Mostrando postagens com marcador maurício andrés ribeiro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador maurício andrés ribeiro. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Do parasitismo à simbiose

Por favor se comentar deixe um email para contato.

Maurício Andrés Ribeiro (*)

Atualmente, há grande facilidade para compreender as relações ecológicas e as formas de interações biológicas no mundo natural, por meio do cinema, da televisão, das novas tecnologias da informação. Assim, por exemplo, os programas na National Geographic ou a série Planeta Terra, da BBC, mostram tais interações nos pólos, nas montanhas, na água doce, nas cavernas, nos desertos, nas grandes planícies, nas selvas, nas florestas sazonais, no mar raso, nos grandes oceanos.

Os tipos de relações variam das de parceria e cooperação às de antagonismo ou competição. A simbiose e o comensalismo são relações harmônicas; são desarmônicas as interações como a antibiose (princípio usado nos antibióticos, que matam ou inibem certos organismos vivos), o predatismo, o canibalismo, o parasitismo. Relações antagônicas aplicam estratégias astuciosas, de predação e mortes violentas.

O Homo sapiens mantém vários modos de relações ecológicas e interações com os demais de sua espécie, com outras espécies e com o planeta que o hospeda.

O ambientalista José Lutzenberger dizia que a população humana vem se comportando pior do que o pulgão no tomateiro. Ele se referia ao parasitismo, um dos tipos de relações desarmônicas que ocorre no mundo da natureza. O parasita vive no corpo do hospedeiro, do qual retira alimentos. O pulgão se reproduz até matar a planta hospedeira. O Homo sapiens parasita é inquilino de seu habitat Terra, nutre- se dele. Hóspede voraz, consome sem limites alimentos, matérias primas e energia e caminha para cometer o matricídio da mãe-terra que o nutre. Mas a natureza pode assumir a face da mãe Kali, a deusa hindu, que representa a natureza. Deusa da morte e da sexualidade, é a divina Mãe do universo e destrói a maldade. Com desastres mais
intensos e freqüentes, a natureza mostra sua força diante daqueles que a parasitam. Numa reedição da expulsão do paraíso, nossa espécie corre o risco ser expulsa do planeta que a hospeda, conforme sugere James Lovelock, o autor da teoria Gaia, que estima que estaremos reduzidos a um bilhão de pessoas até o final do século XXI.

Sendo animal e sendo político, para o ser humano formas de interações correspondentes às biológicas e ecológicas se reproduzem no campo das relações políticas, sociais, econômicas, afetivas. No campo social e político, as relações negativas podem ser de guerra, de confronto e de conflito violento ou não violento, de dominação, de submissão, de dependência, de manipulação; na interação positiva ou harmônica ressaltam as relações de diálogo, de cooperação e parceria, de
enriquecimento mútuo, de aliança.

A consciência e a ação ecológica podem fazer-nos caminhar rumo a uma evolução conscientemente projetada e construída. Nela, os seres humanos vivem relacionamento
mutuamente reforçador com a comunidade maior dos sistemas vivos e tem atitude colaborativa com a natureza, conforme a visão da “sustentabilidade recíproca”: o ser humano sustenta a natureza e, por sua vez, o mundo natural sustenta o ser humano. Simbiose implica cooperação, convivência, coevolução do ser em seu ambiente, e reciprocidade mutuamente reforçadora. A simbiose é uma relação entre duas plantas, uma planta e um animal, ou dois animais, na qual ambos os organismos recebem benefícios. Na relação simbiótica, os organismos atuam em conjunto para proveito mútuo. Aplicado na ecologia industrial, o conceito supõe que existam interações lucrativas entre empresas de vários setores, pelas quais recursos tais como a água, a
energia e materiais provenientes de uma indústria são recuperados, reprocessados e reutilizados por outras. Na ecologia urbana, o conceito de symbiocity, desenvolvido na Suécia, promove o desenvolvimento urbano holístico e sustentável, encontrando sinergias entre funções urbanas e tornando-as eficientes e lucrativas.

O simbionte nutre o hospedeiro de quem depende para sobreviver. Nos processos evolutivos em curso no planeta, há forças exógenas, cósmicas, algumas compreendidas pela nossa espécie e outras ainda não compreendidas. Podemos atuar sobre algumas e redirecionar tendências, alterando a intensidade das forças, reduzindo a força das relações desarmônicas de antibiose, predatismo, canibalismo, parasitismo, escravagismo, competição. A probabilidade de construirmos uma Era Ecológica aumenta ao se promoverem relações harmônicas do ser humano em seu habitat: relações de simbiose, mutualismo, comensalismo.

Postura ética e política diante da crise ecológica exige a aplicação de valores tais como o da harmonia e da não violência. A ética política busca a liberdade e o bem viver para todos ao evitar a guerra, a violência, as relações indesejáveis, negativas, antagônicas e desarmônicas como a predação, o parasitismo e a defesa de privilégios, o escravagismo, as dominações social e politicamente injustas.

Isso implica fortalecer modos de relação harmônicos com o ambiente que nos nutre e com as demais espécies, bem como relações harmônicas intra-específicas (sociais, políticas, econômicas) e dissolver ou reduzir a importância de relações desarmônicas ou antagônicas.

Implica evolução do parasitismo à simbiose.

(*) Autor de Ecologizar e de Tesouros da India www.ecologizar.com.mbr
mandrib@uol.com.br

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Ecologizar a economia

Por favor se comentar deixe um email para contato.

Maurício Andrés Ribeiro (*)

Tem sido mais freqüente o uso de instrumentos econômicos para a gestão ambiental pela área econômica do governo – Banco Central, Conselho Monetário Nacional, Ministério da Fazenda. Assim, em outubro de 2009, o ministério da Fazenda prorrogou o IPI Verde, com a redução de impostos para geladeiras, máquinas de lavar e fogões que gastam pouca energia; em setembro, relatório do Ministério da Fazenda havia quantificado os prejuízos econômicos à agricultura causados pelas mudanças climáticas no Brasil e quanto o Brasil poderia ganhar com créditos de carbono. Nesse mesmo mês, o Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovara a resolução 3.792 que obriga os fundos de investimento a informarem, em suas políticas de investimento, se vão ou não observar princípios de responsabilidade socioambiental. Em julho de 2008 o CMN havia aprovado Resolução 3.545 que restringiu o crédito oficial a produtores rurais sem comprovação de regularidade fundiária e ambiental. Ela incidiu sobre os interesses econômicos dos que não cumprem a legislação ambiental e despertou reações fortes no sentido de adiar o início de sua aplicação, para permitir aos fazendeiros, sojicultores, pecuaristas, se adequarem à legislação ambiental.

Em 1995, bancos brasileiros haviam aderido ao Protocolo Verde, um compromisso de que somente liberariam crédito para empreendimentos licenciados ou de acordo com a legislação ambiental e para produtos certificados. Tentava-se submeter a concessão de crédito a um crivo ambiental e evitar que o capital fosse investido em projetos ambientalmente destrutivos. Um dos resultados desse protocolo foi aumentar a pressão sobre os órgãos licenciadores por parte de empreendedores em busca de crédito bancário.

Desde os anos 90, leis de ICMS ecológico implementadas em alguns estados ofereceram incentivos econômicos para municípios que investissem na criação de unidades de conservação e em saneamento ambiental. Tal foi o caso da Lei Robin Hood, de 1995, em Minas Gerais.

Essas iniciativas de uso crescente pela área econômica dos governos de instrumentos econômicos a favor do meio ambiente devem ser celebradas, pois ajudam a superar o divórcio entre conceitos de ecologia e economia que está na origem da crise ecológica atual.

