terça-feira, 27 de maio de 2008

Carta aberta ao presidente Lula

Prezado Presidente Lula,
Já escrevi no site do Palácio do Planalto mas não obtive resposta. Até pedi uma audiência, esperava ter a chance de falar com o senhor coisas diferentes que os economistas tradicionais devem falar toda hora em Brasília. Eles sem perceber quanto mais pregam a sua ladainha, mais as coisas pioram. E quanto mais as coisas pioram, mas eles insistem na ladainha, é como um cachorro correndo atrás da própria cauda. Quando os problemas não estão resolvidos, precisamos de mais crescimento, eles dirão com toda convicção. Precisamos mudar essa visão míope do mundo, onde as externalidades são ignoradas, adiadas, jamais revistas. Onde os problemas ambientais e sociais não são parte da equação dos economistas. Onde a única coisa que importa é o crescimento econômico medido por uma métrica completamente errada, como o PIB. Onde não se discutem indicadores sociais de forma clara. Número de emprego não quer dizer nada, é óbvio que crescimento econômico mobiliza a mão de obra à disposição, mas isso não significa que essas pessoas vivem melhor, mais livres e mais plenas. E se o crescimento sumir, a mão de obra está dispensada. Quantos nesse modelo conseguem ter casa própria, independência, liberdade ao invés de submissão, medo e trabalho maçante sem evolução de conhecimento? A vasta maioria senão quase todos.
Estive com o senhor no debate do Estadão em 2002 e perguntei se o Brasil seria capaz de promover um modelo diferente dos países ricos, pois esse modelo só causou destruição do emprego, concentração de riqueza extrema, esgarçamento da natureza e guerras. Lembro que a resposta dirigiu à Amazônia, porque eu lembrei que os Estados Unidos e a Europa destruíram a quase totalidade das suas florestas. O problema está no modelo em si mesmo e ele precisa ser modificado e os economistas, infelizmente, não só não sabem como resolver o problema, como ignoram os conhecimentos da física moderna e desconhecem completamente os limites físicos intransponíveis da produção e do crescimento econômico, ainda visto como panacéia para todos os nossos males no mundo inteiro. São vários institutos importantes que revelam isso há mais de 40 anos. De cada 100 dólares do crescimento econômico mundial, só 60 centavos contribui para reduzir a pobreza mundial. Os resultados do crescimento são inequivocamente contraditórios e não deveria jamais ser uma meta em si mesma e nem deveria ser mensurado da forma que é.
Na verdade o planeta inteiro é um santuário, não só a Amazônia, e isso inclui todas as cidades, o meio ambiente e nossa dependência em relação a ele. Tudo e toda toda forma de vida é um santuário. O milagre inexplicável da vida de todos os seres vivos extremamente interligados é um santuário ou dá para ignorar que o meu coração e o de todos só batem porque há um ser vivo na Terra que armazena a luz do sol? Ou dá para ignorar que a comida chega no nosso prato por causa das abelhas? Ou mesmo ignorar que nossos pulmões se enchem de ar graças ao fitoplâncton dos oceanos? Esses e tantos outros elos são importantes para lembrar que somos uma espécie animal como outra qualquer, totalmente dependentes da natureza e que apesar de toda a maquinaria e parafernália que inventamos, continuamos dependentes e vulneráveis aos caprichos da natureza como todo sempre. Ignorar isso tem sido o nosso maior erro.
Realmente, os países ricos destruíram tudo e só não atingiram um colapso ambiental porque continuam tirando recursos de outros lugares do mundo. Mas isso de forma alguma significa que podemos fazer o mesmo com o planeta, porque simplesmente não podemos, se insistirmos nesse erro, iremos todos perecer e sem exceção, porque num futuro assim não haverão vencedores. Por exemplo, a floresta amazônica é a base de praticamente todos recursos hidrícos da região sudeste brasileira, ela não é um santuário apenas para o mundo, mas principalmente para nós brasileiros, pois ela é um recurso sem o qual a região mais desenvolvida e povoada do Brasil irá se transformar em um deserto, sem pessoas e coisas, sem nada, porque sem água não fazemos nada.
