quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

A ARTE DE SAIR DE CENA

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Maurício Andrés Ribeiro (*)

“É tarde demais para o desenvolvimento sustentável; precisamos é de uma retirada sustentável.”
James Lovelock, em A vingança de Gaia

Assisti ao tema da `Arte de sair de cena’ em uma peça de teatro no Centro Brahma Kumaris de Bangalore. O palco era ocupado por muitos personagens, príncipes, generais, administradores, servos, sacerdotes. Entretanto, o mote central da peça não era o papel desempenhado no palco. O tema era a arte de sair de cena, uma alegoria da vida e da morte: desde o nascimento, inicia-se uma contagem regressiva para o momento de sairmos de cena.
No teatro, alguns personagens estão em primeiro plano, como atores principais e não deixam a ribalta. Outros ficam em segundo plano, coadjuvantes da cena principal, ou ocupam o fundo do palco, onde desempenham papel sem grande visibilidade. Nas novelas da TV, o autor mata o personagem quando as pesquisas de opinião assim o indicam ou ele fica até o fim e tudo termina num final feliz ou trágico.
A arte de sair de cena é aplicável às situações de trabalho e à vida pessoal. Na profissão, a saída de cena pode se dar por meio de demissão por justa causa ou imotivada, ou o trabalhador pede as contas e sai. Na vida pessoal, num casamento, há o alívio da separação quando o amor acaba de forma amigável ou os problemas do litígio na justiça.
Na vida pública, há políticos que insistem em ficar em cena mesmo quando não estão agradando, e são tirados de cena pela pressão da opinião pública ou pela derrota eleitoral imposta pelo eleitor insatisfeito com seu desempenho. Alguns saem discretamente; outros se indignam e denunciam erros, disparam metralhadoras giratórias; há também os que ao sair de cena chamam a atenção para si, dramaticamente. Alguns são postos para fora a contragosto, depostos de suas funções, saem do palco de forma melancólica, desmoralizados ou desgastados. Outros se retiram de maneira digna e conquistam a admiração de todos. Há os que morrem jovens, fazem falta e deixam saudades. Os que sofrem morte súbita causam comoção. Há fatores de repulsão, que afastam do palco certos personagens, e fatores de atração, que dão entrada a outros. Algumas são saídas honrosas e dignas, outras são saídas à francesa, de fininho.
Sair de cena se aplica aos jogos e às guerras. Num jogo, pode-se sair expulso ou contundido. Na guerra do Vietnam, o presidente americano Richard Nixon recebeu o conselho de um general: “Declarar vitória e bater em retirada”. Hoje, viciados em petróleo, os americanos têm dificuldades em sair do Iraque, apesar das evidências de que em longo prazo essa guerra não será vencida.
Sair de cena é um exercício que ensina a lidar com a vaidade, com o orgulho, com a revolta, com a indignação e transformá-los em humildade e aceitação. Ensina a aceitar a mudança, a transformação, a perda e a renovação. Saber o momento de retirar-se e encontrar a melhor forma de fazê-lo exige sensibilidade, percepção e senso de oportunidade. A coragem para retirar-se e para render-se à vontade maior requer, ainda, treinamento espiritual.
A arte de sair de cena aplica-se, também, aos processos da evolução. Em seu ultimo livro, intitulado “A vingança de Gaia” Lovelock questiona a viabilidade do desenvolvimento sustentável e propõe uma retirada sustentável. A proposta por James Lovelock diante das forças da natureza é a de uma retirada honrosa, evitando a derrota trágica. James Lovelock é o criador da Teoria de Gaia, pela qual a terra é um organismo vivo com um sistema nervoso central e no qual a espécie humana ocupa o lugar da massa cinzenta do cérebro de Gaia. Substituir a proposta de desenvolvimento pela de retirada implica em mudar a direção do pensamento e das ações e em abandonar alguns supostos antropocêntricos. A proposta lembra o episódio bíblico da expulsão do paraíso. É como se, antes de sermos expulsos, tomássemos a iniciativa de nos retirarmos, voluntariamente.
Essa retirada pode ser econômica ou demográfica. Entre as formas possíveis de retirada econômica existem ações brandas, tais como a redução dos impactos ambientais das atividades humanas por meio da melhoria da ecoeficiência e a redução de emissões de poluentes, entre eles os gases de efeito estufa; a neutralização de carbono de atividades específicas tais como eventos, encontros, festas; a desativação progressiva de atividades ecologicamente destrutivas; a imposição de limites e restrições à realização de atividades poluidoras; finalmente o banimento ou eliminação de atividades não essenciais, supérfluas ou desnecessárias e que produzem impactos climáticos e ambientais.
Assim por exemplo, abolição das guerras como forma de resolução de conflitos poderia promover uma substancial redução da emissão de gases do efeito estufa, gerados no processo de produção das guerras, desde a extração de minerais até sua transformação industrial, o transporte de equipamentos militares, seu uso e atividades de reconstrução posteriores à destruição material, provocada pelos conflitos armados. Mas pergunta-se: As sociedades estão dispostas a não guerrear?
Outra atividade a reduzir seria o turismo consumista. Vôos internacionais e nacionais, transporte terrestre, serviços e comércio sofrem a pressão das atividades turísticas e provocam fortes impactos ambientais. Será necessário reduzir as viagens aéreas não essenciais que emitem gases? Que resistências serão encontradas? Os viajantes estão dispostos voluntariamente a abdicar de viajar? Será necessário sobretaxar os deslocamentos ou limitá-los de outras formas?
Pelo lado do consumo, uma forma de retirar-se é reduzir a pressão sobre a natureza, por meio de educação, da cultura ecologizada e da imposição de ônus econômicos e taxação sobre o consumo. Além disso, são formas de reduzir os impactos das atividades humanas:
• Redesenhar as edificações e cidades dentro de normas e padrões que ajudem a conservação de energia.
• Adotar vida contemplativa e prezar a meditação e o uso do tempo de formas criativas que não pressionem o ambiente e o clima.
• Reduzir a pegada ecológica, a pegada hídrica e a pegada energética de indivíduos, cidades, países. Criar imposto progressivo sobre a pegada ecológica.
• Conter o crescimento econômico insustentável para que a evolução humana se faça dentro de limites dos recursos do planeta.
• Reduzir a ação sobre o meio físico e limitar a produção de bens materiais que demandam o uso de recursos naturais.
• Maximizar as atividades menos impactantes, tirar objetos de cena, dissolver desejos e promover menor consumo material.
As retirada demográfica pode ser branda ou drástica. Há um movimento biocêntrico, disseminado pela Internet, pela auto-extinção voluntária da espécie humana, por meio da proposta de filho zero, que em poucas gerações extinguiria ou reduziria a quantidade de indivíduos da espécie. Essa proposta cortaria pela raiz os efeitos das atividades humanas, mas é utópica, devido às dificuldades para promover a adesão voluntária a ela.
Comenta Lovelock: ”As mulheres nas sociedades prósperas, se dotadas de uma chance justa de desenvolver seu potencial, optam voluntariamente por ser menos fecundas.” O controle voluntário do crescimento demográfico é uma maneira de fazer o tamanho da população humana caber nos limites da capacidade de suporte do planeta. Um exemplo é o planejamento familiar com redução da natalidade e do incentivo ao filho único, tal como realizado na China. A retirada demográfica pode-se dar por meio de formas extremas e dolorosas de redução da população, tais como as guerras e o genocídio, bem como a exposição a pragas e doenças. Aqui se colocam questões éticas, como lembra Pierre Weil : “Entre aceitar a morte como processo vital e provocá-la se encontra a diferença fundamental entre um valor construtivo e um destrutivo.”
Lovelock estima que chegaremos ao final do século XXI reduzidos a um bilhão de pessoas, devido aos efeitos das mudanças climáticas em curso.

