terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Entrevista Revista Ambiente Urbano

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Entrevista da Revista Ambiente Urbano, feita pela jornalista Fernanda Correia.
Entrevista Hugo Penteado


Economia e ecologia se misturam sim!

À medida que a economia global cresce, a disposição dos recursos naturais diminui. É esta a conta que levou alguns economistas a buscar uma nova corrente de pensamento e que vem obrigando o mercado a se enquadrar nela.

Assim como Nicolau Copérnico afirmou em 1543 que não era o Sol que girava em torno da Terra, mas o contrário, os ecoeconomistas vêm assumindo a responsabilidade de trazer à humanidade uma nova versão de nossa relação com a economia.

Nesta entrevista, o ecoeconomista Hugo Penteado mostra porque a economia não pode mais continuar no centro de nosso mundo.



Ambiente Urbano: O que é a Economia Ecológica?


Hugo Penteado: A Economia Ecológica é uma critica que foi feita há mais ou menos 50 anos, a partir dos trabalhos do Nicholas Georgescu-Roegen, um excelente cientista nascido em 1906 e morto em 1994, que iniciou a sua carreira como um economista tradicional. Roegen estudou nas melhores universidades dos Estados Unidos, país onde se naturalizou. Grande parte da teórica econômica tradicional não existiria sem a contribuição dele. A Teoria do Consumo, por exemplo, tem uma contribuição gigante do Roegen. No início da década de 60, ele começou a criticar a teoria econômica tradicional por um motivo muito simples: ao retornar ao seu país de origem [Romênia], com toda a bagagem de conhecimento que adquiriu nos Estados Unidos, ele tentou contribuir para a melhoria do país e se frustrou completamente, pois percebeu que a teoria econômica tradicional não ignora apenas a questão ambiental e planetária, mas ignora também as diferenças históricas, culturais, sociais e humanas. Foi então que ele descobriu que essa teoria não seria aplicável na Romênia, por ser um país pobre, agrário e populoso demais para a extensão territorial disponível; então, ele descobriu que a melhor solução seria uma reforma agrária que pudesse resolver os problemas que a Romênia estava enfrentando.

A outra crítica foi quando ele percebeu que os economistas trabalham em um sistema econômico autista, sem contato algum com o meio ambiente. É o mito da separação total entre economia e meio ambiente, que é válido até os tempos atuais.


AU: Qual a visão da economia para os recursos naturais?


Penteado: Os recursos naturais são considerados infindáveis, inesgotáveis e inalteráveis, e isso está impresso na moderna macroeconomia, que rege as visões de mundo, as políticas econômicas e as propostas que são feitas diariamente. Quando Roegen percebeu isso, ele disse que, se este modelo persistisse, o planeta Terra seria entregue à vida bacteriana.


AU: Há quanto tempo ele fez essas críticas?


Penteado: Em meados da década de 60. A crítica dele foi muito semelhante à visão dos poucos cientistas que descobriram que a Terra não era o centro do Universo, mas sim que ela girava em torno do Sol. Nós vemos acontecer a mesma coisa com o sistema econômico, que é menor, vulnerável e dependente, ou seja, que é um subsistema do planeta.


AU: Isso significa que a economia ecológica provoca uma inversão de eixo semelhante àquela visão que a humanidade tinha no passado, ao acreditar que a Terra era o centro do Universo?


Penteado: Sim. Hoje é como se a gente acreditasse que a economia é o centro de todas as atenções, o que não é, na verdade. A economia é um subsistema dependente do planeta, e é preciso trabalhar esta inversão.
A economia deve se adaptar a um novo paradigma que vem se mostrando cada vez mais contundente. O paradigma econômico está caminhando para uma quebra muito grande porque não é capaz de explicar os problemas que estamos enfrentando, até porque não existe uma só variável no modelo dos economistas que contabilize a contribuição do meio ambiente para o processo econômico.


AU: E como é possível aliar a economia ao meio ambiente? O senhor acredita que estamos caminhando para isso?


Penteado: A sua pergunta já reflete o mito que incutiram em nós. A sua pergunta parte do princípio "como vamos conciliar economia com o meio ambiente" e a resposta é: não vamos conciliar, já está conciliado. Não existe economia sem meio ambiente. Tudo à nossa volta vem do meio ambiente, e isso é muito engraçado porque a gente nem percebe. Eu vou te dar um exemplo: a humanidade tem um nível de arrogância gigante. A gente acha que criou mundos artificiais, com alta tecnologia, urbanização... Eu vivo em uma cidade em São Paulo e preciso de dois itens para sobreviver: água e comida. E de onde vem a água e a comida?


AU: Dos recursos naturais.


Penteado: Então. E é isso que as pessoas não entendem. Nós consideramos que os quatro bens indispensáveis à vida - água, comida, energia e clima - são gratuitos. Só que não são, e estamos correndo o risco de ficar sem eles.
A maior ameaça do aquecimento global não é apenas a elevação do nível dos oceanos: o fim da água é a maior ameaça. O Brasil se vangloria em ter 16% da água doce do mundo na Amazônia. No entanto, 50% da água da Amazônia vêm da evaporação dos oceanos que é retida pela floresta. Já os outros 50% vêm da transpiração da floresta: ou seja, se retirar a floresta, não restará mais água nenhuma.


