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quarta-feira, 8 de abril de 2015

Situação Ambiental atual dos EUA

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Agora temos uma visão no mundo que só há poluição e problema ambiental na China, não nos EUA.

Esse texto procura desmontar essa visão.

SITUAÇÃO AMBIENTAL ATUAL DOS EUA

Primeiro derrubar o mito que os EUA não provocou desastres ambientais locais e que a sua situação atual é tranquila, temos esses pontos para destacar, mas que não refletem a situação toda e a qual indicaria Lester Brown e seu compêndio State of Earth para fazer um levantamento mais cuidadoso:

• Menos de 5% das florestas naturais foram preservadas no território norte-americano, um dos maiores países em território, com 9.363.123 km2 .

• Através do espalhamento urbano (urban sprawl) mais da metade dos rios americanos, lagos e zonas estuárias estão completamente poluídos, segundo dados oficiais do governo (que são questionáveis).  Mesmo sendo uma economia avançada, depende e muito de uma expansão urbana e de construções continuamente num território finito, fenômeno que destrói terras férteis, agricultura e causa uma poluição ambiental sem limites.  A população americana cresce quase 3 milhões (incluindo a imigração líquida) todos os anos e essas novas moradias vão atender essa demanda maior por casas. 

• Os quatro principais estados agrícolas dos Estados Unidos - Colorado, Oklahoma, Kansas e Texas -  extraem água de um aquífero fóssil - o Ogallala - que é sempiterno, ou seja, não tem taxa de reposição. Foi formado há milhões de anos atrás e seu estoque é finito.  Estima-se que até 2025 a produção agrícola dos Estados Unidos nestes estados enfrentará declínio significativo. Esses estados dominam a produção agrícola dos Estados Unidos.  Até 2025, a população americana deve aumentar em 59 milhões de pessoas.

• A situação hídrica da Califórnia é extrema, a pior em milhares de anos, com o estado sem água na superfície (regime de chuvas) e no volume subterrâneo que foi superbombeado acima da capacidade de sustentação e segundo a Nasa só há água disponível para um ano.

• O delta do Rio Mississipi está sendo invadido pelo mar a uma velocidade incrível, matando a agricultura e os animais através da salinização da água e do solo. Cientistas mostraram que isso aconteceu por um desastre ambiental e que as chances de reverter esse processo são pequenas, além de custar às atuais populações locais milhões de dólares.

• A pegada ecológica dos Estados Unidos é de 10,3 hectares, sendo que dada a população global atual o máximo que cada um poderia dispor é de 1,7 hectare (figura 1).  A pegada ecológica dos países ricos ainda não se transformou em um problema global por causa dos países pobres, mas com o avanço material das populações atrasadas na China e de outros países na Ásia, no Brasil e em outros lugares, a insustentabilidade planetária pode surgir, aumentando as já atuais tensões sociais e militares da Terra.

• Em termos de pegada ecológica, acima da capacidade biossistêmica, a Europa não é muito diferente dos EUA.  A situação da Alemanha é muito parecida com a dos EUA (figura 2).   

Figuras 1 e 2
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• Uma criança americana com expectativa de vida de 80 anos deverá consumir 800.000 kw de energia elétrica, 2.500.000 litros de água, 21.000 toneladas de gasolina, 220.000 quilos de aço, 1000 árvores e gerar 60 toneladas de lixo urbano, a maior parte deste consumo representando por um enorme desperdício.  A criança americana produz uma sobrecarga ambiental 30 vezes maior que a brasileira, 35 maior que a indiana e 280 vezes maior que a haitiana. A disseminação deste padrão de consumo para as populações afluentes coloca em xeque o já frágil equilíbrio ambiental do globo terrestre.

Etc.

IMPACTO DOS EUA E DOS DEMAIS PAÍSES QUE POSSUEM PEGADA ECOLÓGICA ACIMA DA SUA BIOCAPACIDADE NO RESTO DO MUNDO:

A tragédia ambiental do modelo econômico dos EUA é muito mais relevante, porque se trata de um modelo que está se disseminando para o resto do mundo. Trata-se de uma economia que já se tornou totalmente inviável localmente, mas que está causando um colapso planetário ao ser copiada pelas nações remanescentes.  No passado a situação foi muito pior que a atual.  O histórico de extinção de espécies animais e vegetais e de destruição de ecossistemas dos EUA é pavoroso.   Nova Iorque, nos anos 1950, era irrespirável também.  A quantidade de chumbo e enxofre nos combustíveis era cavalar.

EUA não entraram em colapso por uma razão muito simples: comércio global, no qual as trocas ambientais são a custo zero, mas tem importância enorme para os países ambientalmente deficitários, como os EUA. Vamos imaginar que no planeta Terra, os EUA fossem o único território, cercado por oceanos. Já teria entrado em colapso ambiental (e social) na década de 70.  A partir de um ponto os EUA começou a transferir parte das sua produção suja para o resto do mundo e passou a limpar o seu país às custas dos outros países.  Não só o mundo e os EUA se beneficiaram do trabalho escravo da China, como começaram a sugar recursos da natureza de países superavitários de forma truculenta.  Não é à toa que 1.000.000 de km2 da Amazônia já foram comprometidos e mais ainda do Cerrado.  Essa troca entre países, a custo zero, não é só fundamental para manter os lucros elevados das empresas, como para manter o fluxo de serviços ecológicos indisponíveis num sem número de nações na Ásia (China, Japão), Europa e Estados Unidos.   Dentre esses países, um grande superavitário é o Brasil, com 5.000.000 de km2 ainda em florestas naturais, mas com esses ecossistemas atingindo seu ponto de ruptura, a partir do qual pode haver um colapso severíssimo sem precisar mais nenhum ataque contra o ecossistema (figura 3).  A principal corrupção do Brasil é entregar o Cerrado e a Amazônia a tratores de multinacionais e empresas coligadas para exportar soja e carne para os países deficitários (o que significa fazer uso de uma quantidade grotesca de água que só nós temos excendente), enquanto agora somos importadores liquidos de arroz, feijão e banana, três produtos essenciais da dieta brasileira (vem da Ásia e da China, com metal pesado e transgênicos...).

