terça-feira, 10 de junho de 2008

Pode um banco ser sustentável?

Por Gustavo Pimentel em 21/05/2008


A pergunta do título foi o tema da palestra do vice-presidente de um grande banco internacional para uma platéia de quinhentos jovens, oriundos de oitenta países. O cenário era Belgrado, capital da então Sérvia e Montenegro, apenas quatro anos após o fim da Guerra dos Bálcãs. No caminho para o centro de convenções, avistavam-se prédios públicos bombardeados ao lado de hotéis cinco estrelas recentemente construídos. A pergunta-tema da palestra de cinco anos atrás ainda está no ar: qual seria o papel de um banco para a sustentabilidade?

O setor financeiro realmente tem um papel preponderante na economia mundial. "Eles alocam recursos escassos entre os setores e atividades econômicas", dizia um empolgado asiático naquela palestra, parecendo ter saído direto de sua aula de economia na faculdade. O homem-aranha diria aos bancos: "quem tem um grande poder deve arcar também com uma grande responsabilidade". De fato, hoje já não se engole mais o discurso das instituições financeiras que se intitulam 'sustentáveis' pelo simples fato de usar papel reciclado, ter políticas de diversidade para os funcionários e usar energia renovável nos prédios administrativos. Ainda que essas sejam ações importantes, que servem de base para entender também seus impactos indiretos.

Quando examinamos o que tem sido feito para diminuir o impacto indireto, deparamos com soluções que podem se aplicar a qualquer setor: políticas de contratação de fornecedores e benefícios para funcionários terceirizados, papel reciclado nos talões de cheque dos clientes, neutralização de carbono nas viagens de avião dos funcionários. Para que a questão semântica pare de atrapalhar o diálogo com o setor financeiro, é necessário ser explícita: sustentabilidade está ligada ao que a instituição financia (ou investe). Diga-me quem financias, que te direi quem és.

Essa discussão está geralmente ligada ao 'como fazer'. Os bancos têm desenvolvido políticas que incorporam a análise socioambiental ao risco de crédito. Isso faz com que dimensionem melhor os riscos, mas não os impede de financiar atividades altamente impactantes, desde que o retorno seja adequado. Como já pode ser lido em algumas políticas socioambientais de crédito: "apenas em casos extremos será negado financiamento". Um viés parecido têm os atuais Princípios do Equador (PE), desde que as 'salvaguardas' do PE1 se transformaram em 'padrões de desempenho' do PE2. No entanto, já há benchmarks internacionais consistentes para desenvolver tais políticas de forma específica para setores e temas sensíveis, conforme demonstrou o relatório Mind the Gap do BankTrack.

Mas é preciso aprofundar a discussão para a linha de 'o que financiar'. Como instituições que alocam recursos escassos, os bancos devem direcionar suas carteiras para setores e atividades que contribuam para a tão necessária mudança nos padrões de produção e consumo vigentes, rumo à sustentabilidade. 'O que' e 'como' andam de mãos dadas nesse caso: não adianta ter linha de crédito para reflorestamento se a política geral não veda crédito para atividades que desmatam. É pouco relevante dar alguns milhões para energia eólica se as termelétricas recebem bilhões. Esse tipo de atuação já é percebido como maquiagem verde e cria passivos reputacionais para alguns bancos brasileiros. É o mesmo que financiar os hotéis cinco estrelas para que turistas apreciem a ruína de Belgrado.


Gustavo Pimentel, economista, é Gerente de Eco-Finanças da ONG Amigos da Terra - Amazônia Brasileira, que representa no Brasil a rede BankTrack.

De onde vem seu bife?

Do site eco-financas.org.br:

O Idec enviou cartas para as três maiores redes varejistas do país, questionando sobre sua preocupação em relação à rastreabilidade da carne bovina vendida por elas: Carrefour, Pão de Açúcar e Wal-Mart. Buscamos informações sanitárias, ambientais e sociais da cadeia de produção da carne.

