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terça-feira, 3 de junho de 2014

Poluição em Londres e em Paris, não só em Pequim!

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Construiu-se uma ideologia falsa que os países ricos não são poluídos e não tem problemas de poluição e as revistas ideológicas como The Economist sempre pró-crescimento a qualquer custo num planeta finito só falavam da poluição da China, como se a China estivesse fazendo alguma coisa diferente dos países cujo modelo ela copiou e cujo resultado é idêntico aos países de origem!!!

Para completar, a maior parte da produção chinesa tem dedo das corporações internacionais ali dentro que operam liberadas de rigores com a questão ambiental. A equação não fecha: ao deixar a China virar uma grande produtora mundial sem nenhuma restrição ambiental, os países ricos mantiveram seus territórios um pouco menos poluídos, mesmo assim, essa notícia de Londres e recentemente de Paris mostram que a poluição existe e em grau semelhante ao da China.   Surreal!!!  EUA e EUROPA, mesmo transferindo todo o custo ambiental e social via exportações para lugares sem controle algum como a China, conseguem ainda ter níveis de contaminação de água e de poluição arrasadores.  Uma prova que atingimos limite planetários de capacidade natural de limpeza dos resíduos lançados. E ainda queremos continuar crescendo essas estruturas, num ambiente finito e autoregulado, sem nenhum accountability...

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

China ordena fechamento de 2000 indústrias poluidoras

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O governo chinês estabeleceu redução de 20% do uso de energia por unidade de produto em 2006-2010, referente ao 11o plano quinquenal deles. No período 2006-2009 a redução foi de 16,6% e na primeira metade do ano de 2010 a intensidade subiu 0,10%. O governo dificilmente atingirá a meta, mas não sei por qual razão, a ênfase em atingi-la é enorme. Talvez porque na primeira metade do ano os acidentes ambientais aumentaram 98%. Teve três seríssimos, sequer foram noticiados aqui no Ocidente, excetuando o do petróleo em Dalian. Esses acidentes destruíram vários rios. O outro motivo, não menos possível, é que o "desenvolvimento chinês" está saindo da costa para o interior e a bacia dos rios estão todas lá e o governo teve um colapso maior do que se imagina.

Note que essas metas chinesas e outras no mundo todo vivem o "mito do quociente", sei que muitos apontam esse mito (o seu livro Mundo em Transe deixa isso bem claro e Ademar Romeiro em suas palestras aponta o "mito do quociente" como uma das maiores evidências contrárias ao pensamento atual). A meta do quociente pode ser atingida, mas o que importa para um sistema fechado e finito é o resultado absoluto. Ele é sempre crescente quando medidos poluição, efluentes, contaminações...

Esse assunto chegou no mercado financeiro não por causa da questão ambiental, totalmente ignorada, mas pelo efeito negativo que poderia ter no crescimento da produção industrial. E, na verdade, a maior parte dos relatórios prevê que o governo irá abandonar essa meta no meio da desaceleração global, por conta do efeito negatino no crescimento que já se encontra em desaceleração. O mito de total separação entre economia e meio ambiente e de não ser possível ter resultados econômicos favoráveis com resultados ambientais favoráveis está impresso em 100% das análises e das práticas ainda, apesar de tanto barulho que já fizemos. No mercado financeiro, sustentabilidade continua sendo cosmético ou produto de prateleira, sem mudar uma virgula sequer a rota de colisão atual com a Terra, da qual jamais sairemos vencedores.

Hugo Penteado

China ordena fechamento de 2000 indústrias poluidoras

Fabiano Ávila, do CarbonoBrasil (apud Mercado Ético: 10/08/2010 14:13:53)

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"Este é o alerta mais forte que o governo já deu para as empresas.
Pela primeira vez esse tipo de medida, já mencionada diversas vezes,
realmente irá sair do papel e temos inclusive os detalhes das
instalações que devem ser fechadas", afirmou Zhou Xizeng, analista do
Citic Securities Co para a Bloomberg.
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Foi na base da canetada e da ameaça de corte de subsídios, empréstimos
e de licenças de uso de terras, que o governo deu até setembro para
que 2087 empresas fechem suas instalações que estiverem fora dos
critérios mínimos de consumo de eletricidade e de emissões de gases do
efeito estufa.