Figura 3
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A IDEOLOGIA OCULTA POR TRÁS DE TUDO ISSO

Existe uma ideologia no mundo hoje seguida pelo Banco Mundial e pela ONU que é mais ou menos assim: 'Hoje os países que mais destroem florestas e poluem são os países pobres e em desenvolvimento. Os países ricos não fazem mais isso. Solução: enriqueça os países pobres.  Lógico que os países ricos destroem pouco, não dá para destriur mais que 100%. Quer dizer, até dá, mas dos outros países, via comércio global.

Quanto a fotos nos EUA, tenho certeza, que se olharmos para o presente (Golfo do México, New Orleans) e para o passado, vamos encontrar coisas piores que na China. Mas vamos lá:

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh94I5IGbJA-pXG76kr1XFp0tIt8RI5i2RPs399mLwkOXENLyYm5Kei_4uAQ52KS073Kw6JKPYrHPN0mHtOwVZaf5J7LOQffHzVCkKK0X7afnWU9vZqGC5LIEGgmJB_6rB0OEfJdKw0omYl/s1600/explosao_int_ap_20102204.jpg
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Praia de Finisterre, derramamento de petróleo acontece com certa frequência nos EUA

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Destruição de quase todos os manguezais em New Orleans explica mais da metada de tragédia causada pelo Katrina, assim como fim de barreiras florestais explicam a gravidade de fenômenos naturais como tempestades e tornados nos EUA

Sugiro a leitura desse artigo sobre as tragédias ambientais dos EUA:



Tem a crítica à teoria econômica e ao modelo econômico criados pelas universidades dos EUA e que estão destruindo o futuro da humanidade, além de destruir o meio ambiente, destruiu as democracias que viraram plutocracias com governos na direção apenas dos interesses errados dos mais ricos e das suas corporações, destruíram as liberdades humanas, provocaram a pior concentração da história da humanidade principalmente nos países ricos e, causaram a maior extinção em massa de espécies animais e vegetais dos últimos 65 milhoes de anos (o aquecimento global em curso é um problema, não "o" problema e não é causa, mas apenas consequência desse modelo).

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Energia (mais) limpa nos EUA: aprovação histórica na Câmara. Motivo de comemoração?

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O modelo continua sendo da seguinte forma: não abro mão do lucro, mas abro mão do planeta. Surrealista, para variar, coletivamente continuamos irracionais e suicidas. Acreditar que a economia pode ser maior que o planeta, que o planeta é um subsistema da economia e que poderemos produzir coisas sem recursos naturais , água incluso, não só deu vários prêmios Nobel a vários economistas brilhantes, como é a crença dominante e a única possibilidade percebida de desenvolvimento disponível para nossa espécie animal.

Queremos resolver o único problema que acreditamos existir, o de energia, ignorando por completo uma visão sistêmica que elimine as contradições do nosso sistema e da nossa sociedade. E o problema de matéria? Ao manter tudo inalterado, essas intenções não só são contraditórias com a insistência no modelo do crescimento eterno, como não resolvem o maior dos nossos problemas que é a contínua e crescente pressão antrópica sobre os ecossistemas todos que sustentam todas as formas de vida na Terra, inclusive a nossa, pois não passamos de mais um bicho na Terra, fortemente vulnerável e interdependente, onde o individualismo só serviu para cegar e ceifar nossas almas.

É muito pouco provável que tamanha meta de reduções de emissões sejam atingidas, se ao mesmo tempo mantiverem métricas falsas, modelos unidisciplinares com metas de expansão econômica e de lucros. Continuamos na direção do precipício, com uma única diferença: agora acreditamos que a energia limpa irá eliminar todos os problemas e poderemos manter nossos estilos de vida e o atual status quo sem alteração alguma. Substituímos um mito por outro com uma voracidade incrível. Infelizmente.



Obama pede que Senado também aprove lei ambiental
Queria pedir para cada senador que não tenha medo do futuro, diz o presidente após vitória na Câmara
Luiz Raatz, do estadao.com.br
SÃO PAULO - O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse neste sábado, 27, em seu programa semanal de rádio que o Senado aprove a lei que limita a emissão de gás carbônico, um dos gases apontados por cientistas como causador do aquecimento global. Foi a primeira vez que o Legislativo dos EUA aprova uma lei para reduzir a emissão de poluentes.

"Queria pedir para cada senador e para cada americano que não tenha medo do futuro. Não acreditem na desinformação. Não há contradição entre investir em energia limpa e crescimento econômico. Não é verdade", disse o presidente no áudio disponibilizado no site da Casa Branca (em inglês).

A Câmara dos EUA aprovou a lei na sexta-feira à noite por 219 votos contra 212. O texto estabelece limites para emissões de gases causadores do efeito estufa e um mercado de créditos de carbono.
De acordo com a proposta aprovada na Câmara, que ainda precisa passar pelo Senado para se tornar lei, os EUA se comprometem a reduzir em 17% as emissões até 2020 e 83% até 2050, em relação aos níveis de 2005. A lei estabelece que, até 2020, 15% da eletricidade do país precisa vir de fontes renováveis como energia solar e eólica.

Segundo Obama, estes investimentos vão gerar empregos. "Não se enganem. Esta lei vai gerar empregos. A energia limpa já gerou 3 mil vagas temporárias em uma usina de energia solar na Califórnia. Em Michigan, a produção de energia eólica deve criar 2,6 mil empregos".

Para aliviar os custos da lei para indústrias americanas, inicialmente serão leiloados 85% dos créditos de carbono. A medida foi criticada por ambientalistas, mas era a única forma de conseguir apoio de legisladores de Estados produtores de carvão. Também foram inseridas concessões para agricultores e produtores de etanol de milho.

O presidente americano, que saudou a aprovação da lei como 'histórica', disse que pretende transformar o país no líder na produção de energia limpa. "A nação que liderar a produção de energia limpa será a líder da economia mundial no século XX", afirmou Obama.




THE WHITE HOUSE
Office of the Press Secretary

EMBARGOED UNTIL 6:00 AM ET, SATURDAY, June 27, 2009
WEEKLY ADDRESS: President Obama Calls Energy Bill Passage Critical to Stronger American Economy

WASHINGTON – In his weekly address, President Barack Obama praised the House of Representatives for passing the energy bill on Friday evening. This historic piece of legislation will not just lessen our dependence on foreign oil, but also spark a clean energy transformation in our economy that will create millions of new American jobs that pay well and cannot be outsourced. Clean energy and the jobs it creates are critical to building a new foundation for our economy.
The audio and video will be available at 6:00am Saturday, June 27, 2009 at www.whitehouse.gov.

