sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Uso da Água

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Vida Seca
Gazeta Mercantil, 24/03/2008
http://pdf.investnews.com.br/pdf/gzm/Relatorios/2008/rel20080324.pdf


Assim como o século 20 pode ser considerado a era do petróleo, fonte de energia polêmica e, ao mesmo tempo geradora de grandes riquezas, graves crises econômicas e até guerras territoriais, o século 21 será conhecido no futuro como a era da água. Ou melhor, da falta de água. Até bem pouco tempo, a constatação de que a água é um recurso natural finito era um conceito dificilmente aceito por boa parte da população.

Mas o fato é que, embora três quartos da superfície do Planeta sejam cobertos pela água, menos de 3% é água doce, dos quais apenas 0,5% está disponível para consumo – os outros 2,5% estão congelados na Antártica, no Ártico e em geleiras. Recomendações da Organização das Nações Unidas (ONU), que em recente relatório, alerta que um terço da população mundial, ou seja, cerca de 2,7 bilhões de pessoas, enfrentará graves problemas por conta da escassez de água que acontecerá até 2025. De acordo com o documento, em 2050, de cada quatro pessoas, apenas uma terá acesso à água potável.

Estudo realizado pela organização não-governamental WWF, também aponta para o aumento do consumo de água no planeta enquanto as fontes estão secando. De acordo com o documento, o consumo de água no mundo dobrou nos 40 anos compreendidos entre 1961 a 2001.

Dados da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) mostram que os maiores consumidores – quando englobados os usos industrial, humano e agrícola – são Índia (552 bilhões de metros cúbicos de água por ano), China (500 bilhões de metros cúbicos por ano) e EUA (467 bilhões de metros cúbicos por ano).

No Brasil, que possui 13,3% de toda a água potável do mundo, o desperdício chega a 70%, um dos maiores do mundo. Segundo dados da Sabesp,17% da água distribuída na grande São Paulo é perdida por dia em razão de vazamentos. Em São Paulo são consumidos 4,1 bilhões de litros de água por dia pelas 18,2 milhões de pessoas que estão ligadas à rede de distribuição da Sabesp. O órgão afirma que se o nível de consumo for mantido, o fornecimento só poderá ser garantido na grande São Paulo para os próximos cinco ou seis anos.

O avanço de empreendimentos imobiliários sobre áreas de mananciais nas grandes cidades brasileiras é mais um fator de pressão sobre a oferta de água limpa, que vem a se somar à poluição industrial na degradação da qualidade a nossa água.

Além do consumo humano, a água é ingrediente de muitos produtos, sobretudo nos setores de fármacos, alimentos e bebidas. Outro emprego deste bem pela indústria é na execução de processos industriais, em que o recurso é utilizado para produzir vapor e gerar força motriz, e também em vários processos produtivos ou reações químicas.

Nada mais natural que as empresas paguem pelo uso e sejam responsabilizadas pela preservação deste bem comum. A lei que estabelece a cobrança pelo uso da água pelas empresas tem como objetivos: reconhecer que a água é um bem público de valor econômico; incentivar seu uso racional e sustentável; assegurar recursos financeiros suficientes para aportar programas e intervenções contemplados nos planos de recursos hídricos e saneamento.

Há três anos, a indústria paulista tem estimulado a implantação e desenvolvimento de projetos de reaproveitamento da água, com a promoção do Prêmio Fiesp de Conservação e Reuso da Água. Este ano, a vencedora foi a empresa Lwarcel Celulose e Papel Ltda., que é especializada no fornecimento de celulose branqueada de eucalipto para a indústria papeleira, a partir de matérias-primas de florestas manejadas de forma sustentável.

Em um mundo onde as pessoas já consomem 20% a mais de água do que a capacidade do planeta para recompor suas reservas, a prática de reaproveitamento está se tornando cada dia mais comum e começa a atingir com mais força países como o Brasil, cuja produção hídrica corresponde à cerca de 11,6% da mundial e que até recentemente sequer tinha legislação sobre o tema.

Praticado por empresas na Europa há mais de 50 anos, o reuso, apesar de ainda representar uma porcentagem muito pequena do total consumido no Brasil (cerca de 2%) está se tornando cada dia mais comum nas indústrias do País, principais consumidoras, e atinge desde gigantes multinacionais como a Petrobras, às indústrias de porte menor, como a metalúrgica paulista Inca, que economiza 89,3% do consumo mensal de seus sanitários com o reuso.


Indústrias já pagam pelo uso da água

A falta de consenso entre o setor produtivo e o governo estadual sobre a aplicação dos recursos provenientes da cobrança pelo uso da água no início do processo, no ano passado, fez com que muitos industriais fossem contrários a ela. Mesmo o Brasil dispondo de 13,3% de toda a água própria para consumo , há dois anos o Conselho Nacional de Recursos Hídricos aprovou a proposta de cobrança, elaborada pelos Comitês de Bacia Hidrográfica dos rios Paraíba do Sul e da Bacia dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí. Com a definição de novas diretrizes para o uso destes recursos, a indústria está revendo seu posicionamento, especialmente aquelas estabelecidas nas bacias onde já existe a cobrança.


É o caso da empresa Caterpillar, que está instalada na cidade de Piracicaba e começou a pagar pelo uso da água no ano passado. "Hoje vemos a cobrança como algo necessário, importante para o desenvolvimento de projetos que contemplem planos de recursos hídricos e de saneamento", afirma o engenheiro Silvio Bridi Neto. Para ele, a cobrança teve caráter educativo, já que foi desenvolvido um outro nível de consciência ambiental na empresa. "Criamos um sistema de gerenciamento do recurso hídrico, que inclui a substituição de máquinas, torneiras, canos e vazamentos. Além disso, implantamos um projeto de reuso da água, no qual conseguimos economizar 15% do consumo", explicou.Para Anícia Pio, especialista do Departamento de Meio Ambiente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), ainda é preciso corrigir algumas deficiências na atuação dos comitês de bacias e destinar a eles maior percentual dos recursos arrecadados. "A indústria tem participado desde o início da discussão sobre a cobrança e nossa proposta é que todo dinheiro arrecadado seja investido nas próprias bacias", defende. De acordo com Anícia Pio, estes investimentos devem atender a garantia de qualidade e quantidade para os múltiplos usos da água e não exclusivamente para suprir a ausência de investimentos em saneamento durante décadas.

Lei e suas conseqüências

O Artigo 1º da Lei estabelece que a cobrança pelo uso da água tem como objetivos: reconhecer que a água é um bem público de valor econômico; incentivar seu uso racional e sustentável; assegurar recursos financeiros suficientes para aportar programas e intervenções contemplados nos planos de recursos hídricos e saneamento.

O setor produtivo tem se adiantado às medidas governamentais na adoção de mecanismos voltados ao aproveitamento racional dos recursos hídricos. A própria empresa Caterpillar implantou sistemas de reaproveitamento e de racionalização da água há cerca de três anos, quando a lei ainda era um projeto. A água é ingrediente final de muitos produtos, sobretudo nos setores de fármacos, alimentos e bebidas. Outro emprego deste bem pela indústria é na execução de processos industriais, em que o recurso é utilizado para produzir vapor e gerar força motriz, e também em vários processos produtivos ou reações químicas. A água é usada, ainda, para consumo humano direto (em bebedouros, chuveiros de vestiários, rega de áreas verdes, limpeza das instalações) e para apagar incêndios.


Estímulo

Há três anos, a indústria paulista tem estimulado a implantação e desenvolvimento de projetos de reaproveitamento da água, com a promoção do Prêmio Fiesp de Conservação e Reuso da Água. Este ano, a vencedora foi a empresa Lwarcel Celulose e Papel Ltda., do Grupo Lwart, que é especializada no fornecimento de celulose branqueada de eucalipto para a indústria papeleira, a partir de matérias-primas provenientes de florestas manejadas de forma sustentável. A segunda colocada foi a multinacional Unilever, seguida pela Braskem S.A e, na categoria de pequenas empresas, a vencedora foi a Opersan, que atua como prestadora de serviços de tratamento de efluentes industriais de diversos segmentos, como empresas metalúrgicas e automobilísticas, fabricantes de tintas e outras.

Os programas da Lwarcel incluem a mudança da tecnologia de tambores rotativos para lavadores tipo DDwasher na lavagem da celulose, o reuso da purga das torres de resfriamento, o reuso da água de resfriamento de amostra de condensados e sistema de selagem das bombas de água de alimentação da caldeira de recuperação, o reuso de rejeitos da osmose reversa como parte do fornecimento de água industrial para a fábrica, o reuso de água e energia térmica produzidas no digestor na máquina secadora, o reuso da água de selagem das bombas de vácuo dos lavadores de massa marrom e a redução no consumo de água potável.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Sacolas plásticas

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Comentário da Paula Schuwenck:
Já tem tempo que deixo de pegar sacolinhas em todos os lugares. Para o mercado, compramos duas cestas dobráveis que ficam no porta-malas do carro sem ocupar espaço. Além de não produzir mais lixo, economizo tempo para descarregar as compras em casa. Quando compro algo pequeno e que cabe dentro da bolsa, recuso a sacolinha. Já saí com as mãos cheias de produtos inúmeras vezes, com total estranheza do vendedor. Ontem mesmo, fui com meu filho comprar alguns produtos em um depósito. Recusei a sacolinha e meu filho brincou: "Eu sou a sua sacolinha, mãe. Eu levo."

Podemos mudar hábitos sem nenhum problema.

