sexta-feira, 9 de abril de 2010

Sobre a água

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Fiz um comentário a partir do texto da nossa ilustríssima senadora, Marina Silva. Muito poderia ser escrito sobre esse descaso monumental, o lixo, a poluição ininterrupta e exponencialmente crescente em cima dos ecossistemas e seus recursos hídricos e a forma como isso já produziu a maior extinção em massa das espécies animais e vegetais da Terra dos últimos 65 milhões de anos. Sem uma mudança radical do modelo econômico, de seus valores, das suas métricas, sem mostrar como a economia que rege o mundo à nossa volta não passa de uma teoria falsa, em desacordo com a realidade e com as ciências mais puras, não iremos evitar que essa extinção não se voltará contra os causadores, ou seja, nós. Por isso, o cientista Martin Rees e outros já declaram que as chances da humanidade terminar o século XXI são muito baixas, infelizmente.

Vamos à água que veio dos cometas. Basta lembrar que faz parte de um ciclo vivo, não pode ser estocada, porque sem as plantas e os bichos, a água desapareceria, é um fluxo constante. A água só existe porque existe a biodiversidade e seus ecossistemas e seus serviços. Na Amazônia, 50% da água existente vem da evaporação dos oceanos e a outra metade vem da transpiração das árvores. A água lá só existe porque existe a floresta e a floresta só existe porque existe a água. Elas são inseparáveis. E dessa água vem os rios aéreos que trazem água para o resto do Brasil, 90% da água da região sudeste é formada na Amazônia, de acordo com o Smithsonian Tropical Institute. Não é só a água que chega aqui, que é dependente da Amazônia, porque o pólen das árvores que vem em grande quantidade junto com ela é que permite ela se aglutinar e formar as chuvas, do contrário a água passaria reto sem cair sobre nossas cidades. Sem a Amazônia todos estaremos mortos, parafraseando a famosa frase do economista também cego em relação ao meio ambiente, John Maynard Keynes: não se preocupem com outras questões (sociais ou ambientais nem com as gerações futuras) porque “no longo prazo todos estaremos mortos”. É assim que todos os economistas pensam, apesar de todas as evidências em contrário.

Por isso em todos os modelos econômicos da atualidade, não há uma só variável que contabilize a contribuição inigualável e irreproduzível da água. Na macroeconomia aplicada que é seguida por todos os governos, desde Fernando Henrique Cardoso, Lula, Serra e Dilma, não há nenhum tratamento digno da contribuição da natureza para tudo que existe à nossa volta inclusive nossas vidas. Na macroeconomia moderna a conclusão que vigora até hoje é que os recursos da natureza são completamente irrelevantes para explicar os processos econômicos e podem ser perfeitamente substituídos pelo capital produzido pelo homem (máquinas, equipamentos, construções, etc.). É um erro teórico tão monumental que pode ser ilustrado da seguinte forma: na cozinha dos economistas, eles podem preparar uma refeição apenas com panelas, colheres e fogão, sem precisar em nenhum momento da farinha, do leite e dos ovos.

A crença absurda na inesgotabilidade da água e a abundância da água do Brasil na bacia amazônica não tem fundamento científico algum. A água que existe nesse planeta em grande parte chegou aqui através do bombardeamento contínuo de cometas compostos de água congelada. Isso nos primórdios da criação do nosso planeta e sistema solar há bilhões de anos e a paz cósmica só chegou a partir do surgimento de Jupíter, que por ser um planeta infinitamente maior que o Brasil, virou a esponja do nosso sistema solar, absorvendo todos os cometas e asteróides através da sua enorme gravidade. Para a quantidade de água aumentar na Terra é necessário um cometa bater contra a Terra e como isso seria o equivalente a várias bombas nucleares explodindo, é um evento extremamente indesejável. Sem Jupíter presente no sistema solar da Terra, não estaria agora escrevendo esse texto e essa é apenas mais uma das incríveis peculiaridades universais que permitiu a existência da vida na Terra. Nós estamos destruindo a mais básica de todas que é a nossa relação com o meio ambiente e a nossa incrível dependência, onde todos os seres vivos dependem de todos os seres vivos, fato que no excesso de individualismo atual segue amplamente ignorado. Para restabelecer essa relação do homem com o meio ambiente é fundamental que onde for possível essa relação seja restaurada.

Dia da vida

Marina Silva

SEM ÁGUA não existe vida, saúde ou desenvolvimento sustentável. Se a água for mal tratada e mal gerida, pode ser morte, doença e desigualdade social. E, a cada ano que passa, torna-se maior o complexo desafio para o homem tratar da questão da água em um cenário de industrialização, de urbanização e de mudanças climáticas.

Todos os cenários vislumbrados para o Brasil, no âmbito das mudanças climáticas, apontam para alteração do padrão de chuvas no ano. Avaliando-se o que já acontece hoje em todas as regiões do país, é de se esperar que aumentem os efeitos desastrosos desses fenômenos naturais.

Historicamente, temos tratado a água como um recurso inesgotável.

Embora vivamos em um planeta cuja superfície é ocupada por cerca de dois terços de água, esquecemos que apenas 0,09% dessa água pode ser aproveitada para consumo do homem. E há uma parte significativa que já foi poluída ou degradada pela ação humana.

O Brasil é favorecido com o maior volume de água doce do planeta. Entretanto, difundiu-se aqui, desde Pero Vaz de Caminha, a falsa ideia de abundância. É enganosa a ideia, uma vez que a distribuição é desigual e a maior parte da água está concentrada na bacia amazônica.

Como destino natural das águas de chuvas em um território, os rios, os lagos e os mares trazem em suas entranhas as marcas e os reflexos das atividades humanas. Os rios traduzem, assim, as virtudes e as mazelas de nossa relação com o meio ambiente. Viram o melhor indicador do gerenciamento e da consciência ambiental de uma sociedade. Sob essa perspectiva, há pouco a festejar e muita preocupação com o Dia Mundial da Água, celebrado hoje. Para se ter uma ideia, a maior parte do esgoto gerado nas cidades é despejado sem tratamento nos cursos d’água.

Nas últimas décadas, o Brasil avançou na criação de um aparato legal e institucional que permite gerenciar, de forma adequada, as águas do país. É um sistema que exige a participação cidadã e a consideração das diferentes situações regionais.

Com esse sistema implantado, certamente o Brasil estaria mais bem preparado para enfrentar os desafios que se avizinham. No entanto, o batalha é ainda imensa, já que a questão da água ainda não ocupa a prioridade que deveria ter para os gestores públicos.

Fizemos o Plano Nacional de Recursos Hídricos com intensa participação da sociedade. Agora precisamos enfrentar o grande desafio de implementá-lo. Saneamento básico é a prioridade, investimento obrigatório para quem deseja uma sociedade que sabe cuidar das suas águas em benefício de seus cidadãos.

Publicado na Folha de São Paulo em 22/03/2010.

http://www.minhamarina.org.br/blog/artigos/page/2/

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