Prepared Remarks of President Barack Obama
Weekly Address
The White House
June 27, 2009

Yesterday, the House of Representatives passed a historic piece of legislation that will open the door to a clean energy economy and a better future for America.
For more than three decades, we have talked about our dependence on foreign oil. And for more than three decades, we have seen that dependence grow. We have seen our reliance on fossil fuels jeopardize our national security. We have seen it pollute the air we breathe and endanger our planet. And most of all, we have seen other countries realize a critical truth: the nation that leads in the creation of a clean energy economy will be the nation that leads the 21st century global economy.
Now is the time for the United States of America to realize this too. Now is the time for us to lead.
The energy bill that passed the House will finally create a set of incentives that will spark a clean energy transformation in our economy. It will spur the development of low carbon sources of energy – everything from wind, solar, and geothermal power to safer nuclear energy and cleaner coal. It will spur new energy savings, like the efficient windows and other materials that reduce heating costs in the winter and cooling costs in the summer. And most importantly, it will make possible the creation of millions of new jobs.
Make no mistake: this is a jobs bill. We’re already seeing why this is true in the clean energy investments we’re making through the Recovery Act. In California, 3000 people will be employed to build a new solar plant that will create 1000 permanent jobs. In Michigan, investment in wind turbines and wind technology is expected to create over 2,600 jobs. In Florida, three new solar projects are expected to employ 1400 people.
The list goes on and on, but the point is this: this legislation will finally make clean energy the profitable kind of energy. That will lead to the creation of new businesses and entire new industries. And that will lead to American jobs that pay well and cannot be outsourced. I have often talked about the need to build a new foundation for economic growth so that we do not return to the endless cycle of bubble and bust that led us to this recession. Clean energy and the jobs it creates will be absolutely critical to this new foundation.
This legislation has also been written carefully to address the concerns that many have expressed in the past. Instead of increasing the deficit, it is paid for by the polluters who currently emit dangerous carbon emissions. It provides assistance to businesses and families as they make the gradual transition to clean energy technologies. It gives rural communities and farmers the opportunity to participate in climate solutions and generate new income. And above all, it will protect consumers from the costs of this transition, so that in a decade, the price to the average American will be just about a postage stamp a day.
Because this legislation is so balanced and sensible, it has already attracted a remarkable coalition of consumer and environmental groups; labor and business leaders; Democrats and Republicans. And I want to thank every Member of Congress who put politics aside to support this bill on Friday.
Now my call to every Senator, as well as to every American, is this: We cannot be afraid of the future. And we must not be prisoners of the past. Don’t believe the misinformation out there that suggests there is somehow a contradiction between investing in clean energy and economic growth. It’s just not true.
We have been talking about energy for decades. But there is no longer a disagreement over whether our dependence on foreign oil is endangering our security. It is. There is no longer a debate about whether carbon pollution is placing our planet in jeopardy. It’s happening. And there is no longer a question about whether the jobs and industries of the 21st century will be centered around clean, renewable energy. The question is, which country will create these jobs and these industries? I want that answer to be the United States of America. And I believe that the American people and the men and women they sent to Congress share that view. So I want to congratulate the House for passing this bill, and I want to urge the Senate to take this opportunity to come together and meet our obligations – to our constituents, to our children, to God’s creation, and to future generations.
Thanks for listening.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

A guerra contra a água engarrafada toma conta dos Estados Unidos

Yves Eudes
Em McCloud (Califórnia)

Oficialmente, Debra Anderson, uma elegante mulher de cerca de 40 anos, administra uma agência imobiliária em sua cidade natal de McCloud, um pequeno vilarejo turístico situado nos contrafortes do majestoso monte Shasta, no norte da Califórnia. Na realidade, Debra deixou o seu marido lidar com os seus negócios. Ela prefere dedicar seu tempo e sua energia para lutar contra o grupo Nestlé.

Um dia de 2003, Debra é informada de que o conselho do distrito está organizando uma reunião de informação a respeito de um projeto de construção, pela Nestlé, de um complexo industrial que captará a água do rio McCloud na sua fonte. O recurso será engarrafado e comercializado pela multinacional: "Os funcionários da Nestlé nos apresentaram um projeto enorme, eu pensava que aquela era uma simples reunião preliminar". Ora, no dia seguinte, a cidade se depara com a informação de que, logo depois do encerramento da reunião, o conselho assinou sem mais nem menos o contrato proposto pela Nestlé.

Chocada diante desta precipitação, Debra consegue uma cópia do documento: "A Nestlé havia conseguido obter condições inacreditáveis: não seria realizado nenhum estudo prévio de impacto ambiental; tratava-se de um contrato exclusivo de cem anos, pelo qual a companhia teria o direito de bombear até 4.700 litros de água por minuto - inclusive em detrimento dos habitantes durante os períodos de seca -; o preço de compra da área de captação era irrisório, e o acordo outorgava à Nestlé o direito de demolir por completo a antiga usina de madeira da cidade, ao passo que existe um projeto de transformação destas construções numa zona de atividades alternativas..." Em troca, a Nestlé se comprometia a criar 240 empregos, e a pagar diversas taxas e impostos. Na realidade, uma vez que a região era considerada pelo Estado como uma zona desfavorecida, a multinacional acabaria sendo beneficiada por reduções de encargos fiscais.

Debra, que sempre votou em favor do Partido Republicano, nada tem contra a livre empresa, mas, neste caso, a Nestlé tinha ido longe demais: "O conselho do distrito era composto por simples cidadãos, que eram obviamente incapazes de conduzirem negociações neste nível. Os advogados e os especialistas da Nestlé os manipularam como bem entenderam".

