sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Fracasso da economia: como insistimos nos mesmos erros de sempre

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Enquanto ia para o aeroporto, conversando com o motorista, ele me relatou as quedas d´água do Rio Tietê. Eu havia acabado de mencionar a luta de um clube de iatistas idosos a margem do rio que estava para ser desativado. O motorista devia ser uma década mais velho que eu e então me dei conta que nossa sociedade e nosso ambiente foi totalmente destruído nesse curto lapso de tempo, ou seja, durante a minha vida.

Quando nasci em 1965, minha família paterna e materna moravam em São Paulo e nós em Santos. Na subida da serra, só existia a Anchieta. Toda a parte do Casqueiro, no sopé da serra e a serra propriamente dita não tinham os milhões de moradores nem todo aquele desastre ambiental. Mais adiante, quando íamos ao sítio de Cotia do meu saudoso tio Manoel, não havia uma casa na Raposo. Era só verde. Da casa do sítio víamos as matas ainda intactas. Hoje a casa foi cercada por um ziguilhão de casebres, a feiúra que tomou conta das cidades brasileiras é opressiva.

Nada mais pode ser opressivo do que a morte do Rio Tietê. Cheguei em Recife, cidade turística linda, que deixa São Paulo nos pés, no entanto, a população aprendeu a cuidar só do seu quintal e quando digo população, falo do mundo inteiro. No nosso individualismo, os espaços coletivos não existem e é onde chafurdam os menos afortunados. O calçamento de Recife a uma quadra da praia, lugar para se aproveitar o mar e a natureza, é horrível, os prédios amontoados, um acinte a boa imaginação. A única coisa que restou de bonito foi Olinda, justamente onde ainda há o calçamento antigo e a população prestimosa, mesmo que sem recursos cuidando de tudo. O mais importante é que ricos e pobres hoje não tem mais noção de espaço coletivo e a única coisa que nos importa é nossos carros e nossas casas. Se o resto tiver todo podre e corroído, feio de dar dó, ignoramos.

Quando chegávamos em São Paulo, na casa da nossa saudosa tia Lourdes, os prédios da região da avenida Paulista não tinham grades. Na verdade, o prédio da Tilú era misto, comercial e residencial e unido pela Brigadeiro Luís Antônio e a rua de trás, Santa Branca. As pessoas passavam por ali e nenhum morador tinha medo. Hoje os prédios tem grades e guaritas por todos os lados. Essa é a maior prova da degradação social e do fracasso econômico, tudo isso aconteceu durante meu tempo de vida no qual vivemos o milagre econômico, mas os economistas, com seus modelos frios como tampas de mármores de túmulos, vão dizer que não, que seria pior sem o tal milagre. Um dia, quando mortos, eles verão as variáveis esquecidas. O banco de auto-atendimento, quando foi lançado, funcionava 24 horas. Hoje com a onda de seqüestros relâmpago que acontece a plena luz do dia, os bancos não são mais 24 horas. A campanha do Unibanco era o do banco 30 horas, 6 horas das agências mais as 24 horas dos caixas automáticos. Ninguém se lembra disso, como não se lembram do Rio Tietê de águas reluzentes 30 ou 40 anos atrás, nem a forma maluca como as transformações ocorreram ao nosso redor e nem lamentamos por elas.

Quando o taxista me contou que no rio Tietê ele e a molecada nadavam e brincavam no rio e que ali, onde passávamos, naquela rua cheia de fumaça, milhões de carros e gentes tristes era o lugar que ele passava a infância, nós dois quase choramos. “Moro em Bragança, lá é muito bom, mas as cidades pequenas querem ficar como São Paulo. Nosso presidente acha que desenvolvimento é isso.” Ganância e cegueira são nossos deuses, pensei. Junta a isso uma pitada de individualismo e de ignorância e temos a receita do nosso colapso. Iremos desaparecer da Terra. Não quis alertar o taxista sobre o nosso fim, apesar da evidência claraali diante dos nossos olhos do quanto insustentáveis nos tornamos e o quanto estamos destruindo a cada minuto a possibilidade da Terra continuar nos abrigando. Nem queria alertá-lo ao fato que é o planeta que dá as regras e não nós e qualquer religião será útil se melhorarmos nosso relacionamento entre nós e com o planeta e isso significa entender que somos interdepentendes, limitados, que o planeta é finito, que todos os seres vivos dependem de todos os seres vivos e que é divina essa relação misteriosa e indiscutível que sustenta nossas vidas.

