sexta-feira, 23 de julho de 2010

A prova de que o PIB pode enganar

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A prova de que o PIB pode enganar

José Eli da Veiga VALOR ECONOMICO 20/07/2010

Quem teima em defender o obsoleto Produto Interno Bruto (PIB) precisa dar atenção ao caso da Irlanda, que realça como seria muito melhor avaliar o desempenho econômico das nações por alguma medida da renda domiciliar disponível para consumo. O PIB per capita irlandês disparou nos anos 1990, ultrapassando o japonês e os das maiores economias europeias em 1998, e quase igualando o dos EUA em 2007. Todavia, tanto seu consumo final efetivo, quanto as várias medidas possíveis de renda domiciliar disponível permaneceram 40% abaixo das americanas, bem próximas das da Itália.

Ou seja: em 2007 a situação econômica da Irlanda era muito pior do que as do Reino Unido, França e Alemanha, embora seu PIB per capita indicasse exatamente o inverso: um desempenho próximo ao da economia americana, muito acima dos exibidos pelas outras cinco grandes economias citadas.

Essa é uma das evidências apresentadas em dossiê de 30 páginas com 15 gráficos esclarecedores das recomendações do relatório coordenado por Joseph Stiglitz, Amartya Sen, e Jean-Paul Fitoussi sobre a mensuração do desempenho econômico e do progresso social (www.stiglitz-sen-fitoussi). Obra de três técnicos do Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos (INSEE), a agência estatística da França: Marie Clerc, Mathilde Gaini e Didier Blanchet (*). Eles usaram o relatório para comparar a evolução de seis países: Alemanha, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido. E, em alguns casos, de sete, quando obtiveram dados sobre a Irlanda.

É o primeiro sinal de que começa a ser rompido o soturno silêncio de dez meses em torno do relatório. Um fenômeno que certamente resulta do despreparo das agências de estatística, tanto as nacionais quanto as que são mantidas por poderosas organizações internacionais. No geral, elas são incapazes de medir o desempenho econômico pela renda disponível para consumo e compará-la ao vetusto produto bruto, interno ou nacional. E não dispõem dos meios necessários para a avaliação de qualidade de vida que combinem critérios consagrados ? como a esperança de vida ? a critérios hedônicos ? como a satisfação. E nem sequer começaram a elaborar indicadores físicos de sustentabilidade ambiental.

Inteiramente impotente diante desses desafios, a comunidade estatística prefere ficar calada, contribuindo para reforçar a opção preferencial dos economistas por convenções que ignoram a obsolescência do PIB, a extrema precariedade do IDH, e a completa ausência de medidas consensuais de sustentabilidade.

Daí o imenso valor das pérolas exibidas nesse dossiê do INSEE. Chega a arriscar, por exemplo, duas ilustrações sobre a sustentabilidade. A primeira, preponderantemente econômica, na linha da ?poupança genuína? do Banco Mundial, indica que os seis países decaíram muito mais do que se pensa nas três últimas décadas do século passado ? tendência que parecia estar começando a ser revertida a partir de 2003 somente na Alemanha e no Japão.

Em seguida, sobre a contribuição de cada país à insustentabilidade ambiental global ? mais na linha do relatório ? surge uma comparação entre as respectivas ?pegadas carbono?, em toneladas de CO2 por habitante e por ano. Desnecessário dizer que as dos EUA são quase o dobro das dos outros seis países, tanto sob ótica da produção, como ? ainda mais ? sob a do consumo.

No que se refere à necessidade de melhores indicadores de qualidade de vida, o maior destaque foi dado à saúde. Tem sido unânime a ideia de que nessa área não existiria melhor critério objetivo do que a esperança de vida ao nascer. Porém, em países que já atingiram elevada longevidade, o que mais passa a interessar é a esperança de vida ?em boa saúde?. Na Alemanha, enquanto a primeira se aproxima dos 80 anos, a segunda nem chega aos 60. Em forte contraste com o Reino Unido, onde a esperança de vida ?em boa saúde? supera os 65 anos.

Embora a educação também receba grande destaque no âmbito da qualidade de vida, o dossiê não vai além de uma apresentação das porcentagens de diplomados do ensino superior na faixa etária 25-54 anos. Enquanto EUA e Japão lideram com mais de 40%, França, Alemanha e Reino Unido ficam no meio, entre 25% e 35%, seguidos bem de longe pela Itália que mal alcançou os 15%.

Os autores preferiram dar mais ênfase à insegurança econômica, ilustrada simultaneamente pelos irmãos siameses desemprego e pobreza. Surgem dois grupos conforme os pesos relativos dos desempregados de longa duração na população ativa. Do lado melhor, EUA, Reino Unido e Japão, com taxas inferiores a 1,5%. Do pior, França, Alemanha e Itália com taxas superiores a 3%.

Todavia, esse panorama praticamente se inverte quando se considera uma linha de pobreza de renda correspondente a 60% do nível de vida mediano, após transferências sociais e impostos. Por tal critério, há 20 anos permanece na pobreza um quarto dos domicílios americanos. No Japão e na Itália eles se aproximam de um quinto. São apenas 16% na Alemanha e Reino Unido, e 15% na França.

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