terça-feira, 30 de agosto de 2011

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Freio de arrumação

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Publicada em 11/05/2011 – O Globo - Tasso Azevedo


Nesta semana esta programado entrar em pauta de votação na Câmara dos Deputados a proposta de novo código florestal. O relator da proposta e seus apoiadores na chamada bancada ruralista conseguiram um efeito manada que pode levar à aprovação açodada de uma lei que ao invés de ampliar a proteção das florestas irá fragilizá-las brutalmente.

Ouso dizer que a maioria dos deputados que pretende aprovar o texto esta semana sequer leu o documento ou pelo menos o fez com o mínimo de atenção. Na primeira tentativa de votação, o documento de 28 páginas, 69 artigos e mais de 200 dispositivos foi apresentado na segunda-feira à tarde para ser votado no dia seguinte. Mesmo com adiamento para esta semana, o grau de complexidade é imenso e a disposição para o diálogo tem sido, até o momento, limitada.

Se tivessem lido, teriam percebido que será necessário mais de uma centena de emendas, ajustes e correções para fechar as inúmeras goteiras deste guarda-chuva de proteção das florestas que deve representar o Código Florestal.

Fiz esta leitura cuidadosa nos últimos dias ao mesmo tempo em que outros três especialistas, e cada um apontou pelo menos cinquenta pontos que precisam ser revisados entre distorções, falhas, erros conceituais e outras imperfeições.

Apenas a título de exemplo, o texto proposto retira a proteção de mangues e veredas (art. 4), isenta milhares de hectares de reparação de danos causados por desmatamento e degradação ilegal de florestas (art. 13), determina práticas de manejo florestal tecnicamente equivocadas como a priorização do corte de espécies pioneiras (art. 24), cria mecanismo para prorrogar indefinidamente a regularização ambiental das propriedades rurais (art. 35), vulgariza o conceito de interesse social que passa a incluir praticamente qualquer atividade (art. 3) e ignora o papel do Conselho Nacional de Meio Ambiente - o Conama -, que desaparece do novo Código Florestal.

Para piorar, a chamada bancada ruralista esta tão confortável com a vitória que já planeja apresentar um conjunto de emendas para aprofundar ainda mais as distorções e a fragilização dos mecanismos de proteção das florestas, certos de que poderão aprovar todas com ampla maioria,

Este tema é muito sério para ser tratado de forma quase unilateral pelo setor rural brasileiro. A integridade das florestas é interesse nacional pela sua importância fundamental na regulação do regime hídrico da qual dependem nossa energia elétrica, o saneamento ambiental e a própria produção agrícola. É absolutamente legítimo que diversos setores da sociedade estejam pedindo mais debate e cautela com este tema.

Frequentemente é utilizado o argumento, muitas vezes correto, de que o atual Código Florestal, emendado por uma MP não votada há mais de dez anos, cria insegurança jurídica. Mas o texto do novo código é tão problemático que vai gerar muito mais insegurança jurídica, e, desta feita, com um formato que na dúvida quem perde é a floresta, o bem de interesse comum.

Para todos os projetos de lei é necessário avaliar os custos da implementação da lei e apontar de onde virão os recursos para fazer frente a estes custos. Assim acontece por exemplo na criação de um novo programa de investimento ou um novo órgão.

É preciso se fazer uma avaliação de qual será o custo para o Brasil da aprovação deste novo código florestal, tanto pela anistia de multas e sanções como no potencial impacto na produção de energia, disponibilidade de água ou mesmo o impacto sobre as metas da política nacional de mudanças climáticas.

É preciso fazer um processo de concertação sério que defina com clareza os princípios, as diretrizes e as metas para gestão de florestas no Brasil (por exemplo, qual é nossa meta de conservação de cobertura florestal em cada um dos biomas) e a partir daí revisar e adequar, de forma serena e clara, o novo Código Florestal Brasileiro de modo que este possa ser digno deste nome.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Ted Trainer: cuidado com as bobagens das energias renováveis

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Amigos da Economia Ecológica,

Um bom livro sobre esse enorme mito das energias renováveis - que não estão sendo produzidas em substituição às energias tradicionais, mas em adição às energias tradiconais - é o do Ted Trainer, do ano passado: "Renewable Energy Cannot Sustain a Consumer Society".

O capítulo 9 é particularmente interessante porque revela a farsa da energia nuclear: 1) emite gás carbônico até dizer chega; 2) todos os resíduos da produção das últimas décadas estão em compartimentos provisórios, 3) não há urânio para produzir em quantidade segura e suficiente. George Monbiot é nosso novo Bjon Lomborg. E pior que tem gente que abraça as suas idéias. Ele não é de todo ruim, mas embarcou no seu excesso de vaidade, do qual se tornou a sua principal vítima. Nenhuma das energias renováveis propostas oferece solução viável para a falta de energia no instante zero, para a demanda atual, quiçá para a demanda que se acredita aumentar com os emergentes.