Entretanto, além desse uso pontual de instrumentos econômicos, muito precisa ser feito prática e conceitualmente:

· A ecologização nas escolas e institutos de pesquisa econômica aplicada ajudaria a redefinir conceitos de riqueza e a encontrar indicadores mais adequados do que o do Produto Interno Bruto. O PIB é um indicador enganoso e tem sido crescentemente questionado, pois contabiliza como riqueza as despesas com correção de danos de desastres, que se fossem evitados significariam melhor saúde ambiental e maior qualidade de vida.

· É preciso colocar as ciências econômicas em seu devido lugar, como partes das ciências ecológicas. O cuidado com a casa menor – a oikos nomos da economia, estaria assim inserido no cuidado com a casa maior – a oikos logos da ecologia. (Esses são pontos abordados no livro de Patrick Viveret, Reconsiderar a riqueza, publicado em 2006).

· Uma reforma tributária ecológica que onerasse o uso de recursos naturais reduziria desperdícios, ao mesmo tempo em que poderia incentivar o emprego e a renda.

· A concessão de crédito bancário ecologicamente responsável exige consciência ecológica na definição da missão dos bancos e a urgência de que renunciem a oportunidades de negócios que sejam social ou ambientalmente destrutivas.

· Os investimentos, os preços, os incentivos e desincentivos econômicos, os impostos, os orçamentos públicos e privados, a contabilidade, todos esses instrumentos de planejamento e de gestão econômica precisam ser ecologizados. Isso ajudaria a superar o divórcio entre os interesses coletivos de longo prazo e os interesses particularistas de curto prazo.

· Finalmente, é relevante compreender as motivações psicológicas da economia. A demanda econômica é movida por desejos, paixões e emoções humanas e não apenas por decisões racionais. Ecologizar o consumo implica em ecologizar os desejos, pois eles estão na raiz da formação das demandas. A psicoeconomia é um campo promissor. A ecologização da economia tem uma forte relação com a ecologização da cultura, da consciência e dos desejos individuais e coletivos.


(*) Autor de Ecologizar e de Tesouros da Índia para a civilização sustentável WWW.ecologizar.com.br mandrib@uol.com.br

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Dez caminhos para expandir a consciência ecológica

Por favor se comentar deixe um email para contato.

Maurício
Andrés Ribeiro (*)

O início do século XXI caracteriza-se por uma mudança no patamar de consciência ecológica. Bilhões de seres humanos aprendem que são parte de uma espécie cujas atividades influem sobre o planeta e alteram o rumo da evolução. Descobrem a existência da crise climática planetária e passam a perceber seu papel na evolução.

Nos últimos anos, houve um crescimento vertiginoso na consciência sobre as questões ecológicas em diversos públicos e segmentos sociais e nas práticas ambientais de indivíduos e organizações. Antes periférico, o tema tornou-se central.

A conscientização ecológica é um requisito superar a atual crise ambiental e climática, pois dela podem decorrer mudanças de comportamento e atitudes sociais e individuais.

Apesar de todos esses avanços ainda existe muita ecoalienação e um déficit de percepção e de compreensão.

Relacionam-se a seguir dez caminhos que promovem a expansão da consciência ecológica:

  1. Choques, catástrofes, colapsos e tragédias despertam indivíduos e sociedades de seu torpor e anestesia. A consciência ecológica é estimulada por tais desastres, que servem para questionar o modo de vida consumista, utilitarista, produtivista. A pedagogia do susto acorda o cidadão e torna-o consciente das conseqüências ambientais negativas de seus hábitos de consumo e de seu estilo de vida. Por meio da dor e do sofrimento causados pelos desastres, pessoas e coletividades aprendem a importância de adotar práticas ecológicas, que previnam e evitem novos desastres. Exemplos: o derramamento de óleo na baia de Guanabara, no ano 2000 provocou mudanças de leis, de práticas empresariais; o susto causado pelo buraco de ozônio sobre a Antártida impulsionou acordos para controlar os gases CFC; as enchentes em Santa Catarina evidenciaram os riscos do inadequado uso do solo e do desmatamento de encostas; o risco associado às mudanças climáticas desencadeia esforços para compreendê-las e atuar de forma responsável. A percepção e a compreensão de riscos à saúde física e psíquica também despertam a consciência.
  2. Incentivos e desincentivos econômicos são forma eficaz de induzir mudanças de comportamento no sentido de adotar práticas sustentáveis e ecologicamente responsáveis. Exemplo: as leis de ICMS ecológico. A aplicação de multas e penalizações pode levar a mudanças de comportamento. O corte de crédito para quem não adota praticas sustentáveis é uma forma de fechar a torneira e dificultar tais práticas. Exemplo: resolução do Banco Central que cortou crédito para produtores rurais predatórios na Amazônia. A internalização de externalidades negativas, de custos econômicos, dói no bolso de quem produz os danos e ajuda a construir a consciência ecológica.
  3. A regulação é relevante, por meio da criação de normas e padrões inseridos em contratos, licitações, concorrências, que contemplem a sustentabilidade.
  4. Os sentidos - Os incômodos sensoriais são um forte motivador da consciência ecológica e motivam a mobilização social por melhoria das condições ambientais, a saúde e a qualidade de vida. A visão, audição, olfato, paladar, o tato, nos dão uma percepção sensorial do ambiente e alertam para as poluições. Exemplos: mobilizações pela despoluição do ar ou ações contra a poluição sonora em cidades.
  5. A tecnologia estende os sentidos e a percepção, permite penetrar em outras dimensões do universo, detectar problemas ambientais não perceptíveis sem a ajuda de instrumentos. A percepção sensorial é insuficiente se desacompanhada de conhecimento; pode-se enxergar e não compreender, pois o sentido sem o saber é cego: um leigo que tenha um câncer de pele e que se observe ao espelho enxerga apenas uma pinta; o saber do especialista decifra o risco e previne o agravamento do dano, ao extirpar as células cancerosas. Com sua luneta, Galileu demonstrou que a Terra girava em volta do Sol. Hoje, telescópios potentes revelam dimensões até hoje desconhecidas do universo; microscópios poderosos penetram nos mistérios do muito pequeno e ampliam a compreensão sobre os processos ecológicos.
  6. A ciência é um forte motor para expandir a consciência. O avanço do conhecimento científico expande a compreensão do universo e da psicologia humana, bem como dos riscos a que estamos sujeitos. A sociedade consciente e responsável do século 21 precisará cada vez mais de aporte de conhecimentos e informações e de estar atenta aos temas ambientais para garantir sua própria saúde e qualidade de vida. Ainda que atualmente exista uma predisposição favorável à proteção ambiental, o déficit de saber e a ignorância dificultam a correta tomada de posição. Estamos afogados em informações, mas há uma escassez de sabedoria, observa o biólogo Edward O.Wilson, em seu livro Consiliência, que propõe a unidade do conhecimento. [1]A consciência da crise ecológica e climática vem sendo expandida com a divulgação da Avaliação Ecossistêmica do Milênio, de autoria de um painel de cientistas sob os auspícios da ONU; bem como dos relatórios do IPCC – Painel intergovernamental de cientistas sobre a mudança do clima.
  7. A formação e educação em todos os níveis e faixas etárias podem ecologizar cada uma e todas as disciplinas não só no campo do conhecimento técnico e científico, mas também no campo da sensibilidade, da ética e dos valores. A educação ambiental, a educação para a sustentabilidade e outras abordagens, buscam condicionar a consciência a valores ecológicos. As manifestações artísticas expandem a percepção por meio da sensibilidade estética, da criatividade e da imaginação e da emoção. O humor descobre ângulos inusitados para abordar questões ecológicas.
  8. A comunicação verbal ou escrita, interpessoal, social, a comunicação de massa, a TV, a internet, facilitam que bilhões de indivíduos tomassem conhecimento da crise climática. Organizações da sociedade civil se valem da comunicação e da mídia para repercutir seus conhecimentos e pressionar governos. Gestores ambientais têm na comunicação uma ferramenta para se fortalecerem diante de áreas pouco sensíveis. Em 2007, relatórios científicos disseminados pela mídia e pelo cinema provocaram um salto quantitativo na consciência humana sobre as mudanças climáticas.
  9. Ética ecológica – os valores morais ligados à solidariedade e à sustentabilidade são uma força poderosa para impulsionar a expansão da consciência ecológica. A espiritualidade intui dimensões supra-racionais da consciência, não detectadas pelos meios apenas racionais ou intelectuais. As crenças e valores morais e éticos podem impulsionar a consciência e induzir mudança de comportamentos. Assim, por exemplo, as tradições espirituais que acreditam na reencarnação tendem a induzir comportamentos ecológicos, no auto-interesse do ser, nesta e em suas próximas vidas.
  10. A meditação, a contemplação, técnicas que harmonizam e tranqüilizam a mente, permitem entrar em estados de consciência menos perturbados e dispersos, mais lúcidos. As abordagens e métodos de observação da realidade; de autoconhecimento e de reflexão, de controle da mente, são de grande valor para a expansão da consciência. No campo psíquico emocional ou mental, há práticas e exercícios que permitem expandir os limites humanos. Entre elas, as práticas de desenvolvimento da atenção e presença no agora, de criatividade por meio das artes e ciências, de meditação, algumas delas desenvolvidas por antigas tradições. A capacidade de concentrar a mente no essencial expande e aprofunda a consciência. A concentração é um método de condicionar a mente, concentrar a energia difusa e despertar poderes latentes. A necessidade, a demanda a crença e o desejo podem ser ecologizados e induzir atitudes e comportamentos ecológicos.