Junto com alguns amigos e colegas de profissão, ela se lança então numa aventura que vai mudar a sua vida. O objetivo é de obter a anulação deste contrato leonino. Sem se dar conta disso, ela acaba de declarar a guerra contra uma companhia de envergadura mundial. A Nestlé Waters, uma divisão da multinacional suíça, possui 72 marcas de água mineral, que são produzidas numa centena de usinas instaladas em 38 países. Apenas durante o ano de 2007, ela registrou um faturamento de 6,3 bilhões de euros (cerca de R$ 17 bilhões). Nos Estados Unidos, a Nestlé controla cerca de um terço do mercado da água engarrafada. Ela possui cerca de vinte usinas e registra um faturamento de cerca de 2,8 bilhões de euros (R$ 7,54 bilhões). Só que nada disso assusta Debra e seus amigos, que fundam uma associação, o McCloud Watershed Council (Conselho da região hidrográfica de McCloud), e empreendem uma campanha intensiva de informação dos cidadãos, que envolve abaixo-assinados, atos de protesto, panfletos, palestras. . . Ao relembrar hoje daquele período, Debra ri da sua ingenuidade: "Nós estávamos convencidos de que o problema seria solucionado no espaço de algumas semanas".

Muito rapidamente, o Watershed Council reúne cidadãos que, à primeira vista, nada tinham a ver uns com os outros, nem a fazer juntos: eram republicanos conservadores, democratas liberais, ecologistas, e havia até mesmo um advogado de San Francisco, proprietário de uma residência secundária em McCloud, que se define como um marxista puro e duro. Sem demora, o combate do Watershed Council muda de natureza. Os ecologistas argumentam que, para transportar a sua água, a Nestlé passará a fazer circularem noite e dia centenas de caminhões de carga pela cidade. Eles insistem também no fato de que a fabricação, o transporte e a eliminação das garrafas de plástico representam um vasto desperdício de matérias-primas e de energia. Então, o Watershed Council passa a distribuir garrafas de alumínio, que podem ser reaproveitadas por muito tempo, e que os cidadãos podem encher com água da torneira, praticamente gratuita e perfeitamente puro, uma vez que ela provém da fonte que a Nestlé quer captar. Por fim, e, sobretudo, ao bombear massas tão consideráveis de água, a usina apresentaria o risco de provocar uma diminuição do nível dos rios e dos lagos, e ainda de secar os poços e de perturbar o lençol freático, provocando reações em cadeia incontroláveis que colocariam em perigo o ecossistema do vale.

Os militantes democratas contribuem para acrescentar uma problemática mais política: a água não é uma mercadoria, mas sim um elemento indispensável para a vida, e, como tal, é uma riqueza que deve permanecer no domínio público. Portanto, é imprescindível lutar contra a sua privatização, quer se trate da captação de fontes para o engarrafamento das suas águas, quer da compra das redes hidrográficas municipais por sociedades tais como Veolia ou Suez, muito ativas nos Estados Unidos. Considerada a partir de McCloud, a população americana tornou-se a vítima de uma globalização selvagem conduzida por europeus, com a ajuda da Organização Mundial do Comércio (OMC). . .

Aos poucos, o Watershed Council consegue obter a ajuda de grandes fundações filantrópicas e de associações de proteção do meio-ambiente. Ele vai travando uma guerrilha judiciária com o objetivo de obter a anulação do contrato, insiste na realização de estudos de impacto ambiental, e consegue atrasar a liberação das licenças para construir. . . Mas, apesar dos seus esforços, Debra e sua equipe convenceram apenas uma parte dos cidadãos de McCloud. Alguns deles fundaram até mesmo uma associação "pró-Nestlé". Por sua vez, os operários da antiga usina de madeira, que foi fechada em 2003 depois de mais de um século de atividade, se dizem saudosos dos bons velhos tempos em que uma única companhia proporcionava um emprego vitalício para todos os habitantes.

Kelly Claro é uma prima germana de Debra Anderson. Ela é também uma militante pró-Nestlé encarniçada: "O meu marido trabalhou durante trinta anos em McCloud, mas agora, ele é obrigado a se deslocar todo dia até uma outra fábrica, que fica a 35 km daqui. Se a usina da Nestlé for aberta num dia desses, ele será o primeiro a apresentar sua candidatura a uma vaga. O mesmo acontece comigo: eu tenho dois empregos de meio-período, como motorista de ônibus e como balconista na quitanda do meu pai. Tudo isso é estafante. Com um emprego estável na Nestlé, a US$ 10 por hora trabalhada e mais as vantagens sociais, eu viverei melhor".

Desde então, Debra e Kelly não se encontram mais. De fato, a cidade está dividida em dois campos. Querelas chegam a ser travadas no meio da rua, brigas ocorrem entre os membros de uma mesma família, amigos de infância estão brigados entre si para sempre, comerciantes que atuam numa mesma vizinhança intentam processos caríssimos uns contra os outros por motivos fúteis. Por ocasião das mais recentes eleições locais, os pró-Nestlé venceram com mais de 60% dos votos, mas a mobilização dos adversários da multinacional permanece intacta.

Cansada desta guerra, a Nestlé anunciou no início do ano que o seu projeto havia sido revisto, e apresentou novas metas, mais modestas: a usina de McCloud será três vezes menor do que a previsão inicial, e serão criados apenas 90 empregos. Então, em julho, a multinacional cancela o contrato com a municipalidade e comunica aos membros atordoados do conselho municipal que ela está disposta a retomar as negociações do zero.

Os anti-Nestlé já se mostram confiantes de que a vitória está próxima. Daqui para frente, o seu combate está sendo acompanhado e apoiado por muita gente, inclusive de fora da Califórnia, porque casos quase idênticos vêm ocorrendo por todo o território dos Estados Unidos. No Wisconsin, duas associações de moradores, uma democrata e a outra republicana, celebraram uma aliança para impedir que a Nestlé construa uma usina de água engarrafada, e acabaram ganhando o processo. No Michigan, uma coalizão de associações locais e de grupos anti-globalização liberal tentou fazer o mesmo, mas fracassou depois de uma batalha feroz contra os políticos e os funcionários públicos pró-Nestlé. No Maine, onde a Nestlé comprou a companhia local de água mineral Poland Springs, uma associação de moradores vem lutando para impedir que a multinacional amplie suas instalações.

A Nestlé não é a única companhia visada. Em Barrington, no Estado do New Hampshire, uma associação batizada de SOG (Save our Groundwater - Salvemos nosso lençol de água) vem travando uma batalha contra a construção de uma usina de água engarrafada pela companhia americana USA Springs. A fundadora da SOG, Denise Hart, conseguiu obter o apoio em prol da sua causa de vários conselhos municipais do condado, de dois escritórios de advocacia e dos veteranos militantes antinucleares. Depois de uma guerrilha político-judiciária que durou mais de sete anos, a USA Springs acaba de ser declarada falida judicialmente. O canteiro de obras da usina está abandonado, e a sua imensa armação metálica, que foi erguida no meio de um gramado, começou a enferrujar.