As respostas de todos eles foram, para o Idec, insuficientes. Em várias delas, as empresas afirmaram possuir cláusulas contratuais - "garantindo" que não há desmatamento ou trabalho escravo, por exemplo, nas propriedades que produzem a carne que comercializam - porém sem informar se fazem ou como fazem o controle para de fato garantir seu cumprimento.

Só o Grupo Pão de Açúcar detalhou a forma como faz esse controle - restrito a apenas 1% de toda a carne bovina comercializada pela empresa. Mas a iniciativa demonstra que é possível, sim, que os varejistas tenham grande controle sobre a forma como é produzida a carne bovina que o consumidor encontra na gôndola. E que ela deve ser louvada.

Veja um resumo das respostas dos supermercados:

O grupo Carrefour - que detém quatro bandeiras de supermercados (Carrefour, Carrefour Bairro, Dia% e Atacadão) - focou suas respostas apenas no programa "Garantia de Origem", que possui critérios de seleção de fornecedores e de garantia de qualidade da carne, e contempla apenas 40% do que é vendido pela rede. As informações fornecidas pouco revelaram sobre a origem da carne, ficando em um plano apenas conceitual, sem dados concretos. A empresa se limitou a listar alguns dos principais frigoríficos fornecedores e, com relação aos municípios de origem da carne, disse que ela "é proveniente de todo o território brasileiro, com pequeno volume importado".

Questionado sobre a disponibilização das informações que possui sobre rastreabilidade da carne bovina nos rótulos dos alimentos, o grupo disse que elas estão em "plaquetas informativas, inseridas próximas a cada um dos tipos de carne e de corte".

Com relação ao controle para evitar que a carne venha de áreas de desmatamento ou em que se utilize trabalho escravo, a empresa informa que avalia "os aspectos sociais e ambientais de cada uma das fazendas" antes de cadastrá-las e que, em caso de irregularidades, o produtor é "automaticamente retirado do programa".

O Grupo Pão de Açúcar (Companhia Brasileira de Distribuição), detentor de oito bandeiras de varejo (Pão de Açúcar, Extra Hipermercados, Extra Perto, Extra Fácil, Extra Eletro, Sendas, Comprebem e Assai), foi o único a listar as cidades e fazendas de onde vem a carne. Mas essa informação serve para apenas 1% da carne comercializada, inserida no "Programa de Produção de Carne de Qualidade". Para a maioria restante, não há dados sobre controle efetivo de qualidade e de passivos ambientais e sociais.

A empresa informou que "antes de cadastrar uma fazenda, ela passa por entrevista e visita técnica para verificar a relação entre empregador e empregados, aspectos ambientais e técnicos". Diz ainda que todo o gado possui certificação do Sisbov (Serviço Brasileiro de Rastrabilidade da Cadeia Produtiva de Bovinos e Bubalinos, um programa voluntário para a produção voltada ao mercado interno) e que há acompanhamento de técnicos de nutrição, reprodução e sanidade. O Idec acredita que a empresa poderia ter fornecido mais dados para que se soubesse exatamente como é feita essa gestão social e ambiental.

Já o Wal-Mart, que possui nove bandeiras de supermercados (Wal-Mart Supercenter, Todo Dia, Maxxi, Sam's Club, Hiperbompreço, Bompreço, Mercadorama, Nacional e Big), deu respostas incompletas e esclareceu pouco sobre sua participação na cadeia. Disse que compra carne de dois frigoríficos e que "os nomes das fazendas e os municípios [de onde vem a carne] são informações dos frigoríficos que fornecem para o Wal-Mart. Portanto, não possui essa informação".

A empresa afirma também que inclui cláusulas em seus contratos que garantem que todos os animais abatidos venham de "territórios que não sejam áreas de desmatamento". Mas não deixou claro como - e se - tem um controle efetivo para se assegurar disso.

Com relação ao controle de uso de trabalho escravo pelos fornecedores, o Wal-Mart diz que "caso um fornecedor não atenda as cláusulas do contrato ou passe a integrar a 'lista suja' do trabalho escravo, ele é descontinuado da lista de parceiros da empresa". Isso, ao mesmo tempo em que afirma não ter a relação dos produtores que vendem para os frigoríficos de onde compra - dado imprescindível para ter controle dos contratos.

