segunda-feira, 16 de junho de 2008

Adeus Cerrado!!!!

Li certa vez, e isso alguém com mais tempo pode checar, que a existência do aqüífero Guarani depende do Cerrado. Guarani, o maior do mundo, já está bem contaminado, diga-se de passagem, pelos dejetos de uma agricultura moderna absolutamente insustentável, que tantos defendem. Li também - e alguém pode checar - que do Cerrado já foi destruído 57%. Washington Novaes está certíssimo: meio ambiente não é só Amazônia, na verdade é tudo.

Como esse dado é antigo, podemos falar em números maiores que 57%, uma vez que, caro leitor, a destruição da natureza é contínua e quando acordo nesse mundo que eu desacredito, meu primeiro pensamento é: "amanhecemos com menos natureza de novo, hoje."

Enquanto a natureza vai sendo devastada, vários intelectuais ficam chafurdando nas suas vaidades, muitas vezes confundida com cegueiras incomensuráveis, sempre em lugares bonitos, arborizados e protegidíssimos dos seus egos e das suas faculdades mentais, totalmente distantes das necessidades da vida desse planeta e sem proposta alguma viável que dê certo para deter o processo que nessa rota terminará com todos nós.

REPÓRTER ECO -- TV CULTURA/SP
domingo - 15/06/08
Cerrado

Washington Novaes, jornalista, é supervisor geral do Repórter Eco.

É muito preocupante que um dos primeiros atos do novo ministro do Meio Ambiente tenha sido o de excluir os proprietários rurais de 100 municípios do Cerrado onde está sendo mais forte o desmatamento da proibição de receber créditos oficiais, que fora estabelecida por portaria do Banco Central.

A alegação do ministro é de que esses municípios estão fora do bioma amazônico. E fica então a pergunta: quer dizer que no Cerrado pode Desmatar?

Mas onde fica o conhecimento científico de que é muito forte a inter-relação entre os biomas, que um depende do outro? Onde fica a informação de que o Cerrado contribui com parte importante das águas que correm na bacia amazônica? Ou o fato de que um terço da rica biodiversidade brasileira está no Cerrado? Ou ainda a de que 40% das emissões brasileiras que contribuem para mudanças climáticas provêm de queimadas e desmatamentos no Cerrado?

É tudo muito grave, quando se sabe que esse segundo maior bioma brasileiro já perdeu a vegetação em 800 mil quilômetros quadrados e perde mais 22 mil a cada ano. São muito poucos - menos de 5% dos fragmentos totais - os que têm possibilidade de sobreviver, com mais de 2 mil hectares contínuos.

Seria uma ilusão pensar que essa exclusão do Cerrado daquela portaria nada tem a ver com a expansão do plantio da soja e da cana, bem como das pastagens. Ela favorece claramente essa expansão desordenada, que deveria ser submetida a regras claras, como as que têm sido prometidas pelo governo federal mas não acontecem.

E será tudo ainda mais preocupante se se lembrar que o Ministério do Meio Ambiente continua a contar com recursos insignificantes, em torno de meio por cento do orçamento federal. E isso faz com que o Ibama, por exemplo, só tenha 400 fiscais para fiscalizar mais de um milhão e meio de hectares de unidades de conservação, reservas e outras áreas públicas.
Quando é que vamos levar a sério essas coisas?

Washington Novaes, jornalista, é supervisor geral do Repórter Eco. Foi consultor do primeiro relatório nacional sobre biodiversidade. Participou das discussões para a Agenda 21 brasileira. Dirigiu vários documentários, entre eles a série famosa "Xingu" e, mais recentemente, "Primeiro Mundo é Aqui", que destaca a importância dos corredores ecológicos no Brasil.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

ECONOMIA DOS EUA ESTÁ NO LIMIAR DA RECESSÃO


São Paulo, 13 - A economia dos Estados Unidos está no limiar da recessão, disse há pouco o economista-chefe e estrategista do Banco Real Asset Management, Hugo Penteado. No entanto, o foco do Federal Reserve deve se voltar daqui para frente para os riscos de inflação e a autoridade monetária poderá aumentar os juros já no segundo semestre deste ano, salientou o economista.