As metas chinesas prometidas internacionalmente envolvem reduzir a
intensidade energética em 20% e cortar as emissões por unidade do PIB
em 45% até 2020 com relação aos níveis de 2005.

"Acelerar a eliminação de instalações obsoletas é fundamental para
alterar o padrão de crescimento econômico, reestruturar a economia e
aumentar a eficiência e a qualidade de nosso desenvolvimento", afirma
uma declaração do Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação.

O uso da energia por unidade do PIB cresceu 0,09% nos primeiros meses
desse ano com relação a 2009. É o primeiro aumento desde 2006. Antes
disso, essa taxa havia conseguido uma redução contínua de 14,4%.

A Agência Internacional de Energia anunciou recentemente que a China
ultrapassou os Estados Unidos no ano passado e se tornou o maior
consumidor de eletricidade do planeta. O governo chinês ainda não
reconhece esse dado.

Anos de crescimento desordenado

A rápida industrialização chinesa, que transformou o país em uma
potência mundial, teve altos custos para o meio ambiente e a
sociedade. Na busca de atender a demanda de uma população gigantesca
que começou a ter poder de compra, as indústrias nunca primaram pelos
critérios mais rígidos de uso de recursos e tratamento de efluentes.
Por isso hoje a China é a terceira maior economia do mundo, mas também
possui as cidades com as piores condições de poluição do ar e da água.

A idéia do governo agora é ir "limpando" os setores industriais, ao se
livrar o mais rápido possível daquelas fábricas que não se encaixam
nos requisitos mínimos de qualidade e eficiência. Mas isso terá um
custo.

A medida irá reduzir em 100 milhões de toneladas a produção de cimento
e em 35 milhões de toneladas a de ferro. Isso equivale a uma queda de
5% no total que o país produz atualmente dos dois recursos.

Gigantes mundiais como a Aluminum Corp. of China Ltd, conhecida como
Chalco, e o Hebei Iron & Steel Group serão afetadas. A maior parte das
empresas ainda não se manifestou sobre a decisão do governo.

Porém a Chalco afirmou que não apenas vai cumprir a ordem como vai ir
além e fechar instalações obsoletas por vontade própria. A companhia
deve reduzir sua produção em 120 mil toneladas métricas, o equivalente
a 3% de sua capacidade em 2009.

"Este é o alerta mais forte que o governo já deu para as empresas.
Pela primeira vez esse tipo de medida, já mencionada diversas vezes,
realmente irá sair do papel e temos inclusive os detalhes das
instalações que devem ser fechadas", afirmou Zhou Xizeng, analista do
Citic Securities Co para a Bloomberg.

No começo deste ano, A China já havia estabelecido novos padrões
ambientais para produtores de aço e removido subsídios para o consumo
de eletricidade de setores onde antes esse tipo de ajuda era
considerada estratégica, como na mineração.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

China, colapso ambiental

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Nenhuma palavra sobre as péssimas condições de trabalho, sobre as questões ambientais, sobre a falta de direitos civis, humanos, sobre o que foi feito e revelado pelas associações de direitos humanos durante as Olimpíadas, sobre o fato também das cidades não terem mais céus azuis por causa da poluição e, acima de tudo, não existe a menor evidência de redução do desastre ambiental e da poluição via ganhos de eficiência, porque nossa ênfase tem que ser números totais e não números relativos. É de se admirar que as pessoas não se preocupem com um sistema sempre crescente (economia) dentro de um sistema não crescente (planeta) e não perceber o flagelo que isso representa. Sem a Amazônia e o Cerrado, poucos brasileiros irão sobreviver, só para levantar uma das várias questões.

China assim como os países ricos já vive um colapso ambiental, que está sendo escamoteado via comércio global, sugando recursos dos demais países da Terra a custo ambiental zero, determinado pelo nosso conjunto de valores.