A água, embora os economistas ignorem isso, é um recurso finito e não totalmente renovável, porque grande parte das águas que usamos não tem taxa de reposição. O solo também é finito. Até os dias de hoje conseguimos ignorar a finitude na extração dos demais recursos porque eles eram e são praticamente infinitos, como metais, petróleo, minerais etc. Por um motivo muito simples: a espécie humana não explorou nem 1% da crosta terrestre ainda. Na verdade, o planeta nunca foi uma restrição como fornecedor de recursos, mas sim como absorvedor do impacto das nossas atividades crescentes. Como nenhum custo ambiental dessa sangria de recursos poluidores e esfaceladores de ecossistemas inteiros é colocado no preço, seguimos inundando a Terra com nossa produção sem ninguém arcar diretamente com nenhum custo. Óbvio que esses custos aparecem e pressionam as contas públicas, ainda mais agora que atingimos a estratosférica cifra de quase 7 bilhões de pessoas cada vez mais sugadoras do planeta, onde em um ano produzimos mais bem e serviços do que em 100 anos. As externalidades não são mais invisíveis e acabam se tornando uma questão ética, moral e humana urgentíssima.
Já em relação ao solo e água que são finitos, não tem como escamotear a pressão da demanda mundial sobre eles, tanto na produção de alimentos quanto de energia e biocombustíveis. Esses são um dos pontos dos 1700 cientistas e mais de 100 prêmios Nobel que assinaram um alerta para a humanidade em 1992 e uma das medidas preconizadas por eles era o imediato estancamento do crescimento populacional. Naquele ano a população era mais de 5 bihões, hoje é de quase 7 bilhões. A cada dia a população mundial aumenta 200.000 pessoas já descontados os mortos. Alguém ainda vai ganhar um prêmio nobel ao lembrar que o território dos países é finito e que os seres humanos não são nada imateriais. E mesmo que consigamos obter uma fonte infinita de energia neutra, não tem como obter matéria infinita porque solo e água são e serão sempre finitos.
Os habitantes da Amazônia e de todos os lugares demandam cada vez mais bens e serviços, mas isso não pode se dar num planeta territorialmente finito e ecologicamenve vulnerável, infelizmente essa é a verdade. A China jamais irá atingir o nível de desenvolvimento dos países ricos, não há recurso para isso, a melhor forma de atender as demandas é dentro de um modelo totalmente diferente daquele observado nos países ricos. Temos que começar cortando o crescimento de coisas e pessoas, trabalhando em cima de estoques e não em cima de fluxos, respeitando os limites da Terra e não fazendo de conta que eles não existem. Depois precisamos reduzir a concentração de riqueza e o consumo, tornando o sistema muito mais eficiente e sem desperdícios. É incrível saber que a maior queda de mortalidade e desnutrição infantil na Europa ocorreu durante as duas grandes guerras, pois a eficiência foi ao máximo e a corrupção cortada na raiz. Com muito menos eles conseguiram muito mais. A regra que precisamos de mais quantidade para ter mais qualidade é totalmente errada. O mais nem sempre significa mais, ao contrário, significa menos: menos saúde, menos bem estar, menos paz, menos liberdade.
Devemos lembrar que o ser humano infelizmente não produz nada, não produz nem matéria nem energia que é a base de tudo à nossa volta e por isso tudo à nossa volta vem da natureza e de nenhum outro lugar e de nenhuma outra tecnologia. O bolsa-família seria bem mais razoável se fosse embutido nele um planejamento familiar, o mesmo vale para o movimento sem terra. De nada adianta distribuir terras que são finitas a populações crescentes, como de nada adianta manter um crescimento econômico contínuo em cima de espaços finitos com recursos e serviços naturais importantíssimos também finitos. Vamos soterrar a humanidade inteira com nosso crescimento material, sob o pretexto que com isso estamos fazendo o bem. Nada poderia ser mais errado e falso do que isso.
