sexta-feira, 13 de março de 2009

Crise significa oportunidade de mudança, mas até agora significa mais do mesmo

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A economia depende do planeta em primeiro lugar e das pessoas em segundo lugar. Embora isso seja uma verdade irrefutável, nosso sistema econômico resolveu inverter a relação: as pessoas dependem da economia para viver. Essa inversão teve consequências extraordinariamente nefastas, evidenciadas na crise que ora vivemos. Os Estados Unidos colocaram todo seu motor de crescimento em cima das famílias americanas que começaram a se endividar sem correlação alguma com seus ganhos de renda e de trabalho, nem com a sua devida importância social. O consumo insustentável das famílias não foi a única base de sustentação, pois durante esse período, intensificou-se o gasto com armamentos, uma política keynesiana para geração de empregos. O problema de desenvolver armas é quando se desenvolve tecnologia para destruir e matar, não necessariamente conseguirá dar uma aplicação pacífica a esta tecnologia (bom isso é contra um dos principais argumentos dos neokeynesianos armamentistas).

Os Estados Unidos precisam gerar 3.000.000 de postos de trabalho todos os anos só para acomodar o crescimento populacional e não tem conseguido fazer isso há décadas. O emprego total das 500 maiores corporações já caiu acumuladamente milhões de postos desde o final dos anos 90 e cai em termos absolutos ano a ano. A finalidade do crescimento não é emprego, isso é uma reação tautológica do ciclo: aparece timidamente quando pode e desaparece rapidamente quando não se faz mais necessário. Custo disso: 28 milhões de mendigos nos Estados Unidos, população tradicional. O país mais rico do mundo com essa estatística mostra que é hora de tentar o novo. Com tanta demanda social, a produção de armamentos é uma peça-chave para não deixar tanta gente marginalizada no sistema. O problema é que você incentiva o inimigo a fazer o mesmo (para se ter uma idéia da insanidade militar planetária, ogivas de plutônio têm que ser reprocessadas a cada 10 anos aproximadamente, use ou não, terá que re-confeccionar seu brinquedinho). Essa parte da crise ninguém menciona: crise de modelo de emprego, crise de modelo de relações entre países, crise militar.

Ganhar mais para essa sociedade ter mais bens e serviços não passou necessariamente por uma relação meritória e sim apenas pelo acesso a uma exorbitante oferta de crédito sem critério algum. É o fim do mérito, todos valem a mesma coisa (ou seja, nada) e ninguém investe no seu próprio desenvolvimento (mental, intelectual, espiritual, habilidades e aptidões). É nesse ponto que começa o colapso e é quando se descobre tardiamente que a economia depende das pessoas e não o inverso. A falência das famílias americanas, norteada por um consumo irresistível, financiado por dívida, lastreado por ativos e riquezas intangíveis e irrealizáveis, criou um sistema de ganhos que se mostrava insustentável desde a sua largada e essa crise era aguardada já há muitos anos e o único exercício de imaginação que nos restava fazer era: quando? Estamos repetindo a história, segundo Ortega Y Gasset a crise de Roma começou internamente e é um ledo engano achar que foi invadida: os romanos se barbarizaram!

O mais assustador de tudo isso é acharem que a solução está nas mesmas causas desse problema: mais consumo, mais crédito, mais investimentos em infraestrutura, como se a economia pudesse ser maior que o planeta ou como se fôssemos deuses. Devíamos pensar como os epicuristas: ou os deuses não existem ou eles não se importam conosco. Usar o mesmo remédio que causou a doença é um pecado mortal, avisado por vários autores conscientes, como Noam Chomsky, Stephen Roach, Max-Neef, Herman Daly, Roegen, etc. Os desavisados de plantão pedem para o governo apertar as mesmas teclas de destruição dos valores humanos e da capacidade do planeta sustentar a vida na Terra. Isso só produz mais famílias que não são sustentáveis financeiramente e não são capazes de sustentar os ganhos econômicos de curto prazo observados nos últimos anos de euforia. A falta de sustentação desse sistema não se restringia, portanto, apenas à questão ambiental, planetária e social. Era também financeira. O pior que agora tudo isso pode ser resolvido com armamentos. Nada mal, o encouraçado alemão Bismark gerou 2.000 empregos em plena crise alemã. Duzentas horas de operação e quase 2.000 viúvas, coisas de guerra. Pelo menos, 2.000 desempregados a menos.

Essa crise é seríssima, profunda, sem solução e ainda não atingimos a falta de sustentação maior que será a crise planetária que iremos viver logo mais, por conta da contínua antropomorfização do planeta, como se isso fosse possível, como se fôssemos deuses, como se nós ou alguns de nós estivéssemos imunes às regras bioplanetárias. Não estamos, nada será mais democrático do que a crise planetária causada pela contínua e incansável antropomorfização da Terra, estimulada pela crença estúpida no crescimento econômico baseado em investimentos em infraestrutura e exportações, como se a economia pudesse ser maior que o planeta e como se as insuficiências do nosso sistema de preços em reconhecer os danos ecológicos e planetários fossem alguma garantia que eles não existissem. Julien Simon tolamente acreditava nisso e passamos a ser garantidores da Natureza e não o contrário! Estranho, mas para os "otimistas tecnológicos" (cornucopianismo tecnológico) está tudo ok. Pergunta: conseguiremos alternar nosso DNA para viver no lixo e na radiação? Esperamos que sim, afinal estamos diligentemente transformando a Terra numa lixeira conosco dentro e vivos, pelo menos por ora.

