sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Desenvolvimento dito sustentável...

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Com certeza, uso de transportes com uma equação de matéria e energia mais eficiente faz todo sentido. A prioridade é andar a pé, andar de bicicleta e usar transporte coletivo. Automóvel particular só para pessoas com necessidades especiais ou idosos. A eficiência de energia de um automóvel é baixíssima, estima-se só 1%. Esse transporte ineficiente – e letal, se alterado, evitaria a necessidade de construir várias e várias usinas Belo Monte. Obviamente que mesmo um sistema de transporte mais eficiente irá esbarrar na primeira restrição mais óbvia, que é o espaço territorial finito e constante que não poderá ser entupido de trens, ônibus, etc., sem causar antes disso, um colapso dos sistemas de sustentação da vida na Terra.

Voltamos a um ponto crucial: não existe falta de energia, mas desperdício de energia. Buscar fontes alternativas de energia “ditas mais limpas” não diminui a pressão humana sobre a Terra, ao contrário, aumenta. Do ponto de vista técnico ou tecnológico não existe energia limpa (mais um novo mito) e as alternativas até agora não são substitutos viáveis tanto em distribuição quanto em escala dos combustíveis fósseis, que seguirão sendo usados em qualquer futuro visível. O único caminho é reduzir o desperdício e a ineficiência de energia estimado em 40 a 60% no mundo todo. Só para manter as luzes vermelhas dos aparelhos eletrônicos nos lares dos Estados Unidos (“standby”) é consumido 10% do total de energia daquele país, de acordo com a Worldwatch. A redução do desperdício seria suficiente para atender as metas de redução de emissões do IPCC, mas não seriam suficientes para manter essa redução, caso insistirmos na idiotia do crescimento eterno.

Mas o artigo do Lessa abaixo, tem uma construção que pode ser colocada numa perspectiva bem clara, pois ele tenta responder duas perguntas presentes no ideário de todas as pessoas, não importa a sua ideologia:

1) O desenvolvimento traz bem estar às pessoas?

2) Tal desenvolvimento é viável do ponto de vista ambiental e planetário?


Para a primeira pergunta, as respostas podem ser sim (S) ou não (N). Para a segunda pergunta, temos três respostas possíveis: (S), (N) e ignorado (I). Existe uma cartela de respostas possíveis, mas só encontramos quatro possibilidades que explicam a situação – e o conflito – existente no discurso trazido por esse artigo, onde em (X,Y), X é a resposta da primeira pergunta e Y da segunda:

(S,S) – esse seria o mundo ideal, meta da economia ecológica ou de todos os pensadores sérios em busca de um novo paradigma do nosso sistema econômico antes da nossa própria extinção;
(S,N) – esse é o mundo dos que desejam manter o status quo das populações, sem nenhuma restrição aos padrões de vida e sociais, que devem aumentar de forma perene e, ao mesmo tempo, com milagres da ecoeficiência ou da tecnologia (“craddle to craddle”, etc.), possibilitar fazer tudo isso e tornar o modelo crescente e megalomaníaco viável planetariamente – para esses vale o velho ditado: “the road to hell is paved with good intentions”;
(S,I) – esse é o mundo do pensamento dominante que rege o mundo à nossa volta, pois ignorar se o desenvolvimento pode ou não ser restringido pelo planeta e sua morfologia é a maneira mais fácil (e estúpida ou suicida) de manter o status quo e ainda justificá-lo através da meta de trazer bem estar às pessoas carentes (não existe hipocrisia ou ignorância maior que essa);
(N,N) – essa é a realidade estonteante à nossa volta, onde países como os Estados Unidos que fizeram tudo que desejamos fazer, estão em uma crise sem solução e onde ficou escancarado que o sistema econômico-político nem voltado para vida das pessoas está; além disso está bem claro que não temos um modelo sustentável onde quer que investiguemos no planeta inteiro, a menos que se acredite que o vazamento das externalidades dos países ricos, mesmo os do norte da Europa, se universalizados globalmente, serão exportados para fora do nosso planeta.

As respostas acima mostram de forma emblemática como duas visões de mundo, aparentemente antagônicas [(S,N) e (S,I)], estão totalmente desconectadas da realidade social e ambiental (N,N) à nossa volta, ao mesmo tempo que a visão alternativa (S,S) não possui ainda nenhum caminho prático ou aceitação que a eleve da posição de mera especulação teórica para realmente alterar o futuro comum de todas as espécies de uma teia de vida na qual somos todos um.

As soluções existem, só não há ainda caminhos econômicos e políticos para elas, com alguma relevância digna de ser notada para alterar o maior processo de extinção já em curso da vida desse planeta dos últimos 65 milhões de anos.

