segunda-feira, 30 de junho de 2008

Mais uma pérola do besteirol do Professor Pardal...

O Brasil é grande, mas o mundo é pequeno
Eduardo Viveiros de Castro
(original pode ser lido aqui)
Ao contrário do que disse o Ministro Extraordinário de Assuntos Estratégicos, Roberto Mangabeira Unger, a Amazônia não é uma “coleção de árvores”. Estas existem nos hortos botânicos e nos jardins de palácios. A Amazônia é um ecossistema, uma floresta composta de árvores e uma infinidade de outras espécies vivas — inclusive seres humanos, que lá estão há pelo menos quinze mil anos.

A Amazônia jamais foi um vazio humano antes da invasão européia; ao contrário, seu nadir demográfico foi alcançado após a invasão, com suas epidemias, seus massacres metódicos, seus descimentos forçados das populações nativas para fixação em missões e feitorias. E as populações indígenas encontraram, ao longo destes milênios de co-adaptação com o ecossistema amazônico (ou ecossistemas - pois a Amazônia não é uma só, mas muitas), soluções de “sustentabilidade” infinitamente superiores aos processos truculentos e míopes de desmatamento com correntes, desfolhantes, motosserras e assim por diante. A floresta amazônica sempre foi povoada, e nunca foi, ou não é há muitos séculos, milênios talvez, “virgem” — a maioria das espécies úteis da floresta proliferou diferencialmente em função das técnicas indígenas de aproveitamento do território e de seus recursos. Mas do fato da floresta não ser mais virgem não se segue que seja legítimo estuprá-la. Pois é exatamente isso que se está fazendo.

A Amazônia está sim sofrendo um violento processo de agressão — e digo a Amazônia, não a tal coleção de árvores — a Amazônia inteira, suas populações tradicionais e suas miríades de espécies vivas. Um novo modelo de desenvolvimento, como tem sido reiteradamente pregado para o Brasil, , um que não seja a imitação simplória das receitas norte-européias, precisa ser um modelo que ponha a floresta no centro da equação — pois chegou-se a um momento da história do planeta onde a vida é o valor em crise — a vida humana e não-humana. Não é mais possível fazer política sem levar em consideração o quadro último em que toda política real é feita, o quadro da imanência terrestre.

Usei a palavra imanência deliberadamente aqui. O ministro Mangabeira Unger falou em entrevista recente que o destino do homem é ser “grande, divino; não é ser uma criança aprisionada em um paraíso verde”; e que “todas as pessoas são espíritos que desejam transcender”. Os índios concordariam com o senhor de que todas as pessoas são espíritos; talvez não concordassem com a idéia de que só os seres humanos são pessoas, mas este é um outro problema. Com certeza, porém, não concordariam com a idéia de que todos os espíritos ou pessoas “desejam transcender”. Esta é uma afirmação que soaria aos ouvidos indígenas inquietantemente parecida com aquela que eles vieram ouvindo com tanta insistência durante os cinco séculos desde a chegada dos europeus — a afirmação de que eles são crianças que precisam ouvir a mensagem divina da transcendência para se tornarem seres humanos plenos, a saber, cristãos e bons cidadãos (i.e. com muita fé e nenhuma terra). Estou falando, naturalmente, da conversão e da catequese forçadas, às quais se juntaram, naturalmente também, a sujeição econômica e política dos povos indígenas e uma história de etnocídio.

Os índios não estão “aprisionados em um paraíso verde” como disse o ministro. A Amazônia não é um paraíso; ao contrário, é uma laboriosa construção co-adaptativa, um sistema em equilíbrio dinâmico onde entraram a engenhosidade técnica humana (indígena) e as infinitas engenhosidades naturais das espécies que ocupam a região. E os índios não estão aprisionados lá.

A idéia de que as populações indígenas precisam ser “liberadas”, que Mangabeira Unger expôs em certo texto recente, parece-me visceralmente equivocada. Os índios que sofrem de depressão, suicídio, alcoolismo, são justamente os índios que não dispõem de terras. Os índios do MS, por exemplo. Não os índios da Amazônia como os Yanomami, povo forte e feliz, justamente por gozar de um território à medida de suas necessidades vitais e espirituais.

