quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Austrália combate gases bovinos do efeito estufa

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Após ler o artigo (ver conteúdo abaixo), não dá para deixar de comentar. Legal, mas ao pegar o rebanho que arrota menos e multiplicar por 10 ad nauseam para satisfazer as necessidades ilimitadas dos seres humanos e impensáveis dos chineses, o impacto total será maior mesmo assim. E, a indústria da carne pode fazer de tudo, mas dar carne aos 6,7 bilhões de pessoas dentro da lógica produtivista e acumulativa significa ter que seguir o conselho de Stephen Hawking: precisaremos colonizar outros planetas rapidamente. A saída não está aí se não revertermos essa lógica. E não temos como sair desse planeta, estamos presos aqui.

Do ponto de vista da saúde, a carne é um grande mal para o corpo humano, principalmente quando ingerida além da nossa capacidade digestiva. Segundo literatura médica, só conseguimos digerir de 30 a 40 gramas de carne a cada quatro horas, dada a nossa natureza onívora (ops, desconhecemos até o ecossistema mais próximo da gente pelo jeito...). Os animais carnívoros tem saliva ácida, produzem ácido clorídrico suficiente para derreter ossos e tem intestino curto; seres humanos e os onívoros possuem saliva alcalina e a carne chega inteira no estômago, onde produzimos muito pouco ácido clorídrico e termina num intestino preguiçoso e longuíssimo.

Foi feita uma lavagem cerebral para acreditarmos que somos carnívoros, contrariando conhecimentos básicos de biologia. Eu perguntei isso outro dia a uma plateia e todos levantaram a mão para confirmar que somos carnívoros!!! A modernidade é cheia de oximoros: informações emburrecedoras; veículos paralisantes, saúde para doentes, alimentos desnutritivos, cidades desumanas, etc.

Fora os 30 ou 40 gramas que somos capazes de digerir, o resto apodrece dentro do nosso tubo digestivo longuíssimo, vira fonte de contaminação, obesidade, aceleração do envelhecimento e doenças. A verdade é que a carne que excede a quantidade possível de ser digerida só serve para ser transformada em bolo fecal podre e contaminante, que demora três dias para sair pelas vias naturais. Isso não é um sinal da nossa inteligência...

Comer carne não é só um dos hábitos mais anti-ecológicos que existem, é também anti-social e perdulário com a Terra: não comemos a vida do boi, mas a sua morte e se todo alimento usado para os rebanhos fosse dado aos seres humanos, a oferta de alimentos aumentaria várias vezes. Todo e qualquer produto que não poder ser universalizado para os 7 bilhões de seres humanos tem que ser evitado ou consumido de acordo com as suas possibilidades benignas. A partir de um certo ponto é, à lembrança de um importante termo de Herman Daly, deseconômico. Já sabemos o montante: 40 gramas.

Portanto, o artigo mostra como a solução dos problemas econômico-ecológicos não saem da lógica quantitativa, produtivista, acumulativa, seja no âmbito da carne, do clima ou da energia e alhures. Quanto mais forçamos o sistema para produzir melhor, mesmo que na margem essa nova adição produtiva seja mais limpa e ecológica, o impacto não pára nenhum momento de subir (isso vale para o mito fortíssimo da energia limpa...). Dá para entender porque um jornal como o NYT publica isso sem visão crítica alguma, mas muitos já sabem que precisamos substituir a produção atual e não adicionar novas produções com ideias mirabolantes que de forma alguma revogam a finitude da Terra.

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New York Times na Folha de S.Paulo da Segunda Feira, 2 de Agosto 2010

Austrália combate gases bovinos do efeito estufa

Por Norimitsu Onishi

GATTON, Austrália - A julgar pelo que diz Athol Klieve, a chave para a redução das enormes emissões australianas de gases do efeito estufa é tornar a vaca mais parecida com o canguru, o animal-símbolo do país.

Ambos os animais são herbívoros e fermentam o alimento antes de passá-lo ao estômago principal. Mas, enquanto o gado expele enormes quantidades de metano para digerir a comida, os cangurus arrotam ácidos inofensivos, que podem ser transformados em vinagre.