O perigo do crescimento eterno

Gazeta Mercantil, 5 de março, 2004


Com o lançamento de "Ecoeconomia - Uma Nova Abordagem", Hugo Penteado deu à discussão ambiental no Brasil um novo patamar ao basear toda sua argumentação na crítica do modelo de desenvolvimento dos grandes países: "Não há crescimento econômico sem total desfiguração dos ecossistemas e sem estar colocando toda a vida na Terra, inclusive a dos homens, em total perigo".

Com o lançamento de "Ecoeconomia - Uma Nova Abordagem", Hugo Penteado deu à discussão ambiental no Brasil um novo patamar ao basear toda sua argumentação não nas costumeiras bandeiras desfraldadas pelos verdes, mas sim ao dirigir sua crítica ao modelo de desenvolvimento dos grandes países: "Não há crescimento econômico sem total desfiguração dos ecossistemas e sem estar colocando toda a vida na Terra, inclusive a dos homens, em total perigo".

O autor, economista-chefe do ABN AMRO Real, afirma que o grande problema se encontra na obsessão do sistema em buscar crescer sem parar - mesmo que o combustível venha de fontes finitas de abastecimento, como a água. Ele alerta: "O risco econômico está na necessidade de crescer quantitativamente a qualquer custo para garantir a saúde financeira de três sistemas principais: o mercado financeiro, oprevidenciário e o fiscal. Dado que o crescimento econômico é impossível do ponto de vista do espaço físico e ambiental, esses sistemas estão fadados à falência. O que vamos ver nos próximos anos é uma enorme crise econômica que pode acontecer muito antes da crise ecológica".

Desde o lançamento do livro, Penteado tem dado palestras em todo o País, aceitando convites vindos de entidades de classe e universidades. A seguir os principais trechos de sua entrevista exclusiva.

Gazeta Mercantil - Qual a explicação do surgimento da Ecoeconomia ou Economia Ecológica?
Hugo Penteado - Ao contrário do que muitos pensam, os principais motivos de ela ter surgido não foi o buraco da camada de Ozônio e sim os fracassos nas áreas social e ambiental, apesar da enorme expansão econômica e do desenvolvimento dos últimos anos. Hoje, os níveis de uso dos recursos finitos da Terra são alarmantes. Recursos finitos leiam-se recursos naturais como água e solo ou o equilíbrio climático-ecológico entre as espécies vivas, sem o qual não sobreviveremos na Terra. Lester Brown(*) batizou esse fenômeno de aceleração histórica: em um ano somos capazes de produzir mais bens e serviços que desde o início da humanidade até a Segunda Guerra Mundial.

O Clube de Roma já alertava para esse fenômeno: o sistema econômico está sendo submetido a um crescimento exponencial. Alguém ainda vai ganhar um Prêmio Nobel ao provar que o território americano tem um tamanho constante de 9,3 milhões de km², sobre o qual é impossível adicionar um fluxo de PIB de milhões de carros, casas e coisas de forma crescente.

Gazeta Mercantil - O crescimento é impossível por causa do tamanho do território?
Hugo Penteado - A escola Neoclássica resolveu o problema do crescimento infinito pelos ganhos de eficiência e da substituição infinita dos materiais da natureza pelo capital, mas Nicholas Georgescu-Roegen avisa que não há outros fatores materiais que não os da natureza. Além dessa enorme crítica, a escola Neoclássica nunca resolveu o problema do espaço físico finito em superfície. Isso mostra um profundo desconhecimento da Física. Mas não importa. Para se ter uma idéia, se os Estados Unidos crescerem o que Wall Street demanda que ele cresça, em 10 anos ele irá adicionar 9 economias iguais ao Brasil de hoje e a distância entre os ricos e pobres será maior do que nunca. Crescer 9 Brasis num território constante de 9,3 milhões de km² é impossível.

