quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

PT: Qual a Grande Transformação?

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PT: Qual a Grande Transformação?

Leonardo Boff

Não sou membro do PT mas um cidadão que se interessa pelos destinos
do nosso pais, nos últimos sete anos moldados pelo governo Lula.

A campanha eleitoral se iniciará oficialmente dentro de pouco. Há o
grande risco de que predomine um espírito menor, diria quase infantil,
de uma campanha plebicistária entre os feitos do governo de FHC e
daquele de Lula. Seria a disputa tola entre o ontem e o anteontem ou
entre o atrasado e o velho, como preferem alguns ecologistas. Pois
ambos os contendores, na relação desenvolvimento e natureza, manejam o
mesmo paradigma, sob severa crítica mundial, por conter o veneno que
nos pode matar. Isso só serviria para distrair os eleitores dos
verdadeiros problemas que o Brasil e o mundo irão enfrentar.

Uma disputa eleitoral séria, à altura da fase planetária da humanidade
e da importância fundamental do Brasil dentro dela, não deveria estar
voltada para o passado a ser continuado mas, sim, para o futuro a ser
construido coletivamente. Quem apresenta o melhor projeto de Brasil
para o nosso povo e em sua relação para com a nascente sociedade
mundial? Que contribuição essencial podemos dar face aos cenários
dramáticos que se desenham no horizonte?

Permito-me apresentar três sugestões para animar a discussão interna
do PT. O lema do encontro nacional - A Grande Transformação - nos
remete Karl Polanyi com o clássico livro do mesmo título (1944) no
qual mostra como a sociedade virou uma sociedade de mercado,
transformando tudo em mercadoria. Não será essa a Grande Transformação
pensada pelo PT. Para que seja outra coisa, o partido deve assumir
seriamente este fato irrecusável: A Terra mudou porque já estamos
dentro do aquecimento global. A roda não pode mais ser parada, apenas
diminuir-lhe a velocidade. Se o termômetro da Terra subir para mais de
dois graus Celsius, nos próximos decênios, como previstos pelos
melhores centro de pesquisa, enfrentaremos no Brasil e no mundo a
tribulação da desolação. Muitos projetos já concluidos do PAC poderão
ser anulados. Não incluir em todos os planejamentos este dado é
mostrar falta de inteligência prática e irresponsabilidade histórica.
Do contrário teremos que aceitar a maldição de nossos filhos e filhas
e de nossos netos e netas.

Outro dado não menos perturbador é: a insustentabilidade do
sistema-Terra. A partir de 23 de setembro de 2008 ficamos sabendo que
o planeta Terra ultrapassou em 30% sua capacidade de repor os bens e
serviços necessários para a vida. Estamos consumindo hoje o que
precisaremos amanhã. Se quisermos universalizar o nivel de consumo das
classes médias mundiais, incluidos os oitenta milhões de brasileiros,
precisaríamos já agora de três Terras iguais a esta. Este modelo de
crescimento, como parece subjacente ao PAC, mostra a sua inviabilidade
a médio e a longo prazo. Não é que deixemos de produzir. Devemos
produzir mas dentro de um outro paradigma menos depredador do
sistema-Terra, com um acordo de respeito à suportabilidade de cada
ecossistema e com uma ampla inclusão social, imbuidos todos de uma
ética do cuidado, da responsabilidade universal e da busca do bem
viver para todos.

Por fim, o PT precisa conscientizar o fato de que o Brasil é,
seguramente, o pais-chave para o equilibrio do Planeta. Ele é a
potência das águas, o detentor das maiores florestas, as grandes
sequestradoras de dióxido de carbono e reguladoras dos climas, com
imensa biodiversidade e vastas terras agricultáveis, podendo ser a
mesa posta para as fomes do mundo inteiro, com capacidade incomparável
de gerar energias alternativas e com um povo altamente criativo, que
fez um ensaio civilizatório dos mais significativos, não imperialista,
e com uma visão encantada do mundo que lhe permite, no meio das
contradições. celebrar suas festas, torcer por seus times e dançar
seus carnavais, características essas decisivas para conferir um rosto
humano à mundialização em curso.

O futuro passa por nós. Não percebê-lo por ignorância ou distração é
não escutar os apelos da Mãe Terra e é defraudar seus filhos e filhas,
nossos irmãos e irmãs que apenas pedem singelamente viver com
decência.

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