Os números do índice de preços ao consumidor (CPI) nos Estados Unidos, divulgados hoje, confirmaram a pressão crescente dos preços na economia. O CPI subiu 4,2% em maio ante maio de 2007, o nível mais alto desde janeiro. "A inflação nos Estados Unidos está ligada ao excesso de demanda global por commodities e a inflação das commodities deve continuar", avaliou ao AE Broadcast Ao Vivo.

A demanda por commodities vem principalmente da Ásia. Se China e Índia não desacelerarem o ritmo, os bancos centrais dos países desenvolvidos vão ter que apertar a política monetária. "China e Índia não mostram menor sinal nem de vontade nem de capacidade de desacelerar suas economias. Então, todo o esforço de resolver o problema de inflação global está recaindo sobre os desenvolvidos, como os Estados Unidos", disse. "Se até meados do terceiro trimestre as taxas de inflação continuarem se deteriorando, isso vai exigir uma resposta mais incisiva dos BCs, que levará a uma queda da atividade, o que no caso dos Estados Unidos é preocupante", disse.

Segundo Penteado, atualmente os países desenvolvidos enfrentam inflação alta com atividade fraca, enquanto os emergentes estão com inflação alta e atividade aquecida. Para o economista, a ação dos BCs este ano poderá levar a uma desaceleração da China e Índia no início de 2009, conseqüência de uma menor demanda dos desenvolvidos, que correspondem a 60% das exportações chinesas.

Um crescimento menor para esses dois países, segundo Penteado, seria um PIB em 7% ou 7,5%, "saindo do atual 10%". "A regra de bolso na China é a seguinte: se crescer abaixo de 6% estaria em recessão. A regra de bolso para economia mundial é que crescer abaixo de 3% seria uma recessão mundial As réguas de crescimento variam muito de país", explicou.

Penteado estima que os EUA crescerão 1% este ano e deve rever para abaixo sua projeção atual de PIB em 2% ou 2,5% em 2009, para 1% ou 1,5% por causa do problema inflacionário global.

Penteado acredita que a ajuda fiscal do governo norte-americano, com devolução de impostos aos contribuintes e os efeitos do ciclo de afrouxamento monetário agressivo promovido pelo Fed podem evitar o pior cenário para a economia. "As perspectivas para a economia estão acima da linha d'água, mas os riscos são para baixo".

O economista afirmou que o fim da crise nos Estados Unidos depende do fim da crise no setor imobiliário americano. "Mas o pior da crise imobiliária ainda não chegou e não existe resposta clara sobre o fim dessa crise", comentou.

FOMOS ATROPELADOS POR INFLAÇÃO GLOBAL

São Paulo, 13 - O Brasil tem sido surpreendido negativamente pela inflação, disse hoje o economista-chefe e estrategista do Banco Real Asset Management, Hugo Penteado. "Fomos atropelados pela inflação global. Tivemos uma deterioração aguda do IPCA. Isso cria dificuldade adicional para o BC", disse o economista ao AE Broadcast Ao Vivo.

Segundo ele, a inflação global, via commodities, é um dos argumentos para alta de juros no Brasil e deve afetar ainda mais a economia caso a China desacelere a partir de um aperto monetário nos países desenvolvidos. "O Brasil vai crescer menos, mas não será nada dramático", disse.

Para o economista, o Brasil deverá ter uma expansão de 5% este ano e 4,5% no ano que vem. Mas Penteado admite que por conta das surpresas recentes com a inflação, esse crescimento poderá cair para 3,5% ou 4% em 2009.

Penteado, no entanto, acredita que o BC tem a situação sob controle. "Com a ata divulgada ontem, ficou claro que o BC está satisfeito em manter o ritmo (de alta de juros)", avaliou. Penteado estima que o Copom elevará a Selic em doses de 0,50 ponto porcentual para 14,25%, mas essa aposta tem agora um "viés para cima".

