segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Bobagens da “economia”

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As bobagens da “economia” podem ser encontradas no texto abaixo do Paul Krugman. Começa imediatamente com o alerta que a economia na crise atual destruiu 6,7 milhões de empregos. Pergunta: como criar milhões de empregos ininterruptamente, através de estruturas crescentes para acomodar pessoas, coisas e materialismo excessivo num ambiente finito como o território dos países, sem destroçar por completo os ecossistemas dos quais todos nós dependemos para viver, sobreviver, comer e respirar? Melhor: se o objetivo do crescimento ininterrupto é criação de empregos, então só teremos empregos se mantivermos um crescimento estúpido ininterrupto às custas do planeta? Não abrimos mão do lucro – que é uma desculpa para gerar empregos – mas abrimos mão do planeta e de sua capacidade de suportar todas as formas de vida na Terra? Espera aí: esse processo já não produziu a maior extinção da vida na Terra dos últimos 65 milhões de anos, causada pelo homem e em décadas? Os paleontólogos já não disseram que é “muita ingenuidade nossa achar que essa extinção jamais irá se voltar contra os causadores”? Até porque aqui na Terra os seres humanos não são nada especiais, todos os seres vivos dependem de todos os seres vivos e dos ecossistemas, nós não diferimos em nada. Que ilusão é essa que criamos sobre a nossa capacidade de dominar a natureza e até viver sem ela?

O país que é modelo para o Brasil - que expandiu o consumo ao máximo, fornecendo em exagero às pessoas coisas que de fato elas não precisavam e que causaram tragédias ambientais colossais dentro e fora das fronteiras dos EUA – não é um país imune a crises. Antes achávamos que só os emergentes com seus problemas estruturais, políticos e fiscais estavam abertos às crises. Agora vemos que também o país mais rico é tão instável como as piores economias do mundo. Nenhum comentário de Krugman a esse respeito: por que a crise aconteceu lá? Por que a cartilha de expansão desenfreada do consumo e da produção não evita que a economia se desmantele inteira e que trilhões de dólares sejam jogados para salvar bancos que antes não deveriam ter falido? Por que a conta de trilhões de dólares é rapidamente arcada pelo governo, quando com muito menos se resolveria problemas mais graves, como fome, doenças, misérias que grassam pelo mundo afora e lá dentro dos EUA? Por que não fazemos as perguntas certas?

Mas vamos voltar aos empregos. Foram destruídos 6,7 milhões, mas todo ano a população americana aumenta 3 milhões. Para absorver essas pessoas que ficaram sem emprego e o crescimento populacional anual seria necessário a criação de empregos à taxas chinesas: quase 10 milhões. Pior, sabendo que os EUA tem 30 milhões de mendigos, seriam necessários 40 milhões de empregos para que o país mais rico do mundo não tivesse 40 milhões de pessoas em desespero (número maior que a população de muitos países). Ou seja, existe um país inteiro e muito pobre nos EUA!

A criação de empregos é claramente efêmera, não é um objetivo e sim um resultado tautológico do crescimento, que é um fim em sim mesmo. Uma péssima notícia: nas últimas décadas EUA observou uma criação crônica de empregos abaixo do crescimento populacional e o número de pessoas em desalento ou vivendo uma sobrevida só tendeu a aumentar: são marginalizados para todo o sempre. Durante o boom econômico dos anos 90, os EUA registrou um recorde histórico mundial de população encarcerada, que cresceu a taxas astronômicas e recordes e colocou o país quase no topo da lista mundial de maior número percentual de população encarcerada.

Enfim, os empregos absorvem apenas parte das pessoas que precisam deles, as demais servem como colchão para alertar que os salários e as rendas dos mais pobres não podem subir. E de fato não sobem: de acordo com o livro “Wealth and Democracy” de Kevin Philips a única renda que subiu nos EUA nos últimos 25 anos (depois da inflação e de impostos menores para os mais ricos) foi a do 1% mais rico, que praticamente dobrou. Os dois quintis mais pobres viram suas rendas caírem um quarto. A da massa média ficou estável. Surrealista.