As áreas indígenas da Amazônia são as áreas menos desmatadas, são elas que detêm a devastação nas fronteiras do país; e elas são peça essencial no processo de regularização ou estabilização jurídica da situação fundiária caótica que é a Amazônia, o paraíso da grilagem, da pistolagem, do narcotráfico, do contrabando e do subsídio. A Amazônia tem hoje cerca de 20% de seu território desmatado — nas áreas indígenas, é menos de 1%. Em Rondônia, a situação é catastrófica. Em Roraima, o que temos são arrivistas (arrozeiros) vindos do Sul surfando na onda da ditadura (integrar para não entregar), que sustentam um sistema político local baseado na corrupção generalizada e na exploração extensiva de áreas sem nenhuma incorporação significativa de mão de obra. E ainda querem culpar os índios.

O General Heleno levantou uma lebre inexistente, e se fez porta-voz dos interesses mais retrógrados, civilizacionalmente, que hoje cobiçam a Amazônia. E o problema da Amazônia, ou do desenvolvimento da Amazônia, não é a falta de idéias, mas o excesso de interesses — o conflito de interesses, nem todos interessantes para o país. A posição do governador de Mato Grosso, que conjuga de maneira eticamente miraculosa (meu primeiro eufemismo do dia) o papel de representante de um Estado da federação, seu maior agente econômico e seu principal devastador ecológico, é repugnante, sob todos os títulos.

Naturalmente, os índios sofrem de vários problemas, muitos deles causados pela incúria dos órgãos e agências de estado que deveriam fazer respeitar seus direitos constitucionais. Mas também não se pode negar que os índios conhecem outras dificuldades de adaptação às formas socioeconômicas (e espirituais) da sociedade nacional. Não porque lhes faltem oportunidades (ainda que lhes faltem, em muitos casos), mas porque suas culturas e sociedades escolheram desde muito cedo na história um caminho civilizacional radicalmente distinto do nosso — o que chamei de via da imanência em lugar de via da transcendência. As culturas indígenas não estão fundadas no princípio de que a essência do ser humano é o desejo e a necessidade. Seu modo de vida, seu “sistema” de vida, no sentido mais radical possível, é outro. Os índios não rezam pelo sistema econômico-teológico ocidental que consiste em tirar das pessoas o que elas têm e fazê-las desejar o que não têm – sempre. Outro nome desse princípio é ”capitalismo”, ou “desenvolvimento econômico”. Esta é a teologia bíblica da falta e da queda, da insaciabilidade infinita do desejo humano perante os meios materiais finitos de satisfazê-los.

O desenvolvimento é sempre suposto ser uma necessidade antropológica, exatamente porque ele supõe uma antropologia da necessidade: a infinitude subjetiva do homem – seus desejos insaciáveis – em insolúvel contradição com a finitude objetiva do ambiente – a escassez dos recursos. Estamos no coração da economia teológica do Ocidente, como tão bem mostrou Marshal Sahlins; na verdade, na origem de nossa teologia econômica do “desenvolvimento”. Mas essa concepção econômico-teológica da necessidade é, em todos os sentidos, desnecessária. O que precisamos é de um conceito de suficiência, não de necessidade. Contra a teologia da necessidade, uma pragmática da suficiência. Contra a aceleração do crescimento, a aceleração das transferências de riqueza, ou circulação livre das diferenças; contra a teoria economicista do desenvolvimento necessário, a cosmo-pragmática da ação suficiente.

Os índios são os senhores da imanência. Que transcendência temos nós, os orgulhosos brasileiros - supostos representantes da Razão e da Modernidade - a oferecer a eles, neste desanimador começo de século? É mais fácil os índios nos libertarem que nós irmos libertar a eles. Pelo menos em espírito.

Mercado Aberto - Polêmica sobre hidrelétrica chega à Espanha

Folha de S. Paulo
26/6/2008

Um representante das comunidades ribeirinhas do rio Madeira conseguiu "furar" a reunião anual do conselho de acionistas do Santander, na Espanha, no fim de semana passado, para fazer denúncia contra o licenciamento da usina hidrelétrica de Santo Antônio.

O espanhol Santander participa do consórcio vencedor que construirá as usinas e responde por 20% do financiamento das obras, orçadas em US$ 9 bilhões. Na reunião, a RedeBrasil, ONG presidida por Luis Novoa Garzon, professor da Universidade Federal de Rondônia, diz ter conseguido que Emilio Botín, presidente mundial do Santander, montasse uma equipe para avaliar as denúncias. Segundo Garzon, no projeto, o consórcio vencedor subestimou as indenizações e reduziu o total de famílias afetadas pela inundação para construção da barragem de 3.000 para 760.
Marcos Madureira, diretor de comunicação do Santander para a América Latina, afirma que o banco irá apurar as denúncias feitas por Garzon. "O Santander jamais permitirá que aconteça algo fora dos parâmetros legais," diz. "O banco se comprometeu a analisar essas questões."

