sexta-feira, 30 de abril de 2010

A mudança dos paradigmas e o mito do crescimento

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Artigo publicado no Jornal Valor no dia 19 de abril de 2010

Não há uma única variável nos modelos econômicos que contabilize a contribuição irreproduzível e fundamental dos serviços da natureza. Para a pouca análise feita dentro do “mainstream”, há apenas a conclusão que os recursos naturais tangíveis, como metais e petróleo, são completamente dispensáveis e irrelevantes para o processo econômico. Água, que é finita, idem. Sobre os demais serviços ecológicos e o papel dos ecossistemas não há qualquer tratamento científico nessa ciência. A importância desses itens é demasiado grande para ser ignorada dessa forma.

Há um artigo na “Enciclopédia de Sistêmica” de Charles François que dá a seguinte referência para “Permanência” (leia-se sistemas sustentáveis): “um sistema só pode permanecer se apresentar estruturas regulatórias de feedback que levem em conta interferências e possibilidades externas reais.” Esse conceito revelaquepraticamente nenhum processo econômico possui permanência — ou sustentabilidade —, a menos que esse erro teórico seja corrigido.

China e os Estados Unidos não vivem a sua própria insustentabilidade porque são capazes de exportá-la a custo zero para o resto do mundo via comércio global. Nicholas Georgescu-Roegen teria evitado a confusão climática e ambiental atual, pois no seu tempo, mais de 50 anos atrás, foi capaz de prever a maior parte desses problemas. Segundo ele, se a economia do descarte imediato dos bens, do desperdício e do crescimento infinito for mantida, a humanidade será capaz de entregar a terra ainda banhada em sol apenas à vida bacteriana.

Temos um problema tanto de matéria quanto de energia, mas o“mainstream” abraçoua causado aquecimento global como uma oportunidade de negócios. É um mito acreditar que só temos umproblemade energia.Temosacima de tudo um problema de matéria.

O espaço territorial é finito, os serviços ecológicos e os ecossistemas dos quais dependemos são restrições maiores que a espacial. Na Terra, todos os seres vivos dependem de todos os seres vivos. Tamanho erro não se justifica à luz do conhecimento científico das últimas décadas e não se confirma mais pelos fatos evidenciados todos os dias, seja no âmbito ambiental e no social. A mania de crescimento, se não for logo abandonada, irá transformar nosso planeta fértil e cheio de vida em uma rocha seca. Quando o problema do buraco da camada de ozônio surgiu, houve um lobby gigante da maior empresa produtora dos gases causadores (CFCs), que atrasou a solução por mais de 10 anos.

Estava em jogo nada mais nada menos que a vida na Terra, pois, sem essa frágil camada, o DNA é destruído. O mesmo lobby surge agora da indústria de combustíveis fósseis e carvão. A esse respeito o livro “Os Senhores do Clima” de Tim Flannery é uma leitura mais do que recomendada. Há evidências do fracasso do modelo de crescimento. Os Estados Unidos são um exemplo desse projeto que terminou em catástrofe econômica.

A China deve evidenciar a catástrofe ambiental com seus problemas assustadores. Ocrescimento, segundo a New Economics Foundation (“Growth isn´t working“) e a Fordham University, nada mais é que um mecanismo de diferenciação social, cujos níveis de desigualdade atingiram recordes, principalmente entre as nações mais ricas.

Os indicadores da Fordham mostram uma comprometedora relação negativa entre crescimento econômico e os indicadores (analfabetismo, pobreza entre pessoas com mais de 65 anos, população encarcerada, alcoolismo, mendicância, acesso à saúde, suicídio, etc). Amartya Sen tem uma enorme contribuição a dar para esse debate. Ao largo dessa visão de mundo, há o testemunho de Mohammed Yunus que curiosamente foi assistente de Roegen (seu livro “O Banqueiro dos Pobres” é imperdível).

Segundo Yunus, os projetos de assistência social visam perpetuar uma situação de

Empobrecimento da população com duas finalidades nada éticas: 1) Justificar mais crescimento para abastecer quem menos precisa, com a falsa noção que só o crescimento — e o dinheiro — irá tirar a população da pobreza.

2) Criar atividades que deveriam ser éticas, mas que são portas abertas para as mais absurdas manobras de corrupção envolvendo governos e empresas no mundo todo. Como romper com tudo isso?

Hugo Penteado é economista-chefe do Santander Asset Management e autor do livro “Eco-Economia — Uma nova Abordagem” E-mail hugo.penteado@santander.com.br

Um comentário:

Helô Bueno disse...

Para refletirmos...
Como poderemos formar novas gerações de cidadãos capazes de compreender que as metas de crescimento devem ter o foco ser substituído, de
"desenvolvimento econômico" para "desenvolvimento humano"?