Em Santos dormíamos de portas abertas, na praia, íamos à noite justamente porque era escuro, não tinha iluminação e minha mãe tocava violão com seus amigos enquanto a criançada dormia por ali mesmo e, de forma boêmia, íamos embora todos muito tarde, debaixo de um céu ainda estrelado e no ruído das ondas. Sem saber tudo aquilo estava no fim. A praia ganhou iluminação extensa, por causa da criminalidade, drogas principalmente. Tudo ficou muito perigoso, ter um filho por aí, é não ter mais a certeza de nada. Nunca tivemos, mas agora, nunca foi tão incerto como antes. Nós e a molecada tínhamos o hábito de dizer: “Mãe, tou indo brincar na rua.” E íamos, depois da escola e dos deveres da escola, ficamos na rua com as brincadeiras de sempre: pipa, bicicleta, bolinha de gude, figurinhas, esconde-esconde, pega-pega, bola. Que criança brinca na rua hoje em dia?

O Rio Tietê foi canalizado, seco, direcionado. As várzeas foram tomadas por construções e os prédios possuem bombas para drenar a água que brota continuamente do solo. Nas chuvas e fase de enchentes do rio, tudo é inundado, não importa, é a natureza que manda. Nós decidimos fazer a transposição do Rio São Francisco com a mesma visão de 50 anos atrás, quando uma técnica mostrou que aquilo que foi feito com o rio Tietê era a visão da época, que se mostrou errada. No mundo todo existe a preocupação de devolver os rios para os seus leitos originais, nós vamos na direção oposta, ainda acreditando que mandamos na natureza. A colheita dos nossos erros mal começou e ainda insistimos neles, com a impermeabilização de mais pistas nas marginais e construção do Rodoanel no meio da APA Bororé, com a finalidade de viabilizar o já completamente insustentável modelo de transporte por caminhões e carros particulares.

O rio Tietê morreu. Ninguém foi no seu velório. Só as imagens do meu amigo taxista restaram do rio com seus peixes, que na época da sua reprodução, lutavam como loucos para subir as quedas d´água. Hoje não há nenhum peixe, como nos mares do norte da Europa e da China ou em vários lugares do Canadá e dos Estados Unidos, por conta da nossa poluição e lixo incansável inundando diária e continuamente nossas terras, águas e oceanos.

E os economistas e os governos dizem que estão trabalhando para melhorar nas nossas vidas. Fazendo as mesmas coisas que eles fizeram e acreditam nos últimos 40 anos. E esperando resultados diferentes. Na verdade eles trabalham para manter o piorar os problemas que existem à nossa volta como única forma de justificarem a sua existência ou importância e nós, burramente, aceitamos.

Einstein escreveu que se as abelhas sumissem, os animais sumiriam e com eles os homens, em quatro anos. Depois ele escreveu que o maior sintoma de loucura dos tempos atuais é querer fazer sempre as mesmas coisas esperando resultados diferentes. E que a imaginação é mais importante que o conhecimento.

Hugo Penteado

8 comentários:

Um pensador disse...

Concordo com a sua visão de mundo, o Rio Tiete realmente foi degradado, mas preciso acrescentar que existe algumas regiões do Estado de São Paulo que podem ser chamadas de vítimas do meio ambiente, cidades inteiras em que nada se pode fazer, pois estão em área de reserva ambiental, tendo que manter a floresta e a mata atlântica, para que regiões como a cidade de São Paulo possa ser compensada. Não sou a favor de transformar uma cidade de Ribeirão Grande em uma São Paulo, mas sim a favor de uma melhor distribuição de responsabilidades ecológicas, recompor, nem que seja um pouco, as matas ciliares do Tiete em São Paulo, e liberar um pouco de desmatamento em outras cidades, como por exemplo em RG, abrir uma estrada para o litoral.