A combinação dessas abordagens de aprendizagem por meio de vivências, do conhecimento sociocultural, de incentivos econômicos, do controle social, pode expandir a consciência ecológica e induzir mudanças de comportamentos individuais e coletivos.

(*) Autor de Ecologizar, de Tesouros da Índia e de Ecologizando a cidade e o planeta.

WWW.ecologizar.com.br mandrib@uol.com.br



terça-feira, 30 de junho de 2009

O princípio da frugalidade

Por favor se comentar deixe um email para contato.

Maurício Andrés Ribeiro (*)

A segunda metade do século XX iniciou-se nos anos 50 com os valores da frugalidade, pois a reconstrução depois da segunda guerra mundial impunha limites e prioridades claros. Éramos três bilhões de habitantes.
No Brasil, a educação para a economia doméstica postulava valores frugais. Não devíamos deixar alimentos no prato, porque havia gente passando fome; não devíamos sair de um quarto sem antes apagar a luz; a torneira devia ficar aberta somente o suficiente, para não desperdiçar água. As roupas dos irmãos mais velhos eram aproveitadas pelos mais novos, assim como os livros escolares, que eram usados em anos sucessivos. Hortas, galinheiros e quintais complementavam o abastecimento alimentar.
O consumismo se impôs a partir dos anos 60, mas, já em 1968, movimentos alternativos questionavam a sociedade consumista. Em 1972, na Conferência de Estocolmo sobre o Ambiente Humano, o tema ambiental foi colocado na pauta. O início da década de 90 foi um período efervescente devido à Eco-92, aos avanços legais e institucionais, à mobilização da sociedade. No final dos anos 90 empresários começaram a buscar sustentabilidade e ecoeficiência, racionalizando processos de produção, ao mesmo tempo em que externalizavam para a sociedade seus custos ambientais e sociais.
Nos primeiros anos do século XXI, ocorreu a Rio+10, Conferência da ONU em Johanesburgo. Ultrapassamos os seis bilhões de habitantes. Foram definidas as metas do milênio; a Carta da Terra foi aprovada pela UNESCO; desenvolveram-se indicadores de sustentabilidade, tais como o da pegada ecológica; a Avaliação ecossistêmica do milênio indicou o colapso de sistemas de suporte da Terra; aprovou-se a implementação do Protocolo de Kyoto sobre mudanças climáticas. Forte onda de informações sobre as mudanças climáticas influenciou a percepção e a consciência de indivíduos, setores de atividades, nações. Produziram-se evidências de que são causadas pela atividade humana. Seus autores foram reconhecidos com o Prêmio Nobel da Paz.
O ano de 2007 foi especialmente intenso na divulgação de novos conhecimentos e na introdução da consciência ecológica em amplos públicos e segmentos sociais. Bilhões de pessoas perceberam que pertencem a uma espécie que provoca alterações no clima e no ambiente.
Gradualmente a economia abre-se à articulação com a ecologia. Gestores públicos aos poucos modificam sua cultura e internalizam valores e comportamentos ecologizados. Mas em 2008, contraditoriamente, há movimentos na contramão da economia ecológica e da prudência em relação ao clima: uma das respostas à crise financeira e econômica tem sido salvar empresas ineficientes e reduzir impostos para impulsionar o consumo.
O economista Herman Daly, voz respeitada pela sua sensibilidade ecológica, pergunta e responde: “O que está nos provocando a sistematicamente emitir mais CO2 na atmosfera? É a mesma coisa que nos leva a emitir mais e mais de todos os tipos de resíduos na biosfera, ou seja, nosso apego irracional ao crescimento exponencial contínuo num planeta finito sujeito às leis da termodinâmica. Se superarmos a idolatria do crescimento poderíamos avançar e perguntar questões inteligentes: “Como podemos desenhar e gerir uma economia estável, que respeite os limites da biosfera?”
Ele propõe, antes da busca pela ecoeficiência, valorizar a frugalidade em primeiro lugar, por meio de reforma tributária ecológica que onere o uso de recursos naturais. Assim, por exemplo, um imposto sobre o carbono provocaria, como resposta adaptativa a combustíveis mais caros, a eficiência e a redução de desperdícios. Onerar o uso de recursos naturais estimularia a frugalidade, refreando a demanda. Ele defende que primeiro se adote a frugalidade para então, como conseqüência, ter a eficiência. Pois na política energética e climática “quanto mais se aumenta a eficiência das máquinas, maior o incentivo para que sejam mais usadas, maiores mercados terão e o resultado é que o efeito e impacto agregados, ao invés de diminuir, aumentarão.”
Na contramão do consumismo, é necessário o resgate de propostas de simplicidade voluntária, dos valores do conforto essencial, da sobriedade, modéstia, simplicidade, da austeridade feliz proposta por Pierre Dansereau.
Frugalidade é sobriedade, temperança, parcimônia, simplicidade de costumes, de vida. Na sociedade ecologizada, a frugalidade significa uma mudança de consciência e de ação prática, abraçando valores por muito tempo esquecidos.

(*) Autor de Ecologizar, de Tesouros da Índia e de Ecologizando a cidade e o planeta. WWW.ecologizar.com.br mandrib@uol.com.br

domingo, 14 de junho de 2009

Ecologizar o Capital – II

Por favor se comentar deixe um email para contato.

Ecologizar o Capital – II

Maurício Andrés Ribeiro (*)

Na antiguidade, a espécie humana aprendeu a domesticar os animais e criou o pastoreio; domesticou as plantas e criou a agricultura. Com as práticas orgânicas, ecologizou essa atividade. Domesticou as águas por meio de obras de infra-estrutura, aquedutos, diques, barragens. Em seguida, dominou os minerais: o cobre no ano 3 mil antes de Cristo, o bronze no segundo milênio antes de Cristo e viveu a idade do Ferro no ano mil antes de Cristo.

Na atualidade, o grande desafio é ecologizar o capital e direcioná-lo para finalidades construtivas, pois sua força, como a das águas, é altamente destrutiva, se estiver desregulada ou descontrolada.