China 1 X 0 América Latina
Por Giuliana Napolitano | 15/05/2009 - 19:33
"Faltam chineses na América Latina." Foi o que disse Charles Munger, o sócio de Warren Buffett na empresa de investimentos Berkshire Hathaway, no dia seguinte à reunião anual da companhia, em maio. Numa entrevista para poucos jornalistas, feita num hotel em Omaha, ele explicou por que é tão otimista com a Ásia - e a China em particular -, mas parece não ter tanto interesse assim na América Latina.
"A China tem uma política econômica que favorece o desenvolvimento: quando eles decidem fazer algo, realmente fazem. Além disso, formam muita gente capacitada por ano. Há muitos engenheiros chineses de alto nível. Em parte, isso se deve à grande população, mas também pode ser creditado a um esforço mais amplo de educação e dedicação das pessoas. A história da população chinesa é muito difícil, de luta pela sobrevivência. Isso molda pessoas acostumadas a trabalhar duro. Pode ser que ocorra lá o que ocorreu no Japão no pós-guerra." E foi bem direto, como é seu perfil: "Na América Latina, não há nada disso. A cultura é totalmente diferente. Acho que faltam chineses na região."
Para Munger, uma empresa como a BYD - e fabricante chinesa de baterias de celulares e carros elétricos que recebeu 230 milhões de dólares da Berkshire no fim de 2008 - "dificilmente aconteceria na América Latina".
É, soa como um balde de água fria mesmo. Mas isso quer dizer que a dupla não colocaria um centavo na América Latina? Pessoas próximas a eles dizem que não. Para a biógrafa de Buffett, Alice Schroeder, países como o Brasil estão, sim, no radar, dos gurus. "Eles nunca dizem claramente o que estão fazendo." A conferir.
Este post saiu de uma parte da apuração que fiz na visita a Omaha no começo de maio, para cobrir a reunião anual da Berkshire, e não entrou na reportagem de capa desta edição da Exame. Vou colocar outras entrevistas, fotos e curiosidades sobre a reunião - que é realmente impressionante - nos próximos dias.

terça-feira, 19 de maio de 2009

O todo-poderoso yuan?

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Roubini, como todo economista tradicional, tem uma visão parcial do sistema. Isso até o século XXI era possível, agora não mais. Existem algumas condições que fizeram os Estados Unidos substituírem a Grã-Bretanha como potência e emissor de moeda universal. A primeira delas foi se transformar no maior produtor mundial, como fez China hoje. A condição seguinte foi criar uma classe consumidora emergente que fez o país sair da sua posição dependente mundial (modelo produtor-exportador) para influenciar o resto do mundo (modelo consumidor-importador). Daí a chegar no emissor universal para financiar seus gastos é um pequeno passo. Tem uma última condição sempre olvidada: ser capaz de implementar esse modelo com externalidades ambientais crescentes, sem causar colapso planetário e sem estar próximo do limite ao crescimento, além de não incorrer em internalizações dos custos socioambientais de forma imposta ou voluntária em nenhum momento durante o processo.

Vamos analisar a situação da China. A China não tem uma classe consumidora emergente para mudar o modelo produtor-exportador para um modelo consumidor-importador. Falta essa peça. Nos Estados Unidos, as pessoas detinham condições para consumir, só não tinham vontade, mas foi fácil converter os religiosos poupadores americanos do final do século XIX em consumidores individualistas inconscientes do século XX. Bastou buscar fundamentos psicológicos para as campanhas de marketing: o que mais agrada o ser humano é a desgraça alheia, o que mais frustra é o sucesso alheio. Para vender, basta colocar pessoas felizes ao lado dos produtos. Como a aquisição material não produz felicidade, esse vício de consumir nunca é exterminado, por mais saturadas as pessoas estejam. Se precisar, consumidores doentes se endividarão até os ossos para conseguirem aquilo que outros felizes possuem e elas não. Esse é o sistema criado. Os chineses até querem virar consumidores contumazes, mas não detêm ainda condições para consumir, com péssimo arcabouço trabalhista, com falta de saúde e previdência. Enquanto a China não mudar seu modelo de exportadora para consumidora, ela não sai da posição de financiadora do resto do mundo para ser financiada, via emissão de moeda universal. Mas claro que ela vai tentar fazer isso e pode até conseguir, se apertar os botões certos, mas falta um problema final a ser resolvido. As demandas econômicas e populacionais já excedem aquelas que podem ser atendidas pelo planeta. Portanto, muito antes da China emergir como potência e emissora universal de moeda, a crise vai ser outra e bem mais séria e o colapso no consumo mundial via exaustão de ecossistemas e serviços ecológicos de sustentação da vida será hediondo.