Por isso, estamos vivendo uma crise de crescimento nos países ricos, com a qual todos irão sofrer. Além desse crescimento não gerar empregos compatíveis com o crescimento populacional absoluto, ele não gera empregos permanentes nem fluxos permanentes. Esse erro teórico de ignorar o espaço físico finito e manter um crescimento suicida colocou as espécies animais e vegetais desse planeta na maior rota de extinção em 65 milhões de anos, de forma totalmente antropogênica.

Stephen Jay Gould dizia que não se trata de um processo de extinção natural de milhões de anos e sim de uma larga destruição de habitats e de alterações no equilíbrio ecológico, além da caça desenfreada. Hoje é aterrador perceber o que a espécie humana está fazendo contra seus pares e essa é a maior prova que não há ambiente para essa obsessão maníaca.

Gazeta Mercantil - A extinção da biodiversidade na Terra é um problema econômico?
Hugo Penteado - Sim, está ligado ao nosso sistema econômico, que pretende ampliar suas estruturas exponencialmente dentro de um espaço finito como a Terra. O ser humano aparentemente menospreza todas as formas de vida que não o seu próprio umbigo. Nós não nos vemos mais como uma espécie animal imortal e sim como indivíduos. Foi com essa visão individualista que Keynes proferiu a sua famosa frase: "No longo prazo estaremos todos mortos". Mas como uma espécie animal jamais estará morta, o que vamos deixar então para as gerações futuras?

Ora, o crescimento econômico é um crime num espaço finito cujo equilíbrio ecológico garante que a energia solar faça nossos corações baterem e garante que o oxigênio seja produzido nos mares e oceanos para todos respirarem. Veja o que está acontecendo nos oceanos: 90% das populações dos grandes predadores foram extintas; os corais, lares de grande parte das espécies oceânicas, estão agonizando; as costas dos mares onde vivem e se reproduzem peixes estão devastadas; 75% dos rios foram alterados; os manguezais destruídos a uma alta velocidade.

Não há crescimento econômico sem total desfiguração dos ecossistemas e sem estar colocando toda a vida na Terra, inclusive a dos homens, em total perigo. Fala-se da destruição da Amazônia, mas ninguém comenta que 99% das florestas dos Estados Unidos e da Europa foram derrubadas e que para atender à demanda desses países ricos, 75% das florestas tropicais já se foram. Apesar disso, antes do perigo ecológico, há o perigo econômico.

Gazeta Mercantil - Como assim? Essa não é uma preocupação meramente ecológica?
Hugo Penteado - De jeito nenhum. É impossível separar a economia da ecologia e isso só foi possível através de uma série de mitos e esses mitos impregnaram fortemente as teorias econômicas que influenciam as decisões dos governos até hoje. O risco econômico está na necessidade de crescer quantitativamente a qualquer custo para garantir a saúde financeira de três sistemas principais: o mercado financeiro, o previdenciário e o fiscal. Dado que o crescimento econômico é impossível do ponto de vista do espaço físico e ambiental, esses sistemas estão fadados à falência.

O que vamos ver nos próximos anos é uma enorme crise econômica que pode acontecer muito antes da crise ecológica. Os atrasos ecológicos, principalmente na agricultura, são muito grandes, mas isso pode ser uma chance para realinharmos nosso sistema para uma rota de equilíbrio, onde valores humanos, sociais e ambientais passem a fazer parte da equação.

Gazeta Mercantil - O crescimento populacional é um problema ecológico ou econômico?
Hugo Penteado - Ambos. Eu não acredito que o crescimento populacional possa ser ignorado para a questão do crescimento. Na equação de Solow ele é menosprezado dando espaço ao avanço tecnológico, mas não acredito nisso, é mais um erro teórico. Os países ricos estão preocupadíssimos com o baixo crescimento populacional, pois as populações no mundo todo estão envelhecendo e os custos com a previdência estão explodindo. As enormes populações da China e da Índia mostram erradamente que podemos ter enormes populações sem o menor problema, mas essa é uma análise superficial, pois grande parte dessas populações vive na miséria.

