sábado, 28 de junho de 2008

Mudar a métrica sem mudar os valores

Publicado no site Eco-Financas em 13/06/2008

Charles Darwin escreveu que nada diferencia o ser humano dos demais animais e apesar disso ser óbvio apenas comparando a morfologia quase idêntica de todos os seres vivos, precisamos do estudo do gene para descobrirmos estupefatos que apenas um número reduzidíssimo de genes nos diferencia de um rato ou um macaco ou qualquer outro bicho. A mesma história se aplica à economia, demorou tempo demais a percepção que o PIB não serve para analisar a situação social e ambiental dos países. A questão da métrica, filha de todos os erros, vem sendo discutida de várias maneiras e com várias propostas de revisão há vários anos. Todo mundo agora sabe que o PIB é uma métrica errada, que só agrava problemas ambientais e sociais, apenas porque os ignora. Qualquer medida sensata de bem estar social mostra que há um disparate enorme entre felicidade e bem estar humano com o crescimento do PIB.

Por exemplo, apesar do crescimento econômico retumbante de muitos países, vários indicadores mostraram deterioração, como por exemplo, o percentual de pessoas que se consideram felizes, o percentual da população masculina encarcerada, suicídios, abandono das escolas, mortalidade infantil, alcoolismo, abrangência dos planos de saúde, idosos em pobreza, doenças, acidentes de trânsito, etc. Ficou bastante claro que os indicadores de saúde social progridem junto com o crescimento econômico até certo ponto, a partir do qual decaem notoriamente. E não estamos falando de países em desenvolvimento, e sim dos países ricos que nos servem de modelo.

Apesar dessa constatação, chocante para muitos, os países atrasados copiam o modelo econômico e tecnológico atual dos países ricos, que é extremamente concentrador de renda e de riqueza. De acordo com o News Economic Foundation de Londres, de cada 160 dólares adicionados a riqueza mundial per capita, apenas 60 centavos chegam aos mais pobres. Ao copiar esse modelo não vamos observar nem a fase na qual a correlação entre bem estar e crescimento pode existir. Na verdade, vamos entrar direto na fase atual dos países ricos, no qual o crescimento econômico não entrega as tão prometidas benesses sociais, como também (e não menos importante) dilacera as condições planetárias de sustentação de todas as formas de vida.

Nada poderia ser mais dramático que isso. Mas existe um algo mais, sempre. Os países ricos, nossa miragem atual, só conseguiram atingir o seu atual nível de progresso acumulado e de crescimento de fluxos (PIB) porque fizeram isso sozinhos. A partir do momento que todos seguirem pela mesma rota, isso não será mais planetariamente possível e essa escolha da humanidade só poderá terminar em uma das duas opções a seguir: colapso planetário ou guerra seguido de colapso planetário. Adicionalmente, os países ricos e os muito populosos como a China, só conseguiram escamotear o colapso ambiental local que atingiram com seu enorme progresso ou populações, através da crescente importação de bens e serviços, que não só lhes dá o suprimento necessário de recursos naturais, como também lhes economiza água, solo, serviços ecológicos às custas de outros lugares. Claro que tudo isso também à custo zero, uma vez que nosso sistema de valores - e a teoria econômica tradicional até os dias de hoje - não inclui o custo ecológico nas suas análises.

A sociedade e o seu equilíbrio com o planeta e os demais seres vivos estão sendo completamente desmantelados pelo nosso sistema econômico. A métrica PIB faz parte dessa dinâmica suicida e destruidora e também impede que esse modelo mental e a teoria econômica equivocada sejam corrigidos. Por essa razão, temos várias iniciativas para mudar a métrica: o Índice Canadense de Bem-estar (CIW), o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU, o Índice de riqueza do Banco Mundial, o Índice do Progresso Genuíno (GPI), o Índice de Felicidade Nacional do Butão (GNH) e os Indicadores de Qualidade de Vida Calvert-Henderson e Índice de Saúde Social da Nordham University, Teoria do Umbral de Max-Neef e outras que desconheço. A mais recente e louvável iniciativa é do presidente francês Nicolas Sarkozy que solicitou a Joseph Stiglitz e Amartian Sen (participou da formulação do IDH na ONU) uma revisão do conceito do PIB como medidor do bem estar social. Apesar dessas iniciativas serem interessantíssimas, porque levantam os erros de análise econômica atual, como por exemplo a mania de crescimento e a mania do PIB, devemos continuar céticos. Tentar mudar a métrica, sem mudar nosso conjunto de valores, sem mudar a teoria econômica tradicional, é como querer tratar um paciente de câncer com aspirinas.

