quarta-feira, 17 de junho de 2009

O patrimônio daqueles que virão!

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O patrimônio daqueles que virão!

Por Dal Marcondes, da Envolverde

Vamos aproveitar para olhar em volta e ver se avançamos hoje, Dia Mundial do Meio Ambiente de 2009, em relação ao ano passado. Bom, a crise financeira ainda não havia explodido com todos os seus megatons. Marina Silva estava recém saída do Ministério do Meio Ambiente e Carlos Minc aparecia frente à câmeras sorrindo, otimista e conciliador. A Amazônia parecia ter finalmente entrado na pauta do Brasil e da mídia. ONGs de São Paulo iniciaram uma jornada de confronto com a Petrobras por conta do índice de enxofre no diesel. Isto culminou com a saída da Petrobras e do Instituto Ethos do ISE (Índice de Sustentabilidade Empresarial da Bovespa). O tema sustentabilidade passou a transbordar em todas as esferas. Empresas, pessoas, ongs, todos buscavam “ser sustentáveis”.

Hoje, o que temos como cenário:

• Minc está em processo aberto de “fritura” no governo;
• Reynold Stefanis, da Agricultura, apóia o avanço ruralista sobre a Amazônia;
• A senadora Kátia Abreu, presidente da Confederação Nacional da Agricultura vai relatar a MP da grilagem da Amazônia;
• O governo está “doando” terras a grileiros na Amazônia
• O Estado de Santa Catarina lançou a nova onda de rapinagem sobre as APPs (Áreas de Preservação Permanente)
• O Brasil vai para Copenhague “desmoralizado” para falar em preservação de florestas;

Existem no Congresso Nacional quase 50 projetos de lei que tratam de temas ambientais. A maioria para “flexibilizar” a legislação vigente. Este Congresso, completamente desmoralizado diante da sociedade, com legisladores cerceados em sua ânsia de se apropriar de recursos dos contribuintes, agora quer se lançar à dilapidação do patrimônio natural dos brasileiros.

Ao que parece os deputados e senadores não conseguem enxergar além de seus tacanhos pontos-de-vista e perceber que o mundo está empenhado em uma batalha sem quartel contra a degradação ambiental e as mudanças climáticas. Países menores do que o Brasil conseguem estabelecer padrões de qualidade no agronegócio com muito mais valor agregado.

Recentemente ouvi de um dos maiores compradores de soja do Brasil que se ele for exigir que os fazendeiro cumpram as leis ambientais do País, não conseguirá chegar com a soja brasileira a preços competitivos no mercado internacional. Na minha opinião ele já não é competitivo, e deveria mudar de ramo.

A maior empresa privada do Brasil lançou-se descaradamente em uma campanha de “greenwashing” ao colocar em horário nobre da TV uma propaganda onde afirma ter zerado seu printefoot”. Se esconde atrás de um termo em inglês como se fosse um antigo creme de barbear que se afirmava melhor por ter “lantrol”, que até hoje não descobri o que seja.

O Brasil um dia vai perceber que é importante apenas por seu capital natural. É preciso compreender que a relevância brasileira no mundo não se dá por sua capacidade militar, ou por seu “esplendido” desempenho econômico, mas porque o País tem a Amazônia, região e bioma com importância vital para o mundo.

Estamos abandonando um dos princípios mais caros à ex-ministra Marina Silva, o “princípio da precaução” em relação ao meio ambiente. “Já estamos sacando no cheque especial dos nossos netos”, ouvi esta semana em um evento. E é verdade, o Congresso brasileiro está agindo como se não houvesse amanhã.

Uma reflexão sobre as questões ambientais neste cenário de desarticulação completa da política e da ética requer que se tenha um mínimo de bom senso. O Brasil está a caminho da COP 15, em Copenhague, que vai debater os horizontes dos compromissos em relação às mudanças climáticas a partir de 2012. Com que cara nossos diplomatas vão entrar nas negociações se for dado um “liberou geral” em relação à Amazônia e aos recursos naturais do País?

O Brasil pode ser uma liderança global na direção de uma economia competitiva, inclusiva e baseada em biomassa e biodiversidade. Mas, para isso, precisa amadurecer. Parar de se comportar como um adolescente esquizofrênico, que se atira de forma imatura sobre as riquezas ao seu redor até tornar-se um adulto amargurado e pobre.

Não às mudanças apressadas no Código Ambiental. O Brasil precisa amadurecer sua democracia e a sociedade tem o direito de se manifestar. Em uma época de tanta integração e interatividade, para mexer no patrimônio natural os cidadãos deveriam ser consultados. A Constituição prevê isso.

É preciso entender que a sociedade tem um compromisso com o futuro, com as próximas gerações, e este compromisso não pode ser largado nas mãos de uma geração de políticos que não é capaz sequer da gestão mais ordinária do cotidiano do País.

O Patrimônio Natural do Brasil pertence não apenas a esta geração de brasileiros, mas a todas as que virão a seguir, pelos próximos séculos e séculos. Não podemos, não temos o direito, não temos o mandato e não temos a legitimidade para lançar mão deste patrimônio em nome de nenhum interesse atual.

Caso os políticos não percebam isto, estarão cometendo um “Crime contra a humanidade de amanhã”.

*Dal Marcondes é diretor da Envolverde.

(Agência Envolverde)

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