Nesse meio-tempo, o combate transformou-se numa disputa política em nível nacional. Dennis Kucinich, um representante democrata do Ohio no Congresso, organizou em dezembro de 2007 uma série de reuniões dedicadas ao problema da privatização da água, no âmbito de uma comissão da Câmara dos representantes. Ele também convidou militantes de diversas organizações a comparecerem em Washington. Estes puderam se familiarizar com as esferas de decisão, conheceram influentes políticos da capital e criaram uma rede informal.

A batalha contra a água engarrafada está se desenvolvendo também na outra extremidade da corrente, do lado dos consumidores. Grupos de ecologistas e de militantes da esquerda alternativa empreenderam campanhas que visam a convencer os americanos a beberem água da torneira. Os prefeitos de várias grandes cidades, de San Francisco a Minneapolis, proibiram que os serviços municipais comprassem garrafas de água mineral. Na Califórnia, muitos restaurantes antenados pararam de vender toda e qualquer água engarrafada, enquanto Igrejas protestantes recomendam aos seus paroquianos que evitem comprar esse tipo de produto. Nos campi das universidades, militantes organizam degustações para provarem para os estudantes que a água da torneira é tão boa quanto a água engarrafada.

Até o presente momento, o impacto sobre as vendas não se fez sentir verdadeiramente, enquanto os gigantes do setor como a Nestlé, a Coca-Cola ou a Pepsi Co celebraram acordos para lançarem contra-ofensivas por todos os lados. Contudo, os militantes de McCloud têm o sentimento de fazerem parte de um movimento irresistível. Militantes de países da Europa e do Terceiro Mundo os contatam por meio da Internet, e Debra Anderson está prestes a se tornar uma estrela internacional: "Alguns eleitos locais de uma região rural da Índia visitaram os Estados Unidos para divulgar seu combate contra uma usina de água engarrafada que pertence à Coca-Cola, e eles esticaram a sua viagem até McCloud, para nos conhecerem. Eles nos deram os parabéns! Depois disso, nós temos a obrigação de lutar até o fim".

Tradução: Jean-Yves de Neufville
Visite o site do Le Monde


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sexta-feira, 3 de outubro de 2008

A ESTRATÉGIA DO MEDO

A ESTRATÉGIA DO MEDO


http://www.agenciacartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15258

Algumas coisas que a mídia não diz sobre a crise nos EUA

Em um artigo intitulado "Querem nos meter medo", o cineasta Michael Moore (foto) conta como centenas de milhares de pessoas entupiram os telefones e correios eletrônicos dos congressistas dos EUA contra a lei proposta pelo governo Bush para salvar os bancos em crise. E aponta como Wall Street e seu braço midiático (as redes de TV e outros meios) seguem com a estratégia de atemorizar a população.

Quem acompanha a cobertura da crise nos Estados Unidos feita pela imprensa brasileira pode ser levado a acreditar que a política está "atrapalhando" a busca de uma solução para o problema. Essa afirmação vem sendo feita todos os dias por vários jornalistas e colunistas econômicos em todo país, supostamente especializados no assunto. A aprovação da proposta de ajuda aos bancos quebrados é apontada como uma condição necessária para evitar o caos. Há vários silêncios nesta cobertura, aqui e também nos EUA.

Em um artigo intitulado "Querem nos meter medo", o cineasta Michael Moore conta como centenas de milhares de pessoas entupiram os telefones e correios eletrônicos dos congressistas dos EUA contra a lei proposta pelo governo Bush para salvar os bancos em crise. E aponta como Wall Street e seu braço midiático (as redes de TV e outros meios) seguem com a estratégia de atemorizar a população, omitindo, entre outras coisas, que a proposta apresentada ao Congresso não trazia qualquer esperança para os pobres mortais ameaçados de perder suas casas hipotecadas (Marco Aurélio Weissheimer)


Tradução do artigo de Michael Moore publicado no jornal Página 12:

Querem nos meter medo

Todos diziam que a lei seria aprovada. Os especialistas do universo já estavam fazendo reservas para celebrar nos melhores restaurantes de Manhattan. Os compradores particulares em Dallas e Atlanta foram despachados para fazer as primeiras compras de Natal. Os homens loucos de Chicago e Miami já estavam abrindo as garrafas e brindando entre eles muito antes do café da manhã.

Mas o que não sabiam era que centenas de milhares de estadunidenses tinham acordado pela manhã e decidido que era tempo de se rebelar. Milhares de chamadas telefônicas e correios eletrônicos golpearam o Congresso tão forte como se Marshall Dillon (Comissário Dillon, personagem de uma série de televisão) e Elliot Ness tivessem descido em Washington D.C. para deter os saques e prender os ladrões.

A Corporação do Crime do Século foi detida por 228 votos contra 205. Foi um acontecimento raro e histórico. Ninguém conseguia lembrar de um momento onde uma lei apoiada pelo presidente e pelas lideranças de ambos os partidos fosse derrotada. Isso nunca acontece. Muita gente está se perguntando por que a ala direita do Partido Republicano se uniu à ala esquerda do Partido Democrata para votar contra o roubo. Quarenta por cento dos democratas e dois terços dos republicanos votaram contra a lei.

Eis o que aconteceu:

A corrida presidencial pode estar ainda muito parelha nas pesquisas, mas as corridas no Congresso estão assinalando uma vitória esmagadora dos democratas. Poucos questionam a previsão de que os republicanos receberão uma surra no dia 4 de novembro. As previsões indicam que os republicanos perderão cerca de 30 cadeiras na Câmara de Representantes, o que representaria um incrível repúdio a sua agenda. Os representantes do governo têm tanto medo de perder seus assentos que, quando apareceu esta “crise financeira” há duas semanas, deram-se conta que estavam diante de sua única oportunidade de separar-se de Bush antes da eleição, fazendo algo que fizesse parecer que estavam do lado da “gente”.

