sexta-feira, 19 de junho de 2015

Troca de correspondência

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Aquíferos
Essa é a prova irrefutável do erro fatal da teoria econômica tradicional que não respeita os limites da biosfera e mantém a idéia de crescimento do PIB como salvação social e ambiental. A esse respeito, os mitos só aumentam e o mais apavorante é o da tecnologia salvadora. Um bom livro sobre isso é o Technofix - Why Technology cannot save us or the environment dos Huesemann & Huesemann.  Um outro é o Renewable Energy cannot sustain a consumer society do Ted Trainer.  Há um erro na proposição do crescimento do PIB como solução do problema social e, com a ajuda da tecnologia, evitar ou reverter o problema ambiental.  Recentemente, por causa do avanço da dessalinização, saiu um estudo do impacto ambiental desse processo e é bem negativo, mesmo sem ser feito em larga escala.
Essa questão  e outras como a água são apenas as consequências. A causa é o nosso modelo (e pensamento) econômico que parece ter atingido o seu limite com o pico de concentração de riqueza e com o esfacelamento social e ambiental daí decorrente.  Um outro livro interessante é o Consumptionomics do Chandran Nair, onde mostra como é inviável as sociedades emergentes da Ásia tentarem replicar o modelo de consumo dos países ricos. O livro Our kidsmostra como as oportunidades para os mais jovens também escassearam, ou seja, estamos vivendo um momento de crise social e ambiental planetária tudo ao mesmo temo. E só haverá salvação financeira e empresarial se houver salvação ambiental.  E só vai haver salvação ambiental, se houver salvação social.  Então esse é um problema que precisa ser resolvido, a única dificuldade é que justamente aqueles que tem o poder de mudar o modelo, são justamente os que mais se beneficiam deles.
Sobre o fim dos aquíferos ou "falling water tables", Lester Brown alertou para isso durante décadas, mas não foi ouvido por ninguém.  Desde os anos 1990 suas publicações alertaram sobre a forma como retiramos mais água do subterrâneo do que a natureza é capaz de repor.  Foi com a retirada maciça da água do Ogallala nos EUA que eles esqueceram um dos maiores desastres ambientais globais que durou uma década, o "Dust Bowl".  Quando os americanos destruíram a vegetação natural de quatro estados foram atacados por tempestades violentas de areia durante dez anos, mas Franklin Delano Roosevelt interrompeu com a recuperação florestal nos anos seguintes.  Quando descobriram o Ogallala destruíram toda a vegetação novamente, mas colocaram no lugar uma agricultura que depende de um aquífero que segundo a NASA está no seu fim. 
Isso também é outro mito, porque os maiores desastres ambientais observados na Terra ocorreram nos EUA e não na China como tanto se fala hoje.  Ocorrem na China hoje porque ela copia o modelo econômico de ontem.
Hugo Penteado

(2)
Muito obrigado pelas referências Hugo. Parecem bons livros. Certamente buscar "fora" o vazio que está "dentro" parece solução muito natural na sociedade de produtores mercantis atomizados. A revolução burguesa que liberou essas forças produtivas maravilhosas, capazes de criar uma fartura jamais vista, até algumas maravilhosas fomas de arte burguesa, os processos técnicos, a nova tecnologia, que impediu milhares de desgraças e cataclismos sanitários, não dá conta de evitar os horrores capitalistas da fome, péssima distribuição de renda, da miséria urbana, das superpopulações carcerárias (afinal "roubo" pressupõe propriedade tal qual nos a entendemos), dos suicídios, do domínio dos corpos, do estranhamento das relações humanas mais básicas, do estranhamento da natureza, da crise ecológica, da crise alimentar, das doenças crônico degenerativas. Essas são propriedades, desdobramentos históricos, do nosso modelo de produção individualizado, do mundo invertido, das relações estranhadas. Quanto mais a tecnologia force o recuo das barreiras naturais mais nós ocuparemos o novo espaço com nossos mesmos padrões de consumo, nossos mesmos vazios interiores, nossa expansão desenfreada do valor, a única diferença é se batemos no muro com 7 ou 21 bilhões de pessoas (pessoalmente acho que está mais para o primeiro que para o segundo...).
Abraço
Raphael


(3)
Raphael,

Leia os livros, caso precise, eu posso lhe emprestar.

Podemos ser 7 bilhões, mas apenas com ambições materiais e hábitos completamente distintos dos atuais e não dos que estamos tentando disseminar para as populações emergentes, pois isso significa o fim da vida na Terra. Mas o problema maior é que todas as empresas baseiam suas estratégias de negócios nessa economia do alto carbono, submetem os governos a esse objetivo caprichoso das formais mais repugnantes como temos testemunhado com a onda de corrupção em todos os cantos do globo.  Parece que as pessoas esqueceram que só é possível ter corrupção do governo com a participação interessada e bem objetiva do setor privado.  Um vídeo antigo que ainda é atual é "Corporation".   Apesar de toda essa farsa da sustentabilidade, supostamente para mudar o rumo suicida dos negócios, nós estamos vivenciando o avanço de atividades cada vez mais nocivas contra o meio ambiente, o planeta e a sociedade.  E não há salvação empresarial e financeira se não houver salvação ambiental.  E não há salvação ambiental se não houver salvação social.  Eu vejo esses "bilionários" só falando do meio ambiente, mas esquecem a condição social e é fácil de entender: a preocupação ambiental é egoísta, ao passo que a social é altruísta, justamente algo, como você disse, esquecemos de praticar.  É hilário ver esses "defensores" do meio ambiente perseguindo as pessoas, o que mostra o caráter egoísta e precário das suas idéias.