Alguns excertos do livro do Ted Trainer:

"There is nan overwhelmingly powerful,never questioned, assumption that all these problems [redução cavalar da emissão de gases do efeito estufa da matriz energética atual] can and will be solved by moving to renewable energy sources. That is, it is generally believed that sources such as the sun and the wind can replace fossil fuels, providing the quantitites of energy that consumer society will need, in the forms and at the times that they are needed [o desafio de atender os países emergentes dentro de uma demanda igual a dos países ricos]. Surprisingly, no literature has explored whether this is possible. Wildly optmistic and highly challengeable claims are often encountered."

"However renewables face formidable problems with respect to the two forms of energy which consumer society demands in enormous quantitites, viz. electricity and liquid fuels. The fundamental issue in both cases has to do with the quantity of energy that can be delivered reliably, not dollar cost or "energy return"."

"Exxagerated, misleading, questionable and demosntrably false claims are often encountered in the promotional literature. Minor technical advances which might or might not become significant in the long run are announced as miraculous solutions. Doubts regarding the potential of renewable technologies are rarely if ever heard from within these fields."

O mito de termos só problema de energia é largamente difundido. Trainer escreve: "For forty years the argument has been accumulating that our resource consuming and environmentally expensive way of life is grossly unsustainable, for many reasons besides energy difficulties." Bingo! "All our problems will rapidly become worse if we continue to be obsessed with constantly increasing production and consumption, living standards and the GDP. Yet these are the fierce and supreme commitments of just about all governments, economists and people, and we have an economic system that cannot work without them." Bingo novamente: os reais defensores de um novo modelo deviam estar estudando a forma de desvincular a saúde financeira dos sistemas econômicos que nos sustentam a todos da necessidade estúpida de crescimento que é um fim em si mesmo. O mais incrível de tudo isso é que esse mito é abraçado por pessoas que dizem ter uma proposta diferente a tudo que foi feito pela teoria econômica tradicional teórica e aplicada. Não conseguem perceber o erro que é não admitir que produzir mais energia apenas reforça o modelo atual, sem alteração alguma da sua formulação e paradigma.

O que nós podemos dizer da situação atual? O cenário nos próximos 40 anos serão de mudanças perturbadoras no planeta. Nunca jamais atingiremos um nível justo e equilibrado das populações na prosperidade econômica se tentarmos replicar o modelo dos países ricos, possível apenas para 200.000.000 de terráqueos, para o resto da população global. A população humana irá recuar e jamais irá atingir as projeções de 9,5 bilhões de habitantes em 2050. Nenhum dos indicadores ambientais, econômicos e planetários irão melhorar: haverá aumento em termos absolutos da concentração de gases do efeito estufa na atmosfera, do lixo, da poluição, de resíduos, do desmatamento ou desnaturalização dos ecossistemas, extinção contínua da vida, mais mudanças climáticas, tudo isso com perda de bem estar, instabilidade políticas com guerras e ou crises econômicas.

Essa é a rota enquanto dormimos abraçados com os mitos de energias renováveis, de termos só um problema de energia, o mito da escassez (quando desperdiçamos matéria e energia alucinadamente), com a meta universal de crescimento econômico a qualquer custo e necessária para a salvação social de todos enquanto um par de chineses constroem réplicas do Taj Mahal para morar...

Leia o artigo do Ted Trainer, recomendo fortemente o livro dele.

Abraço a todos,


Hugo


Energia eólica já é mais barata que térmica a gás no Brasil


AGNALDO BRITO
DE SÃO PAULO

O custo da energia eólica no Brasil, uma das principais fontes renováveis do mundo, já é menor do que o da energia elétrica obtida em termelétricas a gás natural.

O governo classificou essa situação como o novo paradigma do setor elétrico brasileiro. Em alguns casos, a energia eólica também tem custo inferior ao das usinas movidas a biomassa de cana.

Esse foi o principal resultado dos dois leilões realizados pelo governo entre quarta e ontem, em São Paulo.

A Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) organizou leilões para garantir a oferta de energia às distribuidoras a partir de 2014. Foram contratados 1.929 MW em nova capacidade, que terá de ser montada em três anos.

Hoje, dos 110 mil MW de potência instalada no Brasil, 5.700 MW são provenientes de energia eólica.

Os preços dessa energia surpreenderam. Os valores por MWh (megawatts/hora) oscilaram entre R$ 99,54 e R$ 99,57 (a térmica a gás, em geral, está acima de R$ 120). Em leilões anteriores, o preço da eólica estava acima de R$ 130 o MWh.