Enfim, acreditar que a mesma mecânica do passado irá explicará o futuro, sem descobrir que análises fragmentárias como essas falham em reconhecer riscos e causalidades muito mais prementes, não servirão de norte para ninguém que esteja ciente disso. No curto prazo, vale surfar na onda, afinal, que tal usufruir um pouco mais do saque que estamos fazendo contra nossa própria espécie animal? Porque para o planeta, não fazemos nem cócegas...

Segue texto do Roubini sobre a China (grifos meus):


O todo-poderoso yuan?

Nouriel Roubini*, THE NEW YORK TIMES
O século 19 foi dominado pelo Império Britânico, o século 20, pelos Estados Unidos. Podemos agora estar testemunhando o início do século asiático, dominado pela ascensão da China e sua moeda. Apesar de o status do dólar como principal moeda das reservas internacionais não correr o risco de desaparecer da noite para o dia, não podemos mais dar como certa a sua manutenção. Mais cedo do que pensamos, o dólar pode ser desafiado por outras moedas, principalmente pelo yuan chinês. Isso teria um custo alto para os Estados Unidos, implicando o fim da nossa capacidade de financiar os déficits orçamentário e comercial a um custo baixo.

Tradicionalmente, os impérios responsáveis por cunhar a moeda das reservas internacionais são também credores internacionais líquidos. O Império Britânico entrou em declínio - e a libra perdeu o status de principal moeda das reservas internacionais - quando a Grã-Bretanha se tornou uma devedora líquida, durante a 2ª Guerra Mundial. Hoje, os Estados Unidos estão numa posição semelhante. O país está incorrendo em déficits orçamentários e comerciais e depende da boa vontade dos inquietos credores internacionais, que começam a se sentir inseguros em relação ao acúmulo de um número ainda maior de ativos em dólar. Por isso, o declínio do dólar pode ser apenas uma questão de tempo.

Mas que moeda poderia substituir o dólar? A libra britânica, o iene japonês e o franco suíço continuam sendo moedas menores nas reservas internacionais - e esses países não são grandes potências. O ouro ainda é uma relíquia bárbara, cujo valor aumenta somente quando a inflação é alta. O euro está agrilhoado à preocupação em relação à viabilidade da União Monetária Europeia no longo prazo. Isso nos deixa o yuan (ou renminbi).

A China é um país credor com grandes superávits em conta corrente, um pequeno déficit orçamentário, uma dívida pública equivalente a uma proporção do Produto Interno Bruto (PIB) muito menor que a americana e um crescimento sólido. Além disso, o país já está adotando medidas no sentido de desafiar a supremacia do dólar. Pequim pediu a criação de uma nova moeda para as reservas internacionais de acordo com o modelo dos direitos especiais de saque do Fundo Monetário Internacional ( fundo composto por dólares, euros, libras e ienes). A China logo vai querer que a sua própria moeda seja incluída nesse fundo, além de ver o yuan sendo utilizado como forma de pagamento no comércio bilateral.

Entretanto, no momento, o yuan ainda tem um longo caminho a percorrer antes de estar pronto para o status de moeda das reservas internacionais. Primeiro, a China terá de relaxar as restrições à entrada e saída de dinheiro do país, tornar sua moeda totalmente cambiável para tais transações, dar prosseguimento às reformas financeiras domésticas e aumentar a liquidez dos seus mercados de títulos. Assim, levaria muito tempo para que o yuan se tornasse uma moeda das reservas internacionais, mas isso pode, de fato, acontecer. A China já fez uma demonstração de força ao estabelecer swaps cambiais com diversos países (entre eles Argentina, Bielo-Rússia e Indonésia) e ao permitir que as instituições de Hong Kong emitam títulos denominados em yuans, o primeiro passo no sentido da criação de um profundo mercado doméstico e internacional para a sua moeda.