Garzon também diz que o consórcio estaria fazendo pressão para que as famílias aceitem as indenizações. "Querem chegar ao Ibama com os acordos fechados para acelerar a liberação da licença de instalação da usina", diz Garzon. "O processo de licenciamento ambiental está sub judice e uma articulação desse tipo poderia direcionar as investigações."

A participação de Garzon no encontro anual se deveu a uma manobra entre acionistas do Santander que pressionam o banco a adotar uma posição socioambiental correta. Para isso, cederam seu direito a voz. O objetivo é não só forçar o banco a assinar os Princípios do Equador (que obrigam instituições financeiras a só liberar financiamentos a projetos ecologicamente responsáveis) como criar entre os acionistas uma consciência ambiental. Essa posição se reforçou com a compra do ABNAmro Real, que obedece a padrões da sustentabilidade. Com a aquisição, ainda não está clara qual será a política predominante, especialmente no Brasil. Em resposta, o Santander diz ter uma política socioambiental rígida.

O ABN tornou-se conhecido por ter uma das políticas mais rigorosas na concessão de crédito, recusando financiamentos a grupos cujos projetos apresentam problemas nos licenciamentos ambientais.

Os acionistas espanhóis teriam se surpreendido com as notícias, segundo Garzon. As intervenções dos ambientalistas estão na ata da reunião e Botín pediu ao secretário do conselho, Ignacio Benjumea, que separasse as posições de ONGs das considerações dos acionistas que levantam polêmicas sobre impactos do projeto.

sábado, 28 de junho de 2008

Mudar a métrica sem mudar os valores

Publicado no site Eco-Financas em 13/06/2008

Charles Darwin escreveu que nada diferencia o ser humano dos demais animais e apesar disso ser óbvio apenas comparando a morfologia quase idêntica de todos os seres vivos, precisamos do estudo do gene para descobrirmos estupefatos que apenas um número reduzidíssimo de genes nos diferencia de um rato ou um macaco ou qualquer outro bicho. A mesma história se aplica à economia, demorou tempo demais a percepção que o PIB não serve para analisar a situação social e ambiental dos países. A questão da métrica, filha de todos os erros, vem sendo discutida de várias maneiras e com várias propostas de revisão há vários anos. Todo mundo agora sabe que o PIB é uma métrica errada, que só agrava problemas ambientais e sociais, apenas porque os ignora. Qualquer medida sensata de bem estar social mostra que há um disparate enorme entre felicidade e bem estar humano com o crescimento do PIB.

Por exemplo, apesar do crescimento econômico retumbante de muitos países, vários indicadores mostraram deterioração, como por exemplo, o percentual de pessoas que se consideram felizes, o percentual da população masculina encarcerada, suicídios, abandono das escolas, mortalidade infantil, alcoolismo, abrangência dos planos de saúde, idosos em pobreza, doenças, acidentes de trânsito, etc. Ficou bastante claro que os indicadores de saúde social progridem junto com o crescimento econômico até certo ponto, a partir do qual decaem notoriamente. E não estamos falando de países em desenvolvimento, e sim dos países ricos que nos servem de modelo.

Apesar dessa constatação, chocante para muitos, os países atrasados copiam o modelo econômico e tecnológico atual dos países ricos, que é extremamente concentrador de renda e de riqueza. De acordo com o News Economic Foundation de Londres, de cada 160 dólares adicionados a riqueza mundial per capita, apenas 60 centavos chegam aos mais pobres. Ao copiar esse modelo não vamos observar nem a fase na qual a correlação entre bem estar e crescimento pode existir. Na verdade, vamos entrar direto na fase atual dos países ricos, no qual o crescimento econômico não entrega as tão prometidas benesses sociais, como também (e não menos importante) dilacera as condições planetárias de sustentação de todas as formas de vida.