O economista disse ainda que "não vale" no momento a discussão se o Banco Central ficou "atrás da curva" com a decisão de elevar a Selic em 0,50pp na semana passada para 12,25%. "O BC não tem que controlar os preços dos ativos no mercado internacional. A variável de controle da demanda interna, que ele tem enfrentado bem", avaliou.

(Luciana Xavier e Lucinda Pinto)
O áudio com a íntegra da entrevista estará disponível, em instantes, no seguinte endereço:
www.ae.com.br/broadcast/entrevistas

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Ibama multa siderúrgicas em R$ 414 milhões

Comentário:
Só um breve comentário: Minc quer igualar legislação ambiental do Brasil com o dos países desenvolvidos para não continuar essa loucura da gente receber a produção suja deles. Porque é assim que funciona: lá não pode, vamos ver onde pode. Nos portos da China existia uma placa em inglês para todos que chegassem: "Problemas com a legislação ambiental no seu país? Venha para cá." Como se a linha que separa os países realmente existisse e como se estivéssemos ilesos quando tiramos a produção suja da fronteira dos nossos países.

Abaixo vejam texto direto do site do IBAMA:

Brasília (12/06/2008) - Uma operação de cruzamento de dados do Sistema-DOF (Documento de Origem Florestal) identificou um consumo de 800 mil metros cúbicos de carvão ilegal pelas siderúrgicas de Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Espírito Santo somente no ano de 2007.

As multas somam R$ 414,7 milhões aplicadas em 55 siderúrgicas de Minas Gerais, 4 no Mato Grosso do Sul e 1 no Espírito Santo. O volume de carvão vegetal soma 10 mil caminhões carregados, que se enfileirados ocupam 200 km de extensão, equivalente à distância entre Brasília e Goiânia. Além disso, foram aplicados R$ 70 milhões em multas em diversos fornecedores de carvão do Mato Grosso do Sul. No total foram R$ 484,7 milhões.
A operação teve início no Mato Grosso do Sul com a operação Rastro Negro Pantanal onde foram identificados no campo diversos ilícitos ambientais relacionados à exploração de carvão vegetal nativo do Pantanal, com rebatimento direto nas siderúrgicas do Estado de MG e MS. Os dados dessa operação subsidiaram a análise do consumo de carvão vegetal pelas Siderúrgicas dos três Estados envolvidos (Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Espírito Santo).

O Ibama implantou o Documento de Origem Florestal - DOF que é o documento eletrônico de controle do transporte de produtos e subprodutos florestais. Com base nas informações do Sistema-DOF os órgãos de meio ambiente têm acesso à informação sobre o transporte florestal oriundo de florestas nativas em tempo real. O sistema é operado pelos usuários responsáveis pelo transporte da origem ao destino dos produtos e subprodutos florestais e configura a licença válida para acobertamento do transporte e armazenamento dos mesmos.

As informações geradas pelos sistemas de controle eletrônico passaram a subsidiar as ações de fiscalização do transporte de produtos e subprodutos florestais. Além disso, os trabalhos de fiscalização em campo também passaram a direcionar as análises dos dados gerados pelo sistema no intuito de identificar os ilícitos ambientais relacionados à exploração, transporte e consumo de produtos florestais provenientes de exploração ilegal.

O resultado foi obtido a partir de uma parceria entre a Diretoria de Uso Sustentável da Biodiversidade e Florestas do Ibama, da Superintendência do Ibama no Mato Grosso do Sul e do Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais.

O Diretor de Uso Sustentável da Biodiversidade e Florestas do Ibama, Antônio Carlos Hummel, diz que essa é a primeira grande operação de cruzamento de dados do Sistema-DOF. “Estamos colhendo os frutos do esforço de modernização do Ibama. Os resultados são surpreendentes e sugere o cenário futuro de atuação do padrão de fiscalização ambiental. Estamos responsabilizando a cadeia produtiva e a sociedade de estar ciente que boa parte do carvão utilizado na produção do ferro e aço do País vem do desmatamento ilegal, principalmente do Pantanal e Cerrado”.