Se a China e outros países tomassem a iniciativa de diversificar as reservas internacionais optando por moedas diferentes do dólar - e em algum momento isso deve acontecer -, os EUA sofreriam as consequências.

Obtivemos benefícios financeiros significativos por ser o dólar a moeda das reservas internacionais. Em especial, o forte mercado do dólar permite que os americanos paguem juros baixos pelos empréstimos que contraem. Fomos, assim, capazes de financiar déficits maiores durante mais tempo e pagando taxas de juros menores, conforme a demanda estrangeira manteve baixo o rendimento dos títulos do Tesouro. Pudemos emitir títulos de dívida na nossa própria moeda, sem ter que recorrer a uma moeda estrangeira, transmitindo para os nossos credores as perdas resultantes da queda do valor do dólar. O fato de o preço das commodities ser definido em dólar também significou que uma queda no valor do dólar não levaria a um aumento no preço das importações.

CONSEQUÊNCIAS

Imagine agora um mundo no qual a China pudesse tomar e fazer empréstimos internacionais na sua própria moeda. O yuan, em vez do dólar, poderia, afinal, se tornar uma forma de pagamento no comércio e uma unidade contábil empregada no estabelecimento do preço das importações e exportações, além de ser uma fonte de riqueza para os investidores internacionais. O preço seria pago pelos americanos.

Teríamos de gastar mais para obter os artigos que importamos e as taxas de juros aumentariam tanto na dívida pública quanto na privada. O custo privado mais alto dos empréstimos poderia levar a um enfraquecimento no consumo e no investimento e a um crescimento mais lento.

O declínio do dólar pode durar mais de uma década, mas pode ocorrer antes, se não pusermos ordem nas nossas finanças domésticas. Os EUA precisam controlar os gastos e empréstimos e buscar um crescimento que não se apoie em bolhas de crédito e ativos. Durante as duas últimas décadas, o país gastou mais que a sua renda, aumentando suas obrigações estrangeiras e incorrendo em dívidas que se tornaram insustentáveis. Um sistema no qual o dólar foi a principal moeda mundial permitiu que nós prolongássemos nossos empréstimos irresponsáveis.

Agora que a posição do dólar não se mostra mais tão sólida, precisamos alterar nossas prioridades. Isso envolve o investimento na nossa decadente infraestrutura, nas fontes energéticas alternativas e renováveis e no capital humano produtivo - em vez de moradias desnecessárias e da inovação financeira tóxica. Essa será a única maneira de desacelerar o declínio do dólar e manter a nossa capacidade de influenciar as questões globais.

*Nouriel Roubini é professor de economia na Escola de Administração Stern da Universidade de Nova York e presidente de uma empresa de consultoria econômica.

sábado, 18 de abril de 2009

China

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Graças aos economistas que acreditam piamente na falta de transversalidade entre a dimensão econômica, social e ambiental e pregam aos quatro ventos crescimento econômico como única salvação social e renovação ambiental, somos obrigados a ler textos como o que transcrevo abaixo.

Para o leitor mais atento vale duas observações:

- consumo per capita de recursos naturais não pode ser medida de transição para um ambiente mais limpo, são os números absolutos que importam, a menos que se acredite que o espaço físico planetário seja inesgotável.

- a falsa dicotomia entre economia, empregos e planeta tem o seguinte recado implícito: não abro mão dos lucros corporativos, mas abro mão do planeta.

Estamos só lidando com mitos e deuses e um bando de pavões ou elite iluminada cantando alegres canções sobre a mudança da humanidade...