Hugo Penteado

Valor Econômico, 10 de novembro de 2010
O desenvolvimento dito sustentável
Carlos Lessa
10/11/2010
O neomalthusianismo, adepto do controle e da "redução" demográfica, tem versões modernas. O Clube de Roma chamou atenção para a exaustão dos recursos econômicos não renováveis, com a ideia subjacente de uma expansão demográfica sobre a biosfera não renovável. O "homo sapiens" instalado na biosfera vem prosperando numericamente e multiplicando (com enorme assimetrias) o padrão de vida. A população, tal como uma colônia de cupins instalada em uma viga de madeira, pode se alimentar bem, inclusive
multiplicando os membros e sua colônia. Porém, quando a viga de madeira é corroída, a colônia de cupins desaparece. A ideia é que o planeta tem certa disponibilidade de terra, água, minérios e oxigênio equivalente a uma viga de madeira e o uso crescente dessa disponibilidade apontaria para um apocalipse. Variações geoclimáticas, novas pragas e doenças ou fantasias dignas de filmes de terror sinalizam que o desenvolvimento das forças produtivas é irresponsável.
De forma bem educada, há crescente deposição de confiança no desenvolvimento científico e tecnológico, que funciona como um multiplicador de acessos aos recursos existentes, redefinindo e ampliando sua aplicabilidade aos padrões sociais. Em simultâneo, prosperou o discurso que propõe padrões de sustentabilidade, isto é, a prevalência de um sistema redutor de desperdícios. A tarefa da ciência e tecnologia seria o desenvolvimento de novas técnicas que permitissem reduzir o desperdício,
ou seja, multiplicar o que o "homo sapiens" utiliza da biosfera. Se a ciência e tecnologia estiverem orientadas para a redução do desperdício, e as normas sociais assimilarem essas técnicas, o mundo iria evoluir para uma economia de baixo carbono.
Nenhum recurso é tão importante e essencial para os padrões de vida da atualidade, inclusive de suas assimetrias, do que a energia fóssil concentrada em carvão e, principalmente, em petróleo. O petróleo do pré-sal brasileiro abre para o Brasil a possibilidade de encaminhar nossas forças produtivas em direção à superação de nossas assimetrias e desigualdades sociais.
O petróleo do pré-sal não desaparecerá. Com a falta do combustível, o país pode ampliar a sua soberania
Tudo leva a crer que a presidente Dilma considera que o desenvolvimento dos campos do pré-sal irá gerar, pelas exportações de petróleo cru, os recursos necessários para evoluirmos em direção a uma sociedade mais justa e adepta de práticas de redução de desperdício e produção com baixo carbono. Essa é uma visão gratificante, porém ingênua.
Se a humanidade superar a crise e voltar a crescer, o preço do petróleo cru se elevará. Minérios mais difíceis, como areias betuminosas ou prospecção em zonas desérticas, glaciares ou marinhas serão procedimentos para obter algum "novo" petróleo. Quem dispõe do petróleo da Península Arábica (custo de extração próximo a US$ 1 por barril) ou do brasileiro (com o pré-sal a US$ 25 por barril) estará recebendo um ganho crescente, pois o preço mundial será comandado pelo petróleo com alto custo. Como o petróleo está presente em praticamente toda produção de bens e serviços, haverá inexoravelmente uma inflação de custo, o que significa que durante
décadas o petróleo será cada vez mais caro, com valor superior ao ouro ou a título de dívida de qualquer país como "base" financeira. Isso irá se refletir no cenário geopolítico e geoeconômico. Mesmo após um colapso parcial derivado da escassez, o que sobrar de petróleo seguirá sendo uma base financeira de crescente importância.
O Brasil não deve transferir propriedade de reserva de petróleo para nenhuma outra companhia que não a Petrobras. Principalmente não devemos nos converter em exportadores de petróleo cru. Utilizemos o pré-sal para desenvolver a matriz hidrelétrica. Utilizemos nossa nova base financeira para captar recursos que nos permitam mudar radicalmente a estrutura de transporte brasileira: precisamos de ferrovias que integrem todas as regiões e façam nossa ligação com o Pacífico; precisamos desenvolver a indústria naval, a navegação de cabotagem e a utilização racional de nossas bacias hidrográficas.
O petróleo do pré-sal tem que ser exportado gota a gota, e cada gota deve ter um destino pensado e relevante para o desenvolvimento das forças produtivas, do mercado interno e da ampliação das políticas sociais e da educação.
Nas condições atuais, a exportação do petróleo do pré-sal instalará no Brasil a doença da desindustrialização e servirá, inclusive, para importarmos alface francesa pré-lavada, à venda nos supermercados dos bairros com alto poder aquisitivo. Em vez da reforma e ampliação infraestrutural, as exportações do pré-sal podem se converter numa maldição.
O argumento entreguista pró-exportação do pré-sal se alinha com o desejo de ampliar investimentos brasileiros no exterior; com o argumento de como o petróleo vai se esgotar e, então, é melhor vendê-lo logo, para nos beneficiarmos da demanda. O petróleo do pré-sal não vai desaparecer. E, com a escassez do petróleo, o Brasil pode ampliar sua soberania.
Presidente Dilma, não embarque na canoa furada de utilizar a exportação de petróleo para preparar o Brasil para a economia de baixo carbono. Isso é profundamente ingênuo. O Brasil tem que ampliar o mercado interno, multiplicar empregos urbanos de qualidade, combater os desperdícios pelo controle dos padrões tecnológicos utilizados pelas filiais estrangeiras no Brasil. É impressionante a diferença de produtos de marca entre os aqui disponíveis e os fabricados pelas filiais das mesmas multinacionais no primeiro mundo. Sem navegação de cabotagem e ferrovias troncais, o Brasil continuará a transportar por caminhão do Oiapoque ao Chuí - e esse é o principal desperdício de petróleo.
Carlos Francisco Theodoro Machado Ribeiro de Lessa é professor emérito de economia brasileira e ex-reitor da UFRJ. Foi presidente do BNDES; escreve mensalmente às quartas-feiras.

Um comentário:

Larissa Coldibeli disse...

Olá!
Lendo o seu post me lembrei de um blog que aborda mobilidade urbana, consumo de energia, entre outros problemas da atualidade. www.desafiocidadessustentaveis.com.br
Traz informações bem interessantes sobre o que está sendo feito em grandes cidades do mundo para diminuir os impactos ambientais.
Abs!