock, o criador da teoria Gaia, afirma provocativamente que “É tarde demais para o desenvolvimento sustentável; precisamos é de uma retirada sustentável.” E completa com ênfase: “Esperar que o desenvolvimento sustentável ou a confiança em deixar as coisas como estão sejam políticas viáveis é como esperar que uma vítima de câncer do pulmão seja curada parando de fumar.”

A sustentabilidade tornou-se um mito. O mito não necessariamente tem a conotação negativa ou pejorativa que o senso comum usualmente lhe atribui. Como demonstrou Joseph Campbell em O Poder do Mito, este tem uma função catalisadora, de unificação de uma cultura, civilização ou sociedade. Um mito também pode unificar pessoas e grupos em torno de idéias e ideais comuns, e nesse sentido o mito da sustentabilidade tem função positiva e prospectiva. A sustentabilidade tem então sido uma dessas referências que permite conceber e colocar em prática metas comuns. O que quer que signifique especificamente para este ou aquele grupo social, tornou-se uma referência produtora de agregação de atitudes de indivíduos, organizações, governos, empresas, nações. Nesse sentido, a sustentabilidade está se tornando um mito unificador, produtor de convergências, como se, ao menos idealmente, todos quisessem ou achassem desejável fazer mais com menos, num contexto de maior justiça social.

Maurício Andrés, autor dos livros Ecologizar; Tesouros da Índia; Ecologizando a cidade e o planeta. www.ecologizar.com.br mandrib@uol.com.br

2 comentários:

Luciana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luciana disse...

Olá, Hugo!
Estive na palestra que vc deu em BH, no CMRR. Eu havia te perguntado sobre dados econômicos de moda ética - ou de algum outro setor brasileiro de produtos éticos ou simplesmente ecos que vem se destacano - e vc ficou de dar uma olhada nisso com pessoas do Banco.
Vc pode me responder por e-mail: lucianjung@gmail.com ou pelo meu blog de moda ética: http://eticat.zip.net.
Muito obrigada!
Abs.