sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Planeta Proibido - George Monbiot

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Embora o George Monbiot tenha virado árduo defensor da energia nuclear,quando deveria defender o fim do desperdício de energia (73% do total mundial) e a mudança de paradigma, esse texto está muito bom.  Mudança de paradigma enfrenta os economistas tradicionais que simplesmente acreditam que a economia pode ser maior que o planeta e os que acham que existe algum desgaste ambiental, pregam cegamente que isso se resolve com política ambiental. Nesse ramo estão Joseph Stiglitz, Paul Krugman, Cristina Romer, ou seja, 99,9% de todos os economistas com idéias aplicadas na realidade... A resposta dos economistas “verdes” é que com uma oferta limpa e infinita de energia, não há restrição planetária alguma e podemos crescer (ou se desenvolver) de forma limpa. Esse grupo não percebe que cometem o mesmo erro – ou malefícios – do primeiro grupo. Parecem diferentes, mas não são. Representam 0,1% dos economistas com idéias aplicadas, mas sempre na direção de aumentar os fluxos de demanda... Os economistas ecológicos não possuem ainda, infelizmente, idéias aplicadas, mas sabem que o ponto de partida de qualquer discussão não é energia limpa nem nuclear, mas a restrição planetária.

Hugo

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“...Prevenção do colapso climático: os quatro, cinco ou seis graus de aquecimento agora previstos para este século por “extremistas verdes” como o Banco Mundial, a Agência Internacional de Energia e a PriceWaterhouseCoopers (4, 5, 6) - implicam enfrentar as indústrias do petróleo, gás e carvão. Isso significa forçar estas indústrias a abandonar 4/5 ou mais das reservas existentes de combustíveis fósseis, as quais não poderemos nos dar ao luxo de queimar (7). Significa cancelar a prospecção e desenvolvimento de novas reservas - para que, se não podemos usar nem os estoques atuais? - e reverter a expansão de qualquer infraestrutura (tal como de aeroportos) que não possa vir a ser operada sem estes combustíveis...”


 Planeta proibido

 George Monbiot - The Guardian - 4 de dezembro 2012

 A maior crise da humanidade coincide com a ascensão de uma ideologia que a torna impossível resolver. Ao final dos anos 1980, quando se tornou claro que as mudanças climáticas provocadas pelo homem colocavam em perigo a vida no planeta e a própria humanidade, o mundo estava sob o domínio de uma doutrina política extrema, cujos princípios proibiam o tipo de intervenção necessária para enfrentá-las.

 O neoliberalismo, também conhecido como o fundamentalismo de mercado ou economia laissez-faire, pretende libertar o mercado de interferência política. O estado, afirma, deve fazer pouco, mas defender o status-quo, proteger a propriedade privada e eliminar os obstáculos aos negócios. O que os teóricos neoliberais chamam encolher o estado mais parece com o encolhimento da democracia: a redução dos meios pelos quais os cidadãos podem restringir o poder da elite. O que eles chamam de "mercado" parece mais com os interesses das empresas e dos ultraricos (1) . O neoliberalismo parece ser pouco mais do que uma justificativa para a plutocracia.

 A doutrina foi aplicada pela primeira vez no Chile, em 1973, onde ex-alunos da Universidade de Chicago, treinados nas receitas extremas de Milton Friedman e financiados pela CIA, trabalharam ao lado de Pinochet para impor um programa que seria impossível em um estado democrático. O resultado foi uma tragédia, na qual os ricos - que assumiram as indústrias chilenas privatizadas e os recursos naturais desprotegidos daquele país - prosperaram muito (2).

 O credo foi adotado por Margaret Thatcher e Ronald Reagan. Foi imposto ao mundo pobre pelo FMI e pelo Banco Mundial. No momento em que James Hansen apresentava a primeira tentativa detalhada de modelar a temperatura futura do planeta ao Senado dos EUA, em 1988 (3), a doutrina estava sendo implantada em toda parte.

 Como vimos em 2007 e 2008 (quando os governos neoliberais foram forçados a abandonar seus princípios para salvar os bancos), dificilmente poderia haver pior conjunto de circunstâncias para enfrentar uma crise de qualquer tipo. Até que não tenha mais escolha, o estado neoliberal não vai intervir, mesmo que a crise se agudize a as consequências se agravem. O neoliberalismo protege os interesses da elite contra todos.

 Prevenção do colapso climático: os quatro, cinco ou seis graus de aquecimento agora previstos para este século por “extremistas verdes” como o Banco Mundial, a Agência Internacional de Energia e a PriceWaterhouseCoopers (4, 5, 6) - implicam enfrentar as indústrias do petróleo, gás e carvão. Isso significa forçar estas indústrias a abandonar 4/5 ou mais das reservas existentes de combustíveis fósseis, as quais não poderemos nos dar ao luxo de queimar (7). Significa cancelar a prospecção e desenvolvimento de novas reservas - para que, se não podemos usar nem os estoques atuais? - e reverter a expansão de qualquer infraestrutura (tal como de aeroportos) que não possa vir a ser operada sem estes combustíveis.