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A China percebeu isso:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ambiente/ult10007u361542.shtml

Pra quem ainda não leu, deixo o artigo do André Trigueiro:

A farra dos sacos plásticos

O Brasil é definitivamente o paraíso dos sacos plásticos. Todos os supermercados, farmácias e boa parte do comércio varejista embalam em saquinhos tudo o que passa pela caixa registradora. Não importa o tamanho do produto que se tenha à mão, aguarde a sua vez porque ele será embalado num saquinho plástico. O pior é que isso já foi incorporado na nossa rotina como algo normal, como se o destino de cada produto comprado fosse mesmo um saco plástico. Nossa dependência é tamanha, que quando ele não está disponível, costumamos reagir com reclamações indignadas.

Quem recusa a embalagem de plástico é considerado, no mínimo, exótico. Outro dia fui comprar lâminas de barbear numa farmácia e me deparei com uma situação curiosa. A caixinha com as lâminas cabia perfeitamente na minha pochete. Meu plano era levar para casa assim mesmo. Mas num gesto automático, a funcionária registrou a compra e enfiou rapidamente a mísera caixinha num saco onde caberiam seguramente outras dez. Pelas razões que explicarei abaixo, recusei gentilmente a embalagem.

A plasticomania vem tomando conta do planeta desde que o inglês Alexander Parkes inventou o primeiro plástico em 1862. O novo material sintético reduziu os custos dos comerciantes e incrementou a sanha consumista da civilização moderna. Mas os estragos causados pelo derrame indiscriminado de plásticos na natureza tornou o consumidor um colaborador passivo de um desastre ambiental de grandes proporções. Feitos de resina sintética originadas do petróleo, esses sacos não são biodegradáveis e levam séculos para se decompor na natureza. Usando a linguagem dos cientistas, esses saquinhos são feitos de cadeias moleculares inquebráveis, e é impossível definir com precisão quanto tempo levam para desaparecer no meio natural.

No caso específico das sacolas de supermercado, por exemplo, a matéria-prima é o plástico filme, produzido a partir de uma resina chamada polietileno de baixa densidade (PEBD). No Brasil são produzidas 210 mil toneladas anuais de plástico filme, que já representa 9,7% de todo o lixo do país. Abandonados em vazadouros, esses sacos plásticos impedem a passagem da água - retardando a decomposição dos materiais biodegradáveis - e dificultam a compactação dos detritos.

Essa realidade que tanto preocupa os ambientalistas no Brasil, já justificou mudanças importantes na legislação - e na cultura - de vários países europeus. Na Alemanha, por exemplo, a plasticomania deu lugar à sacolamania. Quem não anda com sua própria sacola a tiracolo para levar as compras é obrigado a pagar uma taxa extra pelo uso de sacos plásticos. O preço é salgado: o equivalente a sessenta centavos a unidade.

A guerra contra os sacos plásticos ganhou força em 1991, quando foi aprovada uma lei que obriga os produtores e distribuidores de embalagens a aceitar de volta e a reciclar seus produtos após o uso. E o que fizeram os empresários? Repassaram imediatamente os custos para o consumidor. Além de anti-ecológico, ficou bem mais caro usar sacos plásticos na Alemanha.

Na Irlanda, desde 1997 paga-se um imposto de nove centavos de libra irlandesa por cada saco plástico. A criação da taxa fez multiplicar o número de irlandeses indo às compras com suas próprias sacolas de pano, de palha, e mochilas. Em toda a Grã-Bretanha, a rede de supermercados CO-OP mobilizou a atenção dos consumidores com uma campanha original e ecológica: todas as lojas da rede terão seus produtos embalados em sacos plásticos 100% biodegradáveis. Até dezembro deste ano, pelo menos 2/3 de todos os saquinhos usados na rede serão feitos de um material que, segundo testes em laboratório, se decompõe dezoito meses depois de descartados. Com um detalhe interessante: se por acaso não houver contato com a água, o plástico se dissolve assim mesmo, porque serve de alimento para microorganismos encontrados na natureza.

Não há desculpas para nós brasileiros não estarmos igualmente preocupados com a multiplicação indiscriminada de sacos plásticos na natureza. O país que sediou a Rio-92 (Conferência Mundial da ONU sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente) e que tem uma das legislações ambientais mais avançadas do planeta, ainda não acordou para o problema do descarte de embalagens em geral, e dos sacos plásticos em particular.

A única iniciativa de regulamentar o que hoje acontece de forma aleatória e caótica, foi rechaçada pelo Congresso na legislatura passada. O então deputado Emerson Kapaz foi o relator da comissão criada para elaborar a "Política Nacional de Resíduos Sólidos". Entre outros objetivos, o projeto apresentava propostas para a destinação inteligente dos resíduos, a redução do volume de lixo no Brasil, e definia regras claras para que produtores e comerciantes assumissem novas responsabilidades em relação aos resíduos que descartam na natureza, assumindo o ônus pela coleta e processamento de materiais que degradam o meio ambiente e a qualidade de vida.

O projeto elaborado pela comissão não chegou a ser votado. Não se sabe quando será. Sabe-se apenas que não está na pauta do Congresso. Omissão grave dos nossos parlamentares que não pode ser atribuída ao mero esquecimento. Há um lobby poderoso no Congresso trabalhando no sentido de esvaziar esse conjunto de propostas que atinge determinados setores da indústria e do comércio.

É preciso declarar guerra contra a plasticomania e se rebelar contra a ausência de uma legislação específica para a gestão dos resíduos sólidos. Há muitos interesses em jogo. Qual é o seu?

André Trigueiro é jornalista com Pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, Professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, autor do livro “Mundo Sustentável – Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em transformação” (Editora Globo, 2005), Coordenador Editorial e um dos autores do livro "Meio Ambiente no século XXI", (Editora Sextante, 2003).

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Assista ao Video

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Assista aqui o video do video-chat realizado com o Hugo Penteado.

Apocalipse

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APOCALIPSE

Coletivamente talvez não haja apocalipse algum no futuro, mas separadamente hoje já acontece para várias espécies animais, dentro e fora da indústria, como também já é vivido em vários países inteiros ou em grupos sociais de países ricos ou não. A situação real de um conjunto considerável de seres, se usássemos a lupa deles, tanto do ponto de vista social quanto ambiental e humanitário, é bem próxima de um apocalipse. Eu vejo e sinto isso diariamente, basta andar nas ruas, ler a internet ou saber das histórias das pessoas do meu convívio que eram antes classe média e que não encontram nada para fazer de suas vidas e não é por falta só de capacitação.

Por isso a solução é tão importante, porque já temos um claro indício de resultados negativos profundos e arrasadores pipocando aqui e acolá à nossa volta e fazer uma leitura dessa realidade tem sido uma tarefa muito difícil para todos nós.

Coletivamente pode ocorrer. O fato de eu nunca ter morrido, não significa que eu não vou morrer um dia. E o fato de eu nunca ter morrido também não significa que eu não deva me preocupar com isso. O mesmo vale para o risco da extinção da humanidade que agora vivemos, tudo por conta dos nossos atos diários e das decisões erradas do nosso sistema econômico.

Hugo Penteado

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Cocô e restos humanos

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Revista da Folha/América -- 26/10/08
Cocô e restos humanos

por Sérgio Dávila, de Washington

Você já ouviu falar do problema que a recente ascensão de camadas pobres da população ao mercado consumidor em países emergentes como Brasil, Rússia, Índia e China provocou e deve continuar provocando no suprimento mundial de energia, água, alimentação. Não falta alguma coisa nessa lista? Uma dica: se todo o mundo comer como os americanos comem, então...

Vamos chamar de boom das fezes?

Pois é desse assunto tabu que trata um dos livros mais curiosos lançados no ano. É "The Big Necessity - The Unmentionable World of Human Waste and Why It Matters" (A Grande Necessidade - O Mundo Não Mencionável dos Dejetos Humanos e Por que Ele Importa, Metropolitan Books, 304 págs.), que acaba de chegar às livrarias aqui nos EUA.

Nele, a jornalista britânica Rose George fala de um assunto no qual, como diz o título, poucos ousam tocar. O excremento está acabando com o mundo, e não é pelo motivo que você imagina. Há 2,6 bilhões de pessoas sem qualquer tipo de serviço de esgoto no mundo, quase metade do planeta que, quando precisa ir ao banheiro, faz ali no matinho ou na rua ou na calçada ou nas beiras dos rios.

O cocô humano é um dos mais tóxicos do reino animal. Uma, digamos, "amostra" tem bactérias, vermes, vírus e causa 50 infecções conhecidas. Se contamina a água a ser bebida, provoca, entre outras doenças, diarréia. Essa é a segunda causa de mortandade infantil no mundo, atrás só de problemas respiratórios. Por que todos falam de energia limpa, mas ninguém fala disso?

Rose George acha que a questão é, principalmente, de linguagem. "As pessoas não querem conversar sobre o tema, não temos palavras para tratar do assunto que não sejam tabu (merda), médicas (bolo fecal) ou técnicas (excremento) e já exaurimos as metáforas", escreve. Para a autora, é como se os países desenvolvidos tivessem "dado a descarga" no problema, em parte por achar o tema vexatório.

Ela cita como exemplo o fato de que nenhuma celebridade quer se ligar à causa -com exceção do ator Matt Damon, que milita por sanitários portáteis para a África. Esse foi um dos fatos que o livro dela me revelou.

Alguns outros:

* Na Idade Média, era uma honra ser recebido por um rei enquanto ele estava na privada;

* A invenção da privada adicionou 20 anos ao tempo de vida médio dos humanos; por isso, o "British Medical Journal" considerou o saneamento o maior avanço médico dos últimos dois séculos;

* O Japão era uma civilização do papel e mudou para a água recentemente; há privadas japonesas de milhares de dólares, com dezenas de jatos, controle da temperatura da água quente, desodorantes de ar, medidores de pressão sangüínea, música e até massagem das nádegas;

* Os muçulmanos, que se limpam com água, acham o uso do papel higiênico um dos hábitos mais incompreensíveis e sujos do Ocidente -o choque de civilizações de que fala Samuel Huntington começa na latrina.