Outro aspecto assustador da crise não foi apenas a economia americana estar dependente de famílias falidas, mas o mundo inteiro globalizado rapidamente ter engatado seus vagões nessa massa falida como se isso fosse sinônimo de sucesso e ainda exaltar a necessidade de adotarmos o mesmo modelo de consumo anti-ecológico e suicida do ponto de vista biológico como salvação econômica (de quem?), do contrário, estaríamos fritos. Nós não estamos fritos assim mesmo? Conta-se muito a história de um país cuja população era imensamente miserável e que exportava tudo que produzia, até que em um dia, um desastre natural impediu o escoamento da produção para o exterior e eles se tornaram prósperos, felizes e acima de tudo, com mais equilíbrio. É isso que significa a globalização, além dos custos inimagináveis de emissão de carbono de transporte e de consumo excessivo além da capacidade do planeta suportar, há o desequilíbrio social utilmente ignorado.

A tentativa de resolver o problema agora só irá agravá-los. George Monbiot escreveu no seu blog: dar mais crédito ao canal de consumo entupido de crédito não é justamente aquilo que causou o problema em primeira instância? Na sequência ele sobrevoa sobre as enormes críticas existentes e abafadas no mundo todo sobre a razão de existirem bancos centrais detentores da soberania de emissão de moeda. Nesse caso a discussão é gigante, para não entrar no mérito, vale dar uma olhada nos trabalhos de E. F. Schumacher, que em suma, vai de encontro com a hipertrofia das estruturas globais que se transformaram em monstros sagrados, impossíveis de serem aniquilados, embora sua própria existência possa ter consigo o germe de aniquilação de todos nós.

Em síntese, nenhuma das medidas preconizadas até agora reconhecem a necessidade de mudar o paradigma, de navegar por mares nunca dantes navegados, de fazer uma redução de escalas, de metas, de objetivos, de tecnologias e de ações empresariais, sociais e humanas, de estancar de vez o crescimento exponencial das unidades ambientais, como pessoas, construções, carros e coisas, e de ir numa outra direção que na verdade nunca experimentamos. Por essa razão, todas as iniciativas fracassarão retumbantemente e embora todos digam que nenhuma crise foi insuperável, esse é um exercício de lógica semelhante a dizer: “Até agora, nunca morri, portanto, nunca morrerei.” “Nunca houve uma crise insuperável, portanto nunca haverá uma.” O mesmo vale para a afirmação dos descrentes, como do estatístico Bjorn Lomborg em relação às descobertas assustadoras das ciências da Terra: “Nunca o planeta expulsou a humanidade da Terra, portanto, nunca expulsará.” Será mesmo?

Hugo Penteado
Mestre em Economia pela USP e autor do livro Ecoeconomia – Uma nova Abordagem – 2ª.edição 2008

Eduardo Passeto
Mestre em Planejamento Energético pela UNICAMP

3 comentários:

Clarissa Rodrigues de Medeiros disse...

Hugo e Eduardo, o artigo é de uma lucidez implacável. Sim, o modelo global é inteiramente insustentavel, não soh o sistema econômico e de produção, mas o próprio entendimento do que é Ser Humano. A ignorancia persistente daqueles que supostamente dão as cartas do jogo está ancorada nos egos, na visão do "meu interesse", do "meu lucro", do "meu objetivo". Assim buscam formas miraculosas de perpetuar o inviável. Então vemos que a grande raíz de todos os problemas que o Homem enfrenta hoje é uma questão de consciencia. O Homem não sabe quem é, não reconhece sua essência, e por isso só se identifica com o material. Mas a crise sistêmica que enfrentamos vai fritar os nervos, as convicções (e os bolsos!) dos mais resistentes e incrédulos até o "over-limit" em que, diante da ausência de respostas, todos serão obrigados a uma maior entrega, na qual a arrogancia e a ignorancia é paulatinamente dissipada, a visão integral começa a emergir, e questões como desenvolvimentohumano e espiritual, bem- estar, felicidade, vêm a tona. É uma oportunidade unica de elevarmos nossa consciencia para uma evolução enquanto especie, e a partir dai os paradigmas se alteram consequentemente. Pois já dizia Einstein, tudo acontece na consciwencia. Ou ignorar os erros mesmo diante do fracasso extremo e instalar definitivamente o caos. As massas de famintos e excluídos vão permitir? Esperemos até a água se tornar realmente um item escasso no dia-a-dia da maioria? Nunca antes a noção de livre-arbitrio foi tão central e fundamental.

antonio disse...

Caríssimos Hugo e Eduardo:

Oportuno e esclarecedor vosso artigo. . . e ele poderia também ser óbvio não fosse por um pequeno detalhe: algo que podemos chamar de "natureza humana".
Sim, a crise financeira era bastante previsível; assim como o é o colapso para o qual nossa civilização caminha a largos passos.
Acontece, meus caros, que a humanidade continua a sonhar um sonho milenar, embalado pela canção de ninar do antropocentrismo religioso e científico.
Estamos aprisionados em uma imensa arapuca por nós mesmos edificada e, ironicamente, somos incapazes de enxergar as grades que nos cercam.
E assim, continuamos a caminhar, perseguindo a ilusão de que ou Deus ou a Ciência se encarregará de solucionar nossos problemas. . . mas, em verdade, quem o fará será a propria Natureza.

Clarissa Rodrigues de Medeiros disse...

É verdade Antonio! O homem é incapaz de enchergar, pois vive aprisionado na Ilusão primordial. A ilusão de que está separado de tudo. Os budistas chamam isso de Maya. É uma questão que só pode ser superada pelo autodesenvolvimento, com uma visão integral corpo-mente-espirito em escala global, soh assim poderemos harmonizar ciencia e religião, e ter uma identificação real com a natureza, da qual somos parte inseparável.
clarissarmedeiros@gmail.com