sexta-feira, 28 de novembro de 2008

A crise e os que dormem nas ruas

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Amigos que eu vejo de longe, fico preocupado e inativo, chocado, mas nada adianta, pois sou nada dessa forma. Mas vocês que dormem nas ruas, preciso lhes dar as notícias. Veio uma crise global e não vai mudar nada para vocês. Mesmo assim, vocês serão lembrados e isso até parecerá coisa boa, mas não é. O fato é que na hora de resolver a crise eles lembram de vocês com uma ferocidade tamanha que me pergunto porque não se lembravam antes. Os nossos iluminados dizem aos governos que precisamos solucionar a crise o mais rapidamente possível, com o mesmo remédio que a causou e temos que fazer isso com tudo que temos as mãos para resolver os problemas sociais, acabar com a mendicância e com pessoas que dormem nas ruas, evitar o desemprego. Eles falam como se nada disso existisse antes, como se nenhuma pessoa estivesse triste, sem remédios, sem tratamento de saúde, sem dignidade. Há poucos com dignidade, mesmo entre os camisados, preciso lhes dizer, vocês dormem nas ruas, mas há pessoas mais infelizes e que viverão menos por causa do stress e da loucura insana das suas vidas, talvez pior do que vocês que estão nas ruas. Segundo pesquisas de universidades, 99% das pessoas odeiam trabalhar, só o fazem para pagar as contas e crescer os filhos. Para muitos, ficar nas ruas talvez fosse tortura menor, mas acreditam que o sistema é bom, é isso que precisamos salvar, do mesmo jeito que ele é. Talvez fosse hora de um sistema novo, mas falta coragem. De todos. Coragem e consciência.

Para solucionar a crise, os argumentos são enormes mesmo nos países ricos e eles lá também tem uma árdua tarefa: há 27 milhões de mendigos nos Estados Unidos, pessoas nas ruas, que comem graças ao governo. Antes da crise, esses números já vinham crescendo, será que a urgência agora é temer que esse número dobre? Ou será que para um país rico também há uma taxa natural de mendigos, embora haja um riqueza extrema concentrada nas mãos de poucos? Puxa, muitas perguntas que não temos a quem fazer. Seríamos taxados de loucos, mas o fato é que quando as coisas vão mal todos vocês são lembrados e nós ficamos no horizonte esperando alguma esperança de mudança e nada vem. E as crises se sucedem até vir a maior e a pior de todas: o planeta não está nos querendo mais aqui. Todos ignoram, pois dizem: "eu nunca morri, portanto nunca vou morrer." Com isso acham ingenuamene que "o planeta nunca expulsou a humanidade, portanto nunca vai nos expulsar." Já está nos expulsando e o fato de eu nunca ter morrido não significa que eu não vá morrer. Nós vamos morrer de qualquer jeito, mas além disso, agora é provável que a Terra também nos expulse daqui.

Mas não se assustem, meus amigos da rua, antes, durante e depois da tal solução da crise, vocês vão continuar dormindo nas ruas. Não se preocupem, nada vai mudar, as bravatas dos governos são apenas para acalmar os mercados e as empresas que querem vender para os humanos quatro planetas Terra e mesmo assim não será suficiente, porque em nenhum momento irão abandonar a idéia do crescimento estúpido que só serve para atender a demanda de fazer as riquezas ficarem cada vez maiores nas mãos de quem menos precisa. Eles seguem acreditando e muitos intelectuaias apóiam essa crença absurda que a economia pode ser maior que o planeta, que as pessoas serão atendidas por essa insanidade e que é só aguardar as benesses e não o que estamos vendo acontecer diante dos nossos olhos. A realidade brinca de espiã das idéias falsas que regem nosso mundo cada vez mais esfacelado e se no século 19 falávamos de milionários, se no século 20 falávamos dos bilionários, agora queremos no século XXI falar dos trilionários e essa tem sido a maior conquista do nosso sistema, venerada por todos os bilhões de seres humanos que jamais alcançarão esse status, mas que morrerão acreditando sempre nessa possibilidade e vão perder com isso a alegria de viver. E os demais morrerão com uma dívida mortal com a sociedade e o planeta, incapaz de ser resgatada, exceto através da morte do seus espíritos - e podem acreditar, tenho pena de vocês que dormem nas ruas, mas tenho mais pena dos que morrem com essa dívida e que são homens que muito pensam valer, mas que mais valem mortos e enterrados.

Hugo Penteado

Um comentário:

Ricardo Peres disse...

Muito lúcido, meu amigo. Está mesmo na hora dos economistas se envolverem com o mundo real, doído e assímetrico que os próprios economistas fomentaram em conjunto com os políticos parceiros, resultando no gigantesco equívoco chamado neoliberalismo. Você tem sido uma luz e deve ampliar essa luz ao resgatar a função correta da economia, que é a de agregar valor para as pessoas, e não gerar lucros para a tradicional minoria.
Abraços,
/Ricardo