terça-feira, 7 de julho de 2009

Ameaça de extinção à vista

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Ameaça de extinção à vista
Por Hugo Penteado em 03/06/2009


Assusta terrivelmente saber que a pegada ecológica dos estadunidenses é hoje de 73.000.000 de quilômetros quadrados e seu território é de apenas 9.300.000 quilômetros quadrados, ou seja, o consumo dos estadunidenses, 4,5% da população mundial, suga 49% do território do planeta (a Terra possui um território total de 148.940.000 quilômetros quadrados). Esse modelo de desperdício, de descarte imediato dos bens, de obsolescência programada, de automatização e desemprego, de concentração de riqueza, de guerras, uma vez disseminado para os emergentes e mantido com ênfase pelos países já saturados e ricos terá apenas um resultado: extinção da vida na Terra. Fenômeno pouco falado, porém descoberto pela paleontologia depois de 50 anos de estudos, é a maior extinção da vida dos últimos 65 milhões de anos causada pela pressão contínua, exponencial e crescente da humanidade sobre os ecossistemas da Terra. É muita ingenuidade achar que essa extinção em massa jamais irá se voltar contra os causadores, como é muita ingenuidade a lógica do "eu nunca morri até agora, portanto nunca morrerei" ou "o planeta nunca expulsou a humanidade na Terra, portanto nunca irá fazer isso." É mais estranho quando pensamos nos 4,5 bilhões de anos de existência da Terra que, se distribuídos em uma semana, nós teríamos aparecidos nos últimos 30 segundos e é surpreendente achar que esses 30 segundos serão eternos...

Como os EUA conseguem manter um consumo de 73.000.000 de quilômetros quadrados quando possui apenas 9.300.000? Simples: comércio global. No nosso caso, isso significa a transformação da Amazônia em um centro de produção de matérias-primas e alimentos que a sociedade brasileira não precisa apenas para atender a demanda de países megalomaníacos e populosos como a China. O detalhe desse absurdo é que sem a Amazônia, o Brasil acaba e poucos brasileiros irão sobreviver. A Amazônia não precisa ser defendida porque é uma floresta com uma belíssima biodiversidade, mas sim porque é a razão de estarmos vivos. Aqui na Terra todos os seres vivos dependem de todos os seres vivos, sem os ecossistemas e a biodiversidade, o declínio populacional e de consumo será tão gigantesco que todas as metas de crescimento eterno irão virar piadas de mau gosto.

Enfim, todos os ecossistemas precisam fazer parte da equação e ser preservados ao máximo com sabedoria, tecnologia e integração homem-natureza. Os ecossistemas não estão aí apenas para serem comidos e nem para serem transformados em atividades agrícolas ou econômicas. Eles estão aí para produzir serviços naturais quase invisíveis e essenciais à nossas vidas, como ar, água, clima, alimentos, etc. São responsáveis pela regulação química do solo, do ar, da água, sem eles morreremos, tal como já ocorreu em vários momentos da história da humanidade. Dessa vez o colapso ambiental será global por que o comércio global transforma os excessos das sociedades consumistas dos países ricos e populosos em devastação ambiental dos demais territórios do globo. Esses países gastadores do meio ambiente já não possuem nem os recursos naturais tangíveis, como metais, petróleo, água, etc., como não possuem os intangíveis da natureza. Toda produção que os atende não é mais possível de ser feita dentro dos seus territórios esgotados. Essa é uma proposição interessante para os que ainda acreditam que o sistema econômico é independente e separado da natureza: vamos testar essa tese, abandonando a importação de bens e serviços, substituindo-as por produção local, nos países que tem pegadas ecológicas exorbitantes, para ver se isso seria possível. Obviamente que não seria.

Ao invés dos países ricos viverem seu próprio colapso ambiental local, eles apenas postergam o desastre, transformando-o em um evento global do qual poucos de nós iremos sair vivos, com risco de extinção da espécie humana. Tudo isso ocorre porque no nosso sistema de preços ou nos mercados a transformação da Amazônia ou qualquer outro ecossistema em monoculturas agroindustriais intensivas em capital possui custo socioambiental e ecológico nulo. Nosso sistema de preços não reconhece esses custos, por causa do nosso conjunto de valores e de uma teoria econômica falsa e quem vai pagar a conta são as gerações futuras ou atuais, depende de quando os atrasos ecológicos dessa usura planetária forem evidenciados pela falência dos serviços ecológicos ecossistêmicos. O "Millenium Ecossystem Assessment – MEA" de 2006, primeiro esforço de análise sistêmica da natureza trouxe relevações assustadoras e transforma o Bjorn Lomborg num engano por uma razão simples: não era possível supor qual era a situação ambiental planetária antes desse estudo e os dados fragmentados do livro "O Ambientalista Cético" poderiam levar a qualquer conclusão. Maior importância deve ser dada aos cientistas da Terra e a sensatez seria olhar caso a caso e de forma multidisciplinar o problema ambiental.

A teoria econômica fez já proposições tão estranhas que os cientistas mais puros da Terra já se opuseram veementemente a elas. Vamos a algumas: 1) se os recursos naturais da Terra acabarem, os seres humanos mesmo assim irão continuar produzindo (detalhe: os únicos recursos naturais vistos pela ciência econômica tradicional são os palpáveis, embora os serviços que a natureza nos presta, de forma muito mais importante, são invisíveis); 2) o capital produzido pelo homem é um perfeito substituto da natureza (ou seja, iremos ser capazes de produzir com um capital composto de outros fatores materiais inventados pelo homem que não os da natureza, embora isso seja negado pela realidade física); 3) a Terra é um sistema aberto para matéria e energia (em oposição aos que alertam ao fato do planeta ser um sistema fechado, essa crença infantil se assemelha a uma indústria ter um cone gigante coletando poeira estelar para produzir automóveis - como foi que nunca pensamos nisso?); 4) existe a infinita substitutabilidade dos recursos naturais e eles nunca acabarão (em outras palavras: sempre teremos tecnologias para acessar recursos naturais sendo eternamente substituídos e, claro, esquecendo que os recursos naturais palpáveis são os que menos importam e o planeta na verdade não nos oferece limite como fornecedor de recursos, mas sim como absorvedor do impacto das nossas atividades que esfacelam os serviços ecológicos dos ecossistemas); 5) a economia pode ser maior que o planeta (não merece comentários, mas há passagens nas quais está escrito que o mundo cresce...); 6) o planeta é um subsistema da economia (surreal, é o mesmo que acreditar que a Terra é plana e por esse conceito aumentar o estoque continuamente de carros, casas, construções, equipamentos num território finito é visto como solução e não como problema...).


Com esse conjunto de idéias inabaláveis por qualquer evidência desconcertante da realidade não é de se admirar que hoje estejamos ameaçados de extinção.


Hugo Penteado, Economista com graduação e mestrado pela USP e autor do livro Ecoeconomia - Uma nova Abordagem (ed.Lazuli, 2003)

Um comentário:

Rafael Reinehr disse...

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