Por que uma economia forte e rica como os Estados Unidos vê a destruição tão rápida de milhões de empregos? Como que fisica e planetariamente será possível criar empregos nessa economia ad eternum? Por que não há estabilidade depois de atingir certa prosperidade? Por que se mantém uma necessidade de empregos sempre crescente, que nunca são satisfatórios sobre qualquer prisma analisado (bem estar, realização pessoal, desenvolvimento humano)? Por que essa necessidade de empregos justifica péssimas idéias como crescer estruturas (carros e casas por exemplo) num território finito como o dos Estados Unidos e às custas de recursos ecológicos de outros países como o Brasil, que ainda tem alguma natureza a oferecer a custo zero? Quando que os economistas irão descobrir que a economia não pode ser maior que o planeta e que tudo que está sendo feito é uma inversão assombrosa dos eixos:

- os economistas acreditam e assumem em suas teorias mecânicas clássicas que o meio ambiente e o planeta é um subconjunto da economia e que, portanto, a economia é neutra para o meio ambiente e o planeta é inesgotável (mito tecnológico). A quantidade de bobagens escritas sobre isso é também inesgotável, mas criamos um sistema cruel no qual as pessoas estão aí para servir a economia e não temos uma economia que está aí para servir as pessoas. É como acreditar que a Terra é plana.



- o descompasso dessas teorias com a realidade é chocante: na verdade a economia é um subsistema da natureza e do planeta, do qual depende e lhe é vulnerável. Manter um sistema econômco infinito, linear e degenerativo abriu guerra contra o planeta que é finito, circular e regenerativo. Guerra da qual jamais saíremos vencedores: os cientistas já declararam que as chances da humanidade terminar o século XXI é bem pequena. Basta lembrar que a destruição dos ecossistemas é contínua, rápida e exponencial e todos os dias temos novos projetos mirabolantes, novas construções e produtos sendo inventados e aumentados para atender a demanda inconsequente de um sistema que não está interessado nas pessoas e que produziu 4 bilhões de miseráveis.

Evitando o pior é tudo o que esse sistema não faz. O texto de Krugman (ver abaixo) parece um conto de fadas. Até porque ignora todos os alertas dados por diversas áreas científicas e deixa de fazer as perguntas certas: se o Brasil seguir a mesma trilha dos Estados Unidos de construir quase três casas para cada família; de apesar do número médio de indivíduos por família ter caído pela metade nos últimos 25 anos, o tamanho da casa médio ter triplicado; de ter inventado carros cada vez mais ofensivos e esbanjadores e de ter levado o desperdício ao extremo, mesmo assim entrará nessa crise hedionda? Se o Brasil seguir a trilha dos Estados Unidos e se tornar tremendamente rico, além de estar sujeito a colapsos econômicos, terá ainda dezenas de milhões de favelados? Por que um país rico tem 30 milhões de mendigos?

Hugo Penteado

Evitando o pior

Paul Krugman, The New York Times* (OESP 11-08-2009)

Parece afinal que não teremos uma segunda Grande Depressão. O que nos salvou? A resposta é, basicamente, uma grande intervenção governamental.

Para que não haja dúvidas: a situação econômica continua terrível, na verdade pior do que quase todos pensavam ser possível pouco tempo atrás. O país perdeu 6,7 milhões de postos de trabalho desde o início da recessão. Quando levamos em consideração a necessidade de encontrar emprego para acomodar o crescimento da população em idade de trabalhar, temos um déficit de aproximadamente 9 milhões de empregos em relação ao número de vagas que precisamos.

E o mercado de trabalho ainda não se recuperou - aquela sutil redução na taxa de desemprego observada no mês passado foi provavelmente um feliz acaso da estatística. Ainda não chegamos ao ponto a partir do qual as coisas começam realmente a melhorar; no momento, tudo o que temos para comemorar são os sinais de que as coisas estão piorando mais lentamente.

Entretanto, as últimas notícias econômicas sugerem que a economia tenha se afastado em muitos passos da beira do abismo.