Klieve, um especialista em estômagos bovinos, tem mexido na dieta dos ruminantes para que eles arrotem menos. Mas se anima ao falar em comandar uma equipe de pesquisadores para fazer o intestino do gado funcionar como o dos cangurus.

"Aditivos na ração podem levar a reduções no metano", disse Klieve. "Mas estamos tentando outras coisas que poderiam nos permitir um salto quântico e, por isso, estamos observando os cangurus."

A Austrália emite mais gases do efeito estufa per capita do que praticamente qualquer outro país, graças às suas usinas termoelétricas a carvão. Mas mais de 10% desses gases vêm daquilo que burocratas chamam de emissões pela criação animal.

A qualquer momento, após mastigarem e regurgitarem sua comida, dezenas de milhões de vacas australianas, e também ovelhas, estão arrotando metano incessantemente.

Como o metano é considerado 21 vezes mais potente do que o dióxido de carbono no processo de aquecimento da atmosfera, esses arrotos dão munição para ambientalistas, vegetarianos e outros críticos da carne.
Agora, a indústria da carne está reagindo. Junto com o governo, ela está financiando uma campanha de US$ 24 milhões para reduzir as emissões animais de gases.

Os pesquisadores examinam medidas como ajustar as rações, melhorar a gestão do estrume, recalibrar os organismos estomacais e selecionar geneticamente animais que arrotam menos. Esses cientistas estudam os
estômagos de ruminantes como vacas, ovelhas e cervos.

Num país onde a crescente conscientização ambiental pode afetar a venda de carne, a entidade Carne e Criação Austrália está convidando ambientalistas importantes para seminários intitulados "Carne vermelha pode ser verde?".

Na parte anterior do sistema digestivo de uma vaca, que pode conter mais de 90 kg de pasto a qualquer momento, a fermentação do alimento leva à liberação de hidrogênio. Micróbios chamados metanogênicos ajudam a eliminar o excesso de hidrogênio, produzindo metano.

Em outros animais que apresentam fermentação na parte posterior do sistema digestivo -ou seja, depois da passagem pelo estômago-, o metano às vezes é liberado por meio de flatulência, algo que, segundo Klieve, tem gerado confusões sobre o seu trabalho.

Como o gado, os cangurus fazem a fermentação na parte anterior do trato digestivo. Mas, em vez de usarem micróbios metanogênicos para se livrar do hidrogênio indesejado, os cangurus usam micróbios diferentes, que reduzem o hidrogênio não pela produção de metano, e sim de ácido acético, a base do vinagre. Seria possível transplantar esses micróbios para as vacas? Seria possível criar nos estômagos bovinos um ambiente em que os micróbios bons substituiriam os metanogênicos?

"Se pudermos responder essas perguntas, estaremos avançando para conseguir que esses animais não fiquem produzindo metano", disse Klieve.

Nem todo o mundo apoia a pesquisa. "Isso soa surpreendente para mim, que este seja o foco primário, quando já há um animal que faz isso", disse George Wilson, diretor da Australian Wildlife Services, empresa de gestão da vida selvagem, que faz campanha pelo maior consumo de carne de canguru na Austrália.

A proposta foi favoravelmente citada num relatório governamental de 2008 sobre a mudança climática, que apontava que por 60 mil anos os cangurus foram a principal fonte de carne para os aborígenes australianos.

Mas Beverley Henry, encarregada de questões climáticas da Carne e Criação Austrália, disse que a ideia é inviável. "Você precisa de algo como dez cangurus para produzir a mesma quantidade de carne de um bezerro. Não dá para pastoreá-los ou cercá-los."

Um comentário:

Lilith disse...

Já viram como são feitas as pesquisas sobre alimentação de ruminantes? Instalam (cirurgicamente) uma tampa que dá acesso ao rúmen e todas as vezes que acham pertinente abrem aquela tampa pra recolher material. Sinistro! Fora a quantidade de milho e soja que esses animais ingerem, e aqui não estamos falando de alimento não digerível pelo homem como costumam defender os "carnívoros". Na alimentação animal 1kg de farelo de soja (45% de prot. bruta) chega a custar R$ 0,11. É desumano o desperdício de alimento que poderia tirar da fome milhões para a satisfação de poucos.