Estava vendo ontem C-Span, uma das melhores comédias que assisti em anos. Ali estavam, um republicano depois do outro que apoiaram a guerra e afundaram o país em uma dívida recorde, que tinham votado para matar qualquer regulação que mantivesse Wall Street sob controle – ali estavam, lamentando-se e defendendo o pobre homem comum.Um depois do outro, usaram o microfone da Câmara baixa e jogaram Bush sob o ônibus, para baixo do trem (ainda que tenham cotado para retirar os subsídios aos trens também), diabos, teriam jogado o presidente nas águas crescentes de Lower Ninth Ward (bairro de Nova Orleans) se pudessem prever outro furacão.

Os valentes 95 democratas que romperam com Barney Frank e Chris Dodd eram os verdadeiros heróis, do mesmo modo como aqueles poucos que votaram contra a guerra em outubro de 2002. Reparem nos comentários dos republicanos Marcy Kaptur, Sheila Jackson Lee e Dennis Kucinich. Disseram a verdade. Os democratas que votaram a favor do pacote o fizeram em grande parte porque estavam temerosos das ameaças de Wall Street, que se os ricos não recebessem sua dádiva, os mercados enlouqueceriam e então adeus às pensões que dependem das ações e adeus aos fundos de aposentadoria. E adivinhem? Isso é exatamente o que fez Wall Street! A maior queda em um único dia no índice Dow da Bolsa de Valores de Nova York.

À noite, os apresentadores de televisão gritavam: os estadunidenses acabaram de perder 1,2 bilhão de dólares na Bolsa! É o Pearl Harbour financeiro! Caiu o céu! Gripe aviária! Obviamente, quem conhece a bolsa sabe que ninguém “perdeu” nada ontem, que os valores sobem e baixam e que isso também acontecerá porque os ricos compraram agora que estão baixo, os segurarão, depois os venderão e logo em seguida os comprarão novamente quando estiverem baixos de novo. Mas, por enquanto, Wall Street e seu braço de propaganda (as redes de TV e os meios de comunicação que possuem) continuarão tratando de nos meter medo. Algumas pessoas perderão seus empregos. Uma débil nação de fantoches não suportará muito tempo esta tortura. Ou poderemos suportar?

Eis no que acredito: a liderança democrata na Câmara baixa esperava secretamente todo o tempo que esta péssima lei fracassasse. Com as propostas de Bush derrotadas, os democratas sabiam que poderiam então escrever sua própria lei que não favoreça apenas os 10% mais ricos que estavam esperando outro lingote de ouro. De modo que a bola está nas mãos da oposição. O revólver de Wall Street, porém, aponta para suas cabeças. Antes que dêem o próximo passo, deixem-me dizer no que os meios de comunicação silenciaram enquanto se debatida essa lei:

1. A lei de resgate NÃO prevê recursos para o chamado grupo de supervisão que deve monitorar como Wall Street vai gastar os 700 bilhões de dólares;

2. A lei NÃO considerava multas, sanções ou prisão para nenhum executivo que roubar dinheiro público;

3. A lei NÃO fez nada obrigar aos bancos e aos fundos de empréstimo a renovar as hipotecas do povo para evitar execuções. Esta lei não deteria uma sequer execução!

4. Em toda a legislação NÃO havia nada executável, usando palavras como “sugerido” quando se referiam à devolução do dinheiro do resgate a ser feito pelo governo.

5. Mais de 200 economistas escreveram ao Congresso e disseram que esta lei poderia piorar a crise financeira e provocar ainda MAIS uma queda.

É hora de nosso lado estabelecer claramente as leis que queremos aprovar.

Tradução para o espanhol: Celita Doyhambéhére

Tradução para o português: Marco Aurélio Weissheimer


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quinta-feira, 2 de outubro de 2008

País onde o fracasso é recompensado

"American way of life" ("estilo de vida americano"): vivem no aqui e no agora, sem fazer perguntas sobre o amanhã; um empresta dinheiro ao outro, mesmo que o dinheiro não lhes pertença; em vez disso, eles tomam quantias emprestadas com uma terceira pessoa, que prometeu conseguir o dinheiro com um quarto indivíduo - e assim por diante [a famosa pirâmide...]

Como todos sabem que há mais desejos do que dólares, o resultado inevitável foi uma certa lacuna de financiamento, ou déficit: capitalismo sem capital - o núcleo audacioso desta inovação não poderia funcionar.

Bilhões de dólares foram emprestados a pessoas que não tinham crédito para que elas adquirissem condomínios e casas de pouco valor - no jargão alegre e cínico dos banqueiros, esse tipo de empréstimo foi batizado de "NINA", acrônimo de "No Income, No Asset" ("sem renda, sem bens").

Em tempos melhores, alguém poderia ter chamado os banqueiros de empreendedores; atualmente, eles são chamados de irresponsáveis.

Antes mesmo do surgimento da expressão banco de investimentos, Karl Marx sabia como as duas coisas estavam vinculadas: "O capital tem tanto horror à ausência de lucro ou de um lucro muito pequeno quanto a natureza tem horror ao vácuo. Com um lucro apropriado, o capital é despertado; com 10% de lucro, ele pode ser usado em qualquer lugar; com 20%, torna-se vivaz; com 50%, fica positivamente ousado; com 100%, ele esmagará com os pés todas as leis humanas; e com 300%, não existe crime que ele não se disponha a cometer, ainda que se arrisque a ir para a cadeia".

Paulson já foi um banqueiro de Wall Street. Ele é um homem de boas maneiras e princípios firmes - em tempos normais, ele tem fé no mercado, em Deus e em George W. Bush, mas em tempos como estes, ele prefere depositar a sua fé no governo, no contribuinte e em Bush.

O governo está tentando extinguir o fogo com combustível, e não com água - na verdade, este é exatamente o mesmo combustível que deu início ao incêndio em Wall Street: dinheiro emprestado.

Coisas que na época da tradicionalmente honrada economia de mercado eram consideradas inseparáveis - como valor e consideração, salário e desempenho, risco e responsabilidade - estão sendo agora rasgadas em nome do governo - o capitalismo atualmente exibido pelos Estados Unidos é uma versão rota e degradada daquilo que costumava ser.

A conversa há muito necessária entre o governo e os governados ainda não se materializou - essa teria que ser uma conversa a respeito da relação entre a economia e os valores, sobre a recuperação daquilo que se perdeu, em vez de sobre expansão - a palavra frugalidade deveria ser reintroduzida.