De qualquer forma, o mito de espaço infinito para tudo e todos fez com que a gente não se preocupasse com o crescimento absoluto e olhasse apenas para o crescimento percentual da população, que despencou nos últimos 30 anos. Os demógrafos falam que a população vai estabilizar algum dia e ao mesmo tempo toda a mídia e o governo estimulam um baby boom. Sem crescimento populacional o sistema de previdência de repartição simples vai falir; jamais deveria ter sido implementado um sistema no mundo que não fosse o de capitalização.

A dependência financeira de uma geração de pessoas em relação a outra conta com o mito de crescer sempre e cada vez mais, tanto do ponto de vista populacional quanto material. Lógico que isso não vai acontecer; lembre-se que a água e o solo são recursos renováveis, porém finitos, que estão sendo duramente degradados. Só 10% da água doce no mundo não está poluída hoje. Sem esse crescimento, o sistema de repartição simples na previdência não tem equilíbrio atuarial e já está sendo submetido a déficits financeiros crescentes.

Gazeta Mercantil - Mas as taxas de fertilidade e de natalidade estão despencando em todos os lugares; mesmo assim devemos nos preocupar com população?
Hugo Penteado - Primeiro, essa queda nas taxas é uma restrição econômica e financeira, quando olhamos o sistema previdenciário, e nenhum governo quer isso. Segundo, Malthus não errou porque relativizou a oferta de alimentos ao número de bocas; seu maior erro foi não enxergar nenhum problema no crescimento populacional, desde que a população crescesse lentamente. Na verdade, hoje estamos adicionando quase 80 milhões de pessoas por ano na Terra, o mesmo ritmo de crescimento absoluto de 30 anos atrás.

Um mito fez os demógrafos darem ênfase aos números relativos e não aos absolutos. Esses mitos fizeram os economistas olharem também para o crescimento relativo dos fluxos e não os absolutos. Ninguém se importa com o aumento gigantesco de casas e veículos em termos absolutos, apenas com a taxa de crescimento. Focamos em fluxos e em crescimento relativo, as variáveis econômicas principais são fluxos. Isso é fruto do mito que está colocando a humanidade numa rota suicida, tanto do ponto de vista ecológico quanto econômico.

Gazeta Mercantil - Mas isso tudo é muito óbvio. Então o que estamos fazendo para mudar as atuais tendências econômicas?
Hugo Penteado - Se olharmos a corrente política tradicional, nada; e os problemas estão se amontoando. O modelo de crescer a qualquer custo nunca esteve tão forte e é uma pregação messiânica diária. A frase preferida de todos é temos que crescer, embora isso não gere empregos de forma permanente, não seja sustentável para as pessoas e com as condições do meio ambiente e da biosfera. Essa obsessão maníaca por crescimento está disseminada, é tratada de forma totalmente acrítica por todos.

Quando abrimos fronteiras agrícolas aqui no Brasil, deixamos de lembrar que somos o único País com fronteira em expansão no mundo hoje. Os economistas tradicionais comemoram, mas os economistas ecológicos enxergam nisso uma atividade que está importando para dentro do Brasil a insustentabilidade ambiental de países ricos e de países populosos como a China, cujo déficit de alimentos não só já existe, como vai aumentar. O USDA, departamento agrícola americano, prevê déficit de produção de alimentos nos Estados Unidos com a exaustão do aqüífero fóssil Ogallala e na China com a perda de solo fértil. Isso tudo para alimentar uma enorme população que ainda cresce 14 milhões por ano.

Esse déficit vai transformar a Amazônia numa enorme monocultura, cujo déficit de empregos da última década no setor agrícola brasileiro alcança milhões de trabalhadores. São atividades insustentáveis e que expulsam o ser humano, para dizer o mínimo.

Mas não importa: há uma máxima em Filosofia pela qual quando nossos interesses estão em jogo ficamos completamente cegos. Não estamos na verdade vivendo uma crise ambiental e econômica e sim uma enorme crise de valores. Não há tempo para discutir mais essa crise, nem há mais tempo para fazer coisas erradas, mas infelizmente, apesar da falta de tempo, continuamos presos na obsessão pelo crescimento. Basta ver que as únicas políticas econômicas que importam e que regem o mundo são as de demanda (monetária e fiscal).