A Resolução n.3545 do Conselho Monetário Nacional restringiu, a partir de julho de 2008, o crédito oficial a produtores rurais sem comprovação de regularidade fundiária e ambiental. Ela incidiu sobre os interesses econômicos dos que não cumprem a legislação ambiental e despertou reações fortes. Levou governadores dos estados da Amazônia a pedirem o adiamento do início de sua aplicação, para permitir aos fazendeiros, sojicultores, pecuaristas, se adequarem à legislação ambiental. Restrições de crédito para quem destrói e devasta a natureza são instrumentos de ação que ecologizam o capital.Uma única resolução do Conselho Monetário Nacional tem mais força para obrigar o cumprimento da lei do que muitas operações de fiscalização ambiental, que não afetam de forma estruturante os interesses econômicos e cujos efeitos são fugazes.

Em 2009, o desmatamento na Amazônia mostra que são insuficientes os esforços de fiscalização e controle ambiental, caso os bancos de desenvolvimento continuem a conceder empréstimos a atividades da cadeia produtiva da carne. O esforço da fiscalização ambiental sem a ecologização da regulação do capital equivale a enxugar o chão mantendo a torneira aberta.

A internalização da perspectiva ecológica não pode ficar restrita à área ambiental do poder executivo, lutando contra a corrente. Ela precisa ocorrer em toda a administração.

Outras instâncias, como o poder judiciário, tem um importante papel. Assim por exemplo, à medida que evoluiram o conhecimento cientifico e a consciência social e quando se acumularam evidências científicas sobre seu papel nocivo ao clima, o CO2 foi incluído entre os gases poluidores em 2009 pela EPA- Agência Ambiental Americana a partir de determinação da Suprema Corte Americana, em 2007.

A atual crise econômica oferece possibilidades para que o estado, ao socorrer bancos e empresas endividadas, condicione essa ajuda a critérios ecológicos. Para que tal oportunidade não se perca, os tomadores de decisão na política econômica precisam se ecologizar. Para ecologizar o capital, é vital o uso dos mecanismos de controle e monitoramento ao longo das cadeias produtivas de cada bem ou serviço.

Ecologizar o capital é aplicar os conhecimentos das ciências ecológicas e a sabedoria da consciência ecológica a todas as decisões relacionadas ao seu estoque e fluxo, aos tributos, créditos, empréstimos, financiamentos.

(*) Autor dos livros Ecologizar, de Tesouros da Índia e de Ecologizando a cidade e o planeta

www.ecologizar.com.br

mandrib@uol.com.br

sábado, 23 de maio de 2009

Ecologizar as crenças - II

Por favor se comentar deixe um email para contato.

Ecologizar as crenças - II


Maurício Andrés Ribeiro (*)


Ecologizar as crenças é aplicar os conhecimentos das ciências ecológicas e a saebedoria da consciência ecológica àquilo em que se acredita. No campo ambiental, há muitos interesses controversos: temas como a energia nuclear, organismos geneticamente modificados, papel reciclagem de resíduos, são polêmicos. O papel reciclado, por exemplo, pode por um lado reduzir o corte de árvores; por outro , sua produção exige usar mais água, mais químicos para tirar a tinta; seria ele ecologicamente mais amigável que o papel branco, quando se computam os custos logísticos, as distâncias percorridas e a emissão de gases de efeito-estufa durante o seu recolhimento? A energia nuclear, muito tempo execrada pelos ambientalistas, tem sido resgatada por cientistas como James Lovelock, pelo fato de não emitir gases de efeito-estufa.


O temor, o medo, a busca da segurança se encontram na raiz de posturas ambientalistas prudentes. A crença é, então, escudo de proteção contra riscos ecológicos e ameaças. Assim, o movimento antinuclear se apóia no medo ao terror e ao lixo atômico; o movimento contra os organismos geneticamente modificados se apóia no princípio da precaução e na prudência ecológica, considerando temerário apostar em novos produtos e processos cujos impactos não se conhecem bem.


Nesse contexto de informações incompletas, como diferenciar o consumo consciente do consumo crente, ecoreligioso? A crença pode ser uma forma de auto-engano, de preferir negar ou não ver algo que para outros é evidente. Desconstruir, desmitificar crenças, desaprender, pode ser útil no caminho de aproximação do que seja mais verdadeiro. Há necessidade de ciência, de informação abalizada e de conhecimento técnico para evitar auto-enganos bem intencionados. A moral e a ética tendem a desaguar em uma pregação que pode ser enganadora, dogmática. A aceitação inquestionada, a fé, a crença, sem verificação ou consideração da verdade científica e apoio em conhecimentos, levam a logros e descréditos. Crenças ecológicas desinformadas levam a equívocos. Boa vontade, boa fé e boas intenções desinformadas levam a atitudes e comportamentos aparentemente virtuosos, porém inócuos ou contraproducentes, além de pouco sábios.

Corre-se a cada momento o risco de cometer equívocos, ter uma pseudoconsciência sem ciência, enganar-se por falta de embasamento.


Nesse contexto, algumas controvérsias são alimentadas por quem tem interesses específicos, que trata de se movimentar para fazer prevalecer um ponto de vista ou crença que o beneficie. Assim, por exemplo, uma empresa fabricante de papinha de nenê pode propagendear que o aleitamento materno não é tão importante assim. Ou que é substituível sem problemas e com vantagens.


Atualmente há grande confiança na ciência e na tecnologia, sobre as quais são depositadas expectativas de que dêem respostas verdadeiras e satisfatórias aos problemas causados pelas ações humanas. Como ter conhecimento sobre temas especializados, que necessitam de formação, capacitação, especialização? Num contexto de especialização crescente, a confiança e a difusão responsável e sistemática de informações tornam-se necessárias, pois não é possível conhecer a fundo cada tema. Por outro lado, segmentos da sociedade manifestam desconfiança nos cientistas e em sua capacidade de responder aos problemas; em parte porque, seres humanos falíveis, estão sujeitos a serem instrumentalizados por interesses econômicos. Nesse contexto, comportar-se a partir de bons padrões éticos e técnicos torna os especialistas confiáveis e lhes conferem credibilidade.


Há crenças que não podem ser provadas, e que levam a ações boas e ruins. Uma crença pode vir a mostrar-se verdadeira ou falsa. Enquanto ela não é comprovada ou refutada, pode-se acreditar, ter fé e por ela pautar atitudes. Uma crença independentemente de mostrar-se verdadeira ou falsa, tem, assim, conseqüências práticas, ao influenciar comportamentos ecológicos ou antiecológicos. Ecologizar as crenças é, portanto, uma forma de induzir mudanças de comportamentos e de conduzir a uma crescente ecologização da sociedade.


----------------------------------------

(*) Autor de Ecologizar e de Tesouros da Índia

WWW.ecologizar.com.br mandrib@uol.com.br


1 Ken O'Donnell, Caminhos para uma Consciência Elevada, Editora Gente, São
Paulo, 1996

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Ecologizar a crença - I

Por favor se comentar deixe um email para contato.

Maurício Andrés Ribeiro (*)

Acreditar em algo e não o viver é desonesto

Mahatma Gandhi


Crenças existem e têm eficácia ao influir em comportamentos. Acreditemos ou não na crença a ou b , gostemos ou não, elas estão aí. Já que são um dado da realidade e que algumas tem efeitos ecológicos positivos e outras tem efeitos destrutivos, cabe fazer com que se ecologizem.

Crenças funcionam para legitimar e justificar atitudes e comportamentos. “Eu acredito nisso, portanto, me comporto assim ou assado”. Agir em desacordo com a própria crença provoca desconforto, conflitos pessoais, sentimentos de culpa, dor na consciência. Aqueles que acreditam, mas que não têm comportamentos coerentes com sua fé ou crença, sofrem de autocomplacência, perda de auto-estima e de amor próprio, por não serem fortes o suficiente para alinhar sua prática com aquilo em que acreditam. “A lacuna que separa o ideal da prática atinge a todos nós em maior ou menor extensão e deixa bem clara a diferença entre satisfação e frustração. A felicidade pessoal está relacionada com a coerência entre o que acredito ser verdade e minhas ações.1

A hipocrisia desconecta aquilo que se pensa e fala daquilo que se faz. “A teoria na prática é outra”; “faça o que eu digo e não o que eu faço” são frases populares que expressam esse tipo de atitude.