(*) Autor de Ecologizar, pensando o ambinete humano e de Tesouros da Índia para a civilização sustentável. www.ecologizar.com.br mandrib@uol.com.br

3 comentários:

Jaime L. Rodacoski disse...

Bom Dia.
Assisti essa madruga no GNT ao programa "Marília Gabriela Entrevista" onde reprisaram uma entrevista com Hugo Penteado, gostei muito da entrevista e logo fui ao Google pesquisar sobre você, caro Hugo Penteado, e cheguei a esse blog.
Justifico meu interesse. Sou estudando do terceiro ano do curso de Ciências Biológicas pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de São José do Rio Preto. Tenho muito interesse na questão ambiental e pretendo seguir carreira nesse meio. Foi e é muito interessante ver um economista trabalhar com sustentabilidade. Talvez isso possa até soar paradoxal para os conservadores (risos!). Parabéns pelo blog, está excelente e pretendo vir aqui visitá-lo mais vezes.
e-mail: bio-rodacoski@hotmail.com

henrique disse...

Hugo, também vi sua entrevista no GNT, gostei muito da sua abordagem principalmente quando você se refere ao PIB, é uma forma diferente de ver a economia atrelando-a a fatores sociais e ambientais, o seu pensamento não deveria ser considerado um pensamento de "futuro" e sim um pensamento do presente, visto que precisamos mudar o nosso foco com urgência sob pena de não termos mais onde viver .
A propósito como você observa o futuro do sistema capitalista atrelado justamente as questões sociais e ambientais ? Existe futuro para o capitalismo ?Existe futuro para nós ?

antonio disse...

Um bom artigo a respeito de um ótimo livro: "A Vingança de Gaia".
Bem, como apontado por Maurício, temos aí duas medidas imprescindíveis para se evitar o colapso civilizacional: a retirada econômica e a retirada demográfica.
Será que vamos adotá-las??
Pessoal, receio que não, não mesmo. Não acredito que a humanidade fará uma retirada voluntária e pacífica. . . afinal, quantos estão dispostos a abrir mão dos confortos e deleites da vida moderna?? Por favor, se tiver alguém por aí erga a mão.
Mas, gente, não nos preocupemos em demasia. . . mais cedo ou mais tarde a Natureza fará o trabalho por nós.