Já somos 7 bilhões, éramos 3 bilhões no ano que eu nasci (1965).  O nosso impacto no planeta deriva não só do número de pessoas, mas do nosso materialismo ou o que o Georgescu chamou de exossomatismo. Um urso vive na Terra apenas com o seu próprio corpo, outros exemplos da natureza que fazem uso de estruturas extra-córporeas são irrelevantes, por isso a humanidade é a única espécie animal exossomática com impacto relevante nos ecossistemas, a ponto de sermos nós os únicos causadores da maior extinção em massa de espécies animais e vegetais dos últimos 65 milhões de anos.  E, como sempre digo, embora tenhamos esquecido, dado que na natureza somos todos um, é muita ingenuidade achar que essa extinção jamais irá se voltar contra os causadores.  Acho muito difícil não termos um retrocesso populacional nos próximos anos, de 7 para 5, de 5 para 3 e assim por diante. Basta verificar as ondas contrárias, não só o clima, mas o fim da água na superfície e subterrânea, o comprometimento do dêgelo das montanhas que faz parte da formação de recursos hidricos de centenas de milhões de pessoas na Ásia.  Enfim, são tantas as ondas contrárias que claramente irão provocar recuo na oferta de água e de alimentos e uma redução populacional parece inevitável nos próximos anos.  A famosa aposta de Julien Simon e Paul Ehrlich se baseou em mitos de recursos naturais tangíveis sobre os quais o mercado, que não precifica as externalidades dessa mineração, respondeu com queda de preços.  Mas a mais óbvia e principal finitude do planeta Terra para nosso sistema, embora não seja a única, mas tem que ser considerável inegável, é a oferta de água e solo, ambos inevitavelmente finitos!

Somos uma espécie animal, mas não uma inteligente.  Podemos até tentar ser, mas o preço dos nossos erros passados serão cobrados mesmo que isso aconteça a partir de amanhã.  Teremos que nos ajustar com menos: menos viagens aéreas, menos equipamentos, menos consumo, alimentos menos intensivos em proteínas animais (no limite talvez tenhamos que comer só insetos), enfim, o adjetivo menos vai ter que entrar no lugar do mais.  Isso porque assim como o mais de hoje virou o menos de amanhã, o único caminho é adotar o menos para ter mais amanhã (muito embora comparado com qualquer escala dos últimos 200 anos, o mais de amanhã será menos sempre).  Se medirmos em termos qualitativos podemos chegar em uma situação muito melhor, porque hoje quase 100% da humanidade está completamente infeliz e infernizada.  O menos significa entender que a humanidade tem apenas dois caminhos: ou desmaterializa a economia ou desmaterializa a vida. Não há terceira via.  Temos que fazer uma escolha entre economia e a vida na Terra. Isso significa mudar a ênfase atual na economia, entidade vista como mais importante que o planeta e as pessoas, para ênfase nas pessoas e com isso conseguir salvar o meio ambiente.   Um bom ponto de partida é bater nessa visão estúpida dos economistas pela qual o planeta é um subsistema da economia, que não existe limites ecológicos ou físicos para o sistema econômico nem a necessidade de incluir esse estrago na planilha de custos (isso explica muita coisa...) e que a economia pode ser maior que o planeta.  Essa visão é principalmente de economistas laureados pelo prêmio Nobel, o que nesse caso é uma prova da inutilidade de ambos.

Não temos visto até a data de hoje o menor sinal e de parte alguma ou de qualquer país ou governo ou empresa que estamos em uma crise urgente que requer medidas de correção drásticas sendo adotadas embora demasiadamente tardias.

Por isso lamento tanto Georgescu ter sido largamente ignorado.  Com sua análise epistemológica da economia ele previu nos anos 1960 o que os cientistas vieram alertar quase duas décadas depois dos seus trabalhos.  Ele previu que o sistema econômico circular, degenerativo e submetido a crescimento exponencial infinito conseguiria entregar a Terra ainda banhada em sol apenas à vida bacteriana.  E eu li uma passagem interessante do Stephen Jay Gould que escreveu: "o ser humano pode até provocar essa extinção, mas não será capaz nem de fazer mossa à vida bacteriana."  Bom, em um bilhão de anos, essa vida bacteriana que pode continuar sem nós pode, quem sabe, dar origem a uma outra espécia animal que, talvez, saiba que a nossa felicidade não depende de bens materiais, mas da felicidade dos outros e por outros entenda-se toda a vida na Terra.  Não que os bens materiais não sejam indispensáveis para nosso bem estar, mas a questão é o valor que demos a eles.  Uma sociedade cujo símbolo de sucesso é o distanciamento material uns dos outros está sim fadada à extinção.  Solidariedade que é o exemplo mais evidente da natureza é algo que não fazemos e iremos pagar por isso. Enquanto não abolirmos o pronome pessoal na primeira pessoa, eu,meu no lugar de nós, nosso, estaremos na mesma rota de sempre: precipício.

Abraço

Hugo


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