O diretor de Proteção Ambiental, Flavio Montiel, disse que o uso do Sistema DOF é o perfil da fiscalização ambiental do futuro, em que os sistemas eletrônicos trabalham para aumentar e tornar mais eficaz a capacidade de controle de crimes ambientais. Ele observa que o apurado pelo Sistema DOF é apenas a ponta do iceberg de um passivo ambiental. “O Ibama está fazendo levantamento também na origem”, diz Montiel.

Segundo o analista ambiental do Ibama Ignacio Santos, que participou ativamente da operação, os principais ilícitos observados no mercado carvoeiro são “transporte de carvão com volume de carga superior ao acobertado pelo documento de transporte, exploração ilegal de carvão em áreas não autorizadas, transporte utilizando um mesmo documento de transporte mais de uma vez, declaração falsa sobre importação de carvão vegetal pelos países vizinhos, não cumprimento da reposição florestal por parte das indústrias siderúrgicas, falsificação de documentos e fabricação de carvão vegetal sem licença ambiental válida”.

De acordo com o Coordenador-Geral de Recursos Florestais do Ibama, José Humberto Chaves, a metodologia adotada se mostrou extremamente eficiente e de baixíssimo custo. “É possível comprovar na análise alguns fatos detectados nas fiscalizações de campo. Um exemplo disso é o transporte de carvão com volume da carga superior ao volume declarado no documento de transporte. Essa prática é muito comum, pois mantém o saldo na origem para acobertar novos transportes e reduz o volume de reposição florestal a ser cumprida. Prova disso é que, no ano de 2007, uma das empresas adquiriu uma única carga de carvão vegetal nativo e o cruzamento dos dados apontou uma diferença de 21 MDC recebidos sem cobertura”.

Para Hummel, o levantamento está apenas começando. “Os dados terão desdobramentos com a exigência do cumprimento da Reposição Florestal. São cerca de 10 mil hectares de florestas que deixaram de ser plantadas e que o Ibama vai exigir o plantio. Outras multas poderão ser aplicadas aos fornecedores de carvão”.

Para o Coordenador de Monitoramento e Controle Florestal do Ibama, Carlos Fabiano Cardoso, o Sistema-DOF permitiu identificar irregularidades nos mais diversos biomas, principalmente no Pantanal. “Identificamos informações falsas sobre importação de cavão vegetal do Paraguai. O dado refere-se apenas ao ano de 2007 e os novos sistemas de controle permitiram qualificar e quantificar a real dimensão das irregularidades do setor siderúrgico. Depreende-se da análise que essas irregularidades perduram há décadas, quando não havia ferramentas que possibilitassem explicitar a real magnitude dos ilícitos. Com esse olho eletrônico os predadores e criminosos ambientais que se cuidem”, avisa.
José Humberto Chaves
DBFLO/Ibama

AMBIENTE: MINISTRO DIZ QUE PADRONIZARÁ EMISSÃO DE POLUENTES

Publicado na Folha de São Paulo:

O ministro Carlos Minc (Meio Ambiente) disse que é preciso endurecer as regras de emissão de poluentes das indústrias no país. E afirmou que vai enviar ao Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) uma proposta para tornar os padrões de emissões atmosféricas mais rigorosos. O anúncio foi feito durante um evento na Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), anteontem. "Os padrões nacionais são menos exigentes do que os padrões europeus, o que significa que lá as indústrias se modernizam, e a tecnologia mais suja vem para os nossos países", afirmou.

Comentário:

Esse é um soco no estômago da elite iluminada que pretende mudar o mundo (ai a arrogância sempiterna...), sem mudar a si mesma. Avisa à celebridade Gisele Bünchen e seu blog de sustentabilidade, que ela precisa primeiro mudar a si mesmo e se redimir de ter feito campanha de casaco de peles, entrando de sola agora na campanha contra casaco de peles, se é que ela realmente gosta dos animais e abomina a idéia deles perderem suas peles vivos para se produzir um luxo desnecessário, como os diamantes que agora ela coleciona...

