terça-feira, 20 de abril de 2010

Carta Aberta à Dilma Roussef

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Prezada Exma. Sra. Ministra Dilma Roussef,

Sem o Cerrado, o aquífero Guarani morre e sem ele a agricultura morre. Não tem como mirar em uma só variável e uma só métrica, pois o problema é sistêmico e o desastre ambiental global não é causado apenas pelo aquecimento global e sim por uma série de riscos e pressões em várias frentes e por uma visão de mundo que ignora a contribuição da natureza e seus serviços para tudo existir.

O Guarani já está bem comprometido com contaminação, contas futuras que deixamos de herança para todos os netos de todos os netos. Eu não sou especialista, posso achar alguém na minha rede de contatos que possuo para detalhar mais isso, mas a situação do Cerrado e do Guarani é assustadora. Estive com um especialista em Bauru, um cientista, que falava comovido sobre o assunto. Como ele há vários, jamais ouvidos. Eles precisam ser ouvidos.

Os economistas precisam corrigir seu paradigma, porque essa ciência possui erros epistemológicos seríssimos identificados há mais de 60 anos. Os economistas acreditam que o sistema econômico é totalmente desvinculado do meio ambiente e que a economia pode ser maior que o planeta. Ou que o planeta é um subsistema da economia e que todos os processos econômicos, além de reversíveis, são neutros para o meio ambiente. Ou que os serviços ecológicos e recursos naturais, mesmo os tangíveis, como petróleo, metais e água, são desprezíveis e irrelevantes para explicar o crescimento econômico - e prevêem preço zero para eles, uma distorção de mercado que só será corrigida por uma mudança geral de valores que, mesmo entre os mais despertos, está ainda longe de acontecer. O nosso atual conjunto de valores determina que quanto mais viável economicamente for uma atividade, menos viável ambientalmente ela é. Estamos perdendo muito com isso.

Esses mitos de separação da economia (e de atividades como agricultura) e meio ambiente andam a todo vapor e a rota de colisão com a Terra, cuja resposta pode ser o fim da nossa espécie animal, segue infrene. Os ecossistemas não estão aí apenas para serem lugares de expansão agrícola e econômica, eles fornecem os 20 serviços ecológicos sem os quais não estaríamos vivos, são reguladores químicos do solo, do ar e da água, sem os quais a Terra seria uma tocha incandescente. É um equilíbrio dinâmico e vivo. Como economista de formação e atuante estou profundamente convencido da necessidade de conhecermos as demais ciências, as puras, como química, física e matemática, para depois entendermos o que podemos fazer. Precisamos inclusive discutir essa conta ambiental com a comunidade internacional, porque não há um só exemplo no mundo de desenvolvimento econômico que não tenha devastado os ecossistemas e não tenha transbordado essa destruição para além de suas fronteiras, via comércio global. Esse processo já causou a maior e mais veloz extinção da vida em massa na Terra dos últimos 65 milhões de anos. É muita ingenuidade achar que essa extinção jamais irá se voltar contra os causadores.

No futuro não haverão vencedores, posto que todos nós estamos no mesmo planeta e pertencemos a mesma espécie animal, numa teia viva onde todos os seres vivos dependem de todos os seres vivos. A tarefa é árdua, parabéns pelo seu trabalho e preocupação com o futuro.

Atenciosamente,

Hugo Penteado

Um comentário:

Paulo Henrique Marques Lütkenhaus disse...

Prezado Hugo Penteado,

Primeiramente, parabéns pela excelente carta. Sempre apoiei, e continuarei apoiando, sua ferrenha defesa da natureza, da Terra, da Economia Ecológica, enfim, estando à frente de nosso tempo, paradigma e idéias.

Bem, não sei se lembra de mim, me chamo Paulo Henrique e estive em um mini-curso "Economia Ecológica" ministrado por você em Belo Horizonte / MG, ano passado, durante evento realizado pela UFMG. Lembra-se? Até tirei umas fotos com você. Pois bem, seria possível pedir-lhe que enviasse, por gentileza, o material do mini-curso para mim por e-mail (paulo_lutk@yahoo.com.br)? Atualmente, estou iniciando uma monografia acerca dos impactos antrópicos causados à Mata Atlântica e, com isso, fazendo um paralelo ao ocorrido no caso de uma cidade mineira dos arredores de Belo Horizonte, chamada Nova Lima (você poderá conferir maiores detalhes do caso no blog: www.preservejp.blogspot.com). Aproveito ainda para deixar meu blog pessoal: www.lutkenhaus.blogspot.com

Grande abraço, Hugo, e, mais uma vez, parabéns pela sua excelente atuação e pelo seu livro (Ecoeconomia: uma nova abordagem), o qual possuo um exemplar.


Att.,

Paulo H. M. Lütkenhaus