terça-feira, 19 de outubro de 2010

Pegada ecológica x "economia verde"

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Amplamente ignorado e infelizmente não é gente idiota que obtém essas constatações, isso é um conhecimento profundo.

No livro do Ricardo Arnt tem vários economistas tirando sarro dessa noção de consumir mais que um planeta quando é citada a conclusão do GFN entre as perguntas. Não são economistas quaisquer e sim formadores de opinião.

Enquanto isso nas empresas "sustentáveis", são distribuídos sacos plásticos para guarda-chuvas, copinhos plásticos aos borbotões e nas reuniões de sustentabilidade, principalmente, é chocante ver como nada mudou quando é onde mais se encontra produtos descartáveis, para os quais, não há milagre algum, nem a reciclagem, como muitos acreditam.

Hugo Penteado

Pegada ecológica x "economia verde"

José Eli da Veiga

Acaba de sair o mais completo balanço da insustentabilidade: o
Relatório Planeta Vivo 2010 . Essa é a oitava edição do documento
que mais notabilizou a Pegada Ecológica, publicado a cada dois anos
pelo WWF- Internacional (World Wide Fund For Nature), com a
Zoological Society of London (ZSL) e a Global Footprint Network
(GFN).

Esse balanço entre a pressão humana sobre a natureza e sua
capacidade regenerativa (ou "biocapacidade"), que surgiu no início
dos anos 1990, na Universidade de British Columbia, em Vancouver,
resultou de pesquisa do ecólogo William E. Rees. A metodologia foi
consolidada em 1994, em tese de doutorado de um de seus alunos, o
engenheiro suíço Mathis Wackernagel. Em seguida foi publicada em
co-autoria no livro "Our Ecological Footprint" (New Society Press,
1996). No entanto, por ter despertado grande interesse, proliferaram
cálculos pouco rigorosos, até que surgisse, a partir de 2003, a
normatização do GFN (www.footprintnetwork.org), dirigido por
Wackernagel.

É assustadora a principal revelação do oitavo relatório: em 2007 a
sobrecarga imposta pelas atividades humanas foi 50% maior que a
capacidade regenerativa do planeta. Além disso, o relatório também
apresenta projeções com base em diferentes variáveis relacionadas
ao consumo de recursos naturais, uso da terra e produtividade, graças
a uma nova "Calculadora de Cenário de Pegadas".

No cenário básico, a perspectiva não poderia ser mais tétrica: até
2030 a humanidade precisaria da biocapacidade de dois planetas
Terra para poder absorver as emissões de gases de efeito estufa
(GEE) e manter o consumo de recursos naturais. Cenários

alternativos, que pressupõem mudanças nos padrões de consumo e
nas matrizes energéticas, ilustram quais seriam as ações imediatas
capazes de reduzir o hiato entre a Pegada Ecológica e a
biocapacidade.

Entre a estabilidade e a necessidade de reduzir o impacto das
ações humanas não existe saída simplista

Três outros dados são cruciais. A biodiversidade global sofreu uma
queda de 30% em menos de quarenta anos, atesta o mais antigo
indicador do WWF - Internacional, o IPV: Índice Planeta Vivo. Chegam
a 71 os países com déficit em recursos hídricos suficiente para
comprometer a saúde de seus ecossistemas, aponta seu mais novo
indicador, o PHP: Pegada Hidrológica da Produção. Foi de 35% o salto
das emissões de GEE desde o primeiro relatório, de 1998.

Todavia, há uma séria disparidade entre a excelência desses
diagnósticos e o conteúdo do capítulo final - propositivo - intitulado
"Uma economia verde?". Dá a entender que a "economia verde"
preconizada pelo WWF- Internacional está na linha da "estratégia de
crescimento verde", esboçada em maio pelo conselho ministerial da
Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico
(OCDE), e que se encontra em fase de consultas para que uma versão
definitiva seja adotada em 2011.

É péssima essa versão preliminar da estratégia da organização porque
tenta fazer de conta que o crescimento não constitui "dilema", como
evidenciou com muita clareza o relatório do governo britânico
"Prosperity without growth?" . Os ganhos de ecoeficiência que
reduzem a proporção de energia e de matéria em cada unidade de
produto são mais do que compensados pelo aumento da população e
de seus níveis e padrões de consumo. É a chamada "questão da
escala!", evidenciada pelo contraste entre as fortíssimas reduções de
intensidade de carbono das principais economias e o incessante
aumento de suas emissões em termos absolutos.

Ora, pertencem justamente à OCDE os raros países que já poderiam
planejar uma transição à condição estável, pois suas populações
deixaram de aumentar e a melhoria de sua qualidade de vida não
depende mais de aumento da produção. Como mostrou o modelo
macroeconométrico de Peter Victor para o caso do Canadá, descrito

no livro "Managing without growth; slower by design, not disaster"
(Edward Elgar, 2008).

Entre a manutenção da estabilidade social e a necessidade de reduzir
o impacto das atividades humanas sobre a natureza, não existe saída
simplista como pretendem os que especulam com essa ideia de um
suposto "crescimento verde". O dilema se impõe porque a pressão
sobre os ecossistemas não cessa de aumentar com a expansão da
economia: a desmaterialização não engendra alívio ecossistêmico.

Ao fazer de tudo para evitar o enfrentamento de um sério debate
sobre o "dilema do crescimento", a OCDE está compondo um
verdadeiro "samba do crioulo doido". É lamentável perceber,
portanto, que o WWF - Internacional se deixa ludibriar por tamanha
operação de auto engano.

Por último - mas não menos importante - o logro do "crescimento
verde" esboçado pela OCDE também ignora as recomendações da
Comissão Stiglitz-Sen-Fitoussi, feitas há exatamente um ano
(www.stiglitz-sen-fitoussi.fr). Em curta nota de rodapé, mal
reconhece a necessidade de superação dos atuais indicadores de
desempenho econômico e de qualidade de vida. Chocante, pois foi
decisiva a contribuição do Serviço de Estatísticas da OCDE para o
sucesso do trabalho dessa Comissão.

José Eli da Veiga é professor titular da USP (FEA e IRI), escreve mensalmente às terças. Página

web: www.zeeli.pro.br

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