Carta da China - Ano 6 - 17 de abril de 2009
Edição Nº 46 | 5
www.cebc.org.br

Meio ambiente perde relevância – Programas de incentivo a despoluição e redução de emissão de gases nocivos, lançados pelo governo com o intuito de amenizar críticas internacionais quanto à degradação ambiental na China durante os Jogos Olímpicos de 2008, demonstraram resultados. Embora o país ainda tenha longo caminho a percorrer para tornar-se exemplo, a China conseguiu reduzir em 2008 significativos 5,95% a emissão anual de dióxido sulfúrico e em 4,42% a demanda por oxigênio químico, valores respectivamente inferiores 1,29 p.p. e 1,28 p.p. ao registrado em 2007. O consumo de energia per capita, por sua vez, também apresentou redução, de 1,32 p.p. se comparado a 2007 e 3,36 p.p. com base em 2006, encerrando 2008 com queda de 4,59%. Com o aparente sucesso de campanhas para uso consciente de recursos energéticos no período pré-olímpico, governo central pretende lançar nova campanha nacional de incentivo à economia de energia em 2009.

Durante as reuniões do 11º Congresso, o tema meio ambiente não obteve o mesmo destaque dos dois últimos anos. Ao contrário do que vinha sendo observado, não foi mencionada qualquer intenção de aumentar esforços governamentais para punir indústrias excessivamente poluentes, restringindo-se somente a promessa de maior fiscalização das mesmas. Com a desaceleração econômica do país, proteção ambiental parece voltar a ser ônus o qual Pequim não pretende necessariamente somar ao setor empresarial chinês, tampouco ao orçamento governamental, visto que desde o lançamento do pacote de estímulo em novembro de 2008 o montante destinado ao meio ambiente já foi reduzido.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

China, sempre a eterna única culpada... nunca o modelo...

O Estado de São Paulo
Domingo, 3 de agosto de 2008
INTERNACIONAL
Gigante chinês tem pés de barro
Problemas sociais e econômicos impedem país de se tornar superpotência
John Pomfret
(ver em negrito, comentários meus)

Nikita Kruchev disse que a União Soviética enterraria os Estados Unidos, mas hoje em dia, todos parecem achar que é a China quem está segurando a pá. A República Popular está em marcha – em termos econômicos, militares e até mesmo ideológicos. Os economistas esperam que o seu Produto Interno Bruto (PIB) ultrapasse o dos Estados Unidos até 2025; a sua frota de submarinos está supostamente crescendo num ritmo cinco vezes superior à de Washington; até seu autoritarismo capitalista é chamado de alternativa real à democracia liberal do Ocidente. A China, segundo se diz, está pronta para dominar o século 21, assim como os EUA dominaram o século 20.

A não ser pelo fato de que isto não ocorrerá.

Desde que voltei aos Estados Unidos em 2004 depois de meu último emprego na China, como chefe da sucursal chinesa de The Washington Post, tenho reparado na maneira quase sem fôlego com que falamos a respeito daquele país. Com freqüência, nossa percepção do lugar está mais relacionada à maneira com que enxergamos a nós mesmos do que às coisas que de fato estão acontecendo por lá. Preocupado com o sistema americano de educação? A China torna-se um modelo. Inquieto por causa da nossa falta de prontidão militar? Os mísseis chineses aparecem como ameaça. Incomodado com a minguante influência mundial dos EUA? A China parece pronta para assumir o nosso lugar.

Mas será que a China se tornará de fato uma outra superpotência? Duvido. Não sou um crítico da China. Fui ao país pela primeira vez em 1980 como estudante e acompanhei a notável transformação nos últimos 28 anos. Conheci minha mulher lá e considero a China meu segundo lar. Obviamente não espero que a China imploda. Mas o sonho de domínio não se realizará tão cedo.

Há muitas limitações inseridas nos sistemas social, econômico e político do país. Por causa de quatro principais motivos – uma demografia falida, uma economia superestimada, um meio ambiente sob ataque e uma ideologia que encontra dificuldades para ser exportada – é mais provável que a China permaneça como o adolescente musculoso do sistema internacional, em vez de se tornar a mestra do mundo.