Há pouco mais de dois anos, o valor passava de R$ 200 por megawatt-hora.

AEROGERADORES

A situação do setor começou a virar neste ano. Só com a contratação de ontem, o Brasil viabilizou a montagem de mil aerogeradores.

Segundo Maurício Tolmasquim, presidente da EPE (Empresa de Pesquisa Energética), existem hoje quatro empresas produzindo aerogeradores no Brasil.

"Nos certificamos se essa demanda contratada nos dois leilões poderia ser atendida pela indústria local. E a resposta é que há capacidade para atender", diz.

As quatro fábricas têm capacidade anual para montar 2,8 mil MW em aerogeradores, ou 1.400 unidades.

Além dessas fábricas, o governo informou que outras quatro empresas discutem com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) a instalação de unidades industriais.

O consumidor será beneficiado com essa redução de preço, mas o efeito ainda será residual na conta de luz

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Em defesa das nossas florestas e do desenvolvimento sustentável

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A campanha #florestafazadiferença é uma resposta às ameaças que diversas ações movidas por interesses políticos vêm trazendo às florestas brasileiras. Leia o manifesto.

A Câmara dos Deputados aprovou em maio um projeto de lei (PLC 30/2011) que modifica, para pior, o Código Florestal brasileiro. Agora, cabe ao Senado Federal mudar essa realidade.

Se você também é contra este projeto de lei e a favor de um bom Código Florestal, assine e divulgue a petição on line. Faça parte!

Tempestades em SP e no RJ vão até triplicar nos próximos 60 anos

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Tempestades em SP e no RJ vão até triplicar nos próximos 60 anos

CIRILO JUNIOR
DO RIO

A ocorrência de tempestades em São Paulo e no Rio de Janeiro não vai parar de crescer. A constatação é de um estudo do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), em parceria com o MIT (Massachusetts Institute of Technology)) e o IAE (Instituto de Aeronáutica e Espaço), que mostra que o aumento da temperatura das águas do oceano Atlântico devido ao aumento do aquecimento global é a causa direta dessa previsão.

O levantamento concluiu que as tempestades na região Sudeste serão duas vezes maiores dentro de 60 anos, se comparado ao volume atual. Nas regiões litorâneas, a ocorrência de fortes chuvas será três vezes mais intensa.

A previsão leva em conta o ritmo de aquecimento do oceano Atlântico nos últimos 60 anos. As águas ficaram 0,6ºC mais quentes. No mesmo período, a temperatura do planeta subiu 0,8ºC. Com a perspectiva que esse ritmo seja mantido, podemos esperar cada vez mais chuvas daqui para frente.

"A coisa vai piorar, do ponto de vista climático. As chuvas vão aumentar, isso é fato. Reverter isso é diminuir a emissão dos gases do efeito estufa. No curto prazo, é uma tarefa improvável. O que resta é nos prepararmos para minimizar os efeitos", afirmou o coordenador do Elat (Grupo de Elasticidade Atmosférica) do Inpe, Osmar Pinto Junior,

Além do aumento da temperatura nos oceanos, a urbanização e os efeitos do feito estufa intensificam o problema nas grandes cidades. São Paulo é um exemplo clario disso. Enquanto a temperatura média em regiões tropicais cresceu 0,6ºC, a capital paulista ficou, em média, 2ºC mais quente nos últimos 60 anos.

Para tentar prevenir o aumento das chuvas, o Inpe começou a instalar um novo sistema de medição de raios, que vai permitir identificar e prever tempestades severas. Batizado de BrasilDAT, ele vai permitir que sejam identificada a incidência de raios que ocorrem apenas no céu. Atualmente, só são identificados as descargas que atingem o solo.

A nova rede terá investimentos de R$ 10 milhões, e contará com 75 novos sensores que cobrirão todo o Brasil. As regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste terão o sistema implementado até o fim do ano. No ano que vem, a BrasilDAT estará em todo o país.

"As descargas permitem retratar a intensidade de uma tempestade. O sistema vai permitir que se tenha essa informação com cerca de meia hora de antecedência", observou Pinto Junior.

Ele, no entanto, reconheceu que ainda é preciso melhorar o sistema de comunicação entre diversos órgão e entidades, para se prevenir de catástrofes.

"Ainda precisamos de um sistema de emergência adequado", completou.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

A natureza é valiosa demais para ter preço

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A abordagem dele parece bem intencionada, mas não resolve o problema de que é impossível dar preço para natureza, simplesmente porque não podemos substituí-la.

