sexta-feira, 30 de maio de 2008

Como salvar a Amazônia

Andrea Augusto, uma das minhas leitoras, com toda razão pediu para eu colocar um post sobre como salvar a Amazônia.

Uma solução é mudar nosso modelo mental para mudar nossa atitude. Diminuir nossa ignorância sobre o estrago é a forma de mudar nosso modelo mental. Por isso primeiro precisamos mostrar o estrago, porque o tirano só tem poder com a ignorância de todos. Outra atitude fundamental é entender que quem destrói a Amazônia somos NÓS. Nós comemos carne em churrascarias às custas da destruição, nós compramos produtos sem perguntar a procedência. Nós votamos em políticos que não estão nem aí para essa devastação. Basta lembrar que nos governos FHC e LULA, durante meros 13 anos, ocorreu 33% de toda a destruição acumulada desde 1500. Somos nós os culpados. Vamos parar de apontar o dedo, vamos consumir certo, vamos reduzir o consumo, vamos votar melhor. Vamos cobrar.

Infelizmente saber esse horror que me tira o sono é fundamental. A primeira coisa que lembro quando acordo é que temos menos natureza no planeta, destruímos 42 campos de futebol em florestas no mundo a CADA MINUTO!!!! Quantas pessoas se dão conta dessa destruição contínua na Amazônia aqui no Brasil e no mundo? Quais pessoas sabem que isso é uma ameaça contra a humanidade e que não é a natureza que está sendo destruída e sim nós? QUASE NENHUMA. Qual é a importância que os empresários e nossos governantes dão para isso? NENHUMA. O governador do Mato Grosso, Blairo Magi, disse que para resolver o problema da fome do mundo é preciso desmatar e acabar com a Amazônia. Parece ignorar que se fizermos isso, aí sim, iremos todos morrer de fome, como podem inverter tanto a lógica? A produção de alimentos depende de serviços ecológicos que o ser humano não produz, sem eles iremos morrer de fome e de sede. Essa será a consequência dessa pressão sobre as florestas que sobraram e sobre o planeta. Nós estamos ameaçados, não a natureza. Somos totalmente dependentes da natureza.

Em primeiro lugar, quem disse que o Brasil é responsável pela fome do mundo e deve ser o celeiro do mundo às custas de sua natureza, sem trazer quase benefício algum aos brasileiros? Cada país que resolva seus problemas com seus recursos locais e pare de exportar seus colapsos ambientais para todo o planeta via custo zero do comércio global, como fazem a China, a Índia, os países ricos. E a fome precisa antes de mais nada ser resolvida com redução do desperdício (1/4 dos alimentos nos países ricos e em São Paulo terminam no lixo). Se há fome é porque falta produção de alimentos; se há falta de energia, é porque faltam hidrelétricas. ERRADO. SE há fome é porque há desperdício, má distribuição, corrupção e excesso de gente. SE falta energia é porque há desperdício, corrupção, concentração da fonte de energia em poucas empresas e total ineficiência. Nós não precisaríamos construir nenhuma usina hidrelétrica, mesmo mantendo esse modelo maluco de crescimento contínuo num espaço finito com a Terra somente através de ganhos de eficiência (50%) e de atualização tecnológica (mais uns 40%), segundo Washington Novaes e estudos da Unicamp. Mesmo assim, alguém tem que responder como pensa obter incrementos de 80% da oferta de energia a cada década e infinitamente. Quando suficiente é suficiente?

Precisamos urgentemente mudar nosso modelo mental. SE o sistema está todo voltado para deixar os ricos cada vez mais ricos (de cada 100 dólares adicionados à riqueza do mundo só 60 centavos chegam aos mais pobres, de acordo com a NEF - News Economics Foundation), não há como sermos sustentáveis. Precisamos de um sistema voltado para manter o progresso, preservar nossos laços com o planeta do qual dependemos e manter as gerações futuras. Nesse caso temos uma meta maior do que apenas dar benefícios para os que já os têm.