Crer, acreditar, move energias e motiva para o esforço, a obra e o projeto coletivo, um mito ou sonho que se transforma em realidade: “ A fé remove montanhas”.


No seu livro A biologia da crença, Bruce Lipton explica como as células do corpo são influenciadas pelo pensamento e mostra o mecanismo pelo qual elas recebem e processam as informações. A biologia da crença estuda a relação entre a vida, o ambiente, o pensamento, as percepções e os vários níveis de consciência.


O impacto das ações de quem acredita em algo pode ser diferente dos impactos das ações de quem não acredita no que faz. Crer influi na consciência e nas ações; não crer também influi no pensamento e nas ações decorrentes. Assim, acreditar na reencarnação pode ajudar a conservar o meio ambiente, pois, no autointeresse, ele deve ter boa qualidade para ser habitado nesta e em outras vidas.


Acreditar na eficácia da homeopatia ou da acupuntura ajuda a usar tratamentos alternativos e pode torná-los mais eficazes. Acreditar nas mudanças climáticas e crer que o ser humano tenha responsabilidade nelas ajuda a induzir atitudes ecologicamente responsáveis. Acreditar que comer carne é ruim para o ambiente ajuda a forjar hábitos alimentares vegetarianos. O fato de se acreditar em tais coisas e de tentar agir coerentemente com tais crenças traz resultados ecologicamente amigáveis.

Há quem prefira não acreditar nas mudanças climáticas e na responsabilidade humana sobre elas. Assim, não se sentem compromissados a mudar hábitos e estilo de vida; não se sentem culpados por um problema ecológico que tem conseqüências danosas ou negativas. O cético desobriga-se, perante sua própria consciência, de autolimitar suas atitudes predatórias; evita assim qualquer drama de consciência. O ceticismo pode significar um apego ao conforto, uma forma de comodismo e de não desejar abrir mão de hábitos.


As crenças constituem freios ecológicos que colocam limites ao comportamento humano. Pescadores deixam de sair à pesca quando um passaro específico canta ou quando uma mulher grávida entra no barco. Acreditam que isso não lhes trará boa sorte. Pessoas cuidam melhor do ambiente quando crêem na reencarnação, por um senso de auto interesse ampliado que se estende às próximas gerações e reencarnações. Trata-se da solidariedade não apenas com as próximas gerações, mas para com as próximas reencarnações.

----------------------------------------

(*) Autor de Ecologizar e de Tesouros da Índia

WWW.ecologizar.com.br mandrib@uol.com.br

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

ECOLOGIA ENERGÉTICA

Por favor se comentar deixe um email para contato.

ECOLOGIA ENERGÉTICA
Maurício Andrés Ribeiro

Cadeias alimentares são as transferências de energia alimentar desde os produtores básicos – as plantas –, para os animais herbívoros – consumidores primários –, até os animais carnívoros, que, por sua vez, se alimentam dos herbívoros.
As cadeias alimentares se sobrepõem como parte do ciclo da vida na Terra. Quando morre um ser vivo, as bactérias o decompõem em substâncias orgânicas e inorgânicas, usadas pelos vegetais para alimentar-se.
O homem está entre as espécies que absorvem energia de vários elos da cadeia alimentar. Como a cada transferência de um nível para outro, grande parte da energia é degradada, quanto maior a cadeia alimentar, menor será a energia disponível.

A demanda por alimentos que se encontram no alto da cadeia alimentar – constituídos pelos produtos de origem animal – consome grande quantidade de terra, água, recursos naturais e defensivos agrícolas; motiva os fazendeiros a expandir as áreas destinadas a pastagens, provoca a destruição de florestas e perdas de solo fértil. Assim, quanto maior o consumo de carne e de produtos animais, que se encontram no topo da cadeia alimentar, maior a pressão sobre os recursos naturais. A dieta alimentar baseada em proteínas animais, quando comparada com dietas baseadas em grãos, hortaliças e proteína vegetal, tem elevado custo energético e sua produtividade energética é baixa. Se o produto é usado para o consumo alimentar humano direto há menores perdas energéticas; se entretanto, é usado para alimentar animais, que por sua vez servirão de alimentos para as populações humanas, ocorrem perdas energéticas substanciais. Washington Novaes aponta que “ O problema está em que produzir uma caloria de carne (bovina, suína ou de aves) exige de 11 a 17 calorias em alimentos para os animais. Uma dieta de carnes, para ser produzida, precisa de quatro vezes mais terras que uma de vegetais. E produzir um quilo de carne bovina exige até 15 mil litros de água, segundo os relatórios da ONU no Fórum Mundial da Água, no ano passado, em Kyoto (um quilo de grãos, em média 1.300 litros de água).”
As dietas vegetarianas são poupadoras de espaço, dos recursos naturais e do meio ambiente, conseguindo, com baixo uso de recursos naturais, um alto rendimento energético alimentar dessas populações. Eminentes cientistas ocidentais, como biólogo Paul Erlich[1] afirmam que ¨a capacidade de suporte do planeta seria aumentada se todos se tornassem predominantemente vegetarianos.” O professor E. O. Wilson, de Harvard, tem apontado para a necessidade de adotar estilos de vida ecologizados. Em seu livro recente, “O Futuro da vida”, Wilson expressa as vantagens da possibilidade de renunciar ao consumo de carne: "Se todos aceitassem uma dieta vegetariana, o atual 1,4 bilhão de hectares de terras aráveis seria suficiente para produzir alimentos para 10 bilhões de pessoas" Esse é um exemplo da compreensão e do reencontro da ciência moderna com práticas de vida adotadas em civilizações milenares que souberam sobreviver ao adotar dietas vegetarianas.
O modo como cada sociedade equaciona sua demanda de alimentos provoca diferentes impactos ambientais e sobre o uso da terra. Uma dieta alimentar baseada em proteínas animais tem elevado custo ecológico e pressiona o uso da terra, se comparada com dietas baseadas em grãos, hortaliças e proteínas de origem vegetal. A opção pelo vegetarianismo foi uma opção ecológica que evitou a necessidade de colonizar outros territórios para dali extrair o abastecimento alimentar em antigas civilizações que não foram expansionistas. Entre elas, destaca-se a Índia, que, em função de sua enorme população, precisou desenvolver a inteligência ecológica, pautada pela adoção de padrões de consumo conscientes, compatíveis com os recursos naturais disponíveis. A Índia adotou há milênios o vegetarianismo como dieta alimentar, por razoes éticas e ecológicas. Eticamente trata-se de um cuidado com os seres vivos animais. O vegetarianismo é um dos aspectos materiais do espiritualismo indiano e baseia-se no princípio do ahimsa ou não-violência. As vacas foram sacralizadas e o vegetarianismo é um hábito alimentar com conseqüências positivas do ponto de vista da ecologia energética e também do uso e ocupação do espaço.