Nada poderia ser mais dramático que isso. Mas existe um algo mais, sempre. Os países ricos, nossa miragem atual, só conseguiram atingir o seu atual nível de progresso acumulado e de crescimento de fluxos (PIB) porque fizeram isso sozinhos. A partir do momento que todos seguirem pela mesma rota, isso não será mais planetariamente possível e essa escolha da humanidade só poderá terminar em uma das duas opções a seguir: colapso planetário ou guerra seguido de colapso planetário. Adicionalmente, os países ricos e os muito populosos como a China, só conseguiram escamotear o colapso ambiental local que atingiram com seu enorme progresso ou populações, através da crescente importação de bens e serviços, que não só lhes dá o suprimento necessário de recursos naturais, como também lhes economiza água, solo, serviços ecológicos às custas de outros lugares. Claro que tudo isso também à custo zero, uma vez que nosso sistema de valores - e a teoria econômica tradicional até os dias de hoje - não inclui o custo ecológico nas suas análises.

A sociedade e o seu equilíbrio com o planeta e os demais seres vivos estão sendo completamente desmantelados pelo nosso sistema econômico. A métrica PIB faz parte dessa dinâmica suicida e destruidora e também impede que esse modelo mental e a teoria econômica equivocada sejam corrigidos. Por essa razão, temos várias iniciativas para mudar a métrica: o Índice Canadense de Bem-estar (CIW), o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU, o Índice de riqueza do Banco Mundial, o Índice do Progresso Genuíno (GPI), o Índice de Felicidade Nacional do Butão (GNH) e os Indicadores de Qualidade de Vida Calvert-Henderson e Índice de Saúde Social da Nordham University, Teoria do Umbral de Max-Neef e outras que desconheço. A mais recente e louvável iniciativa é do presidente francês Nicolas Sarkozy que solicitou a Joseph Stiglitz e Amartian Sen (participou da formulação do IDH na ONU) uma revisão do conceito do PIB como medidor do bem estar social. Apesar dessas iniciativas serem interessantíssimas, porque levantam os erros de análise econômica atual, como por exemplo a mania de crescimento e a mania do PIB, devemos continuar céticos. Tentar mudar a métrica, sem mudar nosso conjunto de valores, sem mudar a teoria econômica tradicional, é como querer tratar um paciente de câncer com aspirinas.

Em suma, inventar uma nova métrica tem sido relativamente fácil, o difícil é usarem-na. O PIB de Kusnetz foi um sucesso e não é à toa, porque ele adere aos interesses atuais e à visão míope da nossa sociedade. Ele se adere a uma falsa convicção humana sobre a sua relação com a natureza, onde nossa enorme vulnerabilidade é ignorada, onde poucas pessoas lembram que o coração de cada um só bate porque tem um ser vivo na Terra que armazena a luz do sol. Sem as abelhas, a comida não chegaria no nosso prato, até isso é esquecido, apesar de todo o aparato moderno, porém insustentável, da agricultura moderna.

Não existe o menor incentivo para mudar a métrica, pois o PIB não subtrai, apenas soma e os prejuízos sociais e ambientais na ladainha dos economistas transformam-se em oportunidades de novos negócios e mais lucros, como se os serviços da natureza pudessem ser substituídos por capital humano, como afirmou Robert Solow. O mais estranho é ouvir falar que precisamos fazer investimentos ambientais, como se eles existissem, mostrando uma ignorância profunda, pois todos os investimentos são ambientais, não existe nada sem o meio ambiente. A ideologia segue inalterada: "nós vamos fazer todos os ambientes necessários para o progresso do povo, mas não se preocupem, iremos também fazer investimentos ambienteis" (!?!). "Precisamos crescer", arrematam.

A iniciativa de Sarkozy é louvável realmente, mas não consigo esquecer a resposta que Joseph Stiglitz deu ao Herman Daly quando foi perguntado sobre os limites do planeta e da teoria econômica que causa a rota de colisão atual. Ele se recusa a aceitar um limite e ainda bem que o Stiglitz já tem certa idade (65 anos) e não vai presenciar o legado que essas idéias estranhas irão deixar na Terra. Herman Daly é que deveria comandar esse projeto, um mentor de um pensamento que inclui uma visão sistêmica de Economia Ecológica, que parte do princípio que precisamos antes de mais nada reformular todo o pensamento econômico, que continua se disseminando na mente dos estudantes como uma fórmula para a humanidade crescer sempre, melhorando sempre, embora isso não seja verdade e seja impossível física e planetariamente. Enquanto a discussão inane da nova métrica continua, perdemos 21 campos de futebol em florestas e biodiversidade a cada minuto. Grande parte dessa perda da natureza é irrecuperável, como alertou Nicholas Georgescu-Roegen quase 40 anos atrás, vaticinando tudo que estamos vivendo hoje e por uma lástima seu alerta foi ignorado por Stiglitz e tantos outros economistas.

