terça-feira, 10 de junho de 2008

Uma nova métrica no lugar do PIB, será?

A questão da métrica, filha de todos os erros, é comentada a seguir por mim, logo depois de ter lido o excelente artigo do professor José Eli da Veiga, publicado no Valor de hoje e divulgado logo abaixo.
Mudando a métrica...

Sobre mudar a métrica, continuo cético, sem uma mudança de modelo mental, de conjunto de valores, duvido que a métrica seja utilizada. Podem inventar o que for, já temos o trabalho da Nordham University, a teoria do umbral, os trabalhos do NEF, é mais do mesmo dizer que o PIB e as questões sociais e ambientais andam na direção contrária. O sistema não enxerga isso por interesse próprio. Isso cheira a uma elite iluminada que pretende mudar o mundo sem mudar a si mesma.

Inventar a métrica é fácil, o difícil é usarem-na. O PIB de Kusnetz foi um sucesso e não é à toa, porque ele só soma. Os prejuízos sociais e ambientais na ladainha do "mainstream" transformam-se em oportunidades de novos negócios e mais lucros, como se os serviços da natureza pudessem ser replicados sempre por novas tecnologias. Como se investimentos ambientais existissem, sem saber que todos os investimentos são ambientais, não existe nada sem o meio ambiente. E o mais importante, sem reconhecer nossa total dependência em relação à natureza, herança ocidental difícil de ser quebrada.

Não consigo esquecer a resposta que Joseph Stiglitz deu ao Herman Daly quando foi perguntado sobre os limites do planeta e da teoria econômica que causa a rota de colisão atual. Ainda bem que o Stiglitz já tem certa idade e não vai presenciar o legado que essas idéias estranhas irão deixar na Terra. Herman Daly é que deveria comandar esse projeto, mas ele cansou até da matematicização desumanizadora da Revista de Economia Ecológica. Onde está o ponto principal da análise? Por quanto tempo essa discussão inane irá continuar, enquanto perdemos 21 campos de futebol em florestas e biodiversidade a cada minuto?

A imaginação é mais importante que o conhecimento, escreveu Einstein. No mundo atual o conhecimento é abundante, a imaginação é escassa e o óbvio, por essa razão, é totalmente perdido. A elite iluminada precisa parar de querer mudar o mundo, sem antes mudar a si mesma. E temos que parar de achar que temos tempo de sobra para inúmeras elocubrações que nunca ganharam o mundo prático. O mundo prático continua fazendo "business as usual" e a destruição da Amazônia segue a mesma sina das florestas da Europa (99,7% destruído) e dos Estados Unidos (99% destruído). Mais alarmante nessa cegueira toda é que nos governos Lula e FHC dos últimos 13 anos foi destruído 33,4% de toda a destruição acumulada da Amazônia, um território perdido dois terços do tamanho da França. Até o final do segundo mandato do atual mandato, somando tudo, teremos quase 50% da destruição acumulada da Amazônia tendo ocorrido em apenas 16 anos.

Assim caminha a humanidade
VALOR 10/06/2008
Erraram feio os que fizeram pouco da iniciativa do presidentefrancês Nicolas Sarkozy de solicitar à dupla Stiglitz-Sen uma revisão dos "limites do PIB como critério de medida dodesempenho econômico e do bem-estar". Ou melhor, da "mensuração do desempenho econômico e do progressosocial", conforme acabou ficando o título oficial da força-tarefa que está sendo chamada de "Comissão Stiglitz". Apóslongos cinco meses de suspense, três fatos mostram que oprocesso está muito bem encaminhado.
O primeiro é o próprio time. A comissão já se legitimou porcontar com 25 outros craques de imenso prestígio, e com fecunda diversidade de visões e especialidades. Daí aimportância de serem apresentados, mesmo que de formainjustamente breve.
No topo está o decano, Nobel 1972, Kenneth Arrow(Stanford), imediatamente seguido por dois colegas quetambém foram ganhadores do mais cobiçado prêmio deeconomia, em 2000 e 2002: James Heckman (Chicago) e opsicólogo Daniel Kahneman (Princeton). Há mais um deChicago, o jurista republicano Cass Sunstein, e mais dois dePrinceton: o microeconomista Angus Deaton e o especialista em economia do trabalho Alan B. Krueger. Essa bancadaacadêmica americana é completada por outros três criativospensadores: o cientista político Robert Putnam (Harvard), oeconomista ambiental Geoffrey Heal (Columbia), e uma dasmais influentes economistas feministas: Nancy Folbre(Massachussets). Com o presidente Stiglitz (Columbia), e seuconselheiro Sen (Harvard), são onze, dos quais cinco prêmiosNobel.
Entre os acadêmicos europeus, três britânicos e setefranceses. No trio, o já célebre Sir Nicholas Stern (LSE) ladeia o especialista em desigualdade e pobreza Anthony B. Atkinson(Oxford) e o expoente da chamada economia da felicidadeAndrew J. Oswald (Warwick). Com base em Paris, ocoordenador geral Jean-Paul Fitoussi - presidente do OFCE, oCentro de Pesquisas Econômicas da "Sciences-Po" (Instituto de Estudos Políticos) - pinçou dessa mesma organização omacroeconomista Philippe Weil e o politécnico Claude Henry,autoridade no binômio inovação/sustentabilidade.
Mas é claro que também fazem parte o econometrista RogerGuesnerie (Collège de France) e o anterior economista-chefe do Banco Mundial François Bourguignon, respectivamentepresidente e diretor da nova "PSE", "Paris School ofEconomics". Muito mais notáveis do que Marc Fleurbaey(Paris-5) e Jean Gadrey (Lille), mesmo que o primeiro sejaforte referência em ética social e justiça distributiva, e o segundo o autor de ótimo livro sobre novos indicadores deriqueza (traduzido pela Editora Senac em 2006). Muito ligadoàs entidades da sociedade civil que se empenham emreconsiderar a riqueza, Gadrey chegou a propor boicote àiniciativa de Sarkozy. Atitude que perdeu o sentido quando opróprio Stiglitz o convidou a ser um dos membros dacomissão.