O padrão de consumo alimentar de sociedades que adotaram dietas baseadas em proteína animal drena energia e recursos naturais que são incorporados em produtos que importam de outros países.
Em termos de impactos ambientais, a expansão da pecuária aumenta destruição da Amazônia. A crescente exportação de carne bovina está aumentando a destruição da floresta amazônica, segundo estudo do Centro para Pesquisas Florestais Internacionais (Cifor, na sigla em inglês) devido ao que a entidade chama de "conexão hambúrguer".
Segundo o estudo, nos últimos anos as exportações nacionais de carne bovina aumentaram de forma expressiva devido à desvalorização do real, à erradicação da febre aftosa em boa parte dos estados e ao surgimento de doenças em rebanhos internacionais. o crescimento do rebanho foi motivado pelas exportações", diz a pesquisa, argumentando que 80% da expansão ocorreu na Amazônia. O Brasil é hoje o maior exportador de carne bovina do mundo e o rebanho bovino na Amazônia mais que dobrou, passando de 26,25 milhões para 57,4 milhões cabeças, entre 1990 e 2002. De acordo com o documento, para cada hectare destinado à agricultura na Amazônia, existem hoje seis hectares de pastagens para o gado.”
O ciclo de vida do produto, do berço ao túmulo, precisa ser conhecido integralmente para se permitir realizar uma análise integral dos sistemas alimentares. O Brasil substitui áreas de florestas por culturas de exportação de soja, e dedica grandes extensões de terras à produção de animais de corte. A pecuária extensiva ocupa muita terra e outra parcela substancial destina-se ao cultivo de produtos para alimentar animais, seja no País, seja no exterior: assim, a soja é, em sua maior parte, exportada para alimentar animais e essa crescente produção de soja para exportação tem pressionado os ecossistemas amazônicos. Essa pressão pela produção é parte da cadeia produtiva da produção ao consumo.
Para ser ecologizado e garantir o alimento necessário à população humana, o desenvolvimento precisa basear-se em padrões de consumo alimentar e dietas alimentares e energéticas que não pressionem excessivamente a capacidade de suporte do planeta e que não esgotem as fontes de sustento.




[1] In Folha de São Paulo, 2-7-1999,caderno especial, página 10.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

A ARTE DE SAIR DE CENA

Por favor se comentar deixe um email para contato.

Maurício Andrés Ribeiro (*)

“É tarde demais para o desenvolvimento sustentável; precisamos é de uma retirada sustentável.”
James Lovelock, em A vingança de Gaia

Assisti ao tema da `Arte de sair de cena’ em uma peça de teatro no Centro Brahma Kumaris de Bangalore. O palco era ocupado por muitos personagens, príncipes, generais, administradores, servos, sacerdotes. Entretanto, o mote central da peça não era o papel desempenhado no palco. O tema era a arte de sair de cena, uma alegoria da vida e da morte: desde o nascimento, inicia-se uma contagem regressiva para o momento de sairmos de cena.
No teatro, alguns personagens estão em primeiro plano, como atores principais e não deixam a ribalta. Outros ficam em segundo plano, coadjuvantes da cena principal, ou ocupam o fundo do palco, onde desempenham papel sem grande visibilidade. Nas novelas da TV, o autor mata o personagem quando as pesquisas de opinião assim o indicam ou ele fica até o fim e tudo termina num final feliz ou trágico.
A arte de sair de cena é aplicável às situações de trabalho e à vida pessoal. Na profissão, a saída de cena pode se dar por meio de demissão por justa causa ou imotivada, ou o trabalhador pede as contas e sai. Na vida pessoal, num casamento, há o alívio da separação quando o amor acaba de forma amigável ou os problemas do litígio na justiça.
Na vida pública, há políticos que insistem em ficar em cena mesmo quando não estão agradando, e são tirados de cena pela pressão da opinião pública ou pela derrota eleitoral imposta pelo eleitor insatisfeito com seu desempenho. Alguns saem discretamente; outros se indignam e denunciam erros, disparam metralhadoras giratórias; há também os que ao sair de cena chamam a atenção para si, dramaticamente. Alguns são postos para fora a contragosto, depostos de suas funções, saem do palco de forma melancólica, desmoralizados ou desgastados. Outros se retiram de maneira digna e conquistam a admiração de todos. Há os que morrem jovens, fazem falta e deixam saudades. Os que sofrem morte súbita causam comoção. Há fatores de repulsão, que afastam do palco certos personagens, e fatores de atração, que dão entrada a outros. Algumas são saídas honrosas e dignas, outras são saídas à francesa, de fininho.
Sair de cena se aplica aos jogos e às guerras. Num jogo, pode-se sair expulso ou contundido. Na guerra do Vietnam, o presidente americano Richard Nixon recebeu o conselho de um general: “Declarar vitória e bater em retirada”. Hoje, viciados em petróleo, os americanos têm dificuldades em sair do Iraque, apesar das evidências de que em longo prazo essa guerra não será vencida.
Sair de cena é um exercício que ensina a lidar com a vaidade, com o orgulho, com a revolta, com a indignação e transformá-los em humildade e aceitação. Ensina a aceitar a mudança, a transformação, a perda e a renovação. Saber o momento de retirar-se e encontrar a melhor forma de fazê-lo exige sensibilidade, percepção e senso de oportunidade. A coragem para retirar-se e para render-se à vontade maior requer, ainda, treinamento espiritual.
A arte de sair de cena aplica-se, também, aos processos da evolução. Em seu ultimo livro, intitulado “A vingança de Gaia” Lovelock questiona a viabilidade do desenvolvimento sustentável e propõe uma retirada sustentável. A proposta por James Lovelock diante das forças da natureza é a de uma retirada honrosa, evitando a derrota trágica. James Lovelock é o criador da Teoria de Gaia, pela qual a terra é um organismo vivo com um sistema nervoso central e no qual a espécie humana ocupa o lugar da massa cinzenta do cérebro de Gaia. Substituir a proposta de desenvolvimento pela de retirada implica em mudar a direção do pensamento e das ações e em abandonar alguns supostos antropocêntricos. A proposta lembra o episódio bíblico da expulsão do paraíso. É como se, antes de sermos expulsos, tomássemos a iniciativa de nos retirarmos, voluntariamente.
Essa retirada pode ser econômica ou demográfica. Entre as formas possíveis de retirada econômica existem ações brandas, tais como a redução dos impactos ambientais das atividades humanas por meio da melhoria da ecoeficiência e a redução de emissões de poluentes, entre eles os gases de efeito estufa; a neutralização de carbono de atividades específicas tais como eventos, encontros, festas; a desativação progressiva de atividades ecologicamente destrutivas; a imposição de limites e restrições à realização de atividades poluidoras; finalmente o banimento ou eliminação de atividades não essenciais, supérfluas ou desnecessárias e que produzem impactos climáticos e ambientais.
Assim por exemplo, abolição das guerras como forma de resolução de conflitos poderia promover uma substancial redução da emissão de gases do efeito estufa, gerados no processo de produção das guerras, desde a extração de minerais até sua transformação industrial, o transporte de equipamentos militares, seu uso e atividades de reconstrução posteriores à destruição material, provocada pelos conflitos armados. Mas pergunta-se: As sociedades estão dispostas a não guerrear?
Outra atividade a reduzir seria o turismo consumista. Vôos internacionais e nacionais, transporte terrestre, serviços e comércio sofrem a pressão das atividades turísticas e provocam fortes impactos ambientais. Será necessário reduzir as viagens aéreas não essenciais que emitem gases? Que resistências serão encontradas? Os viajantes estão dispostos voluntariamente a abdicar de viajar? Será necessário sobretaxar os deslocamentos ou limitá-los de outras formas?
Pelo lado do consumo, uma forma de retirar-se é reduzir a pressão sobre a natureza, por meio de educação, da cultura ecologizada e da imposição de ônus econômicos e taxação sobre o consumo. Além disso, são formas de reduzir os impactos das atividades humanas:
• Redesenhar as edificações e cidades dentro de normas e padrões que ajudem a conservação de energia.
• Adotar vida contemplativa e prezar a meditação e o uso do tempo de formas criativas que não pressionem o ambiente e o clima.
• Reduzir a pegada ecológica, a pegada hídrica e a pegada energética de indivíduos, cidades, países. Criar imposto progressivo sobre a pegada ecológica.
• Conter o crescimento econômico insustentável para que a evolução humana se faça dentro de limites dos recursos do planeta.
• Reduzir a ação sobre o meio físico e limitar a produção de bens materiais que demandam o uso de recursos naturais.
• Maximizar as atividades menos impactantes, tirar objetos de cena, dissolver desejos e promover menor consumo material.
As retirada demográfica pode ser branda ou drástica. Há um movimento biocêntrico, disseminado pela Internet, pela auto-extinção voluntária da espécie humana, por meio da proposta de filho zero, que em poucas gerações extinguiria ou reduziria a quantidade de indivíduos da espécie. Essa proposta cortaria pela raiz os efeitos das atividades humanas, mas é utópica, devido às dificuldades para promover a adesão voluntária a ela.
Comenta Lovelock: ”As mulheres nas sociedades prósperas, se dotadas de uma chance justa de desenvolver seu potencial, optam voluntariamente por ser menos fecundas.” O controle voluntário do crescimento demográfico é uma maneira de fazer o tamanho da população humana caber nos limites da capacidade de suporte do planeta. Um exemplo é o planejamento familiar com redução da natalidade e do incentivo ao filho único, tal como realizado na China. A retirada demográfica pode-se dar por meio de formas extremas e dolorosas de redução da população, tais como as guerras e o genocídio, bem como a exposição a pragas e doenças. Aqui se colocam questões éticas, como lembra Pierre Weil : “Entre aceitar a morte como processo vital e provocá-la se encontra a diferença fundamental entre um valor construtivo e um destrutivo.”
Lovelock estima que chegaremos ao final do século XXI reduzidos a um bilhão de pessoas, devido aos efeitos das mudanças climáticas em curso.