Para as teorias econômicas tradicionais podemos dizer que a produção de bens e serviços - mesmo que finito - não sofre nenhuma restrição e praticamente brota do nada. É com essa visão distorcida do mundo que estão sendo tomadas decisões que influenciam a vida de todos, decisões que estão nos levando em primeiro lugar para uma falência econômica e em segundo lugar para um risco ecológico do qual ainda não sabemos o tamanho. (Gazeta Mercantil - Eduardo Burato)

Faça o download integral e gratuito do livro Eco-Economia, do Lester Brown, na Biblioteca Digital WWI-UMA - http://www.wwiuma.org.br

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Mais essa do senado estadunidense

09/06/2008 - 10h59
Senado dos EUA derruba lei antipoluição
CLAUDIO ANGELOEditor de Ciência da Folha de S.Paulo
A última esperança de ver os Estados Unidos tomarem alguma providência contra a mudança climática antes de o próximo presidente assumir foi sepultada na sexta-feira. Os republicanos no Senado americano vetaram o projeto de lei que limitaria as emissões de gases de efeito estufa no país que mais polui o planeta.
A lei foi proposta pelos senadores democratas Barbara Boxer e Joe Lieberman e pelo republicano John Warner. Ela criaria um sistema de comércio de emissões no país, forçando empresas que emitissem acima da cota a comprar créditos de carbono das que tivessem conseguido exceder a meta de redução de CO2.
Após três dias de discussões sobre o projeto no Senado, os democratas quiseram colocar a lei em votação final, uma moção que precisaria de 60 votos para ser aprovada. Apenas 48 senadores votaram a favor, o que joga para o ano que vem a discussão da medida.
Críticos da legislação, entre eles vários senadores republicanos, disseram que a lei aumentaria o preço da energia nos EUA, incluindo o preço do petróleo. E não há tema mais sensível no momento: com o preço da gasolina numa alta recorde e o desemprego em ascensão em pleno ano eleitoral, falar em aumento do valor dos combustíveis é suicida, na visão de vários parlamentares.
Mas a lei também tem críticos do outro lado do espectro político. Para estes, a proposta permitiria a algumas indústrias prosperar, forçando ao mesmo tempo o americano médio a pagar mais pela energia.
Se aprovada neste ano, a lei americana contra o aquecimento global poderia dar um tom mais esperançoso às negociações do acordo que substituirá e ampliará o Protocolo de Kyoto a partir de 2013.
O novo acordo vem sendo discutido no âmbito da Convenção do Clima das Nações Unidas, mas tem enfrentado uma enorme resistência do governo George W. Bush.
As negociações oficiais do texto começam no fim deste ano na Polônia, quando o próximo presidente já estará eleito mas o governo Bush ainda não terá acabado. Nesse contexto, a ação do Congresso seria uma sinalização política importante sobre o tamanho das metas de corte de carbono que os EUA estariam dispostos a negociar. Barack Obama, virtual candidato democrata à Casa Branca, criticou a liderança republicana no Senado pelo veto.
Com "The New York Times"

Mais uma do Bush...

Bush pede exploração de petróleo em reservas ambientais
Presidente dos EUA quer o fim das restrições de exploração para conter a alta do preço da commodity
RICARDO GOZZI - Agencia Estado
WASHINGTON - O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, pediu nesta segunda-feira, 9, ao Congresso norte-americano que afrouxe as restrições impostas à exploração interna de petróleo como forma de fazer frente à elevação dos preços internacionais da matéria-prima (commodity), e defendeu o dólar forte ante as principais moedas estrangeiras. Bush voltou a pressionar o Congresso a permitir a exploração de petróleo na Reserva Natural do Ártico e em outras áreas de preservação ambiental
Na sexta-feira da semana passada (dia 6), o contrato futuro do petróleo com vencimento em julho fechou em nível recorde, a US$ 138,54 o barril, alta de 8,41%, e bateu a máxima histórica a US$ 139,12 o barril, durante o pregão em Nova York.

