terça-feira, 28 de outubro de 2008

Cocô e restos humanos

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Revista da Folha/América -- 26/10/08
Cocô e restos humanos

por Sérgio Dávila, de Washington

Você já ouviu falar do problema que a recente ascensão de camadas pobres da população ao mercado consumidor em países emergentes como Brasil, Rússia, Índia e China provocou e deve continuar provocando no suprimento mundial de energia, água, alimentação. Não falta alguma coisa nessa lista? Uma dica: se todo o mundo comer como os americanos comem, então...

Vamos chamar de boom das fezes?

Pois é desse assunto tabu que trata um dos livros mais curiosos lançados no ano. É "The Big Necessity - The Unmentionable World of Human Waste and Why It Matters" (A Grande Necessidade - O Mundo Não Mencionável dos Dejetos Humanos e Por que Ele Importa, Metropolitan Books, 304 págs.), que acaba de chegar às livrarias aqui nos EUA.

Nele, a jornalista britânica Rose George fala de um assunto no qual, como diz o título, poucos ousam tocar. O excremento está acabando com o mundo, e não é pelo motivo que você imagina. Há 2,6 bilhões de pessoas sem qualquer tipo de serviço de esgoto no mundo, quase metade do planeta que, quando precisa ir ao banheiro, faz ali no matinho ou na rua ou na calçada ou nas beiras dos rios.

O cocô humano é um dos mais tóxicos do reino animal. Uma, digamos, "amostra" tem bactérias, vermes, vírus e causa 50 infecções conhecidas. Se contamina a água a ser bebida, provoca, entre outras doenças, diarréia. Essa é a segunda causa de mortandade infantil no mundo, atrás só de problemas respiratórios. Por que todos falam de energia limpa, mas ninguém fala disso?

Rose George acha que a questão é, principalmente, de linguagem. "As pessoas não querem conversar sobre o tema, não temos palavras para tratar do assunto que não sejam tabu (merda), médicas (bolo fecal) ou técnicas (excremento) e já exaurimos as metáforas", escreve. Para a autora, é como se os países desenvolvidos tivessem "dado a descarga" no problema, em parte por achar o tema vexatório.

Ela cita como exemplo o fato de que nenhuma celebridade quer se ligar à causa -com exceção do ator Matt Damon, que milita por sanitários portáteis para a África. Esse foi um dos fatos que o livro dela me revelou.

Alguns outros:

* Na Idade Média, era uma honra ser recebido por um rei enquanto ele estava na privada;

* A invenção da privada adicionou 20 anos ao tempo de vida médio dos humanos; por isso, o "British Medical Journal" considerou o saneamento o maior avanço médico dos últimos dois séculos;

* O Japão era uma civilização do papel e mudou para a água recentemente; há privadas japonesas de milhares de dólares, com dezenas de jatos, controle da temperatura da água quente, desodorantes de ar, medidores de pressão sangüínea, música e até massagem das nádegas;

* Os muçulmanos, que se limpam com água, acham o uso do papel higiênico um dos hábitos mais incompreensíveis e sujos do Ocidente -o choque de civilizações de que fala Samuel Huntington começa na latrina.

Essa é a penúltima coluna antes da perda de poder de fato por George W. Bush, que acontece no dia 4 de novembro, com a eleição do novo presidente; achei que o tema vinha a calhar.

sdavila@folhasp.com.br

2 comentários:

Paula Schuwenck disse...

Por que será que o ser humano veio ao mundo?

Pois é, mais uma coisa para pensarmos. Uma vez visitei um sítio em Atibaia e o dono criou um sistema simples para devolver a água limpa ao rio. Não precisa de muito espaço e é fácil de fazer.

paulasjesus@terra.com.br

Lu Geiger disse...

E o banheiro ecológico do IPEC, o chamado 'sanitário compostável'? É uma idéia que pode ser posta em prática tão rapidamente quanto as cabeças se dispuserem a mudar de opções e de modelos - ainda mais porque é uma opção barata...

http://www.ecocentro.org/menu.do?acao=saneamentoSanitario

Abraço!