(*) Autor de Ecologizar, pensando o ambinete humano e de Tesouros da Índia para a civilização sustentável. www.ecologizar.com.br mandrib@uol.com.br

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A Terra é uma APA

Por favor se comentar deixe um email para contato.

Maurício Andrés Ribeiro

“Os ecossistemas naturais da Terra não existem para serem transformados em terra cultivável, mas para conservar o clima e a química do planeta.”
James Lovelock, in A Vingança de Gaia

Mirando na agricultura e na mudança de usos da terra, que no Brasil são responsáveis pela maior parte das emissões de gases de efeito estufa e que tornam os terrenos vulneráveis a catástrofes, James Lovelock afirma que “Temos que descartar o ensinamento antiquado da ciência e religião e começar a ver a superfície e florestas da Terra como algo que evoluiu para servir ao metabolismo do planeta – algo insubstituível. Já nos apossamos de mais de metade da terra produtiva para cultivar nossos alimentos. Como podemos presumir que Gaia cuidará da Terra se tentarmos pegar o restante das terras para a produção de combustível?”

Ele denuncia o comportamento agressivo humano em sua relação com a natureza e alerta para os riscos dessa atitude: “Apossando-se maciçamente de terras para alimentar as pessoas e empesteando o ar e a água, estamos tolhendo a capacidade de Gaia de regular o clima e a química da Terra, e se continuarmos assim, corremos o risco de extinção. Em certo sentido, entramos em guerra contra Gaia, guerra que não temos esperanças de vencer. Tudo o que podemos fazer são as pazes enquanto ainda somos fortes e não uma ralé debilitada.”

Numa perspectiva ainda utópica mas que pode vir a ser real, com os avanços da tecnologia de alimentos e do encontro de outras possibilidades para a alimentação e de outras dietas, ele especula sobre “a possibilidade de conseguirmos sintetizar toda a comida necessária para 8 bilhões de pessoas, abandonando assim a agricultura.” Propõe uma retirada sustentável, pois “já ocupamos muito mais do que seria razoável.”

A retirada sustentável proposta por James Lovelock significa devolver à natureza parte das terras que foram ocupadas para uso humano, para que ela continue a prestar os serviços ambientais valiosos de regulação climática, produção de água, proteção da biodiversidade. Deter a expansão das fronteiras agrícolas e da ocupação humana, conter o desmatamento e as queimadas, criar e implementar novas áreas de proteção ambiental são ações em sintonia com esses objetivos.

Uma área de proteção ambiental – APA – é uma área extensa, com ocupação humana, dotada de atributos naturais e biológicos, estéticos ou culturais, especialmente importantes para a qualidade de vida e o bem-estar das populações humanas. Deve-se para tanto proteger sua diversidade biológica, disciplinar o processo de sua ocupação e assegurar a sustentabilidade do uso de seus recursos naturais.

Numa APA, há terras públicas e privadas e normas e restrições para a utilização de uma propriedade privada podem ser estabelecidas. Uma APA precisa ser gerida por um Conselho presidido pelo órgão responsável por sua administração e constituído por representantes dos órgãos públicos, de organizações da sociedade civil e da população. Conselhos gestores de APAs são colegiados que estendem o método participativo a esse âmbito, em substituição a métodos mais autocráticos. Dessa forma, criam-se dinâmicas sociais e políticas que levam à pactuação e ao entendimento coletivo sobre a forma de se administrar aquele território.

Esse conceito de APA pode ser expandido para a escala planetária: no limite, o planeta Terra pode ser considerada como uma Área de Proteção Ambiental: uma unidade de conservação de uso sustentável, que merece todos os cuidados para se protegerem os serviços ambientais prestados pelos seus ecossistemas.

Na condição de uma APA, a Terra ainda precisa ter seu conselho gestor e ser governada por métodos participativos, ter plano de manejo e regras de uso, bem como a fiscalização de seu cumprimento. A fiscalização do uso das unidades de conservação públicas é um dever elementar dos órgãos públicos responsáveis por sua manutenção. Também é necessária a punição para os transgressores.

Para cuidar da Terra como uma área de proteção ambiental, é necessária uma governança global ecologizada. A crise climática planetária pode ser um dos gatilhos para desencadear tal processo de governo colaborativo de interesse de todos. Os penosos e demorados processos para chegar a acordos sobre esse tema são um exercício pioneiro para projetar e construir essa inevitável e vital cooperação.
-----------------------------------------------------
(*) Autor de Ecologizar; Tesouros da Índia e de Ecologizando a cidade e o planeta
mandrib@uol.com.br WWW.ecologizar.com.br

sábado, 22 de novembro de 2008

Homo ecologicus

Por favor se comentar deixe um email para contato.

Por Maurício Andrés Ribeiro (*)

“Precisamos reinventar o humano no nível da espécie porque os temas com que estamos envolvidos parecem estar além da competência de nossas tradições culturais atuais, individual ou coletivamente.”

Thomas Berry, em The Great Work


A ciência classifica famílias, gêneros e espécies por suas características biológicas e lhes dá nomes em latim. No caso do ser humano, as propostas de classificação que surgem não se baseiam mais em diferenças biológicas ou genéticas, mas nas qualidades da consciência. A evolução biológica lenta é ultrapassada pela rápida evolução da consciência.

Nossa espécie de homo sapiens sapiens tem capacidade de auto-reflexão e de autoconhecimento.

Quais as imagens e percepções que temos de nós mesmos? Há uma diversidade e infinidade delas, cada qual realçando um aspecto ou característica de nossa consciência e atitude. Fomos designados como homo demens (“O homem é esse animal louco cuja loucura inventou a razão”, disse Cornelius Castoriadis); como o homo moralis, um primata que coopera; o homo sportivus e o homo ludens, pelas características lúdicas, que compartilha com outros animais que jogam e gostam de brincar e fazer humor (Johan Huizinga); o homo bellicus por seu caráter guerreiro; ao desenvolver a tecnologia e a economia somos os homo tecnocraticus e o homo economicus, espécie composta de um conjunto de indivíduos egoístas em busca de gratificação pessoal e acumulação material.