Basta lembrar a descoberta da pesquisa do Antonio Donato Nobre: a produção de 20 bilhões de toneladas de água diariamente pela transpiração das árvores da Amazônia que impede que o Brasil seja um enorme deserto para ser subsittuída precisaria da energia de 50.000 Itaipus.

Para ter noção da quantidade de água, o Rio Amazonas produz por dia 17 bilhões de toneladas de água.

Finalmente, sempre bom lembrar Roegen que dizia que a natureza não podia ser valorada, que os economistas precisam se conformar com o fato que certos itens da realidade simplesmente não podem ser valorados, por possuírem apenas valor intrinseco.

Acima de tudo, Roegen lembrou muito bem que os preços, as métricas, etc. não brotam do nada, mas de um conjunto de valores.

Em outras palavras, as tentativas de mudar as métricas serão inúteis enquanto não houver uma mudança geral de valores, uma mudança de paradigma, de entendimento sobre a realidade.

Quando surgiu a comissão Stiglitz (Senn-Fitoussi-Stiglitz) eu me apavorei com o nome do Stiglitz, que leio bastante e que agora inflama o peito para pedir crescimento em todas as suas frentes para salvar a economia e lembro a resposta que ele deu a Herman Daly na revista de Economia Ecológica. Ou seja, Stiglitz acredita que o planeta é um subsistema da economia e que a economia pode ser maior que o planeta e mesmo assim estava a frente de uma mudança de métricas que deveria ter como princípio uma mudança de paradigma. Não é à toa que seus trabalhos ignoraram a metodologia da pegada ecológica pelo seu viés contrário ao comércio internacional, justamente o vetor que permitiu aos países ricos e desenvolvidos, considerados limpos, a exportar sua sujeira para o resto do planeta inteiro, posto que as externalidades socioambientais dos seus sistemas são negociadas no comércio global como tudo nesse sistema a custo zero.

Enfim, a resposta do Stiglitz àquela memorável provocação de Daly com base na crítica de Roegen à teoria tradicional vale à pena ser lida. Vou tentar colocar nesse blog.

Hugo

11/08/2011 13:55:42

Natureza Visível

Redação Página 22

Pavan Sukhdev foi executivo-sênior do Deutsche Bank, liderou o estudo A Economia dos Ecossistemas e da Biodiversidade e o principal autor do relatório Rumo à Economia Verde, publicado em fevereiro pelo programa de meio ambiente da ONU (Pnuma), do qual era assessor especial. Preside desde abril a consultoria Gist Advisory

O economista indiano Pavan Sukhdev largou em fevereiro uma bem-sucedida carreira como alto executivo no Deutsche Bank para se dedicar à missão de tornar a natureza visível aos olhos da economia – uma vez que ela ainda não é internalizada em cálculos econômicos como o do lucro das empresas e o do PIB. Se o capital natural ganhar luz, empresas e governos não mais poderão ignorá-lo na hora de orçar custos e ganhos de seus investimentos, propõe Sukhdev. Ele esclarece, ainda, que valorar água, fauna, flora, solo e polinização não significa necessariamente fixar preços para os recursos naturais. É, sim – insiste –, uma maneira de explicitar a contribuição do capital natural para a economia de uma empresa, ou mesmo de um Estado. Na entrevista concedida à Página22, em São Paulo, no final de maio, Sukhdev falou da guinada de 180 graus na sua trajetória profissional: de executivo mergulhado no mundo dos mercados à sua entrada em um seleto naipe de economistas influentes na discussão sobre uma nova economia, emissora de baixo carbono e harmônica com os limites ecossistêmicos. Contribuiu decisivamente nesse movimento a sua filha Mahima, que, aos 7 anos de idade, na década de 1990, fez com que ele se tornasse um observador de pássaros e passasse a conceber a natureza bem além de seus contornos físicos.

Como um bem-sucedido alto executivo de um banco global como o Deutsche Bank envolveu-se com a área ambiental?

De fato, foi uma combinação. Sempre fui afeiçoado pela natureza. Como alguém que trabalhava na área financeira, pude notar esse dilema entre o valor da natureza e o fato de que isso não entrava em nosso pensamento. Finalmente, uma amiga perguntou-me em Cingapura muito tempo atrás, há uns 14 anos: “Você, que é banqueiro, conte-me por que algumas coisas valem dinheiro e outras não”. O que ela estava querendo mesmo era que eu explicasse a diferença entre valor e preço. Percebi que essa era uma questão profunda. Comecei a ler e a escrever sobre o assunto. Lembro que, em meus estudos de economia na universidade, havia lido sobre externalidades. Dei-me conta de que a questão levantada por minha amiga tinha a ver com externalidades. Isto é, sobre o fato de que, na ciência econômica, a natureza – que é tão valiosa e fornece bem-estar e serviços à economia e às pessoas diretamente – não é internalizada nos nossos cálculos. Não é parte do Produto Interno Bruto (PIB), não é parte dos lucros privados. Então, a natureza fica economicamente invisível a maior parte do tempo.