Essa é a penúltima coluna antes da perda de poder de fato por George W. Bush, que acontece no dia 4 de novembro, com a eleição do novo presidente; achei que o tema vinha a calhar.

sdavila@folhasp.com.br

sábado, 25 de outubro de 2008

10 pontos cruciais para reescrever o presente

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10 pontos cruciais para reescrever o presente
:: Leonardo Boff - Especial para a Carta Maior ::

Durante a ECO-92 no Rio de Janeiro, 1600 cientistas entre os quais havia 102 Prêmio Nobel de 70 paises lançaram o documento Apelo dos cientistas do mundo à humanidade. Aí diziam:"Os seres humanos e o mundo natural seguem uma trajetória de colisão. As atividades humanas desprezam violentamente e, às vezes, de forma irreversível o meio ambiente e os recursos vitais. Urge mudanças fundamentais se quisermos evitar a colisão que o atual rumo nos conduz". Foi uma voz pronunciada no deserto. Mas agora, no contexto atual, quando os dados empíricos apontam as graves ameaças que pesam sobre o sistema da vida, elas ganham atualidade. Não convém menosprezar o valor daquele apelo.

Podemos alimentar duas atitudes face à crise ecológica: apontar os erros cometidos no passado que nos levaram à presente situação ou resgatar os valores, os sonhos e as experiências que deixamos para trás e que podem ser úteis para a invenção do novo. Prefiro esta segunda atitude. Por isso, importa fazer uma reescritura do momento presente, elencando mais que aprofundando dez pontos cruciais.

O primeiro é resgatar o princípio da re-ligação: todos os seres, especialmente, os vivos, são interdependentes e são expressão da vitalidade do Todo que é o sistema-Terra. Por isso todos temos um destino compartilhado e comum.

O segundo é reconhecer que a Terra é finita, um sistema fechado como uma nave espacial, com recursos escassos.

O terceiro é entender que a sustentabilidade global só será garantida mediante o respeito aos ciclos naturais, consumindo com racionalidade os recursos não renováveis e dar tempo à natureza para regenerar os renováveis.

O quarto é o valor da biodiversidade, pois é ela que garante a vida como um todo, pois propicia a cooperação de todos com todos em vista da sobrevivência comum.

O quinto é o valor das diferenças culturais, pois todas elas mostram a versatilidade da essência humana e nos enriquecem a todos, pois tudo no humano é complementar.

O sexto é exigir que a ciência se faça com consciência e seja submetida a critérios éticos para que suas conquistas beneficiam mais à vida e à humanidade que ao mercado.

O sétimo é superar o pensamento único da ciência e valorizar os saberes cotidianos, das culturas originárias e do mundo agrário porque ajudam na busca de soluções globais.

O oitavo é valorizar as virtualidades contidas no pequeno e no que vem de baixo, pois nelas podem estar contidas soluções globais, bem explicadas pelo efeito borboleta.

O nono é dar centralidade à equidade e ao bem comum, pois as conquistas humanas devem beneficiar a todos e não como atualmente, a apenas 18% da humanidade.

O décimo, o mais importante, é resgatar os direitos do coração, os afetos e a razão cordial que foram relegados pelo modelo racionalista e é onde reside o nicho dos valores.

Estes pontos representam visões humanas que não podem ser desperdiçadas, pois incorporam valores que poderão alimentar novos sonhos, nutrir nosso imaginário e principalmente fomentar práticas alternativas. Somos seres que esquecem e recordam e que sempre podem resgatar o que não pôde ter oportunidade no passado e dar-lhe agora chance de realização. Por ai, quem sabe, encontraremos uma saída para a crucificante crise atual.


Fonte: http://www.ipep.org.br/index.php?artigo=8

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

As boas intenções de Jeffrey Sachs

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O texto do Jeffrey Sachs (ver abaixo) é bem intencionado, mas começa mal já por essa frase direto dos mitos econômicos e da falta de entendimento sobre os resultados e possiblidades do atual modelo de crescimento eterno: "An integrated set of reforms will be needed to achieve sustained economic growth and shared prosperity" (Um conjunto integrado de reformas serão necessários para se obter crescimento econômico sustentado e compartilhar prosperidade). A segunda parte - compartilhar prosperidade - é algo que nunca foi feito, mesmo assim a condição para ser feita é bem clara: "vamos compartilhar a prosperidade, se e somente se, o crescimento for sustentado". Ou seja, isso nunca vai acontecer porque é planetaria e economicamente impossível ter crescimento sustentado e compartilhar é politicamente indesejável.


O medicamento do Sachs é a causa do mal e essa frase revela isso: "global economic growth cannot be sustained without solutions to these [environmental and energy] crises" (crescimento econômico global não pode ser sustentado sem soluções para essas crises ambientais de energia). Além dessa frase partir do mito muito difundido da separação entre economia e meio ambiente, ela adere à falsa noção que enfrentamos apenas um problema de energia, quando na verdade, enfrentamos também um problema de matéria: o espaço planetário é e sempre será finito, tanto em território quanto em serviços ecológicos, não importa quanta energia dispusermos, aliás, a energia é usada para movimentar coisas em espaços.

Na parte do mito da tecnologia que Jeffrey Sachs invoca para manter o crescimento global sustentado, as tecnologias pouco intensivas em recursos são a solução proposta, embora todos nós sabemos que ganhos de eficiência ou ênfase em quocientes (consumo de recursos por unidade produzida) não produziram em lugar nenhum redução do consumo absoluto dos recursos e da pressão sobre os ecossistemas. O efeito sobre os ecossistemas dos ganhos de eficiência são mais que contrabalançados pelo crescimento exponencial da produção. Na verdade, isso é muito simples e esse é um caso verídico: uma empresa XPTO usou tecnologia menos intensiva e reduziu o consumo de recursos naturais em 20%. A sua produção aumentou 500% em 5 anos e o consumo total de recursos - e a pressão sobre a natureza - aumentou, portanto, 400%. Isso é óbvio demais, peço perdão insistir nesse ponto, assim como quando dizemos que o território dos países será sempre constante e que alguém um dia vai ganhar um prêmio Nobel ao lembrar isso.

Boa reflexão do Jeffrey Sachs, mas ainda repleta de mitos e isso evidencia a falta de respostas ou perguntas óbvias sobre a crise socioambiental que será bem mais profunda que essa pequena crise de 2008. As suas preocupações são realmente válidas e resposta clara para solucioná-las ainda não existem, mesmo para os que fazem as perguntas certas. E é bem claro que o ponto de partida para solucionar esses problemas não pode estar na mesma visão de mundo e propostas que os causaram, como por exemplo, a necessidade e a urgência de um crescimento econômico sustentado, onde os resultados planetários e sociais não são sequer mensurados e só são agravados por ele. Esse tipo de proposta só nos faz caminhar na direção do colapso e desse jeito, sem uma avaliação correta da realidade, a humanidade irá realmente entregar o planeta para a vida bacteriana, como previu Roegen.

Hugo Penteado
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Series: A new Bretton Woods

Amid the rubble of global finance, a blueprint for Bretton Woods II

A one-off summit limited to market regulation will not cut it. Durable
reform must also tackle climate change and world poverty

Jeffrey Sachs

The Guardian, Tuesday October 21 2008

The international financial system is broken. An integrated set of reforms will be needed to achieve sustained economic growth and shared prosperity. The G8 leaders of Europe, Japan and the US have agreed on an emergency summit this autumn in New York to revamp the international system - a good idea, provided it initiates a wide-ranging set of changes rather than being a one-off meeting focused on market regulation.

The G8 leaders are keen to start on regulation and that is understandable. Wall Street, the City of London and other financial centres ran wild with undercapitalised borrowing and lending stoked by over-the-top fees and bonuses. Alan Greenspan's Federal Reserve fed the financial bubble with rock-bottom interest rates and regulatory forbearance, when it had the chance to restrain it. And the derivatives market was allowed to become so vast and unwieldy that
there is no clarity as to who owes what to whom in tens of trillions of dollars of credit default swaps and other derivatives.

Risk assessments have been made enterprise by enterprise without consideration of systemic risk. When institutions are "too big to fail", they must be closely supervised so that indeed they don't bring the entire system down when they do, from time to time, fail. And we have learned again that there is no global lender of last resort, only a hodgepodge of individual central banks and treasuries, whose individual actions may be sufficient or not to stem a panic.

The G8 leaders must go well beyond the issues of financial regulation, however. Even before the current crisis, the global economic system was failing in crucial ways. Many poor countries remain cut off from global prosperity, often falling into poverty-induced violence and conflict. These will be still harder hit by the downturn. The global environmental crisis was also worsening, and climate shocks were wreaking havoc with world food supplies. Energy systems were in turmoil as the growing world economy pushed against supply constraints, yet there was no consensus on how to create an energy system compatible with the environmental and economic needs of the planet. These challenges are in desperate need of attention not only on their own merits, but also because global economic growth cannot be sustained without solutions to these crises.

Financial assistance to the poorest countries - a lifeline for more than a billion people - is in tatters. Europe and the US have mobilised around $3 trillion in the past month in guarantees and bail-out funds for the banks but failed to mobilise even one ten-thousandth of that this year to help the world's poorest grow more food in the midst of a massive food-price increase and hunger crisis.

The US has been blind to the millennium development goals (MDGs) on fighting poverty, hunger, and disease. When George Bush addressed the UN in September - supposedly the mid-point in achieving the goals - he mentioned "terror" 31 times while failing to mention the goals even once. All the big donors except Britain - including the US, Japan, France, Germany, Italy, and Canada - are failing to live up to long-standing aid commitments.

