terça-feira, 16 de junho de 2009

Economistas clássicos e meio ambiente

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Economistas clássicos e meio ambiente
Carlos Gabaglia Penna
08/06/2009, 07:00

Durante a discussão sobre a posição norte-americana na Conferência Mundial sobre População, que teria lugar em Bucareste, em 1974, cada vez que os economistas sugeriam uma solução do tipo moto-contínuo para fornecer ao mundo fontes ilimitadas de energia, um dos cientistas presentes, calmamente, afirmava que a proposta violava a segunda lei da Termodinâmica. Após ouvir tal informação algumas vezes, um economista, irritado, saiu-se com esta: “e quem sabe qual será a 2ª lei da Termodinâmica daqui a cem anos?”. Suponho que ele confiava que o presidente Ronald Reagan – ou, bem mais tarde, um George Bush – revogasse lei tão incômoda.

A fé profunda no progresso tecnológico é compartilhada por pobres e ricos, por capitalistas e socialistas, todos empenhados em ignorar fatos científicos insofismáveis. Mas são os economistas clássicos – secundados por governistas de todas as matizes – os campeões do entusiasmo pelo crescimento econômico permanente. Mesmo que às custas da lógica.

Robert Solow é um economista americano, ex-professor do Massachusetts Institute of Technology, que - além de importantes prêmios nacionais – foi agraciado com o Prêmio Nobel de Economia (1987). É particularmente conhecido por seus trabalhos sobre crescimento econômico. Ele afirmou que “o mundo pode, com efeito, sobreviver sem recursos naturais” (!?!). a Natureza não seria, portanto, um obstáculo para o progresso humano.

O economista Julian Simon, falecido em 1998, foi um professor de Administração de Negócios da Universidade de Maryland, nos EUA. Tornou-se mais conhecido pelos seus trabalhos sobre população, recursos naturais e imigração. Teve grande influência na política da administração Reagan no que se referia às questões demográficas, defendendo a ideia de que os recursos naturais são infinitos.

Abro parênteses: os EUA do presidente Reagan foram responsáveis por um grande atraso na implantação de políticas regionais de limitação populacional. Em uma conferência da ONU sobre o assunto, em 1984 (no México), o governo americano utilizou o mesmo slogan adotado pela Índia na década anterior (e, hoje em dia, por alguns membros do governo petista): “desenvolvimento é o melhor contraceptivo”. Entre meados dos anos setenta e 2008, a população indiana cresceu em cerca de 570 milhões de indivíduos e a renda per capita era, em 2006, apenas 11,2% da brasileira.

Voltando ao professor Simon, ele escreveu que “quanto mais [recursos naturais] nós usarmos, mais ricos ficaremos” e que “não há limites práticos para aumentar, para sempre, nosso patrimônio (ou, pelo menos, por sete bilhões de anos)”. Isso levou um demógrafo da Universidade de Oxford, David Coleman, a ironizar que faltava a Julian Simon – quando se referiu a 7 bilhões de anos – a confiança de que poderíamos sobreviver ao esgotamento do sol...

Nos tempos dos economistas britânicos Adam Smith (século XVIII) e David Ricardo (século XVIII e XIX), a Natureza era percebida como um grande e inexaurível recurso. Isso era perfeitamente compreensível, pois a população mundial girava em torno de um bilhão de pessoas e a tecnologia da época era muitíssimo menos poderosa e ambientalmente invasiva do que a atual. No entanto, parte dos economistas do presente parece acreditar que o livre mercado, através dos preços, irá regular o consumo de recursos escassos e promover uma produção mais eficiente. Ou que a inventividade humana sempre produzirá, ou descobrirá, materiais substitutos. Não é, entretanto, o que está ocorrendo no planeta.

A economia clássica reconhece a terra (significando todos os seus recursos naturais), o trabalho e o capital produzido como as fontes básicas da prosperidade material. A economia neoclássica foca somente no capital e no trabalho, tratando a “terra” apenas como uma forma intercambiável de capital. Para eles, tem muito pouca importância o fato de a Natureza ser usada não apenas como fonte de ativos valiosos, mas também como receptora dos resíduos e da poluição da economia.

O ciclo de vida de uma mercadoria é muito maior para a ecologia do que para a economia. Para um economista, o ciclo de vida de um automóvel começa com a exploração do minério de ferro e termina quando é pago e sai da revendedora. A partir daí, fará apenas parte de estatísticas. O ciclo da gasolina, da mesma forma, encerra-se no tanque de algum veículo. Para o ambientalista, contudo, ou melhor, para o mundo real, o ciclo do automóvel prossegue muito além. Ele continua ao longo da sua utilização (através de seus impactos), na necessidade de abertura de vias e de sua pavimentação que permitam o tráfego do automóvel, na sua transformação em sucata, na sua permanência na paisagem, e, finalmente, na disposição das partes não aproveitadas em aterro sanitário.