O senhor está dizendo que, no pensamento econômico neoclássico, os problemas ambientais são externalidades?

É como a questão tem sido apresentada. A comunidade também é uma externalidade nessa concepção mais convencional. Observe os valores que você absorve de sua família, amigos, comunidade, sua vila, seu bairro, de pessoas que trabalham com o senso de bem-estar. Observe quão bem você trabalha com as pessoas. Esse bem-estar é um grande ativo social, bastante produtivo, mas também não entra no retrato do PIB ou dos lucros de uma empresa. As lentes econômicas mais usadas – crescimento do PIB para os países e lucros para companhias – ignoram completamente os dois ativos mais importantes, que são o capital natural, no caso da natureza, e o capital social, no caso da comunidade, porque são considerados externalidades. Voltamos novamente ao problema da riqueza pública, visto que sociedade e valores comunitários e naturais fazem parte da riqueza pública, não pertencem a um indivíduo privadamente.

Qual era sua principal incumbência no Deutsche Bank quando começou a prestar mais atenção aos temas ambientais?

Iniciei minha carreira no Deutsche Bank, na Índia, em 1994. Comandava a divisão de mercados globais na subsidiária do banco. Mudei para Cingapura em 1998 e tornei-me o principal executivo de operações da divisão de mercados globais para a Ásia.

Qual era a missão da divisão de mercados globais?

Gerar lucro provendo os clientes com soluções de gestão de risco em moeda estrangeira, renda fixa e emissões de títulos, basicamente para financiar serviços e desenvolver aqueles mercados financeiros, como o mercado de capitais. Era parte da minha missão pessoal (no banco) desenvolver aqueles mercados.

Nada a ver com meio ambiente?

Nada, apenas os negócios convencionais. Meio ambiente não estava na moda. Era como um hobby para mim.

Parece que o senhor já era um observador de pássaros na década de 1990.

Na época, tornei-me observador somente por causa de minha filha mais velha. Minha pequena Mahima, que tinha uns 6 ou 7 anos de idade na época, apreciava muito sair para observar pássaros. Isso me tocava muito, e ela abriu meus olhos para a natureza.

Suponho que nesse tempo sua carreira no banco e seu interesse pela natureza caminhavam separadamente. O que o senhor fez para aproximar economia e meio ambiente na sua atividade profissional? Fez alguma especialização, mestrado ou doutorado?

Minha formação inicial foi em Finanças e Economia, bastante convencional, aprendendo sobre externalidades. Mais à frente, tornei-me membro do conselho diretor do Grupo de Ação Ambiental de Mumbai (Beag, na sigla em inglês). Seu líder faleceu recentemente (Shyam Chainani era um dos principais ativistas ambientais da Índia). Gradativamente, fui ficando pessoalmente interessado em economia ambiental e contabilidade verde, porque via a Índia, meu país, movendo-se na direção da China, que tentava fomentar empregos e um elevado crescimento no PIB. Pude perceber que isso criaria um enorme problema com a modificação de nossa ecologia com a perda de florestas e de água doce.

Quando o senhor esteve mais envolvido com o Beag?

De 1994 a 1998, quando estava na Índia. Era diretor do Beag (sem remuneração).

Qual era o objetivo desse grupo?

O papel da organização é prevenir e corrigir danos ambientais. A Índia possui algumas das melhores leis ambientais no mundo. Mas também tem um péssimo resultado no cumprimento delas.

Como no Brasil?

Sim, como no Brasil. (risos)

A entidade trabalha pela mitigação de impactos ambientais da indústria e do governo?

Danos ambientais da indústria e, especialmente, do governo. O Beag já levou o governo indiano à Justiça por quase 150 vezes. Ganhamos todas as ações, exceto uma conhecida como caso Mill Lands, em Mumbai.

Do que se trata?

O que aconteceu foi que havia 243 hectares disponíveis para um projeto de revitalização em Mumbai que pertenciam à World Cotton Mills. A lei que fora aprovada em Mumbai previa que um terço do terreno ficaria disponível para parques e jardins, um terço para habitações populares e um terço para o desenvolvimento comercial. Mumbai teria conseguido seu segundo pulmão verde. Entretanto, por causa da corrupção, alguém alterou a lei para ela declarar que a divisão em três partes de um terço somente valeria para o espaço não construído. Obviamente, a maior parte de uma área ocupada por moinhos é construída, não é aberta. Além de moinhos, sempre há casas e fábricas, por exemplo. A modificação na linguagem da lei foi efetuada por conta de corrupção e propina, em minha opinião. Enfrentamos essa manobra na Justiça. Na Alta Corte de Mumbai, nós vencemos, mas eu penso que a propina foi usada na Suprema Corte da Índia e nós perdemos lá.