Em declarações a jornalistas antes de embarcar para uma viagem à Europa, Bush admitiu que os preços dos combustíveis estão altos demais. Segundo ele, a exploração em reservas ambientais ajudaria o país "a atravessar esse difícil período encontrando mais suprimentos de petróleo, o que contribuiria para desfazer a pressão sobre o preço da gasolina".

Bush também admitiu que a economia dos EUA atravessa um momento problemático e disse que conversaria com os líderes europeus tanto sobre a questão do petróleo quanto sobre a do câmbio. "Falarei sobre o comprometimento de nosso país com relação ao dólar forte. Um dólar forte é do interesse de nossa nação, assim como é do interesse da economia mundial", defendeu Bush.

A recente desvalorização do dólar ante o euro tem sido apontada por muitos economistas como uma das principais responsáveis pela disparada do preço do petróleo nos mercados internacionais. Bush destacou que os mercados de capitais dos EUA estão entre os de maior liquidez do mundo e afirmou que a solidez e a saúde de longo prazo da economia norte-americana se refletirão no valor do dólar.

Os comentários de Bush vêm à tona em um momento no qual o candidato democrata nas eleições presidenciais de novembro, Barack Obama, inicia sua campanha contra o republicano John McCain direcionando o foco na atual situação da economia americana.

Bush partiu nesta segunda para uma viagem em clima de despedida durante a qual visitará importantes capitais européias. Ele embarcou com destino à Eslovênia, onde participará de sua última reunião de cúpula EUA-União Européia (UE) como presidente. Depois ele visitará Alemanha, Itália, França, Inglaterra e Irlanda do Norte. As informações são da Dow Jones.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Pequena mas importante informação sobre a Amazônia


Situação da Amazônia é dramática: LULA e FHC em 13 anos foram responsáveis por 33,4% da destruição total (um terço) da floresta. Até o final do segundo mandato do Lula, os dois presidentes terão sido responsáveis por 50% da destruição total da floresta. Detalhe, esses dados de destruição são do INPE via fotos de satélite e não capturam a campenização da floresta (que é o corte das árvores médias e baixas, mantendo as mais altas).
PS: A nossa colaboradora, Cláudia Chow, do blog ecodesenvolvimento.blogspot.com, mencionou que o INPE poderia sim utlilizar uma tecnologia mais precisa para capturar a campenização da Amazônia e que os números poderiam deixar subestimar a destruição já feita, como apontam importantes institutos de pesquisa internacionais.

domingo, 1 de junho de 2008

O planeta nunca ofereceu problema como fornecedor de recursos e sim como absorvedor do estrago, segue matéria abaixo e comentários

Petróleo vai acabar e etanol ganhará espaço, avalia professor da USP

29-05-2008 - Do Rio - "Quando era criança, diziam que o petróleo iria acabar em 20 anos.

Hoje, dizem o mesmo e, por isso, ninguém mais acredita. Só que dessa vez vai acabar mesmo", disse ontem, em tom propositadamente alarmista, o engenheiro nuclear Roberto Hukai, professor do Instituto de Energia Eletrotécnica da USP, durante palestra no 20 Fórum Nacional.


Segundo ele, a transferência do controle das jazidas -que passou das empresas privadas, que há 30 anos detinham 95% das reservas, para empresas estatais, hoje donas de 93% do óleo já descoberto - transformou as questões geopolíticas em determinantes na formação dos novos mercados. Hukai citou estimativa da Agência Internacional de Energia (AIE), segundo a qual 62% dos poços de petróleo em produção atualmente estarão secos nos próximos 13 a 15 anos, o que não invalida a substituição deles por novas descobertas.