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http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/2008/10/01/ult2682u958.jhtm

01/10/2008
Estados Unidos da América: o país onde o fracasso é recompensado

Na atual crise financeira, o modelo de capitalismo dos Estados Unidos implodiu com um grande estrondo. Mas o governo Bush está tentando extinguir as chamas com mais combustível, em vez de água, e quer que os apostadores de Wall Street sejam recompensados pelo fracasso


Gabor Steingart
Em Washington (EUA)


Mais de cem anos atrás, o sociólogo alemão Georg Simmel criticou os bancos por ficarem cada vez maiores e mais poderosos do que as igrejas. A sua principal queixa - a de que o dinheiro é o novo deus dos nossos tempos - ainda é ouvida nos dias de hoje. Se Simmel estava certo, e há indicações de que de fato estava, a declaração teria que ser modificada para coadunar-se com as circunstâncias atuais: nem todo mundo reza para o mesmo deus.

Entre o grupo de adoradores de dinheiro, existem pelo menos três fés. A primeira é a dos Puritanos, que carregam pacientemente o dinheiro deles para as novas igrejas, esperando que ele se multiplique. O chinês típico, por exemplo, deposita 40% dos seus rendimentos em bancos. Que disciplina louvável! E há também os Pragmáticos. Estes poupam e emprestam, mas somente nesta ordem; a poupança é o fator que limita a ousadia deles. Esta linha é especialmente comum nos países germânicos, nos quais o banco de poupança é o templo religioso.

Finalmente, temos a comunidade religiosa dos Desinibidos, que é especialmente popular nos Estados Unidos. Os seus seguidores não se acanham em admitir a falta de cautela, o desperdício extravagante e a cobiça onipresente.

Eles chamam isto de "American way of life" ("estilo de vida americano"). Os seus membros vivem no aqui e no agora, sem fazer perguntas sobre o amanhã. Um empresta dinheiro ao outro, mesmo que o dinheiro não lhes pertença. Em vez disso, eles tomam quantias emprestadas com uma terceira pessoa, que prometeu conseguir o dinheiro com um quarto indivíduo - e assim por diante.

Southampton: o início do rastro de evidências


Esta comunidade religiosa é a mais fervorosa de todas. Há algum tempo, ela adotou a prática de tratar dinheiro antecipado como dinheiro real e de entender desejo como realidade. Atualmente ela não conta mais com nenhum fragmento de inibição.

Como todos sabiam que havia mais desejos do que dólares, o resultado inevitável foi uma certa lacuna de financiamento, ou déficit. Capitalismo sem capital - o núcleo audacioso desta inovação - não poderia funcionar. Não há salvação terrena - pelo menos esta foi uma conclusão quanto à qual o antigo Deus, aquele que carregou a cruz, e o novo deus, o que traz cifrões nos olhos, poderiam concordar.

E, assim, o inevitável ocorreu: o big bang. Três entre cada cinco bancos de investimento dos Estados Unidos perderam a independência, e os outros dois ainda estão afundando. Dois bancos de hipotecas e uma companhia de seguros encontram-se agora sob administração governamental.

O sistema financeiro global foi abalado, horrorizando os membros das outras duas fés. Pode haver três religiões, mas só há um céu. Se este cair, todos morrem.

Uma busca por evidências a fim de identificar os responsáveis deveria provavelmente começar em Southampton, um reduto da elite endinheirada. Nesta cidade, na parte leste de Long Island, perto da cidade de Nova York, é possível presenciar o quanto a cobiça pode ser atraente.

Trata-se de um lugar no qual as opções de ações foram transformadas às centenas em castelos de contos de fadas à beira-mar. Aproveitando-se das brechas tarifárias, os gurus financeiros de Wall Street conseguiram retirar os seus bônus da cidade mais ou menos intactos. Segundo a legislação tributária dos Estados Unidos, a compensação na forma de ações e garantias é taxada em menos da metade do índice mais elevado de impostos. Como resultado, a taxa tributária que incide sobre os rendimentos de muitos banqueiros é inferior àquela a que estão sujeitos os salários das suas secretárias.

Como menos transformou-se em mais


Os donos destas mansões à beira-mar não estão lá neste momento, de forma que uma investigação mais profunda requer uma viagem de trem até Nova York. No arranha-céu de Midtown que abriga os escritórios do Lehman Brothers, que está em processo de encerramento da sua história, há muito o que descobrir a respeito da seqüência de eventos. Bilhões de dólares foram emprestados a pessoas que não tinham crédito para que elas adquirissem condomínios e casas de pouco valor. No jargão alegre e cínico dos banqueiros, esse tipo de empréstimo foi batizado de "NINA", acrônimo de "No Income, No Asset" ("Sem renda, sem bens").

Mas mesmo assim as coisas andavam bem no mundo dos financiadores. O aumento miraculoso da oferta de dinheiro contribuiu para que o preço de imóveis subisse mais de 70% entre 2000 e 2006. A indústria conseguiu obter lucros aumentando o risco. Pelo menos na folha de balanço, o menos se transformou em mais.

Em tempos melhores, alguém poderia ter chamado os banqueiros de empreendedores; atualmente, eles são chamados de irresponsáveis. Antes mesmo do surgimento da expressão banco de investimentos, Karl Marx sabia como as duas coisas estavam vinculadas: "O capital tem tanto horror à ausência de lucro ou de um lucro muito pequeno quanto a natureza tem horror ao vácuo. Com um lucro apropriado, o capital é despertado; com 10% de lucro, ele pode ser usado em qualquer lugar; com 20%, torna-se vivaz; com 50%, fica positivamente ousado; com 100%, ele esmagará com os pés todas as leis humanas; e com 300%, não existe crime que ele não se disponha a cometer, ainda que se arrisque a ir para a cadeia".

A fé de Paulson


Agora o rastro conduz de Nova York a Washington, onde o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Henry Paulson, tem o seu gabinete na Avenida Pensilvânia. O seu ministério é tão importante que há um portão ligando o subsolo do Departamento do Tesouro ao da Casa Branca. A atitude adotada por Paulson em relação aos bancos foi a de deixá-los atuar livremente, e ele agora pretende assumir os prejuízos dessas instituições. Para os altos círculos financeiros, ele tornou-se algo como uma garantia extra. O objetivo dele é eliminar a ameaça de cadeia - mas não a cobiça.

