terça-feira, 5 de abril de 2011

Conversa com o filho

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Tive a seguinte conversa com meu filho de 8 anos, com quem na escola foi discutido assuntos de energia limpa.

Papai, papai, a produção de energia eólica e solar é limpa?

Não, filho, todas elas dependem de uma série de materiais que precisam ser produzidos, escavados, trocados ao longo do tempo, como baterias de lítio, minérios, e no caso da energia ligada a vento, se o vento faltar, não há outra alternativa senão queimar combustíveis. Além de ser uma solução tecnológica pobre para uso em larga escala.

Mas papai, papai, essa é a moda agora, a produção de energia eólica e solar não significa a não-produção de energia com base em combustíveis fósseis, como petróleo, gás e carvão? Melhor dizendo, para cada uma nova usina eólica e solar construída, destrói-se uma usina baseada na queima de petróleo, gás ou carvão?

Não, as usinas eólicas, biocombustíveis, solar, nuclear, etc. estão sendo adicionadas às usinas existentes.

Papai, papai, supondo por uma fantasia na imaginação das pessoas, que as novas usinas ditas limpas emitam zero carbono, isso significa que não haverá redução alguma de emissão absoluta de carbono na atmosfera, como demandam os cientistas?

Sim, mas na verdade, irá aumentar. Só o quociente de emissão por unidade de produto é que irá cair, mas em termos absolutos, sim vai aumentar e aumentar os riscos de mudança climática numa hora péssima, porque o sol chegou com uma atividade... bom, deixa prá lá.

Papai, papai, isso significa que vai aumentar a demanda por matérias-prima, solo, território e isso para gerar energia para as pessoas continuarem na farra da matéria e energia, viajando para lá para cá, consumindo que nem umas malucas como se não houvesse amanhã? E pior, um grupo pequeno, mais ou menos 10% da população humana fazendo uso de 90% dessa energia e matéria?

Sim.

Papai, papai, se não é energia limpa, não significa continuidade da carbonização da nossa estreitíssima atmosfera?

Sim.

Papai, papai, quer dizer que energia limpa, economia neutra em carbono não passam de mitos para manter a mesma falta de noção de limites planetários e de ignorar os riscos de sobrevivência da nossa espécie humana na Terra se continuarmos a acelerar a economia ao invés de focar na distribuição, na circularidade, no fim do desperdício?

Sim, nada a adicionar.

E as pessoas ainda escrevem e fazem palestras sobre isso?

Sim.

E aquele moço, o Monbiot, que agora se diz a favor da energia nuclear e vendo a confusão que Japão vai passar com a contaminação irremediável de 5% do território japonês? E ainda não sabemos o que podemos fazer com o fluxo de resíduos radioativos, cujos estoques estão aumentando sobre um planeta finito, não é um erro, não seria melhor cortar o desperdício de energia?

Sim, o desperdício de energia na Terra só não é percebido pelos $%#@*&$. Só a luzinha do seu computador acesa e do resto dos aparelhos da casa consomem 10% da energia produzida na Terra e elas estão acesas inutilmente. Se essas luzinhas fossem eliminadas, só com esse gesto, não seria necessário nenhuma energia nuclear no planeta inteiro.

Mas papai, papai, o fato de não ter havido um acidente nuclear que complicasse bastante a vida na Terra não vai na mesma linha da humanidade achar que porque o planeta nunca nos expulsou, jamais o fará?

Sim filho, essa é a filosofia do nunca morri, estou conversando com você agora e portanto nunca morri. Isso não significa que jamais morrerei, mas algumas pessoas $#@&%&* assumem isso. Vale para a nuclear e o planeta: nunca um grande evento ocorreu e aí assumem corajosamente que isso nunca acontecerá.

Papai, papai, somos uma espécie animal inteligente?

Bom filho, se você imaginar uma espécie animal onívora que come toneladas de carne que simplesmente apodrecem no intestino e para esse hábito provocam um enorme desmatamento de florestas, uma crueldade impensável contra os bichos e tornam as pessoas vulneráveis a doenças degenerativas, degradação ambiental, bom, se você olhar por esse prisma, pode ser burrice ou inconsciência ou os dois. Se você olhar o hábito de andar para lá e para cá sozinhos em carros que pesam três toneladas, numa velocidade média urbana inferior ao passo de uma galinha, fica difícil associar inteligência a isso. Somos inteligentes sim, mas estamos dando poucas provas disso, estou tentando ser generoso aqui... Agora é hora de dormir filho e esperar o dia de amanhã.


P.S.: Caso não tenha ficado claro, essa é uma obra de ficção quaisquer semelhança com acontecimentos reais terá sido mera coincidência.

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