(aqui falha em reconhecer que o meio ambiente sob ataque é uma característica do sistema mundial inteiro e que os países ricos só conseguiram viabilizar seu progresso sem um colapso planetário porque fizeram isso sozinhos e que quando os demais países forem atrás do mesmo progresso, o planeta colapsará; falha também em reconhecer a existência de colapso ambiental local nos países ricos, como os Estados Unidos, que só foi evitado através das trocas ambientais gratuitas e invisíveis do comércio global).

No Ocidente, a China é conhecida como a "fábrica do mundo", a terra da mão-de-obra ilimitada onde milhões estão ansiosos por trocar a precariedade do interior pela oportunidade de apertar parafusos em aparelhos de microondas. Se o país vai atingir o status de superpotência, diz a sabedoria popular, o fará apoiado nas costas da sua força de trabalho maciça.
PAÍS DE VELHOS
Mas a demografia chinesa vai mal. Nenhum país está envelhecendo tão rápido quanto a República Popular, que está a caminho de se tornar o primeiro país do mundo a envelhecer antes de enriquecer. Por causa da famosa política de filho único do Partido Comunista, o número médio de filhos nascidos para as mulheres chinesas caiu de 5,8, na década de 70 para 1,8 atualmente – abaixo da taxa de 2,1necessária para manter a população estável.

(aqui falha em perceber que uma estrutura demográfica por idade estável é uma das consequências da estabilização do crescimento populacional, mas que implica numa deterioração do quociente entre população ativa e população inativa e que essa passagem é realmente dolorosa, quando ocorre, posto que a saúde financeira desse sistema, seja em que base for, mesmo para a China que não tem previdência, inviabiliza; o problema não está na demografia, mas na dependência do nosso sistema de uma demografia que trabalha com o mito que podemos povoar a terra ininterruptamente; portanto, o problema não está na demografia, mas no sistema econômico dependente da megalomania do crescimento; isso é muito grave, porque recomenda fazer a população voltar a crescer e abandonar a política de filho único...)

Enquanto isso, a expectativa de vida subiu bastante, de apenas 35 anos em 1949 para mais de 73 anos hoje. Os economistas preocupam-se com a redução da população chinesa em idade economicamente ativa, que aumentará os custos do trabalho, erodindo significativamente uma das principais vantagens competitivas da China.

Ainda pior, os demógrafos chineses, como Li Jianmin da Universidade Nankai, agora prevêem uma crise envolvendo os idosos da China, um grupo que vai inchar, passando de 100 milhões acima dos 60 anos de idade hoje para 334 milhões até 2050, incluindo impressionantes 100 milhões de pessoas acima dos 80 anos de idade. Como a China fará para cuidar destas pessoas? Por meio de pensões? Menos de 30% dos habitantes urbanos as têm, e nenhum dos 700 milhões de agricultores dispõe delas. E o sistema chinês de pensões financiadas pelo Estado faz o sistema de bem-estar social americano parecer o Fort Knox. Nicholas Eberstadt, demógrafo e economista do Instituto American Enterprise, chama a bomba-relógio da demografia chinesa de "construção de uma tragédia humana em câmera lenta". Não se passa um único mês sem que algum estrategista em Washington papagueie que a economia chinesa está ultrapassando a americana. Mas há dois problemas nestas previsões. O primeiro é que, no universo onde estes relatos são produzidos, os gráficos representando a China são sempre ascendentes, nunca descendentes. O segundo é que, apesar de os documentos incluírem possivelmente algum nuance, o mesmo desaparece quando os estudos são publicados para o restante de nós.

Demografia falida, ideologia sem apelo popular e poluição ameaçam futuro

Um nuance importante que insistimos em esquecer é o tamanho da população chinesa: cerca de 1,3 bilhão de pessoas, mais de quatro vezes a população americana. A China "deveria" ter uma grande economia. Mas em termos per capita, o país não é um dragão – é um lagarto de tamanho médio, instalado no 109º lugar do índice econômico mundial elaborado pelo Fundo Monetário Internacional, entre a Suazilândia e o Marrocos. A economia chinesa é grande, mas o seu padrão médio de qualidade de vida é baixo, e permanecerá assim por muito tempo.