O ciclo da gasolina iniciou-se muitos milhões de anos anteriores à descoberta do petróleo, com a decomposição de plantas e animais, continua através das emissões de poluentes quando essa gasolina é queimada e culmina com os efeitos dessas emissões nas florestas, no clima global e na saúde das pessoas. Muitos economistas e planejadores parecem desconhecer que a Economia depende integralmente dos recursos naturais, ou seja, dos minerais metálicos e não-metálicos (recursos não renováveis), das diferentes fontes de energia, assim como da atmosfera, da água, do solo e da biodiversidade. É uma ilusão imaginar que a atividade econômica independe da qualidade desses recursos.

É igualmente inacreditável que se imagine que a Economia possa prescindir dos limites do meio ambiente, levando as pessoas a defender o crescimento econômico permanente. Sequer a necessidade de empregos o justifica, pois, como todos sabem, o aumento das atividades está, cada vez mais, descolado da demanda de mão-de-obra. Os lucros das empresas sobem e elas seguem despedindo funcionários.

Somente o desconhecimento de princípios básicos da Ciência permite que se assuma tal posição. Não me refiro apenas a Termodinâmica, Ecologia ou Teoria dos Sistemas, mas igualmente a Matemática que revela que progressão geométrica em qualquer sistema - que é como se comportam a Economia e a Demografia – tende ao colapso. Expansão econômica contínua é uma impossibilidade física; defendê-la, portanto, é uma sandice.

Herman Daly, ex-funcionário do Banco Mundial e atualmente professor da Universidade de Maryland, é provavelmente o mais conhecido entre os modernos economistas que consideram as questões ambientais como relevantes em seus estudos e projetos. Ele afirmou que “o crescimento, a panaceia do passado, está se transformando rapidamente na pandemia do presente”. Ele também escreveu que:

Os economistas dedicam tanta atenção ao crescimento do Produto Interno Bruto que o confundem com “crescimento econômico”, sem admitir a possibilidade de que esta possa ser “não econômico”, uma vez que seus custos marginais, derivados dos impactos sociais e ambientais, podem ser maiores que o seu valor em termos dos benefícios da produção.

É o que se convencionou denominar internalização dos lucros, externalização dos custos. Empreendimentos diversos proporcionam lucros gordos aos donos do negócio (e polpudas comissões a políticos), mas quem arca com os custos - a degradação ambiental, a destruição de belas paisagens, o deslocamento de populações etc. – é a sociedade. Esta paga a conta. Isso acontece a toda hora e é chamado de progresso...

Daly diz ainda que a Economia não tem que crescer indefinidamente para se eliminar a miséria, mas que a solução se baseia em 3 itens básicos, “ainda que para muitos seja desagradável”: aumento da produtividade no uso dos recursos, controle populacional e redistribuição de riqueza. Este último item – fundamental - é possível, mas choca-se com a ganância e o egoísmo humanos. Não alcançaremos a sustentabilidade enquanto, grosso modo, as 500 pessoas mais ricas do planeta acumularem fortunas que equivalem à riqueza total do um bilhão de pessoas mais pobres.

A insistência no aumento permanente do consumo de bens e serviços – como solução para todos os males da sociedade – parece impregnada no inconsciente coletivo de boa parte da humanidade, mas, além de inútil, ela só conseguirá levar ao colapso o sistema suporte da vida. Da vida humana, bem compreendido, pois como escreveu o paleontologista Stephen Jay Gould: “…se tratarmos a Terra com decência, ela continuará a sustentar-nos por algum tempo. Se nós a ferirmos, ela vai sangrar um pouco, livrar-se de nós, curar-se e depois seguir cuidando de sua própria vida, em sua própria escala [de tempo].”

Um comentário:

Ivo S. G. Reis disse...

Parabéns ao articulista, por tão interessante e verdadeira matéria, aliás, republicada no meu blog "Debata, Desvende e Divulgue!" (citando os créditos, é claro), postada por um dos seus admiradores.

Nosso blog, dentro outros objetivosd, procura ser também uma trincheira em defesa das causas ecológicas e discussões das grandes questões nacionais. E lá, entendemos que Economia, Política e Meio Ambiente são assuntos interdependentes e que não podem ser discutidos isoladamente.

Nesse sentido, apoiamos um terceiro sistema econômico que substitua o atual e que leve em conta os aspectos econômicos. Poderia ser o que o Hugo Penteado, numa brilhante visão chama de "Ecoeconomia".

Voltando ao seu artigo (veja nosso comentário em http://debatadesvendeedivulgue.com/blog/?p=1790#comment-7999), alinha-se com alguns dos nossos pontos de vistas principais, que enumeramos:
1 - Urgente necessidade de um controle mundial da natalidade;
2 - Mudança do paradigma econômico para um que leve em conta os aspectos ambientais;
3 - Mudança das matrizes energéticas e revisão dos hábitos de consumo;
4 - Preocupação com a economia dos recursos hídricos;
5 - e, o mais polêmico: necessidade um "governo mundial" para gerir as questões ambientais do planeta.

Seria este o caminho?