Em suma, inventar uma nova métrica tem sido relativamente fácil, o difícil é usarem-na. O PIB de Kusnetz foi um sucesso e não é à toa, porque ele adere aos interesses atuais e à visão míope da nossa sociedade. Ele se adere a uma falsa convicção humana sobre a sua relação com a natureza, onde nossa enorme vulnerabilidade é ignorada, onde poucas pessoas lembram que o coração de cada um só bate porque tem um ser vivo na Terra que armazena a luz do sol. Sem as abelhas, a comida não chegaria no nosso prato, até isso é esquecido, apesar de todo o aparato moderno, porém insustentável, da agricultura moderna.

Não existe o menor incentivo para mudar a métrica, pois o PIB não subtrai, apenas soma e os prejuízos sociais e ambientais na ladainha dos economistas transformam-se em oportunidades de novos negócios e mais lucros, como se os serviços da natureza pudessem ser substituídos por capital humano, como afirmou Robert Solow. O mais estranho é ouvir falar que precisamos fazer investimentos ambientais, como se eles existissem, mostrando uma ignorância profunda, pois todos os investimentos são ambientais, não existe nada sem o meio ambiente. A ideologia segue inalterada: "nós vamos fazer todos os ambientes necessários para o progresso do povo, mas não se preocupem, iremos também fazer investimentos ambienteis" (!?!). "Precisamos crescer", arrematam.

A iniciativa de Sarkozy é louvável realmente, mas não consigo esquecer a resposta que Joseph Stiglitz deu ao Herman Daly quando foi perguntado sobre os limites do planeta e da teoria econômica que causa a rota de colisão atual. Ele se recusa a aceitar um limite e ainda bem que o Stiglitz já tem certa idade (65 anos) e não vai presenciar o legado que essas idéias estranhas irão deixar na Terra. Herman Daly é que deveria comandar esse projeto, um mentor de um pensamento que inclui uma visão sistêmica de Economia Ecológica, que parte do princípio que precisamos antes de mais nada reformular todo o pensamento econômico, que continua se disseminando na mente dos estudantes como uma fórmula para a humanidade crescer sempre, melhorando sempre, embora isso não seja verdade e seja impossível física e planetariamente. Enquanto a discussão inane da nova métrica continua, perdemos 21 campos de futebol em florestas e biodiversidade a cada minuto. Grande parte dessa perda da natureza é irrecuperável, como alertou Nicholas Georgescu-Roegen quase 40 anos atrás, vaticinando tudo que estamos vivendo hoje e por uma lástima seu alerta foi ignorado por Stiglitz e tantos outros economistas.

A imaginação é mais importante que o conhecimento, escreveu Einstein. No mundo atual o conhecimento é abundante, a imaginação é escassa e o óbvio, por essa razão, é totalmente perdido. A elite precisa parar de querer mudar o mundo, sem antes mudar a si mesma. E temos que parar de achar que temos tempo de sobra para inúmeras elocubrações que nunca ganharam o mundo prático. O mundo prático continua fazendo "business as usual" e a destruição da Amazônia segue a mesma sina das florestas da Europa (99,7% do total destruído) e dos Estados Unidos (99% destruído, dados do World Resource Institute). Mais alarmante nessa cegueira toda é que nos governos Lula e FHC dos últimos 13 anos foi destruído 35% de toda a destruição acumulada da Amazônia, um território perdido quase metade do tamanho da França. Ao final de 2010, teremos 42% da destruição acumulada da Amazônia apenas nos últimos 16 anos, igual ao território do Reino Unido e da França juntos. Grande parte desse território destruído (80 a 90%) terminará em deserto.

Enquanto relatórios robustos vão sendo feitos, esse é o processo que está por trás da crise planetária atual: a cada minuto temos menos natureza disponível para cada vez mais gente. Mudar a métrica faz sentido só após mudar o modelo mental de Sarkozy e Stiglitz e tantos outros. Na prática, tudo deve continuar como no velho ditado francês: quanto mais as coisas mudam, mais elas continuam as mesmas. E o paciente continua sendo tratado com aspirina enquanto o câncer se espalha violentamente pelo mundo. Nada como fazer a humanidade perder cada vez menos chances ao direcionar nossos esforços para bem longe das causas desse desastre: crescimento populacional absoluto contínuo, crescimento econômico exponencial contínuo e uma teoria econômica falsa que os ratifica.


Hugo Penteado Economista com graduação e mestrado pela USP Autor do livro Ecoeconomia - Uma nova abordagem (Ed.Lazuli, 2003) www.nossofuturocomum.blogspot.com

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