A minha pergunta no debate do Estadão de 2002 continha a esperança que começaríamos a discutir essas questões humanas importantíssimas sobre o modelo econômico, levando para essa pauta de negociação internacional os erros já feitos pelos países desenvolvidos e que são reconhecidos por vários cientistas do mundo. Uma negociação que deveria pôr fim na forma como o Brasil para atender a China e os países ricos está expoliando seus recursos naturais e ecológicos às custas da sua própria população e tudo isso a custo zero, porque para o nosso sistema econômico uma árvore só tem valor quando derrubada ao chão. Os Estados Unidos e a China e vários outros países só crescem porque tiram recursos naturais de outros lugares através do comércio global, do contrário já teriam entrado em colapso ambiental há muito tempo. O comércio global está acelerando a destruição do planeta, precisamos avisar aos economistas que firmemente acreditam que nós somos capazes de produzir matéria e energia que não teremos outro planeta disponível para explorar. Paul Krugman parece que descobriu isso, mas só falou da consequência, não disse nada sobre a causa, talvez ele acredite nos investimentos que brotam do nada, na produtividade e ecoeficiência infinitas, outros mitos usados para tentar negar que o planeta é realmente finito e que nunca conseguiremos produzir bens, serviços e pessoas a partir do nada e com impacto nulo.
Na verdade, quando atingirmos o limite planetário, o resultado final será o nosso desaparecimento, porque nesse processo somos nós que estamos ameaçados, não fazemos nem cócegas para o planeta e para sua história de bilhões de anos. E já estamos nesse caminho, colocamos a Terra no maior processo de extinção da vida dos últimos 65 milhões de anos. Ao repetir os erros do modelo econômico dos países ricos só estamos conseguindo que os ricos fiquem cada vez mais ricos, porque o crescimento econômico é acima de tudo um mecanismo de diferenciação social, que tira as liberdades individuais, posto que a liberdade é diretamente proporcional ao nível de renda de cada um. Nós estamos perseguindo metas e modelos que não são parte da solução, mas parte do problema. Vários estudiosos de várias ciências, inclusive da malsinada economia sabem isso há mais de 40 anos e hoje a probabilidade do ser humano chegar até o fim do século XXI é de 50%. O aquecimento global não é o problema, é apenas um dos vários problemas que criamos transformando a Terra em uma lixeira, num sistema do descarte e desperdício imediato dos bens, submetido a crescimento exponencial de coisas e pessoas.
Enquanto não atacarmos as causas de problemas que não brotaram do nada e sim das nossas medidas, políticas, visões de mundo e ações diárias, nós só iremos caminhar de colapso em colapso. Nem todos são culpados, mas todos somos responsáveis e agora precisamos de novas propostas, cujos resultados deixem de ser questionáveis e fundamentados por premissas falsas como aquelas encontradas na teoria econômica.
Atenciosamente,
Hugo Penteado, economista, é autor do livro Ecoeconomia: uma nova abordagem (Editora Lazuli, 2003)

Um comentário:

Paulo Colacino disse...

Hugo

Congratulações por suas colocações lúcidas sobre a situação atual da economia, do planeta, da ecologia.

Tempos atrás li um relatório seu no Banco Real e me impressionei com sua visão econômica mais holística. Na época até te mandei um e-mail congratulando-o. Vc respondeu lembra? :)

Hoje recebi esse texto através de meu irmão e conheci enfim seu blog.

Gostaria de convidá-lo para um projeto aonde pretendo reunir pessoas para falar sobre sustentabilidade (Mundo 2.0). Se tiver interesse entre em contato colacino at g mail dot com.

Saudações

Paulo Colacino