Enfim, o ministro Minc está saindo melhor que a encomenda, basta lembrar que os Estados Unidos transferiram a produção de termoelétricas para Citlali no México. Isso é realmente muito comum, siderurgias e tudo quanto é badulaque poluidor descendo para as praias brasileiras e as maiores personalidades ainda comemoram.

São tempos de barbárie total, os canibais não encontram resistência alguma, ao contrário, recebemos eles de braços abertos.
Falta computar o quanto de água, equilíbrios ecológicos e recursos naturais locais os países ricos e os acelerados, como a China, economizam a custo zero via suas importações. Outra equação que nunca é resolvida, os custos ambientais do fornecimento de bens com uma produção que para o Brasil tem um custo ambiental gigante, um efeito social negativo e cuja produção, para piorar, sob qualquer ponto de vista, é totalmente desnecessária. E ainda comemoramos.

terça-feira, 10 de junho de 2008

"O PIB saiu de moda"

Por Hazel Henderson*

A credibilidade da profissão de economista e de seus modelos macroeconômicos e de análise de risco virou pó devido à débâcle financeira guiada por Wall Street. Muitos analistas vêem esta crise, a pior desde a Segunda Guerra Mundial, como o princípio do fim do fundamentalismo do mercado como condutor da globalização. Também fica evidente o fato de que os Estados Unidos não são mais a única superpotência mundial. A força militar está retrocedendo diante de novas armas utilizadas na geopolítica atual: o dinheiro e os ataques cibernéticos. Inclusive o secretário do Tesouro norte-americano, Henry Paulson, agora pede a regulamentação dos temerários e arriscados bancos privados.

Entretanto, estão emergindo as longamente borbulhantes críticas ao emprego do produto interno bruto (PIB) como indicador das contas nacionais. Essas críticas generalizadas foram resumidas por Robert F. Kennedy em um discurso pronunciado em 1968. Até mesmo o criador do PIB, Simon Kuznets, questionou seu uso como indicador geral do bem-estar ao dizer que "o bem-estar de uma nação apenas pode ser definido a partir de uma medida da renda nacional".

As falhas no PIB começaram a surgir na Cúpula da Terra da Organização das Nações Unidas (ONU) no Rio de Janeiro, em 1992, e também ficaram evidentes na conferência do Parlamento Europeu sobre o tema "Considerando a natureza", em 1995. Em novembro de 2007, o Parlamento Europeu abordou novamente o assunto e o presidente da União Européia, José Manuel Barroso, deu a tônica em um debate sobre o tema "Mais além do PIB" perante quase 700 parlamentares.

A revista The Economist interveio no debate com o artigo "Um quadro extremamente distorcido", no qual crítica a extensa atenção dada ao crescimento do PIB. Este "fetiche do crescimento" tem sido há tempos objeto de inúmeras críticas, mas ver que essa revista, representante da ortodoxia econômica, critica agora a utilização do crescimento do PIB como indicador válido das contas nacionais é um sinal muito importante. O artigo afirmava que uma melhor medição dos índices de crescimento do PIB seria comparar o produto per capita, um sinal de progresso muito mais tangível do que considerar o aumento da população.

Por exemplo, o crescimento do PIB do Japão foi cerca de 2,1% durante os últimos cinco anos, enquanto o PIB dos Estados Unidos aumentou 2,9%. Entretanto, comprando o crescimento médio per capita entre os dois países, surge uma história diferente: os Estados Unidos mostram apenas 1,9% de crescimento, contra 2,1% dos cidadãos japoneses. A renda média per capita do Japão também é maior porque a população japonesa está diminuindo, enquanto a dos Estados Unidos está aumentando. Por sua vez, a Índia desfruta de um rápido crescimento de seu PIB, mas sua população também aumentou rapidamente, o que faz com que mais pessoas devam compartilhar dessa renda.