Quando o senhor começou a integrar aspectos ambientais a suas atividades no Deutsche?

À medida que me tornava consciente dos impactos ambientais de meus clientes. Quando regressei à Índia, no final dos anos 1990, comecei a conversar com clientes (sobre efeitos ambientais adversos de suas operações). Alguns deles passaram a me chamar para falar em suas empresas não só sobre negócios convencionais, mas também a respeito do meio ambiente, porque eles se davam conta de que eu era bom nesse tema. Até o grupo Tata me chamou para falar de meio ambiente.

O senhor se refere à fabricante do Nano, o pequeno e poluente automóvel?

Meu problema com o Nano é que ele poderia ter um nível de emissões mais baixo. Hoje ele libera 120 gramas de CO2 para cada quilômetro rodado. Penso que poderiam ter feito isso um pouco melhor, e reduzido as emissões de CO2 para menos de 100 gramas.

Nesse momento, o senhor passa a incorporar a dimensão ambiental em seu trabalho no banco de maneira mais formal?

Isso não ocorria em bases tão formais. Meu principal trabalho ainda era no mercado financeiro. Mas já conversava com pessoas dos mercados ambientais e de carbono, ajudando-os a fechar negócios. Essas atividades (na área de economia ambiental) eram realizadas principalmente por meio da ONG que eu e alguns parceiros fundamos em 2003, na Índia, o Green India States Trust (Gist), como ocupação não remunerada e durante meu tempo extrabanco.

Como o senhor financia as ações de sua ONG?

Se não tivesse um bom desempenho no Deutsche, não haveria dinheiro para investir na ONG. A maior parte dos recursos da ONG vinha do bônus anual que o banco me pagava. Deixei o banco em fevereiro e, desde abril, assumi o posto de principal executivo da consultoria Gist Advisory, fundada em 2008 pelo mesmo grupo que criou a ONG Gist. A consultoria doará 50% de seus lucros a entidades de pesquisa, inclusive à Gist, que faz um trabalho muito bom em contabilidade verde. Seu trabalho foi reconhecido pela Comissão Europeia e a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Quando a Comissão Europeia lançou, em 2008, a ideia do Teeb (sigla em inglês para A Economia dos Ecossistemas e da Biodiversidade), eles me chamaram para coordenar o projeto por recomendação de Amartya Sen.

Há conexões entre suas ideias e o pensamento de Amartya Sen?

Um pouco, admiro Amartya, que encontrei recentemente em Estocolmo. Ele estava lá para um encontro de laureados com o Nobel e me perguntou sobre o que acontecera com a iniciativa da Comissão Europeia. Contei a ele que a pesquisa tinha ido muito bem e se tornado uma iniciativa das Nações Unidas, com a publicação de nosso relatório no ano passado.

O senhor continuou trabalhando para o banco enquanto atuava na produção do estudo do Teeb?

No início de 2008, na primeira fase do estudo, ainda trabalhava para o banco. Foi uma atividade paralela. Mas consegui uma licença não remunerada entre julho de 2008 e o final de 2010 para me concentrar na preparação dos relatórios do Teeb e da economia verde do Pnuma. Nesse período, fiquei lotado no Pnuma como assessor especial e diretor da Iniciativa de Economia Verde.

Com esse acúmulo de conhecimento e de atividades em contabilidade verde, o senhor conseguiu convencer seus chefes a implantar uma divisão para lidar com finanças ambientais no banco?

Um pouco. Como geralmente ocorre nos bancos, o Deutsche é organizado por produto, não por área de negócio. Há divisões para participações acionárias, gestão de ativos, mercados emergentes, e assim por diante. É muito difícil reorganizar tudo e criar uma divisão de meio ambiente, que é um tema que cruza todas as áreas. Pode haver aspectos ambientais a serem observados em quase todos os ângulos dos negócios. O que aconteceu no Deutsche Bank, e isso estava indo bem, foi a criação de áreas ambientais dentro de cada divisão. E isso se tornou interessante por levar a um nível diferente de consciência na direção do banco.

Algumas vezes essa ideia de tema transversal é muito bonita no discurso, mas de operacionalização muito difícil. Se não há um departamento ou uma área para lidar com aspectos ambientais do negócio, as divisões especializadas não podem ficar perdidas às vezes para tratar de assuntos ecológicos?