The leaders should pause to reflect that there is another little-mentioned international summit scheduled for December in Doha, Qatar, to take up the challenge of financing development. It comes six years after a similar summit in Mexico, at which countries pledged "concrete efforts" to achieve 0.7% of GNP in development assistance - a level of aid none of them have yet fulfilled.

A true Bretton Woods II summit would set a financial framework to achieve urgent global goals in macroeconomic stability, economic development, environmental sustainability and trade for development. All these are vital for long-term sustainable growth, but global goals in all four areas remain unachieved. Summiteers should come with
chequebooks and international commitments in hand.

Here, then, is an agenda for Bretton Woods II. First, we need to restructure global finance, based on an expanded system of capital adequacy standards, financial reporting, system-wide risk management, and new lender-of-last-resort capacities. Derivatives traders, hedge funds, and broker dealers would be brought under regulatory control. The IMF would be empowered to be a true global lender of last resort (as I urged a dozen years ago, warning of the threat of self-fulfilling panics). To make this possible, a small tax on financial transactions - a Tobin tax - would be implemented to expand the IMF's war chest in case of crisis and to fund other urgent
international needs.

Second, the new global financial structure should help to rescue the world from human-induced climate change. A straightforward tax on the carbon content of fossil fuels, levied by all countries, would do the job, and much better than the enormously cumbersome emission-trading system concocted and championed by the same financial engineers who brought us our current banking crisis. Most of the carbon-tax revenues would stay at home in each country, to help finance low-emission technologies. Some would be directed to finance three global public goods: research and development on sustainable energy; transfer of sustainable-energy technology to low-income countries; and climate-change adaptation.

Third, the World Bank should be refocused with clear goals, and accountability for their success. Specifically, the bank should have one overarching assignment: helping the poorest countries achieve the millennium development goals to reduce poverty, hunger and disease. The bank is poorly organised for such leadership today. Like any
bureaucracy, it avoids being held accountable for measurable results. With a tighter focus on the MDGs, the bank should also be supported with much larger financial resources from new revenue sources (such as the Tobin tax), so that the bank can better help the poorest countries expand vital infrastructure (power, roads, water, sanitation and broadband networks).

Fourth, the global trade agenda should be integrated with the finance, and environment objectives. The Doha trade round has failed because the world could not see any urgent reasons for its success. A trade agreement worthy of the effort would do two main things. Importantly, it would help the poorest countries to be more productive so that they can be full participants in the global trading system. "Aid for trade" would help these countries to build the skills, roads, bridges and clean power grids to support increased trade. In addition, global trade would promote environmental sustainability, to help enforce compliance with reduced carbon emissions and protection of endangered biodiversity.

All these reforms are vital for long-term sustainable growth and development. If the political leaders focus only on financial-sector stability, but neglect the long-term problems of energy supplies, climate change, food production, disease control and extreme poverty, then global growth might be restored in the short term, only to succumb quickly to another global bout of rising energy and food prices, and geopolitical instability.

The shortcomings of the existing Bretton Woods institutions, global environmental policies and international trading arrangements have been widely recognised for at least a generation. The current global crisis, and arrival of a new US president in the midst of this unprecedented economic meltdown, may finally mark the moment when the world takes seriously the urgent global economic and environmental agenda that confronts us in this new millennium. A summit in December will be a small step but could be the first meaningful action to steer the world to safety from the dire threats we face.

Jeffrey Sachs is director of the Earth Institute at Columbia University and author of Common Wealth

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Mundo tem que abandonar obsessão por crescimento

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Segue um artigo sobre a publicação recente da revista New Scientist, sobre um dos maiores mitos e uma das idéias mais falsas e inescrupulosas da atualidade: crescimento econômico.

As fundações científicas da teoria do crescimento econômico revelam que além de ser uma teoria falsa, baseada em premissas falsas, como foi descoberto por vários estudiosos há mais de 40 anos, é uma teoria voltada para atender interesses específicos da nossa sociedade, sem se ater sobre seus resultados maléficos, sejam sociais (perda de qualidade de vida e liberdade, péssima distribuição dos ganhos, guerras, etc.) ou ambientais (degradação contínua e suicida dos ecossistemas e seus serviços).

Hugo Penteado

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Sexta, 17 de outubro de 2008, 7h33
Fonte: BBC Brasil

Economia internacional
Revista: Mundo tem que abandonar obsessão por crescimento


Em plena crise global, com governos e mercados preocupados com uma possível recessão mundial, a revista especializada britânica New Scientist foi às bancas nesta semana com uma capa na qual defende que a busca por crescimento econômico está matando o planeta e precisa ser revista.

Em uma série de entrevistas e artigos de especialistas em desenvolvimento sustentável, a revista pinta um quadro em que todos os esforços para desenvolver combustíveis limpos, reduzir as emissões de carbono e buscar fontes de energia renováveis podem ser inúteis enquanto nosso sistema econômico continuar em busca de crescimento.

"A Ciência nos diz que se for para levarmos a sério as tentativas de salvar o planeta, temos que remodelar nossa economia", afirma a revista.

Segundo analistas consultados pela publicação, o grande problema na equação do crescimento econômico está no fato de que, enquanto a economia busca um crescimento infinito, os recursos naturais da Terra são limitados.

"Os economistas não perceberam um fato simples que para os cientistas é óbvio: o tamanho da Terra é fixo, nem sua massa nem a extensão da superfície variam. O mesmo vale para a energia, água, terra, ar, minerais e outros recursos presentes no planeta. A Terra já não está conseguindo sustentar a economia existente, muito menos uma que
continue crescendo", afirma em um artigo o economista Herman Daly, professor da Universidade de Maryland e ex-consultor do departamento para o meio ambiente do Banco Mundial.

Para Daly, o fato de o nosso sistema econômico ser baseado na busca do crescimento acima de tudo, faz com que o mundo esteja caminhando para um desastre ecológico e também econômico, dadas as limitações dos recursos.

"Para evitar este desastre, precisamos mudar nosso foco do crescimento quantitativo para um qualitativo e impor limites nas taxas de consumo dos recursos naturais da Terra", escreve.

"Nesta economia de estado sólido, os valores das mercadorias ainda podem aumentar, por exemplo, por causa de inovações tecnológicas ou melhor distribuição. Mas o tamanho físico dessa economia deve ser mantido em um nível que o planeta consiga sustentar", conclui Daly, que compara a atual economia a um avião em alta velocidade e a
sua proposta a um helicóptero, capaz de voar sem se mover.

Reformar o capitalismo

Mas essas mudanças no sistema não serão fáceis. Em uma entrevista à revista, James Gustav Speth, ex-conselheiro do governo Jimmy Carter (1977-1981) e da ONU, afirma que o movimento ambiental nunca conseguirá vencer dentro do atual sistema capitalista.

"A única solução é reformarmos o capitalismo atual. Os Estados Unidos cresceram entre 3% e 3,5% por um bom tempo. Há algum dividendo deste crescimento sendo colocado em melhores condições sociais? Não. Os Estados Unidos têm que focar em indústrias sustentáveis, necessidades sociais, tecnologias e atendimento médico decente, e não sacrificar isso
para fazer a economia crescer. Eu não defendo o socialismo, mas uma alternativa não-socialista para o capitalismo atual", diz.

Ele também faz críticas ao atual movimento ambientalista.

"A comunidade ambientalista, pelo menos nos Estados Unidos, é muito fraca quando falamos sobre mudança de estilo de vida, consumo e sobre sua relutância em desafiar o crescimento ou o poder das corporações. Nós precisamos de um novo movimento político nos EUA. Cabe aos cidadãos injetarem valores que reflitam as aspirações humanas, e não apenas fazer mais dinheiro", afirmou ele.

Obsessão pelo crescimento

A revista também traz um artigo que discute o argumento de que o crescimento econômico é necessário para erradicar a pobreza e que quanto mais ricos ficam alguns, a vida dos mais pobres também melhora. É a chamada Teoria do Gotejamento.

Segundo Andrew Simms, diretor da New Economics Foundation, em Londres, este argumento, além de "não ser sincero", sob qualquer avaliação, é " impossível".

"Durante os anos 1980, para cada US$ 100 adicionados na economia global, cerca de US$ 2,20 eram repassados para aqueles que estavam abaixo da linha de pobreza. Durante a década de 1990, esse valor passou para US$ 0,60. Essa desigualdade significa que para que os pobres se tornem um pouco menos pobres, os ricos tem que ficar
muito mais ricos", disse.

Segundo ele, isto pode até parecer justo para alguns, mas não é sustentável.

"A humanidade está indo além da capacidade da biosfera sustentar nossas atividades anuais desde meados dos anos 1980. Em 2008, nós ultrapassamos essa capacidade anual em 23 de setembro, cinco dias antes do ano anterior".

Ele ainda afirma ser impossível que um dia toda a humanidade tenha o padrão de vida dos países desenvolvidos.

"Seriam necessários pelo menos três planetas Terra para sustentar essas necessidades se todos vivessem nos padrões da Grã-Bretanha. Cinco se vivêssemos como os americanos".

Para Simms, a Terra estaria inabitável há muito tempo antes que o crescimento econômico pudesse erradicar a pobreza.

Para que o mundo possa ter uma economia ecologicamente sustentável, segundo Simms, é preciso acabar com o preconceito de alguns em relação ao conceito de "redistribuição", que, para ele, é o único modo viável de acabar com a pobreza.

"Só foi preciso alguns dias para que os governos da Grã-Bretanha e dos EUA abandonassem décadas de doutrinas econômicas para tentar resgatar o sistema financeiro de um colapso. Por que tem que demorar mais para introduzirem um plano para deter o colapso do planeta trazido por uma conduta irresponsável e ainda mais perigosa chamada
obsessão pelo crescimento?", explicou.

http://br.invertia.com/noticias/noticia.aspx?idNoticia=200810171033_BBB_77553273

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Se o Gabeira ganhar

Martha Medeiros

"Sempre fomos amigos, ele é uma pessoa capaz e não pretendo vencer a qualquer preço."