Paulson já foi um banqueiro de Wall Street. Ele é um homem de boas maneiras e princípios firmes. Em tempos normais, ele tem fé no mercado, em Deus e em George W. Bush. Mas em tempos como estes, ele prefere depositar a sua fé no governo, no contribuinte e em Bush.

Ao contrário do que muito se anunciou, Paulson não pretende utilizar as rendas obtidas com impostos para financiar o pacote de socorro aos bancos. Em vez disso, a intenção dele é tomar novos empréstimos de bilhões de dólares em nome do Tesouro dos Estados Unidos. "Detesto o fato de termos que fazer tal coisa, mas isto é a melhor do que a única outra alternativa", disse ele na semana passada. O presidente já deu o seu sinal de aprovação.

É isso o que acontece com as comunidades religiosas quando sofrem pressões: elas tornam-se ainda mais fervorosas. A idéia é que o mesmo tipo de pensamento de curto prazo que provocou o desastre vá agora pôr um fim a esta situação calamitosa. O governo está tentando extinguir o fogo com combustível, e não com água. Na verdade, este é exatamente o mesmo combustível que deu início ao incêndio em Wall Street: dinheiro emprestado.

A única diferença é que os novos empréstimos não virão do sexto, do sétimo ou do oitavo membro da comunidade religiosa. Eles serão coletados de todos os contribuintes. Isso significaria o fim da separação entre igreja e Estado, sendo que Wall Street se tornaria a religião nacional.

Os pontos em comum com as outras duas comunidades religiosas já estão desaparecendo. Coisas que na época da tradicionalmente honrada economia de mercado eram consideradas inseparáveis - como valor e consideração, salário e desempenho, risco e responsabilidade - estão sendo agora rasgadas em nome do governo. O capitalismo atualmente exibido pelos Estados Unidos é uma versão rota e degradada daquilo que costumava ser.

As ações dos políticos estão amplificando, em vez de mitigar, os efeitos do fracasso econômico. O capitalismo no estilo norte-americano ainda não morreu, mas está simplesmente preparando o seu próprio falecimento. A história destes dias é a história de uma morte que já foi anunciada. O que nos leva a Miss Marple.

Começou um jogo perigoso com o tempo


A detetive amadora imaginada por Agatha Christie, baseada na avó da escritora, era equipada com algo mais do que apenas um senso de humor e uma compreensão da natureza humana. Ela também tinha experiência em relação a coisas óbvias que ninguém acredita serem possíveis - até que elas aconteçam. No seu romance de 1950, "A Murder is Announced" ("Convite para um Homicídio"), Christie olhou para o futuro de maneira cômica.

A história transcorre mais ou menos assim: certa manhã, os cidadãos leram a seguinte mensagem nos classificados de um jornal local: "Um assassinato foi anunciado e ocorrerá na sexta-feira, 29 de outubro, em Little Paddocks, às 18h30. Amigos, por favor aceitem isto, a única intimação". Na hora designada, metade da vila reuniu-se na casa onde o assassinato supostamente aconteceria. A advertência é tratada como uma piada frívola, que ninguém desejaria rejeitar. Serve-se sherry aos presentes. O grupo é tomado por um pânico coletivo. Exatamente às 18h30, as luzes apagam-se.

"Não é maravilhoso?", diz uma voz feminina. "Estou trêmula".

Quando as luzes voltam a acender-se - para a surpresa de todos - um crime foi cometido. E agora nós, assim como os presentes na sala em Little Paddocks, estamos de pé, sussurrando, tomados pelo medo coletivo, aguardando para ver o que acontecerá a seguir. E ninguém acredita seriamente que um crime de verdade está prestes a ocorrer.

"Todos estavam em silêncio e ninguém se movia. Todos olharam para o relógio... Quando a última nota terminou, todas as luzes apagaram-se. Murmúrios de alegria e gritinhos femininos de satisfação foram ouvidos no escuro. 'Está começando', gritou a senhora Harmon, extasiada".

Um futuro vendido


Quem quer que espere receber um alerta antecipado deveria simplesmente expandir o seu campo de visão enquanto as luzes permanecerem acesas.

As companhias de cartão de crédito dos Estados Unidos não estão em uma situação significativamente melhor do que os bancos. Elas também venderam o futuro e até mesmo uma parcela do período posterior a ele.

A indústria automobilística norte-americana também se encontra seriamente combalida e tem dificuldades para estender as suas linhas de crédito no mercado aberto. A indústria perdeu mais de 300 mil empregos desde 1999. Mas qual é o benefício disto se são os gerentes - e não os trabalhadores - os culpados pela crise? A enorme conta dos Estados Unidos com a compra de petróleo - cerca de US$ 500 bilhões (? 345 bilhões) - é atualmente paga com dinheiro emprestado pela China. A cada dia útil, a dívida externa dos Estados Unidos aumenta em quase US$ 1 bilhão (? 690 milhões).

Provavelmente a pílula mais amarga de engolir nos Estados Unidos de hoje é o fato de os lares privados não estarem administrando as suas finanças de maneira melhor do que os executivos de corporações. Estes lares vêem o reflexo de suas imagens nos banqueiros de Wall Street, e não uma espécie de figura destorcida de si próprios. "De fato, não conheço nenhum país no qual o amor pelo dinheiro tenha se estabelecido tão fortemente no sentimento dos homens", observou Alexis de Tocqueville 170 anos atrás.

A conversa há muito necessária entre o governo e os governados ainda não se materializou. Essa teria que ser uma conversa a respeito da relação entre a economia e os valores, sobre a recuperação daquilo que se perdeu, em vez de sobre expansão. A palavra frugalidade - que desapareceu do vocabulário dos Desinibidos - deveria ser reintroduzida.

Mas não há sinal de que nada disso esteja acontecendo. Os Estados Unidos de hoje são muito estadunidenses para sobreviverem na sua forma atual. Mas os Estados Unidos atuais são também muito orgulhosos para perceberem isto. Os fiéis dificilmente permitiriam que alguém os convertesse.

Assim, a nossa compreensão dos acontecimentos continua ficando cada vez menos clara. Teve início um jogo perigoso com o tempo.

"O ruído de duas balas sacudiu a complacência da sala. Subitamente, o jogo não era mais um jogo. Alguém gritou... 'Luzes'. 'Não consegue encontrar um isqueiro?'...'Oh, Archie, quero sair daqui'".

Tradução: UOL

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