Alguns meses atrás, a possibilidade de cairmos no abismo era bastante real. Em alguns aspectos, o pânico financeiro de 2008 foi tão grave quanto o pânico bancário do início da década de 1930, e durante algum tempo os principais indicadores econômicos - comércio mundial, produção industrial global, até o preço das ações - apresentavam uma queda no mínimo tão acelerada quanto a observada em 1929-30.

Mas na década de 1930 os indicadores dos gráficos simplesmente seguiram em trajetória descendente. Desta vez, o mergulho parece ter sido interrompido depois de apenas um ano terrível.

Assim, o que nos salvou de uma reprise completa da Grande Depressão? A resposta, quase certamente, está no papel desempenhado pelo governo - muito diferente desta vez.

Provavelmente, o aspecto mais importante do papel do governo nesta crise não é aquilo que ele fez, mas o que deixou de fazer: diferente do setor privado, o governo federal não cortou gastos conforme sua receita diminuía (Os governos estaduais e municipais já são outra história.).

A receita da arrecadação está muito baixa, mas os cheques da previdência social continuam a ser emitidos; o seguro público de saúde continua a cobrir as despesas hospitalares; os funcionários federais, desde os juízes até os guardas florestais, continuam a receber seus salários.

Tudo isso ajudou a manter viva a economia no seu momento de necessidade, de uma maneira que não ocorreu em 1930, quando os gastos federais representavam uma parcela muito menor do PIB. E isso significa, de fato, que os déficits orçamentários - normalmente algo ruim - são na verdade algo bom no momento que vivemos.

Além de ter este efeito estabilizador "automático", o governo interveio para resgatar o setor financeiro.

Poderíamos dizer (eu diria) que os resgates das empresas financeiras deveriam ter sido melhor administrados, que o contribuinte pagou demais e recebeu de volta muito pouco. Ainda assim, é possível ficar insatisfeito, ou mesmo irritado, com a maneira por meio da qual os resgates financeiros funcionaram enquanto se admite que, na ausência destes resgates, as coisas estariam muito piores.

A questão é que desta vez, diferente da década de 1930, o governo não adotou uma posição não interventora enquanto boa parte do sistema bancário entrava em colapso. E esta é outra razão pela qual não estamos vivendo uma 2.ª Grande Depressão.

Por último e provavelmente menos importantes, mas nada triviais, foram as iniciativas deliberadas por parte do governo de fortalecer a economia. Desde o início, argumentei que o Plano Americano de Recuperação e Reinvestimento, também conhecido como pacote de estímulo de Obama, foi pequeno demais.

Ainda assim, estimativas razoáveis sugerem que haja cerca de um milhão de americanos empregados que estariam desempregados na ausência deste pacote - um número que aumentará com o tempo - e que o estímulo tenha desempenhado um papel significativo na desaceleração da queda livre vivida pela economia.

Assim sendo, o governo desempenhou um papel fundamental na estabilização desta crise econômica. Ronald Reagan estava errado: às vezes o setor privado é o problema, e o governo, a solução.

E o fato de o governo ser atualmente administrado por pessoas que não detestam o governo não seria motivo para se alegrar? Não sabemos como teriam sido as medidas econômicas de um governo McCain-Palin.

Entretanto, sabemos o que os republicanos da oposição têm dito - e isto se resume a um pedido para que o governo pare de se interpor no caminho de uma possível depressão.

Não estou falando apenas de oposição ao estímulo. Líderes republicanos querem também acabar com os estabilizadores automáticos. Em março deste ano, John Boehner, líder da minoria na Câmara, declarou que já que as famílias estavam sofrendo, "é hora de o governo apertar o cinto e mostrar para o povo americano que ?compreendemos? a situação".

Felizmente, seu conselho foi ignorado.

Continuo muito preocupado em relação à economia. Temo que ainda haja uma chance substancial de o desemprego se manter alto por um longo tempo. Mas aparentemente evitamos o pior: a catástrofe total parece agora improvável.

E a razão disto é a grande intervenção governamental, administrada por pessoas que compreendem as virtudes do governo.

*Paul Krugman é Nobel de Economia

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