O autor dessa frase é Fernando Gabeira, avisando que não engrossará o tom da campanha para enfrentar Eduardo Paes no segundo turno pela prefeitura do Rio.

Infelizmente, algumas mulheres e homens íntegros costumam dar férias para sua integridade durante campanhas eleitorais.

Nessa hora, todo mundo vira leão e quer devorar o outro.

Imagine um candidato admitir, antes do resultado final, que o adversário é um homem capaz.

Por essas e outras é que a grande novidade desta eleição foi a votação expressiva de Gabeira, a despeito de todos os preconceitos que poderiam barrar a alavancagem de sua candidatura.

Isso, por si só, já é uma vitória do Brasil - não só do Rio de Janeiro.

Se Gabeira ganhar, será a prova de que o brasileiro está votando de forma mais consciente e que cansou de ficar se lamentando em balcão de bar, repetindo a ladainha de que político é tudo igual.

Se Gabeira ganhar, saberemos que existe uma parcela da população que não tem medo de quem possui uma mentalidade aberta e que está apostando em novos horizontes, em quem tem experiência não só política, mas de vida.

Se Gabeira ganhar, finalmente teremos em um cargo público um homem que conversa com o eleitor feito gente grande, dizendo exatamente o que pensa,em vez de apelar para discursos fleumáticos e repetitivos, entulhado de jargões.

Se Gabeira ganhar, vai ser a recompensa merecida por ele ter peitado Severino Cavalcanti, dando nele um cala-boca que todos nós gostaríamos de ter dado na ocasião do "mensalinho".

Se Gabeira ganhar, não será apenas o deputado federal que assumirá o cargo,mas também o escritor e jornalista que tantas vezes defendeu as liberdades individuais, os direitos humanos, as formas alternativas de viver em sociedade e que possui uma consciência ecológica que vem de muito antes disso virar moda.

Muitos políticos - inclusive Fogaça e Maria do Rosário, que disputarão o segundo turno aqui em Porto Alegre - já eliminaram a pose de super-heróis e a prosa característica dos "profissionais" do ramo, aqueles que dizem apenas o que o eleitor quer ouvir, sem compromisso com a viabilidade do que está sendo dito.

Mas Fernando Gabeira, pela projeção nacional que tem e pela cidade problemática que pretende governar, é o fato eleitoral de 2008.

É interesse de todos que o Rio resolva suas dificuldades, e que a política brasileira espane a caretice e ganhe um perfil mais corajoso e cosmopolita.

Se ele será um bom prefeito, caso vença?

Não tenho bola de cristal.

Mas ter superado a desconfiança diante da sua biografia incomum já é motivo para comemorarmos.

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terça-feira, 21 de outubro de 2008

Palestra - Semana Estado de Jornalismo

Palestra do Hugo Penteado dia 29/10, ás 14h, no Estadão, evento fechado.

Desde 2006, o Banco Real patrocina O Prêmio Banco Real Jovem Jornalista, vinculado à Semana Estado de Jornalismo. O prêmio estimula a reflexão e o debate a jovens estudantes de jornalismo sobre as possibilidades da profissão e a preparação para o mercado de trabalho. Cerca de 250 estudantes participam de cada Semana, totalizando 1000 inscrições ao ano. No final de cada Semana, os alunos enviam uma matéria para jornal impresso, sobre temas ligados à questão da sustentabilidade. Os 16 melhores trabalhos são premiados com computadores pessoais e a melhor matéria do ano ganha uma bolsa de estudos para a Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra, na Espanha.

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US$ 700 bilhões contra a pobreza

Texto excelente, só faltou dizer que o planeta é finito e que para qualquer meta, por mais honrosa que seja, como a erradicação da pobreza, se anula inevitavelmente se não reconhecermos isso. Mesmo assim, Oded Grajel faz um ponto certeiro no seu texto abaixo, pois a questão social está ainda muito antes disso na mente das pessoas, como ele brilhantemente mostrou pelas prioridades dos políticos e pelas manobras de campanha.

Aqui no Brasil os exemplos são abundantes. No que diz respeito a financiamento privado das campanhas, temos a situação aterradora de empresas estatais de saneamento básico promovendo serviços que não são feitos para outras empresas públicas, como presídios, a um custo altíssimo claro com uma poluição incansável de esgoto lançado por minuto em rios e riachos que abastecem cidadãos brasileiros, apenas para fazer caixa de campanha (ou outras coisitas tais que nossos políticos inconscientes praticam sem medo...). Ah, detalhe: isso não está acontecendo em Moruns, onde não há presença do Estado nos conchinchins da Amazônia, mas na Grande São Paulo, cidade mais rica do Brasil!!!!!

Hugo

Folha de São Paulo – 12/10/2008

US$ 700 bilhões contra a pobreza

ODED GRAJEW
Que "caia a ficha": não há ausência de idéias ou de recursos para acabar com as mazelas sociais. O que falta é vontade política

O GOVERNO norte-americano solicitou e obteve, em regime de urgência, autorização do Congresso para usar US$ 700 bilhões a fim de salvar o sistema financeiro.

Essa montanha de dinheiro estava disponível, da mesma forma como está disponível o montante de dólares -aproximadamente US$ 1 trilhão- investido anualmente pelos países em armas e operações militares.

Ao mesmo tempo, dois bilhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza no mundo. A ONU estima que aproximadamente US$ 150 bilhões anuais seriam necessários para atingir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM). Estabelecidos em 2000, prevêem para 2015 acabar com a fome e reduzir drasticamente a pobreza, as mazelas sociais e a degradação ambiental. Nem a metade dos recursos necessários foi até agora arrecadada. Conseqüentemente, prevê-se que as metas não serão atingidas.

Para todos os que se preocupam com as questões sociais e ambientais, é fundamental que "caia a ficha". Não há carência de idéias nem ausência de recursos para acabar com as mazelas sociais e proporcionar uma vida digna a todos os habitantes do planeta e assegurar o desenvolvimento sustentável às futuras gerações. O problema é a falta de vontade política da maioria dos governantes.
Tenho confirmado em inúmeras ocasiões essa constatação. A título de ilustração, posso citar dois acontecimentos que presenciei.

O primeiro deles ocorreu em 2005 por ocasião da Assembléia Geral da ONU. Cento e vinte chefes de Estado e representantes governamentais se reuniram para avaliar o andamento dos ODM, bem abaixo da expectativa.

Todos os governantes que falaram foram surpreendentemente francos, fizeram uma autocrítica e reconheceram unanimemente que o problema não é falta de recursos nem de idéias, mas apenas falta de vontade política.

A segunda ocasião também foi na ONU, num encontro de representantes da sociedade civil com Michel Camdessus, diretor-geral do FMI na época. De forma assustadoramente sincera, ele nos confessou que fora surpreendido alguns dias antes pelo presidente da Indonésia com uma pergunta sobre a melhor forma de combater a pobreza no seu país. Como não soube responder, porque nunca se debruçara sobre essa questão, queria os nossos conselhos.

A vontade política da maioria dos governantes (com poucas e honrosas exceções) não é exercida nos assuntos que não afetam diretamente a eles ou aos financiadores de suas campanhas.

Eles não vivem na pobreza, não passam fome nem participam pessoalmente das guerras que declaram.
No entanto, agem rapidamente para combater a crise financeira que atinge diretamente suas vidas. No Brasil -onde há uma das maiores cargas tributárias do mundo-, os serviços públicos são de tão baixa qualidade que a maioria dos governantes e financiadores de campanha não os utilizam.

Aposto que a vontade política de melhorar educação, saúde e transporte público aumentaria consideravelmente se fossem utilizados por eles e suas famílias. Por isso é tão importante uma reforma política que elimine o financiamento privado das campanhas eleitorais e estimule a participação ativa da sociedade no acompanhamento do debate e da execução dos orçamentos públicos.

Será que estamos condenados a agir apenas após as grandes catástrofes, que, pela sua dimensão, acabam atingindo a todos? Nunca, em toda a história da humanidade, foi tão necessário agir preventivamente.

Aumenta a cada dia a distância entre ricos e pobres. Estamos esgotando rapidamente os recursos naturais. A humanidade está consumindo 50% a mais do que o planeta é capaz de repor. Estamos acabando com as florestas, envenenando rios, mares e o ar que respiramos. O aquecimento global já provoca grandes mudanças climáticas, derrete as calotas polares e eleva o nível dos oceanos.

Temos recursos e tecnologia para acabar com a fome e a pobreza, mudar a matriz energética e produzir produtos e serviços de baixo impacto ambiental. Os meios de comunicação, de informação e a indústria cultural têm poder para mudar, para melhor, comportamentos, prioridades e valores.

Será que devemos esperar novamente uma grande e, talvez, definitiva catástrofe para mobilizar todos esses recursos e só então trocar nosso insano modelo de crescimento por um outro que vise o desenvolvimento econômico, social e ambientalmente sustentável? Tomara que não. Depende de todos e de cada um de nós.

ODED GRAJEW, 64, empresário, é um dos integrantes do Movimento Nossa São Paulo e presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social. É idealizador do Fórum Social Mundial e idealizador e ex-presidente da Fundação Abrinq. Foi assessor especial do presidente da República (2003).

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segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Especialistas analisam as possíveis conseqüências da crise financeira no meio ambiente

15/10/2008

Pode ser lido aqui: http://www.amazonia.org.br/noticias/noticia.cfm?id=288371

Ambientalistas especulam sobre o combate ao aquecimento global e os investimentos em tecnologia verde

Bruno Calixto

A crise financeira, que já levou grandes bancos norte-americanos e europeus à falência, começa a preocupar e gerar análises de seus impactos para o futuro do combate às mudanças climáticas, ao financiamento de novas fontes de energia e esforços para a sustentabilidade.

