quarta-feira, 27 de março de 2013

Nicholas Georgescu-Roegen, lixo

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Nicholas Georgescu-Roegen


Nicholas Georgescu-Roegen (1906-1994) está sendo lembrado esse ano com uma publicação em português dos seus livros, pelas mesmas pessoas que o desprezaram no tempo dele, o que é uma ironia.  Ele nasceu no mesmo ano que Albert Sabin, ou seja, em 1906, mas não teve a mesma sorte dele. Enquanto Sabin que salvou milhões de vidas foi respeitado pelos seus pares, Georgescu foi ignorado e poderia ter salvo milhões de vidas se tivesse sido ouvido nos anos 1970.  Com uma acurada análise do funcionamento físico do sistema econômico ele previu antes de toda comunidade científica algo que aprendemos mais claramente a partir dos anos 1990: “Se a economia do descarte imediato dos bens e do desperdício continuar, seremos capazes de entregar a Terra ainda banhada em sol apenas à vida bacteriana.”   Essa é a conclusão da comunidade científica nos anos 1990, pois do ponto de vista biológico somos todos um e é muita ingenuidade achar que a maior extinção da vida dos últimos 65 milhões (e a mais acelerada) não irá se voltar contra os causadores (a humanidade).   Segundo a UICN, conseguimos contrar por dia ou horas o número de espécies animais e vegetais perdidas enquanto o crescimento econômico assola os serviços ecológicos de sustentação da vida.  Recomendo veementemente o Wonders of Universe, coletânea em DVD da BBC capitaneada por Brian Cox e é uma continuidade dos trabalhos do Carl Sagan.  Impressionante a vinculação das regras do Universo com os ciclos da vida, como por exemplo, o planeta não seria verde se as plantas não tivessem se especializado a usar todas as cores da luz solar exceto as verdes. E se as plantas não tivessem conseguido fazer isso, eu não estaria escrevendo esse texto agora.

Voltando ao lixo, está sendo muito difícil desmamar a economia atual das atividades que não irão nos levar a lugar algum.  Essa matéria do jornal de Portugal ilustra bem isso: se a produção do lixo diminuir o setor irá enfrentar dificuldades:http://www.publico.pt/portugal/jornal/volume-de-lixo-no-pais-caiu-quase-7-em-2012-e-complica-contas-do-sector-26273978#/0 .  Em outras palavras: a solução é aumentar o lixo, lembrando que do ponto de vista da física o lixo deveria ser nulo, não existe o “jogar fora” num sistema fechado para a matéria como a Terra.  Acho que nunca a humanidade esteve tão resistente de migrar atividades como agora.  Fez sentido abandonar cavalos para carros, telégrafos para telefones, máquinas de escrever para computadores, porque tudo isso aumentou lucros.  Migrar as atuais atividades insustentáveis para outras mais equilibradas significa provavelmente menores lucros, maiores custos e maior distribuição dos ganhos ao invés da sua terrível concentração (porque como alguns estudos mostram os lucros se explicam em mais de 50% pelas externalidades socioambientais, o mais chocante é o da News Economic Foundation: para cada $100 dólares adicionado a renda per capita, só 0,60 centavos chegam aos mais pobres).

Uma das metas principais para as empresas com boas práticas é reduzir o lixo em números absolutos, para não incorrer no mito do quociente (menos dejetos por unidade de produto, multiplicado por uma producão exponencialmente maior significa pressão crescente contra os ecossistemas da Terra, uma vez que, embora os economistas não saibam isso, a Terra é finita...).

Hugo