Isso não tem nada de marxista, quem dizia isso eram os neoliberais neoclássicos, que deram a formulação teórica do imposto sobre grandes fortunas: para que se atinja o máximo de bem estar coletivo é necessário que tenhamos o máximo de igualdade social possível. Precisamos de mecanismos menos invisíveis que produzam isso. Nas mãos do mercado será obtida uma desigualdade cada vez maior inerente ao sistema econômico e com isso haverá uma tendência de esfacelamento das democracias, quando as decisões políticas são voltadas para interesses particulares e contrárias ao bem comum e à toda sociedade. Corremos o risco de virar uma plutocracia atendendo interesses nada magnânimos. Corremos?

4 comentários:

Viviane Cunha disse...

Hugo,

Eu escrevi uma resposta ontem para a Andrea...enorme, mas nao consegui incluir no blog e tive que sair...
Ia tentar responder agora, mas voce ja respondeu muito bem...
Essa questao do desmatamento é grave e seria....mas nao se faz muito nao, como voce bem disse.

E o motivo me parece estar numa questao que nem pareceia tao correlata...nossos ingenuos habitos diarios...
Acabei de vir de um almoço, onde com outros 8 arquitetos comemoravamos o aniversario de uma grande amiga...mas sai meio triste, porque da um desanimo grande ver que o que se busca socialmente está distante do movimento que precisamos fazer.

No forum ecobuilding, que participei no final da semana passada, vi que alguns paises pobres da antiga Russia - vou procurar os nomes...- sao os poucos paises que conseguem ter sua pegada ecologica gastando apenas uma terra...nos gastamos umas tres, os EUA gasta umas 5 a 6. Nao sei se viu, te mandei semana passada o link para fazer o teste dos seus gastos da terra...o meu, mesmo sem comer carne, andando relativamente pouco de carro...é de umas duas terras.
Bem, talvez todos nos precisemos ir fazer um estagio nesses paises...para tirar o default na nossa mente de que a maneira que agimos e consumimos é 'normal', coerente, certa. Me lembro da primeira vez que morei em Londres, como me chocou os habitos de consumo de agua tao restritos, algumas economias que me pareciam tao sem sentido...era uma Inglaterra ainda bem isolada do continente, mantendo habitos ainda do pos-guerra...que hoje mudaram bastante mas ainda se ve gente que mesmo com 3 carros na garagem vai de metro para uma festa, anda a pe...
Depois morei em Los Angeles, e nao tenho como esquecer a sensacao que o mundo é infindavel na quantidade de embrulhos para tudo, de propaganda na caixa de correio, no tamanho do lixo que se gerava, do carro para tudo...

Bem, voltando ao meu almoço...acho que temos mesmo que ir para esses paises da antiga Russia, onde certamente vamos achar mesquinho tantas limitacoes de possibilidades...Meus queridos amigos passaram horas falando de tantas coisas que compraram nas suas ultimas viagens, de como estava barato Nova York, e por isso como compraram roupas e eletronicos...E eu nao tive coragem de parecer estraga-festa, ou ate de soar invejosa, mas queria dizer que nao comprem tanto nao, que geramos cada um uma media de 40 toneladas de lixo por ano, que nao precisamos de tantas coisas...que precisamos ler mais Bourdieu e ser conscientes de como essa busca por gerar prestigio e ascensao social atraves de artefatos ou itens agregaveis a nossas pessoas nao sao reais...sao apenas simbolos que colecionamos, que nao sao realmente necessarios alem dessa funcao social...que se pensarmos neles assim, vamos consumir sim mas nos satisfazer com menos, com dominio do que estamos fazendo podendo ponderar, entao, o que realmente pesa mais - aumentar o problema ambiental para engrandecer seu vocabulario de prestigio ou colaborar com a possibildade da nossa sobrevivencia nesse planeta?
Esses pequenos gestos, podem parecer apenas pequenos mimos, recompensa de tanto trabalho, de crescimento profissional, nao parecem ter um peso tao ruim...por isso nao quis estragar a festa, mas acho que deveria ter falado sim...sei la como, pelo 'nosso futuro comum'...

andrea augusto - angelblue83 disse...