O grande número utilizado como prova de que a China está devorando nosso almoço econômico é o déficit comercial americano em relação ao país, que no ano passado chegou aos US$ 256 bilhões de dólares. Mas quase 60% do total de exportações chinesas são realizadas por empresas pertencentes a não chineses. Em se tratando de exportações de alta tecnologia, como computadores e artigos eletrônicos, 89% delas são de empresas pertencentes a não chineses. A China faz parte do sistema global, mas ainda ocupa a posição de fábrica e linha de montagem de baixo custo – e são firmas estrangeiras, não chinesas, que estão recolhendo o grosso dos lucros.
POLUIÇÃO E DITADURA

Em 2004, quando me mudei com a família para Los Angeles, a capital americana da poluição, os freqüentes ataques de asma e as infecções pulmonares constantes de meu filho pararam. Quando as pessoas me perguntavam por que nós havíamos nos mudado para L.A., eu comecei a brincar: "Por causa do ar puro." Os problemas ambientais da China não são piada. Este ano, o país vai superar os EUA como maior emissor de gases associados ao efeito estufa. A China é a maior destruidora da camada de ozônio e a maior poluente do Oceano Pacífico. Das 20 cidades mais poluídas do mundo, 16 estão na China; 70% de seus lagos e rios estão poluídos e metade de sua população não dispõe de água potável limpa. Até 2030, o país enfrentará uma escassez de água equivalente à quantidade do líquido que é consumida hoje; as fábricas do noroeste já foram obrigadas a fechar porque simplesmente não há mais água. Até os economistas do governo chinês estimam que problemas ambientais consumam anualmente 10% do PIB nacional. E há ainda o filme Kung Fu Panda, que personifica o motivo final pelo qual a China não se tornará uma superpotência: as idéias animadas de Pequim simplesmente não são lá muito animadas.
(como se o problema ambiental da China fosse uma peculiariadade desse país, ignorando, portanto que nos Estados Unidos 50% dos rios, lagos e zonas estuárias também estão poluídos e que esse país só não atingiu seu colapso ambiental por conta do comércio global; falha portanto em reconhecer que é o modelo que está fracassado e não é apenas a China que vai soçobrar, mas o mundo rico inteiro).

O recente sucesso de Hollywood, que trata de um urso panda que faz uso dos ancestrais ensinamentos chineses para se transformar num lutador de kung fu, quebrou os recordes chineses de bilheteria – e provocou um espremer de mãos entre os glamourosos do país. "O protagonista do filme é um tesouro nacional chinês e todos os elementos são chineses, então por que não fomos nós que fizemos um filme como este?", disse Wu Jiang, presidente da Companhia Nacional Chinesa de Ópera de Pequim, à agência oficial de notícias Nova China.

O conteúdo do filme pode ser chinês, mas sua irrelevância e criatividade são 100% americanas. A China continua sendo um Estado autoritário administrado por um partido que restringe o livre fluxo da informação, sufoca a ingenuidade e não entende como corrigir a si mesmo. Os grandes sucessos do cinema não nascem a partir do cano de uma arma de fogo. E nem o fazem as superpotências na era da globalização. Ainda assim, parece que nos deleitamos ao superestimar a China. Recentemente fui a uma festa na qual uma das principais assessoras de um senador democrata estava comentando a respeito do negócio firmado no início do ano por meio do qual uma empresa de investimentos pertencente ao governo chinês comprou uma grande fatia do Blackstone Group, um afirma americana de investimentos. A empresa chinesa perdeu mais de US$ 1 bilhão, mas a assessora não queria acreditar que se tratava apenas de um investimento mal calculado. "Tem de fazer parte de uma estratégia mais ampla", insistia ela. "É a China, afinal." Tentei convencê-la do contrário. Mas não acho que tenha conseguido.

John Pomfret é editor da seção analítica Outlook do jornal The Washington Post. Ele é ex-chefe da sucursal chinesa em Pequim da mesma publicação e autor de Chinese Lessons: Five Classmates and the Story of the New China ("Lições Chinesas: Cinco Colegas e a História da Nova China").
TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Colaboradores