sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Da economia ecológica à socioambiental

Por José Eli da Veiga
(publicado no Jornal Valor em 05/08/08)

A maioria das pessoas age segundo convicção bem explicitadapelo chefe-de-gabinete do presidente Lula: meio ambiente atépode ser importante, mas não é decisivo. Nem chega asurpreender, então, que a cúpula palaciana sempre prefira sojase a alternativa for "um cerradinho". O que poderia ser melhorque esse pejorativo desprezo pelo bioma cerrado para rebaixar a dimensão ambiental diante da social? Afinal, a primeira só podemesmo parecer bem menos decisiva que a segunda sob a óticapolítica imediatista, embora seja grave equívoco estratégico,decorrente de ignorância histórica.

Não há certeza sobre o que realmente ocorreu há cerca de 50mil anos, quando a jovem espécie humana deu a volta por cima,após sacudir poeira acumulada nos milhões de anos que aseparavam do último ancestral comum de chimpanzés. Faltamevidências suficientes para que se tome como incontroversa atese biológica de que a aurora da humanidade moderna foi determinada por uma mudança cerebral provocada por mutaçãogenética.

Todavia, é o inverso que se aplica à constatação de que a partirdaí a cultura foi se tornando tão poderosa que virou a mesa:passou a influenciar o rumo da evolução biológica, retardando-a. Reduziu as diferenças entre genes bem-sucedidos e fracassados, dificultando as mudanças por seleção natural. E em prazo que naescala evolucionária não passa de um piscar de olhos, os humanos foram paulatinamente ocupando todos os cantos doplaneta, alterando a evolução de milhões de outras espécies edemonstrando incomparável capacidade de adaptação.

Não é difícil perceber, então, que a sociedade mantém com o chamado meio ambiente uma relação cujo cerne é justamenteesse formidável processo de adaptação à imensa variedade deecossistemas. Daí ser inadmissível em termos científicos qualquer raciocínio que não se baseie no entendimento daevolução, seja ela mais social, ou mais ambiental. Só que talinsuficiência continua bem recorrente, principalmente entre aschamadas ciências humanas, mas também nas naturais. Ambas mostram certa incapacidade de entender como metabólicas asrelações que os humanos estabelecem com a natureza. Pior, contribuem para aprofundar a falha metabólica resultante darevolução industrial, ao nutrirem a ilusão de que a segunda leida termodinâmica seja algo de muito específico e poucosignificativo.

Não será uma simples troca semântica, "socioambiental" em vez de "ecológica",que acabará com o reducionismo econômico no ensino/pesquisa. Todas as formas de energia são gradualmente transformadas emcalor que acaba ficando tão difuso a ponto de se tornar inútil. Enão há organismo vivo que não esteja sujeito a esse fenômeno,chamado de entropia crescente. Ela precisa ser compensadapela extração de elementos de baixa entropia disponíveis nomeio ambiente. E um dos maiores sucessos adaptativos dahumanidade foi justamente sua capacidade de extrair a baixíssima entropia contida nas energias fósseis, como carvão,petróleo e gás. Mas que também se revelou a principal causa doaquecimento global, fenômeno que paradoxalmente dificultará aadaptação, tendendo a acelerar o processo de extinção da própria espécie.
Bem antes disso certamente surgirão formas mais diretas deexploração da energia solar, e talvez também a fusão nuclear.Mas nada poderá contrariar o segundo princípio datermodinâmica, que muito provavelmente exigirá a descobertade vias de desenvolvimento humano que sejam compatíveis como decréscimo da produção material, o contrário dessecrescimento econômico medido pelo PIB que hoje aparece amuitos como uma espécie de lei natural. E se a humanidaderesistir em abrir mão de vulgaridades que prejudicarão a vida de futuras gerações, estará confirmando sua opção preferencial poruma existência mais excitante, mesmo que bem encurtada.

Só pode ser mera coincidência que comece pela letra "e" essepar de palavras-chave que mais evidencia as atuais limitações das ciências, principalmente as sociais aplicadas: evolução eentropia. Com grande destaque para aquela pequena parte doconhecimento econômico que pode ser considerado ciência, já que todas as suas dimensões práticas, ou normativas, pertencem de fato à ética. Mas certamente não é coincidência que duassingelas manifestações da reação a esse retardamento ocorramna USP praticamente em simultâneo. A revista "EstudosAvançados" 22 (63), que está para ser lançada, trará uminteressante dossiê sobre "Evolução Darwiniana e CiênciasSociais". Poucas semanas depois da defesa de dissertação sobre aentropia, de autoria do economista e agora mestre em ciênciaambiental Andrei Domingues Cechin: "Georgescu-Roegen e o desenvolvimento sustentável".

São dois modestos e concomitantes sinais de um mesmomovimento de renovação do pensamento científico que aindanão decolou porque esbarra em fortíssima inércia doscompartimentos estanques criados pelas diversas disciplinas emsuas respectivas fases de afirmação. No caso da economia, porexemplo, foi necessário reduzir o sistema econômicoexclusivamente às trocas de curto prazo entre os agentes, pois ainclusão do tripé darwiniano (variação, herança e seleção) e datermodinâmica (entropia) engendra necessariamente uma complexidade com a qual é mesmo dificílimo lidar.

Parecia ter sido esse o desafio assumido em 1988 pelo pequenogrupo de pesquisadores que fundou a Sociedade Internacional deEconomia Ecológica (ISEE). Entretanto, dois decênios depublicação regular de seu periódico "Ecological Economics"evidenciam as imensas dificuldades epistemológicas dessamudança paradigmática. Os artigos ali publicados pouco têm aver com a ruptura que teria sido provocada por uma realincorporação dos conceitos de evolução e entropia. Ao contrário,fortalecem a abordagem convencional ao adotarem, porexemplo, a suposição de que tudo possa ser precificado.

Claro, não será uma simples troca semântica - socioambiental em vez de ecológica (ou ainda pior "ambiental") - que poderá garantir a superação do reducionismo econômico na pesquisa eno ensino. Mas terá a vantagem de retirar a questão dessaespécie de "banho Maria" em que permanece há 20 anos.

José Eli da Veiga é professor titular do departamento de economia da FEA-USP, pesquisador associado do "Capability & Sustainability Centre" da Universidade de Cambridge, e autor do livro "A Emergência Socioambiental" (Senac, 2007). Página web: www.zeeli.pro.br

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