Mas, também se deve assinalar que o uso da média per capita da renda mascara o modo de distribuição da renda. A média de renda de toda a população pode ocultar, por exemplo, que um país poderia ter uns poucos multimilionários com a maioria de seus cidadãos vivendo na pobreza.

Concordemos que o PIB sobreviveu muito tempo à sua utilidade (começou como medida da produção bélica utilizada na Segunda Guerra Mundial). Agora há melhores indicadores, como o Índice Canadense de Bem-estar (CIW), o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU, o Índice de riqueza do Banco Mundial, o Índice do Progresso Genuíno (GPI), o Índice de Felicidade Nacional do Butão (GNH) e os Indicadores de Qualidade de Vida Calvert-Henderson, que criei com o Grupo Calvert de fundos mútuos socialmente responsáveis.

A verdadeira riqueza e o progresso das nações não podem ser quantificados apenas em dinheiro. Os manuais econômicos estão atrasados e devem ser revistos.

MINC: COMBATE AO DESMATAMENTO ENGLOBARÁ TAMBÉM A CADEIA PRODUTIVA

Broadcast – 10/06/2008
São Paulo, 10 - Entrevistado do Roda Viva, da TV Cultura, o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, anunciou que, a partir de 15 de junho, as grandes empresas do País - ele enfatizou frigoríficos, siderúrgicas, madeireiras e indústria alimentícia - terão de informar quais são os seus fornecedores. "As empresas serão co-responsabilizadas pelos crimes ambientais cometidos pelos seus fornecedores e arcarão com as penas da lei", disse. Para Minc, é hora de "controlar" a cadeia produtiva. Além disso, segundo o ministro, o governo está fazendo alterações na operação Arco de Fogo, que desde março combate a exploração ilegal de madeira na Amazônia.

Para Minc, a Amazônia não é apropriada para a expansão do cultivo de cana-de-açúcar para a produção de etanol, nem de soja para biocombustível. "Temos suficiente área já desmatada em outros Estados do País para implantar e dinamizar a produtividade dessas culturas. Devemos buscar a preservação da maior área possível da floresta."

O ministro disse que o governo não tratará todas as empresas sediadas na Amazônia indiscriminadamente. "Quem for sério e respeitar as regras será igualmente respeitado. O que faremos é fazer valer a lei", garantiu.

Uma nova métrica no lugar do PIB, será?

A questão da métrica, filha de todos os erros, é comentada a seguir por mim, logo depois de ter lido o excelente artigo do professor José Eli da Veiga, publicado no Valor de hoje e divulgado logo abaixo.
Mudando a métrica...

Sobre mudar a métrica, continuo cético, sem uma mudança de modelo mental, de conjunto de valores, duvido que a métrica seja utilizada. Podem inventar o que for, já temos o trabalho da Nordham University, a teoria do umbral, os trabalhos do NEF, é mais do mesmo dizer que o PIB e as questões sociais e ambientais andam na direção contrária. O sistema não enxerga isso por interesse próprio. Isso cheira a uma elite iluminada que pretende mudar o mundo sem mudar a si mesma.

Inventar a métrica é fácil, o difícil é usarem-na. O PIB de Kusnetz foi um sucesso e não é à toa, porque ele só soma. Os prejuízos sociais e ambientais na ladainha do "mainstream" transformam-se em oportunidades de novos negócios e mais lucros, como se os serviços da natureza pudessem ser replicados sempre por novas tecnologias. Como se investimentos ambientais existissem, sem saber que todos os investimentos são ambientais, não existe nada sem o meio ambiente. E o mais importante, sem reconhecer nossa total dependência em relação à natureza, herança ocidental difícil de ser quebrada.