Na última terça-feira (14), por exemplo, o ministro do Meio Ambiente Carlos Minc procurou tranqüilizar ao afirmar que a crise não deve prejudicar doações ao Fundo da Amazônia. Na semana anterior, Minc já tinha dito disse que a crise pode diminuir o desmatamento da Amazônia.

"Minc tem razão, existe uma relação clara do preço das commodities com o desmatamento", diz o cientista político e editor do site O Eco Sérgio Abranches. Segundo ele, a safra do boom de produção dos grãos irá coincidir com a recessão do mercado e uma parte da safra não será vendida, diminuindo a pressão por novas terras e expansão da fronteira agrícola.

Abranches alerta, no entanto, que existe uma parte do desmatamento que não está relacionada ao mercado de commodities, como o desmatamento que avança nas Unidades de Conservação e Assentamentos da Reforma Agrária. Além disso, essa queda de desmatamento não irá resolver o problema. "Apenas sairemos de um patamar intolerável para um menos, mas ainda ruim".

Já o economista Hugo Penteado, autor do livro Ecoeconomia – Uma nova Abordagem, não acredita que exista essa relação entre a crise econômica e a climática. "A crise não tem relevância alguma para resolver a péssima relação existente entre o nosso sistema econômico e a natureza do qual tudo depende. Isso é um equívoco tremendo, quando os cientistas dizem que o desaquecimento econômico pode dar uma trégua para o aquecimento global, apenas reconhecem o conflito existente entre o sistema econômico-humano".

O economista também rebate a teoria de que a crise pode implicar em um retrocesso nas políticas ambientais, por acreditar que esse argumento tem duas falhas. "A primeira é achar que as políticas ambientais passaram por algum progresso. Justamente o contrário, estamos cada vez mais vorazes em relação à extração de combustíveis fósseis, no pré-sal, nas estepes russas, no fundo dos oceanos e agora, graças ao degelo mais freqüente, do Ártico".

A segunda falha, segundo ele, é pensar que a crise é uma razão para justificar retrocessos na política ambiental. "Esse argumento assume que para resolvermos o problema ambiental, precisamos estar com a economia em dia, como se economia e meio ambiente estivessem separados", explica.
Penteado acredita que estamos vivendo uma crise mais profunda do que imaginamos e que ela é resultado de um sistema econômico e financeiro que "virou um fim em si mesmo, quando na verdade deveria estar voltado para atender as pessoas, manter sociedades em equilíbrio entre si e de todos com o planeta".

Combate ao aquecimento global
"Os esforços econômicos, em qualquer tempo ou circunstância, sempre ofuscaram o combate ao dano ambiental, seja no caso particular do aquecimento global ou em qualquer outra área", diz Penteado. As críticas a ausência de recursos para resolver o passivo ambiental veio à tona quando países de todo o mundo injetaram bilhões de dólares para tentar reverter a crise econômica. Na última terça-feira, em evento em São Paulo , o presidente do Instituto Ethos, Oded Grajew, exemplificou essa questão, lamentando que enquanto as metas do milênio prevêem, para a sustentabilidade, 160 bilhões de dólares, já foram gastos dois trilhões no sistema financeiro.

Sérgio Abranches argumenta que, a curto prazo, o combate ao aquecimento global ficará comprometido, mas se diz otimista com o futuro. O cientista político explica que existe hoje uma "bolha verde", isto é, um excesso em investimentos em tecnologias e projetos que se dizem verdes e sustentáveis, sem grandes critérios que indiquem que o projeto em questão é de fato bom. "Devem acontecer mudanças importantes no desenho econômico após a recessão. No futuro, vai predominar a escolha por energia renovável. Os investimentos se tornarão mais seletivos".

Investimentos
Abranches acredita que hoje existe muito investimento em projetos de má qualidade, principalmente no setor de álcool nos Estados Unidos, e espera que essa seletividade melhore a perspectiva para os biocombustíveis de segunda geração. "É preocupante o fato de o Brasil não estar levando muito a sério os biocombustíveis de segunda geração, achando que as vantagens da cana-de-açúcar vão persistir".

"O tipo de emprego gerado no bicombustível de segunda geração é de muito melhor qualidade que no canavial", diz Abranches, explicando que uma das vantagens da tecnologia verde é a geração de empregos de boa qualidade para o trabalhador.

Hugo Penteado critica a visão de que os investimentos em desenvolvimento sustentável e energia limpa podem ser prejudicados com a crise. O economista considera essa opinião como mais uma derivação no mito da separação da economia e meio ambiente, e levanta alguns pontos para debate, como a métrica que utilizamos para medir o crescimento econômico.

"Nossa métrica estimula a devastação, destruição e contaminação do meio ambiente e da vida das pessoas, com impacto nulo no fluxo das riquezas produzidas ou no PIB [Produto Interno Bruto] e, para consertar o estrago, isso produz uma atividade e um impacto positivo no PIB. Ou seja, temos uma métrica que se adapta bem ao modelo mental ou conjunto de interesses que regem a nossa sociedade: a economia que é um fim em si mesma, cria problemas que são resolvidos depois, ao invés de termos uma tecnologia que evite problemas, usamos para consertar problemas criados", analisa. Penteado explica que, na métrica dominante hoje, uma árvore só tem valor quando derrubada ao chão, e conclui: “todos nós estamos no mesmo prédio. Ou a gente reconstrói os pilares – sociedade e meio ambiente - ou vamos desabar todos juntos. É o fim do poder ou o início de um novo paradigma".

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domingo, 19 de outubro de 2008

Soberania alimentar e a agricultura

Saiu na folha hoje. Conta só uma parte da história. Por isso, hoje, 90% dos meus alimentos são naturais, orgânicos e de cooperativas. Produtos sem marca é minha prioridade de consumo, ficar longe de grandes redes e supermercados idem, porque elas não respeitam as economias locais e destroçam as pequenas lojas e pequenos comércios no qual gerações de famílias se mantinham e hoje ficaram sem nada. Enquanto as empresas não tiverem um contrato social, não dá para continuar participando dessa que é hoje a maior destruição social e ambiental da história humana na Terra.

Hugo Penteado

16 de outubro é o Dia Nacional da Alimentação



TENDÊNCIAS/DEBATES

Soberania alimentar e a agricultura

JOÃO PEDRO STEDILE e TOMÁS BALDUINO



Atualmente, não mais do que 30 conglomerados transnacionais controlam toda a produção e o comércio agrícola mundial


EM 1960 , havia 80 milhões de seres humanos que passavam fome em todo o mundo. Um escândalo! Naquela época, Josué de Castro, que agora completaria 100 anos, marcava posição com suas teses, defendendo que a fome era conseqüência das relações sociais, não resultado de problemas climáticos ou da fertilidade do solo.
O capital, com as suas empresas transnacionais e o seu governo imperial dos Estados Unidos, procurou dar uma resposta ao problema: criou a chamada Revolução Verde. Ela foi uma grande campanha de propaganda para justificar à sociedade que bastava "modernizar" a agricultura, com uso intensivo de máquinas, fertilizantes químicos e venenos. Com isso, a produção aumentaria, e a humanidade acabaria com a fome.
Passaram-se 50 anos, a produtividade física por hectare aumentou muito e a produção total quadruplicou em nível mundial. Mas as empresas transnacionais tomaram conta da agricultura com suas máquinas, venenos e fertilizantes químicos. Ganharam muito dinheiro, acumularam bastante capital e, com isso, houve uma concentração e centralização das empresas. Atualmente, não mais do que 30 conglomerados transnacionais controlam toda a produção e comércio agrícola.
Quais foram os resultados sociais?
Os seres humanos que passam fome aumentaram de 80 milhões para 800 milhões. Só nos últimos dois anos, em função da substituição da produção de alimentos por agrocombustíveis, de acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), aumentou em mais 80 milhões o número de famintos. Ou seja, agora são 880 milhões.
Nunca a propriedade da terra esteve tão concentrada e houve tantos migrantes camponeses saindo do interior e indo para as metrópoles e mudando de países pobres para a Europa e os Estados Unidos. Somente neste ano, a Europa prendeu e extraditou 200 mil imigrantes africanos, a maioria camponeses. Há oito milhões de trabalhadores agrícolas mexicanos nos Estados Unidos. Setenta países do hemisfério sul não conseguem mais alimentar seus povos e estão totalmente dependentes de importações agrícolas. Perderam a auto-suficiência alimentar, perderam sua autonomia política e econômica.
O pior é que, em todos os países do mundo, os alimentos chegam aos supermercados cada vez mais envenenados pelo elevado uso de agrotóxicos, provocando enfermidades, alterando a biodiversidade e causando o aquecimento global. Isso acontece porque as empresas transnacionais padronizaram os alimentos para ganhar em escala e lucros. Os alimentos devem ser produzidos de acordo com a natureza, com a energia do habitat.
A comida não pode ser padronizada, uma vez que faz parte de nossa cultura e de nossos hábitos. Diante disso, qual é a saída? O Estado, em nome da sociedade, deve desenvolver políticas públicas para proteger a agricultura, priorizando a produção de alimentos. Cada município, região e povo precisa produzir seus próprios alimentos, que devem ser sadios e para todos. Assim nos ensina toda a historia da humanidade. A lógica do comércio e intercâmbio dos alimentos não pode se basear nas regras do livre mercado e no lucro, como pretende impor a OMC.
Por isso, consideramos o alimento um direito de todo ser humano, e não uma mercadoria, como, aliás, já defende a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Cada povo e todos os povos devem ter o direito de produzir seus próprios alimentos. Isso se chama soberania alimentar. Não basta dar cesta básica, dar o peixe. Isso é a segurança alimentar, mas não é soberania alimentar. É preciso que o povo saiba pescar!
No Brasil, com um território e condições edafoclimáticas tão propícias, não temos soberania alimentar. Importamos muitos alimentos, do exterior e entre as regiões do país. Mesmo em nossas "ricas" metrópoles, o povo depende de programas assistenciais do governo para se alimentar. A única forma é fortalecer a produção dos camponeses, dos pequenos e médios agricultores, que demandam muita mão-de-obra e têm conhecimento histórico acumulado.
A chamada agricultura industrial é predadora do ambiente, só produz com agrotóxicos. É insustentável a longo prazo.