Para fechar o panorama acadêmico falta mencionar a única"penetra" nesse triângulo EUA-FR-UK: a também economista feminista Bina Agarwal (Delhi). Hoje mais dedicada ao estudo da ação coletiva para a conservação ambiental, foi quemcolocou a contribuição teórica de Amartya Sen em perspectivade gênero. E participa da rede internacional que procuraoperacionalizar o intraduzível "capability approach".

Além desses 22 professores, há representantes de quatroimportantes organizações internacionais. Pela OCDE, o chefeda área estatística, Enrico Giovannini; pelo Pnud, o númeroum Kemal Dervis; pela Unctad, o diretor Heiner Plassbeck; epelo Banco Mundial, o economista-chefe e vice-presidente Justin Lin. Bem próximo desse quarteto está o representanteda organização nacional que garantirá e zelará pelo bomfuncionamento dos trabalhos: Jean-Philippe Cotis, diretor geral do INSEE, instituto que detém na França a responsabilidade oficial pelas estatísticas e estudoseconômicos.

O segundo fato promissor foi o resultado da primeira reunião,no final de abril, na qual foram discutidos dois "surveys" daprodução científica pertinente. A comissão passou a serorganizada em três grupos de trabalho, cujo enunciado dostemas não poderia ser mais significativo: um vai esmiuçar "osclássicos problemas do PIB", outro vai focar"desenvolvimento sustentável e meio ambiente", e o terceirose concentrará na questão da "qualidade de vida". Até julho deverá estar pronto um primeiro documento sobre aproblemática ("issue paper", que sintetizará as contribuiçõesdesses três grupos, tarefa a cargo de sete técnicos emprestados pela OCDE, OFCE e INSEE, staff dirigido pelo tarimbado estatístico Jean-Étienne Chapron, relator-geral da Comissão).

Não menos importante é o terceiro sinal: a Comissão estáempenhada em trabalhar com máxima transparência e abuscar intenso diálogo público. Para tanto, ainda em junho será lançado um portal que oferecerá um esquema interativoque facilite comunicação direta com os mais interessados,além de disponibilizar documentos de trabalho.

Como o relatório final está previsto para junho de 2009, ospróximos doze meses serão especialmente favoráveis a projetos e ações de revisão das obsoletas convenções para amedição da riqueza, uma noção aparentemente simples, mascuja ambigüidade gera muita confusão. Além disso, sistemasde medição embutem forte inércia institucional, mantendosempre muito atraso em relação aos avanços científicos. Osegípcios, por exemplo, só corrigiram o calendário em 238 A.C.,praticamente quatro milênios depois de terem calculado umaduração do ano solar de 365 dias e um quarto. Com certezaserá bem mais rápida a mudança das atuais medidas da riqueza, embora nada autorize supor que as recomendaçõesda Comissão Stiglitz venham a ser facilmente assimiladas pelaONU, ou por outros atores cruciais, como o FMI. O processomal começou, pois a principal incógnita do problema resideem saber se avanços das ciências sociais aplicadas jápermitem, de fato, a imprescindível superação do PIB, assimcomo desse seu precaríssimo desdobramento que é o IDH(Índice de Desenvolvimento Humano).
José Eli da Veiga - professor titular do departamento de economia da FEA-USP e pesquisador associado do "Capability & Sustainability Centre" da Universidade de Cambridge, com apoio da Fapesp, escreve mensalmente às terças.
Página web: www.zeeli.pro.br

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