Não consigo esquecer a resposta que Joseph Stiglitz deu ao Herman Daly quando foi perguntado sobre os limites do planeta e da teoria econômica que causa a rota de colisão atual. Ainda bem que o Stiglitz já tem certa idade e não vai presenciar o legado que essas idéias estranhas irão deixar na Terra. Herman Daly é que deveria comandar esse projeto, mas ele cansou até da matematicização desumanizadora da Revista de Economia Ecológica. Onde está o ponto principal da análise? Por quanto tempo essa discussão inane irá continuar, enquanto perdemos 21 campos de futebol em florestas e biodiversidade a cada minuto?

A imaginação é mais importante que o conhecimento, escreveu Einstein. No mundo atual o conhecimento é abundante, a imaginação é escassa e o óbvio, por essa razão, é totalmente perdido. A elite iluminada precisa parar de querer mudar o mundo, sem antes mudar a si mesma. E temos que parar de achar que temos tempo de sobra para inúmeras elocubrações que nunca ganharam o mundo prático. O mundo prático continua fazendo "business as usual" e a destruição da Amazônia segue a mesma sina das florestas da Europa (99,7% destruído) e dos Estados Unidos (99% destruído). Mais alarmante nessa cegueira toda é que nos governos Lula e FHC dos últimos 13 anos foi destruído 33,4% de toda a destruição acumulada da Amazônia, um território perdido dois terços do tamanho da França. Até o final do segundo mandato do atual mandato, somando tudo, teremos quase 50% da destruição acumulada da Amazônia tendo ocorrido em apenas 16 anos.

Assim caminha a humanidade
VALOR 10/06/2008
Erraram feio os que fizeram pouco da iniciativa do presidentefrancês Nicolas Sarkozy de solicitar à dupla Stiglitz-Sen uma revisão dos "limites do PIB como critério de medida dodesempenho econômico e do bem-estar". Ou melhor, da "mensuração do desempenho econômico e do progressosocial", conforme acabou ficando o título oficial da força-tarefa que está sendo chamada de "Comissão Stiglitz". Apóslongos cinco meses de suspense, três fatos mostram que oprocesso está muito bem encaminhado.
O primeiro é o próprio time. A comissão já se legitimou porcontar com 25 outros craques de imenso prestígio, e com fecunda diversidade de visões e especialidades. Daí aimportância de serem apresentados, mesmo que de formainjustamente breve.
No topo está o decano, Nobel 1972, Kenneth Arrow(Stanford), imediatamente seguido por dois colegas quetambém foram ganhadores do mais cobiçado prêmio deeconomia, em 2000 e 2002: James Heckman (Chicago) e opsicólogo Daniel Kahneman (Princeton). Há mais um deChicago, o jurista republicano Cass Sunstein, e mais dois dePrinceton: o microeconomista Angus Deaton e o especialista em economia do trabalho Alan B. Krueger. Essa bancadaacadêmica americana é completada por outros três criativospensadores: o cientista político Robert Putnam (Harvard), oeconomista ambiental Geoffrey Heal (Columbia), e uma dasmais influentes economistas feministas: Nancy Folbre(Massachussets). Com o presidente Stiglitz (Columbia), e seuconselheiro Sen (Harvard), são onze, dos quais cinco prêmiosNobel.
Entre os acadêmicos europeus, três britânicos e setefranceses. No trio, o já célebre Sir Nicholas Stern (LSE) ladeia o especialista em desigualdade e pobreza Anthony B. Atkinson(Oxford) e o expoente da chamada economia da felicidadeAndrew J. Oswald (Warwick). Com base em Paris, ocoordenador geral Jean-Paul Fitoussi - presidente do OFCE, oCentro de Pesquisas Econômicas da "Sciences-Po" (Instituto de Estudos Políticos) - pinçou dessa mesma organização omacroeconomista Philippe Weil e o politécnico Claude Henry,autoridade no binômio inovação/sustentabilidade.
Mas é claro que também fazem parte o econometrista RogerGuesnerie (Collège de France) e o anterior economista-chefe do Banco Mundial François Bourguignon, respectivamentepresidente e diretor da nova "PSE", "Paris School ofEconomics". Muito mais notáveis do que Marc Fleurbaey(Paris-5) e Jean Gadrey (Lille), mesmo que o primeiro sejaforte referência em ética social e justiça distributiva, e o segundo o autor de ótimo livro sobre novos indicadores deriqueza (traduzido pela Editora Senac em 2006). Muito ligadoàs entidades da sociedade civil que se empenham emreconsiderar a riqueza, Gadrey chegou a propor boicote àiniciativa de Sarkozy. Atitude que perdeu o sentido quando opróprio Stiglitz o convidou a ser um dos membros dacomissão.