Edgar Morin fala do homo complexus, que lida com a complexidade. Hoje podemos nos ver também como os homo lixus, a única espécie animal que produz lixo: dois milhões de toneladas por dia. E ainda como o homo stressatus, o homem estressado moderno, com as conseqüências que isso traz à sua saúde, ansioso, com medo e preocupado com o futuro e com ameaças reais ou imaginárias.

Ao ocuparmos todo o planeta, nos vemos como homo planetaris; ao viajarmos no espaço, somos os homo cosmicus.

O biólogo Edward O. Wilson assim descreve o homo proteus: “Cultural, flexível, com vasto potencial. Conectado e dirigido pela informação. Move-se, adapta-se, pensa em colonizar o espaço. Lamenta a perda da natureza e espécies, mas esse é o preço do progresso e, de todo modo, isso tem pouco a ver com o futuro”. Alguns transumanistas, que também trabalham com a perspectiva de um ser evolutivo, acenam com o surgimento do homo perfectus que atua por meio do uso ético das tecnologias para estender as capacidades humanas.

A senadora Marina Silva diferencia o homo sapiens global e o local. O Homo sapiens global é refinado, porém vulnerável diante de situações extremas. Do outro lado está “O Homo sapiens local: mais rústico, mais resiliente, mais adaptável à escassez, menos dependente de tecnologia, com conhecimentos associados aos recursos naturais e domínio do saber narrativo: saber escutar, enxergar, fazer. Quem sabe, desse encontro de saberes nesse momento de transição, não estejamos forjando o Homo sustentabilis?”
A pergunta levantada por Marina Silva retoma a questão da transitoriedade da espécie. Se o ser humano é um ser em transição sujeito a uma mutação cultural, de comportamento, como propõe Sri Aurobindo, ele transita em direção a que? Qual será a modalidade de ser que o sucederá?

A atual transformação da consciência é induzida pela necessidade de dar respostas a crises climáticas e ambientais, pela razão e pelo conhecimento científico que proporciona crescente compreensão sobre o funcionamento do cosmos e da vida.

A percepção de que somos um ser em transição se encontra presente na internet, onde há mais de 3000 menções ao homo ecologicus. Como podemos definir as principais características desse ser emergente e que ainda dá seus primeiros passos? As atitudes e ações do homo ecologicus derivam de sua consciência ecológica que, por sua vez, é alimentada pelos conhecimentos dos vários ramos das ciências ecológicas. Ele atua tanto individualmente, em seu cotidiano, como também atua no sentido de que o grupo e a comunidade à qual pertence se organizem ecologicamente. Reconhece a sua co-dependência com a natureza, tem propensão a estabelecer consciência planetária, cósmica, universal; desenvolve a habilidade de desenvolver um respeito fundamental pela Mãe Terra Ele reconhece a inteligência contida no mundo natural e imita os processos naturais em suas tecnologias e práticas.

O homo ecologicus se caracteriza pelo comportamento de respeito à natureza e à biodiversidade; protege o meio ambiente e o valoriza em suas ações cotidianas, atuando em projetos de sustentabilidade e tornando-se agente de mudança ecologizada.

(*) Autor de Ecologizar, de Tesouros da Índia e de Ecologizando a cidade e o planeta www.ecologizar.com.br

mandrib@uol.com.br

terça-feira, 11 de novembro de 2008

O mito da sustentabilidade

Por favor se comentar deixe um email para contato.

Maurício Andrés Ribeiro

Atualmente, múltiplas empresas genuinamente procuram praticar a sustentabilidade, em lugar de se bastarem em fazer o que se pode chamar de maquiagem ou marketing ecológico. Elas são expressões legítimas da decência empresarial. De uma ou de outra forma, essas empresas e organizações fazem sua tarefa. Desenvolveram métodos de ação, indicadores, relatórios de sustentabilidade que englobam o desempenho econômico, ambiental e social; as práticas de trabalho decente; de respeito aos direitos humanos e de responsabilidade por seu produto. Em direção à sustentabilidade, empresas adotam a ecoeficiência e meios de produção limpos, com a redução de desperdícios de materiais e de energia, novo design de produtos e de processos.

Há, também, esforços por parte das pessoas que adotam práticas de vida frugais, como a simplicidade voluntária e a austeridade feliz, buscando novas formas de se organizar em sociedade. Vemos hoje um número crescente de iniciativas no sentido da adoção de práticas sustentáveis na vida pessoal, empresarial, das organizações, da sociedade. Para cada lado que se olhe, enxergamos ou ouvimos dizer da existência de tais iniciativas.

Todas essas práticas são ações importantes, necessárias. São, porém, insuficientes.

Precisamos ir além e ver o resultado destas iniciativas, no conjunto.

Essa necessidade de uma visão holística exige tomar distância, à maneira dos astronautas que, ao se afastarem da Terra, puderam vê-la como uma unidade, fotografá-la e trazer essa imagem para influir na consciência da humanidade. O distanciamento analítico e crítico permitem enxergar a floresta na qual se situam as árvores específicas das práticas de sustentabilidade em empresas e organizações.

Se nos colocarmos num ângulo de perspectiva mais amplo, cuja questão central seja manter a saúde de nosso planeta Gaia, emergem questões interessantes, que se ocultam se permanecemos num ângulo mais restrito de visão. Significa que podemos e devemos nos exercitar e aplicar as práticas e os indicadores de sustentabilidade a unidades maiores – sociedades, estados nacionais, culturas, civilizações, ao planeta; ter visão holística ou global da sustentabilidade e não apenas uma perspectiva individual ou local, com foco em uma empresa, organização, unidade de produção. Os ganhos de eficiência e de produtividade no nível de uma unidade empresarial podem vir a ser rapidamente neutralizados pelo aumento do consumo e da demanda coletiva, o que leva a resultados negativos em termos de pressão sobre a já limitada biocapacidade do planeta. Os ganhos no nível micro não necessariamente se traduzem em ganhos no nível mais amplo, podendo inclusive ocorrer o contrário, caso não se adotem práticas sustentáveis específicas e direcionadas para esses patamares mais amplos, que atingem até a escala da espécie humana e do planeta.

E o que significa a sustentabilidade na escala macro, do planeta, e não apenas de países, empresas, organizações ou indivíduos?

Essa questão é desafiadora.

O todo é mais do que a soma de suas partes. Ainda que cada parte se comportasse exemplarmente, isso não garantiria a sustentabilidade do todo. Refletindo sobre a escala do planeta, e tendo em vista a gravidade da crise climática James Lovelock, o criador da teoria Gaia, afirma provocativamente que “É tarde demais para o desenvolvimento sustentável; precisamos é de uma retirada sustentável.” E completa com ênfase: “Esperar que o desenvolvimento sustentável ou a confiança em deixar as coisas como estão sejam políticas viáveis é como esperar que uma vítima de câncer do pulmão seja curada parando de fumar.”

A sustentabilidade tornou-se um mito. O mito não necessariamente tem a conotação negativa ou pejorativa que o senso comum usualmente lhe atribui. Como demonstrou Joseph Campbell em O Poder do Mito, este tem uma função catalisadora, de unificação de uma cultura, civilização ou sociedade. Um mito também pode unificar pessoas e grupos em torno de idéias e ideais comuns, e nesse sentido o mito da sustentabilidade tem função positiva e prospectiva. A sustentabilidade tem então sido uma dessas referências que permite conceber e colocar em prática metas comuns. O que quer que signifique especificamente para este ou aquele grupo social, tornou-se uma referência produtora de agregação de atitudes de indivíduos, organizações, governos, empresas, nações. Nesse sentido, a sustentabilidade está se tornando um mito unificador, produtor de convergências, como se, ao menos idealmente, todos quisessem ou achassem desejável fazer mais com menos, num contexto de maior justiça social.

Maurício Andrés, autor dos livros Ecologizar; Tesouros da Índia; Ecologizando a cidade e o planeta. www.ecologizar.com.br mandrib@uol.com.br

Colaboradores