E_nlima disse...

...e o mais difícil, porém necessário: manter o otimismo e sermos pró-ativos. Aliás, para além das nossas "escolhas pessoais", considerando que os maiores desafios da sociedade humana na biosfera foram criados COLETIVAMENTE!

Wa Mor disse...

Sr Hugo, adorei o colocado e suas entrevistas.
Assistindo as mídias sobre a COP 15 vejo o tamanho da encrenca.
E mais, que os relatórios do IPCC da ONU deveriam ser mais abertos dizendo que "forças ocultas" manobraram os números como dizem alguns cientistas mais " radicais" (sem medo de represálias).
Veja o brasileiro:
Com 40 anos de experiência em estudos do clima no planeta, o meteorologista da Universidade Federal de Alagoas Luiz Carlos Molion apresenta ao mundo o discurso inverso ao apresentado pela maioria dos climatologistas. Representante dos países da América do Sul na Comissão de Climatologia da Organização Meteorológica Mundial (OMM), Molion assegura que o homem e suas emissões na atmosfera são incapazes de causar um aquecimento global. Ele também diz que há manipulação dos dados da temperatura terrestre e garante: a Terra vai esfriar nos próximos 22 anos.
E outros nos site do orkut.
Boa sorte.

Angeline disse...

Caro Hugo,
Assisti a uma reportagem recentemente em q o pres. do IPEA falava sobre um estudo de inclusão de quesitos ambientais no cálculo do PIB. Vc sabe de alguma coisa? È q não li mais nada sobre o tema.

Hugo Penteado disse...

Wa Mor,

Aquecimento global não é o problema, um dos problemas. E não o mais grave. Civilizações que desapareceram completamente antes da gente não emitiram um quilograma sequer de gases do efeito estufa. Acho que concentrar a discussão no aquecimento global é um erro maior do que tentar negá-lo, pois ao que tudo indica ele não pode ser negado e mesmo que não seja antropogênico, é impossível não entender que as emissões desses gases são nocivas a saúde. Nós respiramos ar envenenado hoje por conta disso. Esses gases são novos, a natureza não regenera num lapso de tempo útil para nós, é uma poluição em definitivo. O meu objetivo é mostrar esse conflito: processos degenerativos poluidores num sistema finito como a Terra. Se não removermos esse conflito, mesmo que aquecimento global não seja verdadeiro, estamos a caminho da nossa extinção. Molion concordou comigo nisso, quando falamos.

Abraço Hugo

Hugo Penteado disse...

Angeline, escreve para o blog deixando um email seu ou se tiver meu email, me escreve que eu lhe ajuda. No blog já escrevi sobre essas métricas e a minha visão é que sem uma mudança geral de valores, as métricas podem ser excelentes, incluem todas as dimensões, mas não irão mudar e ficarão engavetadas. Primeiro passo é mudar os valores. Novas métricas já temos, basta abrir as gavetas. A iniciativa do governo francês, com a comissão Stiglitz e excelente Amartian Sen, não deu em nada. E não vai dar. Primeiro porque Stiglitz acredita na economia tradicional e acha que a economia pode ser maior que o planeta. Segundo, porque não fala em mudança de valores.

Abraço Hugo

E_nlima disse...

Hugo, o que muitas pessoas não entendem é que o aquecimento global (eu prefiro mudanças climáticas - vide o inverno atual no hemisfério Norte...) nada mais é que um SINTOMA de um modelo equivocado. Não é a causa dos problemas, mas sim um importante sinal de que como as coisas estão indo, caminhamos a passos largos para deixar a nossa biosfera incapaz de comportar a civilização humana (e várias outras espécies, de carona...)
Uma perspectiva sistêmica é fundamental para se entender exatamente os princípios que causam este "mundo insustentável" que vivemos.
Para sermos positivos e passarmos à ação, temos que compreender este "sistema" - a civilização humana vivendo na biosfera.

Angeline disse...

Olá Hugo, meu e-mail é angelinetostes@gmail.com