Em algumas vezes elas realmente podem se perder, mas o que ocorre mais frequentemente é que a abordagem ambiental fica compartimentalizada quando conduzida separadamente pelos departamentos de um banco. A análise ambiental será desenvolvida pela área de participações ou de fusões e aquisições ou qualquer que seja a divisão. A mesma ideia às vezes é desenvolvida para um grupo de florestas, tendo já sido feita pelo grupo de carbono para um projeto de Redd+ (Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação, incluindo conservação e gestão sustentável da floresta).

Como essas abordagens alimentam as diferentes divisões da instituição com conhecimento e treinamento em meio ambiente? Não há um enfoque integrado para o banco como um todo?

É por isso que é desafiante. Podem-se fazer bons negócios em termos de comércio de carbono, negócios florestais ou na área de cimento. Mas é muito difícil otimizar esse conhecimento pela cadeia, porque você necessita de um domínio muito amplo de conhecimentos. Não se trata de domínio estreito, como nos casos das indústrias de cimento e aço ou em funções específicas como as da tecnologia da informação ou dos bancos.

É possível superar o problema da compartimentalização do conhecimento ambiental em um banco?

Creio que nos bancos ocorrem situações em que se criam polos de conhecimento, tais como o de microfinanças, que se parece muitíssimo com um tipo de atividade típica de uma ONG. Mas meio ambiente tem a ver com a riqueza pública. Dessa forma, penso que o melhor lugar para criar uma divisão ambiental é em um banco do setor público ou de desenvolvimento. Meio ambiente e desenvolvimento são dois lados da mesma moeda. O que está no meio ambiente, sobretudo o capital natural, é a riqueza dos pobres. Os pobres não possuem conta em banco, mas têm a natureza, que proporciona nutrientes, água doce, solo fértil, lavouras, florestas, pescado nos rios e no mar, tudo isso gratuitamente. Capital natural e riqueza pública são ideias muito próximas, relacionadas. Muito do capital natural é de fato riqueza pública. Se você tenta pensar em que tipo de banco deveria observar essa dimensão, que deveria ter uma divisão de serviços ambientais, esse banco seria uma instituição do setor público.

Por que o senhor enfatiza o setor público quando menciona essa divisão de serviços ambientais?

Meu ponto é que precisamos ver qual é a classe subjacente desse ativo. Nesse caso, a classe subjacente é o ativo ambiental, a riqueza pública. Para realmente focar na riqueza pública em uma instituição financeira, precisa ser um banco do setor público. Infelizmente, os bancos são privados em sua maioria. Pouquíssimos negócios privados estão atentos ao meio ambiente, exceto em seus próprios contextos. Você encontrará uma companhia de cimento tentando melhorar impactos nos recursos hídricos para reduzir custos. Achará uma empresa que tenta diminuir sua pegada de carbono, porque deseja provar que é ambientalmente correta e, portanto, conquistar uma nova linhagem de consumidores.

Por que é tão difícil tornar os bancos transparentes quando tratamos de temas socioambientais? Frequentemente pedimos aos bancos para detalhar como analisam projetos enquadrados nos Princípios do Equador (PE). A resposta é sempre a mesma, de que não podem publicar tais informações em razão da cláusula de confidencialidade nos seus contratos com as empresas. (Os PE preveem padrões mínimos para a avaliação pelos bancos de riscos socioambientais em grandes projetos industriais e de infraestrutura)

Penso que a confidencialidade é parte do negócio do banco. Não se pode evitar isso. O que pode ser feito é questionar se o capital do banco está comprometido com projetos socialmente danosos. É possível questionar como acionista, como governo, ou apenas como cidadão. Se há prejuízos sociais, então alguém é responsável por isso no banco ou numa empresa e deveria explicar por que está causando tal impacto. Essa cobrança precisa ser praticada. É por isso que é importante termos cidadãos e ONGs fortes.

O que acha da ideia de estabelecer uma pegada ecológica máxima para cada habitante do planeta? Caso a pessoa ultrapassasse a pegada, teria de pagar um imposto ambiental, por exemplo. Se não utilizasse a pegada completa, poderia receber alguma compensação.

A questão é que neste exato momento eu e você já estamos pagando um imposto sobre nossa vida e a vida das crianças. Porém, o beneficiário do imposto é alguma outra pessoa. Talvez a pessoa que dirige uma Ferrari, que emite muito gás carbônico. Ou a pessoa que compra aparelhos complicados que liberam uma quantidade grande de carbono e consomem muita água.

Como estamos pagando por isso?