Por isso, neste 16 de outubro, Dia Mundial da Alimentação, as organizações camponesas, movimentos de mulheres, ambientalistas e consumidores faremos manifestações em o todo mundo para denunciar problemas e apresentar propostas para que a humanidade, enfim, resolva o problema da fome no mundo.


JOÃO PEDRO STEDILE , 54, economista, integrante da coordenação nacional do MST e da Via Campesina.
DOM TOMÁS BALDUINO
, 85, mestre em teologia, bispo emérito da Diocese de Goiás, é conselheiro permanente da CPT (Comissão da Pastoral da Terra), órgão vinculado à CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).


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sábado, 18 de outubro de 2008

Mudança de atitude

De acordo com os cientistas, a situação planetária é muito séria. Apesar disso, no campo da economia, as visões da realidade só contribuem para agravar tanto a situação planetária quanto a pobreza. Tudo isso com mais desigualdade e menos bem estar e qualidade de vida. Essa teoria econômica falsa, baseada em premissas erradas, tem o poder de causar um estrago ambiental monumental, lado a lado com resultados sociais tremendamente ruins.

É inegável que os resultados socioambientais da aplicação prática do conhecimento econômico são bem diferentes do que pregam os economistas. A explicação está no erro epistemológico de uma teoria econômica baseada em premissas que não correspondem mais à realidade física e planetária à nossa volta. Esse erro foi reconhecido formalmente na década de 70, através da crítica nunca refutada de Nicholas Georgescu-Roegen (1906-1994). Os economistas adotam nos seus modelos um sistema econômico, que se fosse um bicho, não teria boca nem estômago (de onde vem os recursos pouco importa) e não teria intestino ou reto (para onde vão os resíduos são irrelevantes). Essa visão de mundo gerou um ataque ao planeta sem precedentes com destruição contínua dos ecossistemas, das florestas e com processos degenerativos impressionantes. As duas maiores consequências desse estrago são o aquecimento global e a maior extinção da vida planetária dos últimos 65 milhões de anos. E esses não são os dois únicos problemas, mas parte deles apenas.

O mito mecanicista introduz a idéia de reversibilidade e neutralidade nos processos econômicos estudados pelos economistas e que resultam em proposições de política econômica voltadas para o crescimento eterno, que além de produzirem as piores decisões, como as guerras e a crise financeira dos Estados Unidos, esbarram na limitação óbvia do planeta. Não podemos negar que pelo menos em território os países são finitos e sobre os quais não se pode adicionar coisas, pessoas e casas infinitamente. Sabemos hoje que a finitude ecológica e planetária é muito maior que isso.

Os ecossistemas funcionam como reguladores químicos da atmosfera, do solo, são estabilizadores do clima e da regeneração da água entre vários serviços que a natureza nos presta livremente. Poderíamos até sonhar com isso, mas os ecossistemas não estão aí apenas para serem transformados em áreas agrícolas ou atividades humanas, nem para serem comidos, como mencionou Blairo Maggi. Eles existem para exercer funções vitais sem a qual nada irá sobreviver nesse planeta. Não há um só exemplo de civilização ou sociedade que não tenha entrado em colapso ao ter comido os seus ecossistemas além da sua capacidade de sustentação da vida. Esse colapso, onde e quando ocorreu, foi horrendo e muitas sociedades terminaram em matança ou canibalismo ou morte em massa.

Ainda segundo Roegen, o mito mecanicista não é o único erro das teorias econômicas. O segundo, o mito tecnológico, assume a possibilidade do ser humano produzir fatores materiais em substituição aos da natureza e isso é um absurdo negado pela física, porque tudo à nossa volta é matéria e energia e o ser humano não produz nenhum dos dois. Através desse mito, os economistas brincam de faz de conta achando que o planeta é inesgotável e por essa razão suas principais variáveis são todas elas fluxos, jamais estoques. Eles diriam: "para que olhar estoques se o mundo é inesgotável?" O mito tecnológico que surgiu a partir da teoria do crescimento de Robert Solow se afina muito bem ao modelo mental no qual ao invés de evitarmos problemas, tentamos solucioná-los com nossas tecnologias. Funciona bem também com um dos piores indicadores jamais inventados: o PIB, para o qual guerras, desastres naturais, contaminações, destruição e matança não geram impacto nenhum, ao contrário, toda a atividade necessária para consertar o estrago depois é extremamente positiva para aumentar o fluxo do PIB.

Está mais do que na hora dos economistas possuírem um entendimento multidisciplinar das suas idéias que produzem decisões políticas diariamente, pois manter o sistema econômico do descarte imediato dos bens e do desperdício, linear, degenerativo e infinito, dependente de um outro sistema dominante, o planeta, que é circular, regenerativo e finito significa produzir mazelas ambientais crescentes ou até o ponto de serem intransponíveis. Nas palavras dos paleontólogos, é muita ingenuidade achar que a extinção agora em curso jamais irá se voltar contra os causadores.

Até agora o ataque ao planeta é justificado pelos tão venerados resultados sociais, os governos de países atrasados como o Brasil não aceitam restrições a esse ataque e se justificam através do que os países ricos já fizeram. Sem querer, eles apenas confirmam um fato há muito sabido por todos: os países ricos só se tornaram ricos sem causar um colapso planetário porque fizeram isso sozinhos. Quando todos seguirem a mesma rota, não iremos a lugar algum e a discussão irá terminar no valhala imaterial. Precisamos de uma proposta diferente que requer apoio e financiamento dos países líderes, para entrar no debate internacional de forma inteligente, do contrário seremos anti-éticos, pois os maus atos não justificam os de ninguém.

Os resultados sociais do crescimento suicida até agora se mostraram ausentes e incapazes de se sustentar por si só. O crescimento tornou-se um fim em si mesmo e o aumento de empregos que ele produz, dentro de uma desigualdade e submissão inequívocas, só se sustenta com mais crescimento. Esse resultado tautológico do crescimento cego dentro de um planeta finito tem produzido apenas concentração de riqueza recorde principalmente nos países mais ricos, não foi capaz de remover a pobreza e a falta de paz entre as nações e tem produzido resultados sociais tão ruins, que é totalmente inescrupuloso alguém defender que essa é a única forma de resolver nossos problemas. É inescrupuloso, pelos resultados observados, mesmo se fizéssemos de conta que o crescimento não estivesse em rota de colisão com a Terra.

Está na hora de uma mudança real e não de retoques no nosso sistema que é a base de sustentação de todos. A crise financeira dos Estados Unidos deixou bem claro que esse modelo não tem resistência nenhuma. Não podemos mais confiar em uma economia que é um fim em si mesma, ao invés de ser um instrumento para melhorar a vida de todos os seres vivos, com a harmonia entre as nações e de todos com o planeta. Idéias novas para isso já surgiram, revogar o conflito do sistema econômico na parte ambiental é uma questão de mera decisão política. Revogar a pobreza e a escravidão disfarçada que vigora nos quatro cantos desse planeta é apenas uma questão de solidariedade. Só falta fazer isso, ao invés de esperar pelo colapso inevitável das péssimas decisões que tomamos com base em um conjunto de valores inútil, baseado na ignorância do que já sabemos e numa teoria econômica falsa que reina soberana sobre todo o enorme conhecimento científico em redor, que não pode nem deve mais ser ignorado.

Hugo Penteado

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sexta-feira, 17 de outubro de 2008

A cara antidemocrática do capitalismo

A liberalização financeira teve efeitos para muito além da economia. Há muito que se compreendeu que era uma arma poderosa contra a democracia. O movimento livre dos capitais cria o que alguns chamaram um “parlamento virtual” de investidores e credores que controlam de perto os programas governamentais e “votam” contra eles, se os consideram “irracionais”, quer dizer, se são em benefício do povo e não do poder privado concentrado.