A imaginação é mais importante que o conhecimento, escreveu Einstein. No mundo atual o conhecimento é abundante, a imaginação é escassa e o óbvio, por essa razão, é totalmente perdido. A elite precisa parar de querer mudar o mundo, sem antes mudar a si mesma. E temos que parar de achar que temos tempo de sobra para inúmeras elocubrações que nunca ganharam o mundo prático. O mundo prático continua fazendo "business as usual" e a destruição da Amazônia segue a mesma sina das florestas da Europa (99,7% do total destruído) e dos Estados Unidos (99% destruído, dados do World Resource Institute). Mais alarmante nessa cegueira toda é que nos governos Lula e FHC dos últimos 13 anos foi destruído 35% de toda a destruição acumulada da Amazônia, um território perdido quase metade do tamanho da França. Ao final de 2010, teremos 42% da destruição acumulada da Amazônia apenas nos últimos 16 anos, igual ao território do Reino Unido e da França juntos. Grande parte desse território destruído (80 a 90%) terminará em deserto.

Enquanto relatórios robustos vão sendo feitos, esse é o processo que está por trás da crise planetária atual: a cada minuto temos menos natureza disponível para cada vez mais gente. Mudar a métrica faz sentido só após mudar o modelo mental de Sarkozy e Stiglitz e tantos outros. Na prática, tudo deve continuar como no velho ditado francês: quanto mais as coisas mudam, mais elas continuam as mesmas. E o paciente continua sendo tratado com aspirina enquanto o câncer se espalha violentamente pelo mundo. Nada como fazer a humanidade perder cada vez menos chances ao direcionar nossos esforços para bem longe das causas desse desastre: crescimento populacional absoluto contínuo, crescimento econômico exponencial contínuo e uma teoria econômica falsa que os ratifica.


Hugo Penteado Economista com graduação e mestrado pela USP Autor do livro Ecoeconomia - Uma nova abordagem (Ed.Lazuli, 2003) www.nossofuturocomum.blogspot.com

Preocupação com o meio ambiente dos bancos é puro marketing, de acordo com enquete

Direto do site www.eco-financas.org.br, aproveitem e votem!


ENQUETE

As campanhas publicitárias dos bancos sobre sustentabilidade:

Resultados:
Mostram o quanto o setor está engajado na questão 13%
Anunciam boas práticas, mas o setor ainda precisa avançar neste tema 15%
São pura estratégia de comunicação, uma maquiagem verde 71%
Nunca pensei no assunto 1%

Consumo é vilão ambiental, diz antropólogo

Putz, quando Lula vai ouvir quem realmente interessa ???

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25/06/2008 - 11h11

EDUARDO GERAQUE
da Folha de S.Paulo

Para resolver o problema ambiental nº 1 do mundo, a receita do antropólogo Emilio Moran, 61, nascido em Cuba, mas morador dos Estados Unidos desde os 14 anos, chega a ser prosaica. "Temos que aprender a desligar a televisão. Ela é a principal ferramenta do consumismo", afirma o especialista em América Latina, que há mais 30 anos investiga o desenvolvimento humano da Amazônia brasileira.

Apesar de a entrevista ter sido feita em um hotel a meio quarteirão da rua Oscar Freire (o palco das grandes grifes mundiais em São Paulo fora dos shoppings) o entrevistado, com orgulho, comenta: "Esta calça que estou usando eu comprei há 25 anos."

Moran é um acadêmico tradicional e assiste televisão. Na Universidade de Indiana, ele dirige um centro que une a antropologia às mudanças climáticas globais --o agricultor amazônico, por exemplo, segundo uma pesquisa feita pelo grupo, não sabe se proteger contra o El Niño, porque ele não registra essas oscilações naturais ao longo do tempo.

Pobreza amazônica

Se o modelo mundial de desenvolvimento, para o pesquisador, está errado, o da Amazônia idem. "Nos últimos 30 anos, o aumento do PIB da população amazônica subiu menos de 1%. Na região, quem ganha é quem já era rico em São Paulo e no Rio de Janeiro."