AU: Quer dizer que sem a Amazônia, não haverá mais vida?


Penteado: Todos os seres vivos dependem de todos os seres vivos. Quando a gente fala da defesa da Amazônia, não é a Amazônia que a gente quer defender, mas sim a nós mesmos, a nossa capacidade de sobrevivência, a capacidade de o planeta continuar sustentando a vida. A mesma coisa se aplica à biodiversidade. Ela não serve para que se tenha uma série de bichinhos diferentes; na verdade, se todos os animais e plantas sumissem da Terra, a água some junto. A água é um elemento vivo, não pode nem mesmo ser estocada. Então, quando a gente toma um copo de água, temos de nos lembrar de agradecer às infinitas quantidades de seres vivos que filtraram essa água para nós.


AU: O senhor acredita que ainda conseguiremos reverter os problemas ambientais que se apresentam?


Penteado: Creio que seja muito tarde para se conseguir evitar mudanças. Já estamos em meio a uma transformação e existem várias evidências disso. Na paleontologia, por exemplo, existe um registro confirmado [depois de 40 anos de estudo] da terceira maior extinção em massa de espécies animais e vegetais. A humanidade colocou a vida deste planeta na terceira maior rota de extinção dos últimos 65 milhões de anos, e isso aconteceu em décadas, através de nosso processo econômico. É muita ingenuidade acreditar que esta extinção jamais irá se voltar contra os causadores. E lembrando: o ponto de partida da economia ecológica e da sustentabilidade é a plena convicção de vários pontos importantes. Primeiro, todos os seres vivos da Terra dependem de todos os seres vivos, e toda espécie animal que não for capaz de compartilhar o ecossistema com as demais espécies está fadada ao desaparecimento. A segunda consequência é a nossa falta de consciência generalizada, pois tratamos a Terra como se fosse uma lixeira. Isso graças à economia criada por nós, que valoriza o descarte imediato dos bens e o desperdício.


AU: E como fazer isso?


Penteado: Estamos acostumados a desperdiçar, a descartar imediatamente os bens, graças a uma cultura que nós criamos. Então, a economia precisa ser desmaterializada, os valores precisam mudar. Precisa doer no coração jogar alguma coisa no lixo, porque jogar no lixo é um mito. Não existe essa de jogar alguma coisa fora. O sistema terrestre é fechado e a maior parte do lixo urbano vira lixo oceânico, e é do oceano que vem o oxigênio que a gente respira. E o mais assustador dessa história toda é a forma como as coisas já estão se alterando rapidamente: a Índia não produz mais açúcar e arroz; a Austrália não produz mais leite; na África, o lago Chade, que é um dos maiores reservatórios históricos de água, está a ponto de desaparecer, causando uma tragédia colossal.

O problema ambiental é uma consequência do comportamento da humanidade, do nosso modelo de consumo, crescimento e produção. Se queremos resolvê-lo, é preciso atacar as causas, mas o tipo de abordagem que se vê por aí é voltado para resolver as conse-quências. Não há problema nenhum se eu jogar um balde de lama na sala, pois basta eu inventar um aparelho para limpar a sujeira que está tudo certo. Toda a tecnologia hoje é trabalhada desta forma. A tecnologia não é utilizada para evitar problemas, mas sim resolver problemas que ela mesma cria.


AU: Isso mostra o quanto o modelo implantado necessita de mudanças.


Penteado: Nós não temos um sistema economico voltado para pessoas, mas pessoas voltadas para um sistema econômico. O sistema econômico se tornou mais importante do que as pessoas.

Há uma definição de riqueza, dita há uns duzentos anos, e que deveríamos voltar a ela: “Riqueza é tudo aquilo que sustenta a vida”. Logo vamos descobrir que somos extremamente pobres, porque a riqueza que estamos produzindo não sustenta a vida na Terra e nós somos parte desta vida. A longo prazo, se continuarmos assim, a probabilidade de a humanidade terminar o século XXI é baixa. (Fonte: Revista Ambiente Urbano)


Publicado em: 13/11/2009

Um comentário:

Luiz Felipe disse...

Ola Hugo Penteado, sou estudante de eng. mecanica da UFMT e anualmente realizamos a SAEMEC (semana academica de engenharia mecanica).A SAEMEC 2010 vem com a sugestao de apresentar algumas ideias emergentes que transformarao o mundo o qual vivemos, mostrando alguns caminhos para um desenvolvimento saudavel e sustentavel e como a engenharia pode ajudar a atingir esse objetivo.
Entao gostaria de convida-lo para participar desse evento abordando os temas referentes a ecoeconomia.
Caso se enteresse entre em contato.
Obrigado
gaborin@gmail.com