 Mas o estado neo-liberal não pode agir. Capturado por interesses que a democracia espera que mantenha contidos, só pode sentar na estrada, de orelhas em pé e bigodes eriçados, esperando ser atropelado pelo caminhão que se aproxima. O confronto é proibido, a ação é um pecado mortal. Talvez se possa dispersar algum dinheiro para energia renovável, mas não legislar contra o velho.

 Assim, Barack Obama persegue o que chama de politica de "todos os itens acima": promoção da energia eólica, petróleo, energia solar e gás (8). Ed Davey, o secretário britânico de mudança climática, na semana passada lançou um projeto de lei no parlamento britânico cuja finalidade era descarbonizar o fornecimento de energia. Mas no mesmo debate prometeu "maximizar o potencial" de produção de petróleo e gás no Mar do Norte e de outros campos 'offshore' (9).

 Lord Stern descreveu a mudança climática como "a maior e mais abrangente falha de mercado jamais vista" (10). A inútil Cúpula da Terra (Rio+20) de junho, as medidas débeis agora em discussão em Doha, o projeto de lei sobre energia (11) e o estudo sobre redução da demanda por eletricidade (12) lançado na Grã-Bretanha na semana passada (melhores do que poderiam ter sido, mas incomensuráveis à escala do problema) expõe o mais vasto fracasso do fundamentalismo de mercado: sua incapacidade para resolver a crise existencial da nossa espécie.

 O legado de 1000 anos das atuais emissões de carbono é amplo o suficiente transformar em lascas qualquer coisa parecida com a civilização humana (13). Sociedades complexas, por vezes, sobreviveram à ascensão e queda de impérios, pragas, guerras e fome. Mas não sobreviverão a seis graus de mudança climática sustentada por um milênio (14). Em troca de 150 anos de consumo explosivo, muito do qual nada contribuiu para o avanço do bem estar humano, estamos destruindo o mundo natural e os sistemas humanos que dele dependem.

 A Cúpula do Clima em Doha, e o som e a fúria das novas medidas do governo britânico sondam os limites atuais de ação política. Ir mais longe é quebrar a aliança com o poder, uma aliança tanto disfarçada quanto validada pelo credo neoliberal.

 O neoliberalismo não é a raiz do problema: é a ideologia usada, muitas vezes retrospectivamente, para justificar a tomada global do poder, dos bens públicos e dos recursos naturais por uma elite desenfreada. Mas o problema não pode ser resolvido até que a doutrina seja desafiada por alternativas politicas eficazes.

 Em outras palavras, a luta contra as alterações climáticas - e todas as crises que agora afligem os seres humanos e o mundo natural - não pode ser vencida sem uma ampla luta política: a mobilização democrática contra a plutocracia. Acredito que esta deve começar com um esforço de reforma do financiamento de campanha: o meio pelo qual as corporações e os muito ricos compram políticas e políticos. Alguns de nós lançaremos uma petição no Reino Unido nas próximas semanas, e espero que se você for inglês a assine.

 Mas este é apenas um começo. Temos de começar a articular uma nova política: uma que veja a intervenção como legítima, que contenha um propósito maior do que a emancipação corporativa disfarçada de liberdade de mercado, que coloque a sobrevivência das pessoas e do mundo vivo acima da sobrevivência de algumas indústrias favorecidas. Em outras palavras, uma política que nos pertença, e não apenas aos superricos.

 Referências:

 1. See Colin Crouch, 2011. The Strange Non-Death of Neoliberalism. Polity Press, Cambridge.

 2. Naomi Klein, 2007. The Shock Doctrine: the rise of disaster capitalism. Allen Lane, London.


 4. Potsdam Institute for Climate Impact Research and Climate Analytics, November 2012. Turn Down the Heat: why a 4C warmer World Must be Avoided. Report for the World Bank.


 6 . PriceWaterhouseCoopers, November 2012. Too late for two degrees? Low carbon economy index 2012. http://www.pwc.co.uk/sustainability-climate-change/publications/low-carbon-economy-index-overview.jhtml





 11. Nicholas Stern, 2006. The Economics of Climate Change. http://www.hm-treasury.gov.uk/d/Executive_Summary.pdf


 13. Susan Solomon, Gian-Kasper Plattner, Reto Knutti, and Pierre Friedlingstein, 10th February 2009. Irreversible climate change due to carbon dioxide emissions. PNAS, vol. 106, no. 6, pp1704–1709. doi: 10.1073/pnas.0812721106. http://www.pnas.org/content/early/2009/01/28/0812721106.full.pdf+html

 14. Estou falando vagamente aqui, como Salomão et al propuseram que não 100%, mas cerca de 40% do CO2 produzido neste século permanecerá na atmosfera até pelo menos o ano 3000. Por outro lado, as emissões desenfreadas e o aquecimento global não vão parar por conta própria em 2100: as temperaturas poderão subir muito além de 6 oC no próximo século: sem mitigação afiada agora, estamos criando 1000 anos de caos absoluto.