terça-feira, 10 de junho de 2008

Pode um banco ser sustentável?

Por Gustavo Pimentel em 21/05/2008


A pergunta do título foi o tema da palestra do vice-presidente de um grande banco internacional para uma platéia de quinhentos jovens, oriundos de oitenta países. O cenário era Belgrado, capital da então Sérvia e Montenegro, apenas quatro anos após o fim da Guerra dos Bálcãs. No caminho para o centro de convenções, avistavam-se prédios públicos bombardeados ao lado de hotéis cinco estrelas recentemente construídos. A pergunta-tema da palestra de cinco anos atrás ainda está no ar: qual seria o papel de um banco para a sustentabilidade?

O setor financeiro realmente tem um papel preponderante na economia mundial. "Eles alocam recursos escassos entre os setores e atividades econômicas", dizia um empolgado asiático naquela palestra, parecendo ter saído direto de sua aula de economia na faculdade. O homem-aranha diria aos bancos: "quem tem um grande poder deve arcar também com uma grande responsabilidade". De fato, hoje já não se engole mais o discurso das instituições financeiras que se intitulam 'sustentáveis' pelo simples fato de usar papel reciclado, ter políticas de diversidade para os funcionários e usar energia renovável nos prédios administrativos. Ainda que essas sejam ações importantes, que servem de base para entender também seus impactos indiretos.

Quando examinamos o que tem sido feito para diminuir o impacto indireto, deparamos com soluções que podem se aplicar a qualquer setor: políticas de contratação de fornecedores e benefícios para funcionários terceirizados, papel reciclado nos talões de cheque dos clientes, neutralização de carbono nas viagens de avião dos funcionários. Para que a questão semântica pare de atrapalhar o diálogo com o setor financeiro, é necessário ser explícita: sustentabilidade está ligada ao que a instituição financia (ou investe). Diga-me quem financias, que te direi quem és.

Essa discussão está geralmente ligada ao 'como fazer'. Os bancos têm desenvolvido políticas que incorporam a análise socioambiental ao risco de crédito. Isso faz com que dimensionem melhor os riscos, mas não os impede de financiar atividades altamente impactantes, desde que o retorno seja adequado. Como já pode ser lido em algumas políticas socioambientais de crédito: "apenas em casos extremos será negado financiamento". Um viés parecido têm os atuais Princípios do Equador (PE), desde que as 'salvaguardas' do PE1 se transformaram em 'padrões de desempenho' do PE2. No entanto, já há benchmarks internacionais consistentes para desenvolver tais políticas de forma específica para setores e temas sensíveis, conforme demonstrou o relatório Mind the Gap do BankTrack.

Mas é preciso aprofundar a discussão para a linha de 'o que financiar'. Como instituições que alocam recursos escassos, os bancos devem direcionar suas carteiras para setores e atividades que contribuam para a tão necessária mudança nos padrões de produção e consumo vigentes, rumo à sustentabilidade. 'O que' e 'como' andam de mãos dadas nesse caso: não adianta ter linha de crédito para reflorestamento se a política geral não veda crédito para atividades que desmatam. É pouco relevante dar alguns milhões para energia eólica se as termelétricas recebem bilhões. Esse tipo de atuação já é percebido como maquiagem verde e cria passivos reputacionais para alguns bancos brasileiros. É o mesmo que financiar os hotéis cinco estrelas para que turistas apreciem a ruína de Belgrado.


Gustavo Pimentel, economista, é Gerente de Eco-Finanças da ONG Amigos da Terra - Amazônia Brasileira, que representa no Brasil a rede BankTrack.

2 comentários:

Ricardo disse...

Bom, pelo jeito os bancos AINDA TEM MUITO A FAZER! Então que comecem a colocar a bem-estar da Biodiversidade a frente dos lucros imediatamente. Não há sequer um segundo a perder. A Terra está entrando num feedback positivo generalizado. A concentração dos recursos financeiros globais estão quase que totalmente nas mãos dos bancos e portanto a responsabilidade dos mesmos deve ser quase que total.

Leonardo disse...

Hugo, adorei esse artigo!!

Principalmente pelo fato de eu também me econtrar no âmbito de uma instituição financeira (HSBC) onde, de alguma forma, por mais simples que seja, pretendo igualmente contribuir para o debate. Parabéns ao escritor pelo precioso resgate da temática.

Cordialmente, L. Janz.