O antropólogo, que chegou à floresta no início das obras da rodovia Transamazônica, diz que pouco mudou na região. "Não existe infra-estrutura para o pequeno agricultor. A estrada, por exemplo, não mudou muito, continua ruim. Existe ausência de governo na Amazônia com toda a certeza."

Os grandes produtores, lembra o pesquisador, montam sua própria infra-estrutura e acabam fugindo do problema encontrado pelos menores.

"Falta compromisso com a indústria regional, que poderia valorizar os produtos amazônicos. Daria, por exemplo, para fazer uma fábrica de abacaxi enlatado, ou de suco". São várias opções disponíveis, diz Moran, que trabalha em áreas críticas, como Altamira (PA).

A experiência acumulada no campo, inclusive nos recantos amazônicos, é que leva o antropólogo a afirmar: "O maior problema ambiental do mundo é o consumismo. O mercado ensina egoísmo e o indivíduo cada vez mais está centrado em si mesmo", afirma.

Parte do caminho para sair dessa cilada ambiental, Moran apresenta no livro "Nós e a Natureza" (Editora Senac), lançado anteontem no Brasil. "É um livro mais apaixonado. Experimentei a sensação de ir além dos escritos acadêmicos", diz.

Para reforçar seu ponto de vista, de que o modelo mundial é insustentável, Moran usa exemplos da classe média brasileira e da sociedade americana. Ambas ele conhece bem. No caso nacional, cita a história em que um filho de uma família de classe média do interior de São Paulo comentou com a mãe que eles eram pobres. O motivo era a ausência de uma televisão de plasma na sala, em comparação com a residência do vizinho.

"Subprime" ambiental

"No caso americano, a crise imobiliária é também um problema claro de consumismo", afirma Moran. "O americano, na média, está todo endividado. A maioria paga apenas os juros. Cada um tem uns US$ 20 mil em dívidas só no cartão de crédito". E isso, segundo ele, apenas para querer ter mais e mais. "No caso do mercado imobiliário, por exemplo, muitos fazem a segunda hipoteca [antes de quitar a primeira] para mudar para uma casa maior.

Segundo o antropólogo, enquanto nos anos 1950 a casa de uma família média americana tinha uma vaga na garagem e 140 metros quadrados para seis pessoas, hoje ela tem espaço para três carros e 300 metros quadrados para quatro pessoas.

E os carros, lembra Moran, queimam petróleo cada vez mais em maior quantidade, por causa do tamanho e da potência do motor. "Tenho feito o caminho inverso. Hoje, tenho um carro pequeno e de quatro cilindros", conta o cientista.

Apesar de o quadro ambiental mundial ser dramático, o antropólogo afirma ser otimista e retrata isso em seu novo livro também. "Se não existir esperança, o melhor é pendurar as chuteiras e ir embora."

Para Moran, é o consumidor individual o único que tem poder de ação de fato. "As pessoas podem chegar e dizer "não". Elas podem não consumir mais porque aquilo vai endividá-las e criar pressões [ambientais]".

Além de ensinar os filhos a lerem com um olhar crítico os comerciais, todos deveriam olhar suas gavetas, seus armários, diz ele. "O importante é saber que não se está sozinho. Existem milhões de pessoas no mundo que já não aceitam esse modelo [de desenvolvimento] que nos levará ao colapso."

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Cenário externo & doméstico, um resumo

A crise do setor imobiliário começou em abril de 2006. Até agora sem fim à vista. A crise do subprime começou em fevereiro de 2007. Ambas foram consideradas pelo FED incapazes de abalar a economia e o mercado financeiro. Errou. A relação entre ciclo imobiliário e econômico dos países desenvolvidos é muito estreita para não haver contaminação, isso era apenas uma doença com uma incubação longa, até o sintoma aparecer. Em novembro de 2007 os reguladores obrigaram os bancos a trazer estruturas financeiras fora do balanço para dentro. As perdas foram expressivas, a ponto de meses depois terem revogado a precificação a mercado desses ativos. Por isso em novembro de 2007 começou o abalo dos mercados acionários globais, com perdas acumuladas desde então. O setor imobiliário atingiu a economia de cheio – e vai continuar atingindo – quando em dezembro de 2007, pela primeira vez na história dos EUA, os preços dos imóveis caíram nacionalmente.

