terça-feira, 8 de julho de 2008

Eterno debate inútil sobre aquecimento global ser falso ou verdadeiro

Por Hugo Penteado em 07/07/2008
Fonte: Eco-Finanças


Aquecimento global é grande parte teórico e uma menor parte evidência, incluindo algumas poucas previsões já confirmadas. Embora o aquecimento global possa ser negado ou ignorado, é muito difícil que o processo linear-infinito-degenerativo do sistema econômico-humano não tenha produzido problemas graves como esse ou outros, que até desconhecemos por conta dos atrasos ecológicos e da resiliência da natureza. Estamos numa situação na qual as conseqüências estão muito distantes das causas, por causa do funcionamento do planeta, um sistema muito complexo.
Se parte da história do aquecimento global é teórica - e inacessível, colocando qualquer pessoa que acredite nisso numa possível posição ingênua - as outras evidências do nosso sistema são visíveis e inegáveis, como por exemplo, a contaminação contínua do solo, ar e água, a extinção global de espécies animais e vegetais, a destruição de florestas, o esfacelamento dos serviços ecológicos básicos, etc. Acima de tudo, não se trata de um processo momentâneo, mas perene e submetido a crescimento exponencial eterno: a cada minuto perdemos 42 campos de futebol em florestas, um terço só no Brasil (não é só florestas que perdemos a cada minuto).
Esses processos são antítese de algum outro processo que precisa ser investigado e são meras conseqüências e embora os ingênuos não possam sequer pensar em entender os modelos das ciências do clima, é muito fácil pegar essas evidências e trazê-las para outro campo, como a economia, e tentar entendê-las sob esse prisma. Provavelmente é isso que os cientistas do clima esperam que façamos: eles entenderam o problema planetário e mostraram conclusões e riscos. A partir daí, os economistas têm um trabalho a ser feito: verificar como a economia teórica e prática contribuiu para gerar esse problema e descobrir suas causas. Uma teoria com mito mecanicista e tecnológico que trabalha com a hipótese que o planeta é inesgotável e que os processos econômicos são neutros para o meio ambiente seria o melhor ponto de partida. O mito do crescimento como salvação social seria outra área de pesquisa importante, porque o ataque ao planeta é justificado pela necessidade de acabar com os problemas sociais sempre crescentes que estamos vivendo. Seria demais esperar que os economistas obtivessem doutorado nas ciências do clima antes, ao invés de se debruçar sobre seu próprio conhecimento para levantar os erros econômicos que produziram esses problemas, a maior parte deles inegáveis para quem tiver um mínimo de bom senso e ética.
Nesse caso, as respostas ficariam mais claras: 1) aquecimento global não é o problema, mas um dos problemas, 2) aquecimento não é uma possível causa, mas a conseqüência, como muitas outras que não podemos ignorar e 3) o desastre socioambiental é uma antítese da economia. A economia pode enumerar as causas de problemas prováveis ou improváveis que a humanidade já enfrenta e enfrentará muito mais no futuro. Ciências do planeta e do clima mostram as conseqüências, a economia mostra as causas e essa abordagem unificada conseguiria produzir a ação necessária para evitar o colapso que se avizinha. Enumerar as causas não significa ter achado as soluções. Esse seria um outro passo, mas no seio da economia, a cartilha que é pregada por todos continua sendo parte do problema e não da solução. Alguns economistas até reconhecem isso, mas afirmam sem medo que quem descobriu o problema, deve achar a solução. Nada poderia ser mais antiético que isso.
Portanto, considero para nós economistas mais importante centrar a discussão nas causas, porque elas estão aí operando a todo vapor e sem mudança alguma na prática. É como se do lado de cá estivéssemos discutindo os sexos dos anjos e do lado de lá, a sociedade inteira estivesse como todo bom fumante, totalmente prazerosa indo na mesma direção de sempre, sem se preocupar com as conseqüências, que parecem muito distantes para todos.

* Hugo Penteado é autor do livro Ecoeconomia: uma nova abordagem (Ed. Lazuli, 2003)

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