Segundo o especialista, o aumento da demanda mundial, comandado pela China, promete fazer com que o consumo diário passe de 85 milhões de barris diários para 100 milhões nos próximos 13 anos. O consumo chinês passou de 169,9 milhões de barris de óleo em 1996 para 1,065 bilhão dez anos depois. Ele avalia que a descoberta do campo de Tupi é relevante, mas "não refresca muito" a pressão sobre a oferta, a não ser que outras perfurações bem-sucedidas elevem o potencial da jazida de 8 bilhões para 80 bilhões de barris. Além disso, o problema da escassez de óleo está associado à crescente restrição ao seu uso por questões ambientais.


O quadro, na opinião de Hukai, é propício ao desenvolvimento da indústria brasileira de etanol de cana-de-açúcar e de mandioca, tanto para uso como combustível como para uso industrial, químico, por exemplo. Disse que técnicos do MIT, dos EUA, sugeriram recentemente investimentos de US$ 2 trilhões para a construção de mil reatores nucleares para eliminar a queima do carvão, a mais poluente das fontes atuais de energia.


Segundo ele, se fossem investidos esses US$ 2 trilhões na produção de etanol de cana, mais a termeletricidade gerada com o bagaço da cana, a redução de CO2 (gás carbônico) seria 70% maior do que a obtida com as usinas atômicas que, na sua opinião, vão precisar ser também construídas.


(Fonte: Valor Econômico/CS)


Ou seja, ninguém nunca toca nos cinco problemas principais:
1) lógico que petróleo não ia acabar, nós exploramos até agora só 1% da crosta terrestre e mal começamos a exploração submarina. O problema nunca esteve no planeta como fornecedor DESSES recursos, mas como absorvedor do impacto dessa extração em termos de esfacelamento dos ecossistemas e dos serviços ecológicos. É bem provável que o petróleo não irá acabar novamente.
2) ninguém fala nada do desperdício alucinante do nosso sistema econômico, é provável que no consumo de energia, por falta de eficiência e exagero, nós desperdicemos uns 80% da energia consumida. Só para manter as luzes vermelhas dos aparelhos eletrônicos na espera (standby) se consome 10% da energia consumida nos Estados Unidos. Ganhos de eficiência no Brasil reduziriam 50% do consumo de energia. Avisa as empresas...
3) ninguém questiona a necessidade de aumentar a oferta de energia mundial em 80% a cada década e que se a China tentar atingir o nível de consumo dos países ASIÁTICOS per capita, mesmo assim esse acréscimo será insuficiente. Imagina quando a China vai atingir o níve de consumo dos países ricos: NUNCA. Isso só foi planetariamente possível porque os países ricos atingiram esse absurdo sozinhos. O mais interessante, é acreditar que podemos e devemos dispor de cada vez mais energia, para produzir cada vez mais coisas e pessoas num planeta finito e mesmo assim não achar que iremos ser soterrados com isso.
4) ninguém fala nada sobre a forma de geração e energia fora do controle das empresas geradoras, através de unidades familiares captadoras de energia e que poderiam também alimentar o sistema, não só com casas, mas com seus veículos. Ou seja, o controle da energia e dos alimentos por um punhado de empresas acoplado com os governos cúmplices é a forma de evitar que as coisas mudem para melhor, porque esses grupos não querem largar mão do poder que usam para controlar o planeta inteiro. Esses grupos apenas esquecem que eles também fazem parte de uma espécia animal ameaçada e que no futuro não haverão vencedores, incluindo eles próprios.
5) por mais que o etanol não possa ser responsabilizado pela crise de alimentos, alguém ainda terá que se lembrar que para produzi-lo requer dois recursos naturais que são finitos e atualmente parte deles não renováveis: água e solo. Podemos plantar etanol no planeta inteiro para saciar nossa sede de crescimento eterno num planeta finito? Claro que não. Precisamos atacar as causas dos problemas (excesso de demanda, excesso de estruturas e populações, desperdício, ineficiência, corrupção, abuso de poder) e ao invés de remediar as consequências (produzindo cada vez mais sem mágica nenhuma, porque não produzimos nada, nem matéria nem energia e qualquer solução aqui sempre esbarra em mais entropia e em mais proximidade da finitude planetária e ecológica).

Tudo indica que a humanidade irá enfrentar um rude despertar...



Colaboradores