A crise econômico-financeira dos EUA rapidamente atingiu a Eurolândia, o Reino Unido e o Japão. A Bovespa ignorou o tremor e é hoje a única bolsa do mundo que acumula ganhos no período de novembro/07 a junho/08. Motivo: nosso trem agora não são os EUA, mas a Chíndia. Apesar da crise dos países desenvolvidos, a Chíndia não mostrou sinais de desaceleração, mantendo demanda alta por commodities, aliadas a restrições de oferta na área do petróleo, papel e celulose, alimentos, mineração e siderurgia. Quase 50% do Ibovespa está ligado a commodities. Apelidamos esse cenário de descolamento parcial, onde a recessão branda nos EUA não produziria uma recessão no mundo. Bom para a bolsa: abril e maio registrou quase 20% de valorização.

Agora tudo mudou: a não desaceleração da Chíndia determina uma dinâmica de crescimento forte do resto da Ásia emergente e da América Latina, que é exportadora líquida de commodities. A Chíndia, por sua vez, é a principal responsável pelo aumento de demanda mundial por commodities e isso explica a inflação global persistente. A reviravolta dos números de inflação foi no mundo todo: acabou o período de crescimento acelerado com inflação moderada. No Brasil, o IPCA, projetado em 4,3% no início do ano, agora está em 6,1% para 2008. IGPM idem, foi revisto de 4,5% para 10%.

A surpresa negativa da inflação global colocou em xeque as políticas monetárias frouxas dos países ricos para socorrer suas economias fragilizadas. Temos agora um cenário apelidado de estagflação falsa, no qual a inflação global manterá commodities em alta no 2S08. O esforço de desinflar as commodities não recairá sobre a Chíndia, países que não têm nem vontade nem instrumento de política eficaz para isso. Esse esforço recairá sobre os países ricos e temos dois cenários possíveis: alta de juros para produzir menor crescimento e demanda por commodities e forçar queda nos preços no 1S09 ou queda da atividade por conta das crises no 2S08, eliminando a necessidade dos bancos centrais dos EUA, Eurolândia e Reino Unido elevarem as taxas. Em qualquer um dos cenários, estamos frente a frente com uma economia global mais fraca e com queda dos preços das commodities. Ruim para bolsa, porque ela deve antecipar?

Finalmente, por falta de espaço, não falei de estagflação verdadeira via choque de oferta clássico e o risco de guerra entre Israel e Irã... fica para a próxima, mas isso é incerteza e mercados não precificam incertezas, bem como questões de longo prazo.

Adeus Amazônia e Cerrado e o debate do etanol...

Esse é um debate extenso. Minha postagem anterior foi sobre os riscos do etanol serem feitos de forma descuidada num país como o nosso, extremamente vulnerável por causa da fragilidade e da nossa dependência em relação a dois biomas, o Cerrado, que todo mundo esquece, e a Amazônia.

Durante os 8 anos do governo FHC e os 5 anos do governo LULA ocorreu 35% de toda destruição acumulada da Amazônia desde o descobrimento em 1500 até 2007. A destruição da Amazônia acelerou 2.985% durante o período FHC+LULA. Agora entra a demanda por alimentos do mundo todo que está vendo mudanças estruturais lado a lado com colapsos ligados a mudança climática e atrasos ecológicos. Adeus Amazônia e Cerrado, não será a primeira vez que a humanidade irá passar fome e passar por um enorme exôdo ambiental por conta de destruições dos biomas. A conquista da agricultura moderna atual tem um preço: o colapso novamente e dessa vez de forma bastante suicida. Não será a primeira vez que um país para se desenvolver terá acabado com suas florestas, Europa (destruiu 99,7%) e Estados Unidos (99%). A difernça entre os países que se desenvolveram antes com esse modelo suicida é que eles fizeram isso sozinhos e quando esgotaram tudo, continuaram importando via comércio global, onde também, o custo ecológico é nulo. Para os economistas uma árvore só tem valor quando derrubada ao chão.