Noam Chomsky - Sin Permiso

O desenvolvimento de uma campanha presidencial norte-americana simultaneamente ao desenlace da crise dos mercados financeiros oferece uma dessas ocasiões em que os sistemas político e econômico revelam vigorosamente sua natureza. Pode ser que a paixão pela campanha não seja uma coisa universalmente compartilhada, mas quase todo mundo pode perceber a ansiedade desencadeada pela execução hipotecária de um milhão de residências, assim como a preocupação com os riscos que correm os postos de trabalho, as poupanças e os serviços de saúde. As propostas iniciais de Bush para lidar com a crise fediam a tal ponto a totalitarismo que não tardaram a ser modificadas. Sob intensa pressão dos lobbies, foram reformuladas “para o claro benefício das maiores instituições do sistema...uma forma de desfazer-se dos ativos sem necessidade de fracassar ou quase”, segundo descreveu James Rickards, que negociou o resgate federal por parte do fundo de cobertura de derivativos financeiros Long Term Capital Management em 1998, lembrando-nos de que estamos caminhando em terreno conhecido. As origens imediatas do desmoronamento atual estão no colapso da bolha imobiliária supervisionada pelo presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan, que foi quem sustentou a coitada da economia dos anos Bush, misturando o gasto de consumo fundado na dívida com a tomada de empréstimos do exterior. Mas as razões são mais profundas. Em parte, fala-se no triunfo da liberalização financeira dos últimos 30 anos, quer dizer, nas políticas consistentes em liberar o máximo possível os mercados da regulação estatal. Como era previsível, as medidas tomadas a esse respeito incrementaram a frequência e a profundidade dos grandes reveses econômicos, e agora estamos diante da ameaça de que se desencadeie a pior crise desde a Grande Depressão. Também era previsível que os poucos setores que cresceram com os enormes lucros oriundos da liberalização demandariam uma intervenção maciça do estado, a fim de resgatar as instituições financeiras colapsadas. Esse tipo de intervencionismo é um traço característico do capitalismo de estado, ainda que na escala atual seja inesperado. Um estudo dos pesquisadores em economia internacional Winfried Ruigrok e Rob van Tulder descobriu, há 15 anos, que pelo menos 20 companhias entre as100 primeiras do ranking da revista Fortune, não teriam sobrevivido se não tivessem sido salvas por seus respectivos governos, e que muitas, entre as 80 restantes, obtiveram ganhos substanciais através das demandas aos governos para que “socializassem suas perdas”, como hoje o é o resgate financiado pelo contribuinte. Tal intervenção pública “foi a regra, mais que a exceção, nos dois últimos séculos”, concluíram. Numa sociedade democrática efetiva, uma campanha política teria de abordar esses assuntos fundamentais, observar as causas e os remédios para essas causas, e propor os meios através dos quais o povo que sofre as conseqüências pudessem chegar a exercer um controle efetivo. O mercado financeiro “despreza o risco” e é “sistematicamente ineficiente”, como escreveram há uma década os economistas John Eatwell e Lance Taylor, alertando sobre os gravísimos perigos que a liberalização financeira engendrava, e mostrando os custos em que já se tinha incorrido. Ademais, propuseram soluções que, deve-se dizer, foram ignoradas. Um fator de peso é a incapacidade de calcular os custos por parte daqueles que não participam dessas transações. Essas "externalidades" podem ser enormes. A ignorância do risco sistêmico leva a uma maior aceitação de riscos do que se daria numa economia eficiente, e isso adotando, inclusive, os critérios menos exigentes. A tarefa das instituições financeiras é arriscar-se e, se são bem gestionadas, assegurar que as potenciais perdas em que elas mesmas podem incorrer serão cobertas. A ênfase há que pôr-se “nelas mesmas”. Segundo as regras do capitalismo de estado, levar em conta os custos que para os outros possam ter – as “externalidades” de uma sobrevivência decente – umas práticas que levem, como espectro, a crises financeiras é algo que não lhes diz respeito. A liberalização financeira teve efeitos para muito além da economia. Há muito que se compreendeu que era uma arma poderosa contra a democracia. O movimento livre dos capitais cria o que alguns chamaram um “parlamento virtual” de investidores e credores que controlam de perto os programas governamentais e “votam” contra eles, se os consideram “irracionais”, quer dizer, se são em benefício do povo e não do poder privado concentrado. Os investidores e credores podem “votar” com a fuga de capitais, com ataques às divisas e com outros instrumentos que a liberalização financeira lhes serve de bandeja. Essa é uma das razões pelas quais o sistema de Bretton Woods, estabelecido pelos EUA e pela Grã Bretanha depois da II Guerra Mundial, instituiu controle de capitais e regulou o mercado de divisas (1). A Grande Depressão e a Guerra puseram em marcha poderosas correntes democráticas radicais que iam desde a resistência antifascita até as organizações da classe trabalhadora. Essas pressões tornaram possível que se tolerassem políticas sociais democráticas. O sistema Bretton Woods foi, em parte, concebido para criar um espaço no qual a ação governamental pudesse responder à vontade pública cidadã, quer dizer, para permitir certa democracia. John Maynard Keynes, o negociador britânico, considerou o direito dos governos a restringir os movimentos de capitais a mais importante conquista estabelecida em Bretton Woods. Num contraste espetacular, na fase neoliberal que se seguiu ao desmonte do sistema de Bretton Woods nos anos 70, o Tesouro norte-americano passa a considerar a livre circulalação de capitais um “direito fundamental”. À diferença, nem precisa dizer, dos pretensos “direitos” garantidos pela Declaração Universal dos Direitos Humanos: direito à saúde, à educação, ao emprego decente, à segurança e outros direitos que as administrações de Reagan e de Bush chamaram com desprezo de “cartas a Papai Noel”, “ridículos” ou meros “mitos”.

Nos primeiros anos, as pessoas não tiveram maiores problemas com o assunto. As razões disso Barry Eichengreen estudou em sua história, impecavelmente acadêmica, do sistema monetário. Nessa obra se explica que, no século XIX, os governos “ainda não estavam politizados pelo sufrágio universal masculino, o sindicalismo e os partidos trabalhistas parlamentares. Por conseguinte, os graves custos impostos pelo parlamento virtual podiam se transferidos para toda a população. Porém, com a radicalização da população e da opinião pública que se seguiu à Grande Depressão e à guerra antifascista, o poder e a riqueza privados privaram-se desse luxo. Daí que no sistema Bretton Woods “os limites da democracia como fonte de resistência às pressões do mercado foram substituídos por limites à circulação de capitais.” O corolário óbvio é que no rastro do desmantelamento do sistema do pós-guerra a democracia tenha sido restringida. Fez-se necessário controlar e marginalizar de algum modo a população e a opinião pública, processos particularmente evidentes nas sociedades mais avançadas no mundo dos negócios, como os EUA. A gestão das extravagâncias eleitorais por parte da indústria de relações públicas constitui uma boa ilustração. “A política é a sombra da grande empresa sobre a sociedade”, concluiu em seus dias o maior filósofo norte-americano do século XX, John Dewey, e assim seguirá sendo, enquanto o poder consista “nos negócios para benefício privado através do controle da banca, do território e da indústria que agora se vê reforçada pelo controle da imprensa, dos jornalistas e sobretudo dos meios de publicidade e propaganda.” Os EUA tem efetivamente um sistema de um só partido, o partido dos negócios, com duas facções, republicanos e democratas. Há diferenças entre eles. Em seu estudo sobre A Democracia Desigual: a economia política da nova Era da Cobiça, Larry Bartels mostra que durante as últimas seis décadas “a renda real das famílias de classe média cresceu duas vezes mais rápido sob administração democrata que republicana, enquanto a renda real das famílias pobres da classe trabalhadora cresceu seis vezes mais rápido sob os democratas que sob os republicanos”. Essas diferenças também podem ser vistas nestas eleições. Os eleitores deveriam tê-las em conta, mas sem ter ilusões sobre os partidos políticos, e reconhecendo o padrão regular que, nos últimos séculos, vem revelando que a legislação progressista e de bem-estar social sempre foram conquistas das lutas populares, nunca presentes dos de cima. Essas lutas seguem ciclos de êxitos e de retrocessos. Hão de ser travadas a cada dia, não só a cada quatro anos, e sempre visando à criação de uma sociedade genuinamente democrática, capaz de resposta em toda parte, nas urnas não menos do que no posto de trabalho.

* Noam Chomsky, professor emérito de linguística no MIT – Massachussets Institute of Technology (1) O sistema de Bretton Woods de gestão financeira global foi criado por 730 delegados de 44 nações aliadas na II Guerra Mundial, que compareceram a uma Conferência Monetária e Financeira organizada pela ONU no hotel Mont Washington, em Bretton Woods, New Hampshire, em 1944. Bretton Woods, que colapsou em 1971, era o sistema de normas, instituições e procedimentos que regulavam o sistema monetário internacional e sob cujos auspícios se criou o Banco Internacional para a Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD) – agora uma das cinco instituições que compõem o Grupo do Banco Mundial— e o Fundo Monetário Internacional (FMI), que passaram a funcionar em 1945. O traço principal de Bretton Woods era a obrigação de todos os paísses de adotar uma política monetária que mantivesse dentro de valores fixos a taxa de câmbio de sua moeda. O sistema colapsou quando os EUA suspenderam a convertibilidade do padrão ouro do dólar. Isso criou a insólita situação na qual o dólar chegou a converter-se em “moeda de reserva” para os outros países que estavam no Bretton Woods. Tradução: Katarina Peixoto


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quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Video-chat - Hugo Penteado

No dia 27 de outubro, das 12h30 às 13h30, o economista-chefe do Asset Management do Banco Real, Hugo Penteado, participará de um bate-papo pela internet sobre a atual crise financeira, os mecanismos que levaram a tal cenário e sua relação com a sustentabilidade. Os participantes poderão enviar perguntas e interagir com um especialista no assunto. Não perca!

Para participar, copie o endereço abaixo e cole em uma nova janela (browser), informando seus dados, quando solicitado:

http://200.186.94.90/loginespacorealb_a.aspx?CodLiveWebCast=9397&Aberto=true





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Informação importante: Você viu isto?

Para quem ainda come carne inconscientemente, para quem ainda acha que o ser humano domina a natureza, para quem ainda acha que o ser humano é gentil, bondoso - é bom lembrar o poeta André Thourriet, que eu parodiei:

"Não há vida feliz, há dias felizes" ou "Não há homem bom, há segundos instantâneos de bondade tão isolados como se não existissem".

Esse vídeo é bom para cada um de nós acordar sobre o que estamos fazendo para nosso futuro, para nosso karma coletivo, para uma história que não deveria nem de longe ser como é, mas infelizmente é a nossa opção coletiva:

Encontra-se disponível para download ou visualizaçao online o documentário Terráqueos com legendas em português. O filme trata da dependência do ser humano nos outros animais nas áreas de entretenimento, alimentaçao, vestuário, pesquisa científica e como bichos de estimaçao.

Integralmente no site: http://paredesdevidro.com/ ou divido em nove partes no youtube (e com legendas mais visíveis), começando neste link: http://www.youtube.com/watch?v=VADrTscciHA

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