Para fechar o panorama acadêmico falta mencionar a única"penetra" nesse triângulo EUA-FR-UK: a também economista feminista Bina Agarwal (Delhi). Hoje mais dedicada ao estudo da ação coletiva para a conservação ambiental, foi quemcolocou a contribuição teórica de Amartya Sen em perspectivade gênero. E participa da rede internacional que procuraoperacionalizar o intraduzível "capability approach".

Além desses 22 professores, há representantes de quatroimportantes organizações internacionais. Pela OCDE, o chefeda área estatística, Enrico Giovannini; pelo Pnud, o númeroum Kemal Dervis; pela Unctad, o diretor Heiner Plassbeck; epelo Banco Mundial, o economista-chefe e vice-presidente Justin Lin. Bem próximo desse quarteto está o representanteda organização nacional que garantirá e zelará pelo bomfuncionamento dos trabalhos: Jean-Philippe Cotis, diretor geral do INSEE, instituto que detém na França a responsabilidade oficial pelas estatísticas e estudoseconômicos.

O segundo fato promissor foi o resultado da primeira reunião,no final de abril, na qual foram discutidos dois "surveys" daprodução científica pertinente. A comissão passou a serorganizada em três grupos de trabalho, cujo enunciado dostemas não poderia ser mais significativo: um vai esmiuçar "osclássicos problemas do PIB", outro vai focar"desenvolvimento sustentável e meio ambiente", e o terceirose concentrará na questão da "qualidade de vida". Até julho deverá estar pronto um primeiro documento sobre aproblemática ("issue paper", que sintetizará as contribuiçõesdesses três grupos, tarefa a cargo de sete técnicos emprestados pela OCDE, OFCE e INSEE, staff dirigido pelo tarimbado estatístico Jean-Étienne Chapron, relator-geral da Comissão).

Não menos importante é o terceiro sinal: a Comissão estáempenhada em trabalhar com máxima transparência e abuscar intenso diálogo público. Para tanto, ainda em junho será lançado um portal que oferecerá um esquema interativoque facilite comunicação direta com os mais interessados,além de disponibilizar documentos de trabalho.

Como o relatório final está previsto para junho de 2009, ospróximos doze meses serão especialmente favoráveis a projetos e ações de revisão das obsoletas convenções para amedição da riqueza, uma noção aparentemente simples, mascuja ambigüidade gera muita confusão. Além disso, sistemasde medição embutem forte inércia institucional, mantendosempre muito atraso em relação aos avanços científicos. Osegípcios, por exemplo, só corrigiram o calendário em 238 A.C.,praticamente quatro milênios depois de terem calculado umaduração do ano solar de 365 dias e um quarto. Com certezaserá bem mais rápida a mudança das atuais medidas da riqueza, embora nada autorize supor que as recomendaçõesda Comissão Stiglitz venham a ser facilmente assimiladas pelaONU, ou por outros atores cruciais, como o FMI. O processomal começou, pois a principal incógnita do problema resideem saber se avanços das ciências sociais aplicadas jápermitem, de fato, a imprescindível superação do PIB, assimcomo desse seu precaríssimo desdobramento que é o IDH(Índice de Desenvolvimento Humano).
José Eli da Veiga - professor titular do departamento de economia da FEA-USP e pesquisador associado do "Capability & Sustainability Centre" da Universidade de Cambridge, com apoio da Fapesp, escreve mensalmente às terças.
Página web: www.zeeli.pro.br

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