segunda-feira, 28 de julho de 2008

AMEAÇAS AMBIENTAIS CRESCENTES

Clóvis Cavalcanti
Economista e pesquisador social
clovis.cavalcanti@yahoo.com.br
No livro de J.B. Foster, de 2005, A Ecologia de Marx, encontra-se interessante citação das Collected Works de Marx e Engels: “Não nos gabemos ... em demasia por conta das nossas vitórias humanas sobre a natureza. Pois para cada vitória dessas a natureza se vinga de nós ... a cada passo somos lembrados de que nós absolutamente não governamos a natureza ... mas que nós, como a carne, o sangue e o cérebro, pertencemos à natureza e existimos no seu meio”. Conclusão de Marx e Engels: o domínio que temos sobre o mundo natural reside no fato de estarmos em vantagem com respeito “a todas as demais criaturas por podermos aprender as suas leis e aplicá-las corretamente”. Palavras surpreendentes para mim que nunca havia encontrado em Karl Marx uma visão ecologista. Assim, o marxismo possui um laço histórico com a percepção mais atual das ciências da natureza. Percepção essa que se mostrou mais uma vez, entre os dias 13 e 18 do corrente, durante a 60ª Reunião Anual da SBPC, na Unicamp (Campinas, SP), de que participei.

Sobre tal percepção, por exemplo, a palestra do prof. Wilson de Figueiredo Jardim, do Instituto de Química da Unicamp, foi muito elucidativa. Apoiada na Segunda Lei da Termodinâmica, a da entropia, o prof. Jardim mostrou como o mundo está mergulhado numa situação de insustentabilidade ambiental. Ou seja, como nenhum processo é totalmente reversível, em todos existe uma perda. A lei básica da natureza é a do declínio, do desgaste: tudo decai, enferruja, desmancha-se. Tal tendência é acelerada pelos processos humanos que buscam queimar etapas, acelerar o crescimento, obter de forma ansiosa aquilo que a natureza oferece apenas em doses comedidas. O resultado é a constatação de que, sendo o planeta finito e não-crescente, todo o esforço de dele extrair recursos a um ritmo frenético, no marco de um modelo de desenvolvimento sem nada que o contenha, está levando o mundo ao caos. Somem-se a isso nossa ignorância dos processos naturais (quem sabe como funciona efetivamente o sistema do clima?), as enormes incertezas sobre o que pode acontecer (como seria a Terra sem abelhas?), os interesses em jogo e a dificuldade de comparar valores além dos econômicos (como o valor de uma paisagem ou o valor de uma vida feliz). O balanço final é que se faz necessário aquilo que o físico Carlos Nobre, do Inpe, também na reunião da SBPC, chama de uma “revolução ética”. Uma revolução que chame todos à responsabilidade e nos faça moderar o ímpeto com que se destrói a natureza no Brasil e no mundo.

A esse propósito, vale lembrar que são inúmeras as ameaças ambientais que pairam sobre nós. Uma delas, pouco conhecida, mas terrível, é a do mal que está exterminando abelhas no mundo. Trata-se da chamada “desordem do colapso de colméias”, provocada por desequilíbrios ecológicos como os trazidos por agrotóxicos. Como vetores indispensáveis da polinização de muitas plantas, as abelhas não podem ser descartadas. Mas é o que está acontecendo. A conseqüência é uma séria crise agrícola em gestação. A ponto de, na província de Sichuan (China), os agricultores já estarem fazendo polinização empregando mão-de-obra humana. Uma loucura. Outra ameaça: a de muitos invertebrados, como os escaravelhos (rola-bostas), desaparecerem – também por fatores ambientais. Esses insetos alimentam-se de excrementos de mamíferos herbívoros, constituindo elo fundamental da cadeia alimentar da natureza. Sua contribuição para a decomposição de matéria orgânica é inigualável. Mas o delírio do crescimento insustentável da economia causa aí mais um problema ameaçador.

Um comentário:

Claudia Chow disse...

Quando leio coisas assim tenho muito medo do futuro!