Ricardo Peres, amigo e leitor, deu a seguinte contribuição para o debate que se abre: "Como todos os outros problemas correntes, trata-se de uma questão de escala, e não da cana-de-açúcar em si. A natureza pode e deve ser cultivada, desde que a biodiversidade não seja comprometida. Isso incorre em estratégias modulares, descentralizadas e não lineares de cultivo, onde os biomas podem ser preservados. Ainda, existe um lobby pesado do cartel do petróleo contra o etanol brasileiro que carece de mais atenção e análise mais rigorosa. Se por um lado é verdade que o etanol brasileiro precisa evoluir do ponto de vista socioambiental, por outro lado também é verdade que o etanol de cana é o único substituto viável para uma parte significativa do mercado do petróleo. Esse debate precisa de mais cuidado para que o equilíbrio dos processos seja estabelecido de forma a servir de referência e inspirar as práticas de cultivo sustentável, tanto no Brasil como no exterior. O Brasil já é uma referência tecnológica nesse setor. Agora deve almejar tornar-se a referência ética e sustentável do setor. "
Tudo isso é verdade, mas temos problemas de sustentabilidade apesar disso. O etanol não é gratuito como muitos pensam, brota de três recursos naturais finitos: água, solo e serviços ecológicos. O etanol dentro do modelo de crescimento mental falso dos economistas é apenas uma alavanca na direção do colapso. Pode ser minimamente considerado como uma solução bem paliativa, como uma aspirina para um paciente terminal. O que trouxe o etanol para a viabilidade financeira foi a elevação do custo do petróleo. A extração de petróleo na Alberta e no Alaska, às custas de desastres ambientais homéricos também foi alcançada pelo preço. O sistema de preços funciona assim: quanto mais viável for economicamente, mais inviável é ambientalmente. Nessa regra entra todas as novas formas de extrair petróleo (de areia, do fundo dos oceanos), da retomada do uso do carvão, os biocombustíveis, etc. O sistema de preços não detém o saque plantário e a rota suicida, ao contrário, acelera. É nesse contexto ainda que entrou os biocombustíveis. E o etanol.

Já em relação ao lobby do petróleo, eles não precisam de lobby nenhum, não há substituto para o petróleo até onde a vista alcance. Faltar petróleo também é difícil, não exploramos nem 1% da crosta terrestre. As medidas corretas deveriam ser imediatamente estancar crescimento econômico e populacional, atingir 100% de eficiência na produção, geração e consumo de energia, fazer uso de combustíveis que não carbonizam a terra, como nuclear, biocombustíveis, etc. até acharmos uma tecnologia descentralizada em larga escala a base do hidrogênio ou do sol. Os biocombustíveis e a energia nuclear não são a solução e sim a falta da solução.
A questão de falta de energia no modelo mental dos economistas - que o governo aplaude - é sempre na direção de precisamos produzir mais. No Brasil é ridículo pensarmos em construir usinas, quando podemos aumentar a oferta de energia em 90% apenas com ganhos de eficiência no consumo e com atualização tecnológica das linhas de transmissão e das linhas já existentes. Esse modelo de desenvolvimento de grandes obras é uma das maiores burrices humanas, se é que existe algum exemplo de inteligência em tudo isso que estamos fazendo e que já colocou a vida desse planeta na maior rota de extinção dos últimos 65 milhões de anos. Essa rota é perigosa, esquecemos com isso que todos os seres vivos dependem de todos os seres vivos.
O segundo passo seria acelerar a transformação da produção centralizada em unidades individuais de produção de energia a partir de elementos veiculares (pessoas, carros, bicicletas) e das construções, incluindo moradias. O metrô da Inglaterra vai capturar o calor das pessoas nas estações para sua própria energia. Esse é o lobby maior a ser vencido: os governos têm que trabalhar para desconcentrar a produção de energia que ficam nas mãos de pouquíssimas empresas, desinteressadas em ajudar e mudar, apesar do risco iminente que estamos enfrentando.
O poder de alguns poucos vem do controle da energia e dos alimentos, mas o poder foi feito para servir e não para se servir dele. Uma sociedade humana sem poder está sendo gradativamente destruída, pois as pessoas na vasta maioria perderam sentido de viver, liberdade, bem estar, autonomia e conhecimento. O sistema sem as pessoas - e o meio ambiente - também será destruído. Isso é auto-fágico, espero que a elite iluminada que quer mudar o mundo sem mudar a si mesma, perceba que também faz parte de uma espécie animal ameaçada e que nessa rota, no futuro, não haverão vencedores. Espero que perceba isso a tempo: que o modelo dos países ricos e o modelo dos ricos da nossa sociedade é egoísta, depredador, suicida, anti-social, anti-econômico e precisa ser revisto. Não há sustentabilidade sem simplicidade e solidariedade.
Não dá para se dizer sustentável e ter casas que não usamos, carros que não usamos, bens que não usamos e riqueza que não usamos. Essa é uma questão ampla. O debate ainda não fechou. Espero que feche antes de nos tornarmos uma China totalmente poluída, sem luz do sol e sem céu azul.

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