Ok, Hugo, eu entendi seus argumentos, mas veja, votar errado é culpa nossa? Tb acho, mas posso te dar um exemplo meu mesmo. Sou formada, tenho pós e mais um monte de cursos e fui imbecil o suficiente pra votar no Lula. Por quê? Por idealismo, por realmente acreditar que um cara que tinha vivido os dois lados, a pobreza e a agora a riqueza poderia governar melhor e o resultado taí.

Entende onde eu quero chegar? às vezes não é tão simples como parece. Eu mudei alguns hábitos na minha vida pq tive uma familia consciente, mas como convencer, por exemplo as pessoas da comunidade carente onde atuo a desistir do seu churrasquinho mensal qdo esse é uma das únicas formas de lazer deles.
A própria resposta da Viviane é sintomática qdo ela diz que ficou com vergonha de parecer estraga prazeres dos amigos. Infelizmente é assim mesmo, consigo entender perfeitamente a posição dela pq vivemos numa sociedade que se vc entrar numa de começar a falar vai acabar excluída ou taxada de ecochata. Diferentemente da vivencia dela em outros países.

Eu sei que estou fazendo o papel de advogada do diabo, mas eu quero que vc saiba que concordo com vc, apenas tenho a oportunidade de vivenciar o dia-a-dia de digamos os dois lados.

Eu acredito, e digo isso como leiga, por isso me perdoe a ignorância, que uma maneira de remediar essa situação seria a criação de um sistema de compensação.
Assim como os exemplos que vc citou na entrevista a Marília Gabriela, nas suas viagens aéreas etc.
Ou seja é possível aplicar um sistema assim em relação a Amazônia?

Eu acho que esse é O caminho e paralelamente uma conscientização ecológica, Hugo, pq se começarmos a tentar mudar a mentalidade a coisa vai demandar tanto tempo que poderemos não ter o que defender qdo essa consciência finalmente se instalar.

abrs e obrigada por responder.

Bella disse...

Gostaria de dizer apenas uma coisa: não depende apenas do Lula, depende da consciência de TODAS as pessoas do mundo, depende da vontade de TODOS nós de vivermos em um mundo melhor, sem poluição, sem desmatamento ilegal, um mundo sem o consumo desnecessário, sem pessoas que compram pela necessidade de estar na moda. Será que as pessoas ainda não perceberam que aquela seta enorme, brilhante e dourada que nos leva ao consumismo desnecessário está apontando para o fim do mundo? Uma coisa tão obvia.. será que as pessoas estão cegas? Não estão vendo a realidade? Ou simplesmente não querem enxergar o que NÓS, seres humanos estamos fazendo, ou melhor destruindo, algo de que precisamos para sobreviver? Não só os seres humanos, que estão menos humanos que todos os seres, mas todos os seres vivos. Não estão entendendo que se continuarmos consumindo exageradamente, poluindo, desmatando, e pensando só no nosso nariz, um planeta Terra não será o suficiente para continuarmos vivos? Que só os EUA precisariam de 4 planetas Terra? Gente, basta cada um fazer a sua parte.. é tão difícil assim ajudar a vida?
Tenho 14 anos, e o mundo de quando eu era pequena, com o mundo de hoje está muito mudado . Mas, se nesses 14 anos houve grande mudança do clima na Terra, imagine você, daqui mais alguns anos, se continuarmos nesse ritmo, o que será de nós?

Fabrícia.

fafa.srabelo@hotmail.com

Oswaldo Jesus Rodrigues da Motta disse...

Depende da conscientização da cada um de nós. Não apenas na hora de votarmos mas, principalmente, em nosso dia a dia.
Um abraço,
Oswaldo Jesus Rodrigues da Motta