Observe a quantidade de subsídios no mundo. Para favorecer a venda de combustíveis fósseis, gastam-se US$ 650 bilhões em subsídios anualmente. Dos US$ 650 bilhões, US$ 550 bilhões são para reduzir os preços e US$ 100 bilhões para apoiar a produção. De onde você pensa que vem esse dinheiro? Dos impostos que eu e você pagamos. Já estamos sendo tributados pela indústria do petróleo. Há, ainda, US$ 275 bilhões em subsídios anuais para a agricultura. Essa cifra é da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação). O primeiro número é da AIE (Agência Internacional de Energia). E a pesca oceânica também é subsidiada. Aproximadamente um terço do valor global de US$ 85 bilhões gerados pela pesca anualmente é subsídio. Por que conceder tantos subsídios à pesca, à agricultura, aos combustíveis fósseis? Combustíveis fósseis não são como a Madre Teresa de Calcutá, como uma pequena entidade de caridade na Índia. Não são necessários subsídios para manter vivas companhias de petróleo e carvão.

Para cortar subsídios, parece haver dois desafios: mudar estilos de vida e fazer acordos internacionais.

Por que mudar estilos de vida? Apenas pague-se o preço correto pelo petróleo. Se uma pessoa dirige uma Ferrari, por que eu e você temos de pagar os custos dessa opção? Eu não entendo isso.

Como chegar a esse novo sistema de preços, sem subsídios aos combustíveis fósseis e à agricultura?

É muito simples. Primeiramente, devem ser tornadas públicas as fontes dos subsídios. Isso significa revelar o que se paga de tributos para bancar os subsídios.

Boa parte dos subsídios é concedida pelos países desenvolvidos, que respondem pela maior parte das emissões históricas de gases de efeito estufa. Veja os Estados Unidos, onde o presidente Barack Obama sofreu muito tentando aprovar a Lei de Clima no Congresso para estimular investimentos em energia renovável. Como mudar esse quadro? Parece uma tarefa muito difícil.

Certamente é complicada. Os interesses financeiros das grandes corporações são um dos principais obstáculos. Elas não querem ver seus lucros declinarem. Querem que os subsídios sejam altos. Obviamente, as grandes corporações estão entre os maiores apoiadores de campanhas eleitorais. Isso acontece em todos os lugares, nos Estados Unidos, na Índia, no Brasil. Portanto, os partidos políticos dependem das corporações para financiar suas campanhas. Além disso, seus eleitores também lhes pedem medidas para gerar empregos que façam o PIB crescer, para financiar o déficit fiscal.

A maioria dos países apresenta déficit fiscal e ele é financiado com os impostos pagos pelas corporações. Essa é a razão do forte nexo entre corporações e governos. A única saída para quebrar esse nexo é a população dizer aos políticos que seu papel não é apenas beneficiar as corporações. O trabalho deles é também apoiar os cidadãos. E os cidadãos querem um ambiente limpo, que os tributos sejam investidos na saúde pública. O dinheiro público deveria ser gasto na riqueza pública, e não nos subsídios ao petróleo. Essa riqueza compreende o capital natural, a infraestrutura ecológica, rodovias, ferrovias, pontes, educação, saúde.

Em que medida os relatórios Teeb e Rumo à Economia Verde, do Pnuma, ambos coordenados pelo senhor, podem contribuir para uma mudança nesse sistema de preços, tributos e subsídios que favorecem setores da economia do carbono?

O componente mais importante da riqueza pública é o capital natural. Hoje, contudo, a maioria dos governos o ignora, porque é economicamente invisível. É por essa razão que o capital natural não está no coração das políticas públicas. Se ele fosse visível, seria parte de qualquer política, seja ela a tributária, seja ela a destinada à construção de estradas e pontes, com objetivo de gerar emprego. Algo importante para o Teeb é como tornar a natureza visível por meio de cálculos, valorações, pelo diálogo com os formuladores de políticas e empresas. Se a tornarmos visível, os governos não mais poderão ignorá-la.

Há formadores de opinião influentes na área de sustentabilidade no Brasil que manifestam preocupação com uma suposta monetarização da natureza quando os questionamos sobre novos estudos que tentam calcular o valor dos recursos naturais. Qual sua opinião sobre isso?

Parte dessa preocupação existe por causa da escola neoclássica de economia e de setores vinculados ao chamado Consenso de Washington de duas décadas atrás (conjunto de reformas liberalizantes destinadas a tirar os países em desenvolvimento da crise por meio da privatização e da liberalização do comércio internacional). O Teeb desacreditou esse ultrapassado pensamento colonialista. Como você bem sabe, e o Teeb diz claramente, ele não tem um argumento reducionista. O relatório não possui enfoque baseado na ideia de custo e benefício para a proteção do planeta.

Ao contrário, o estudo vê a “valoração” como uma instituição humana, que pode ser efetuada nos níveis religioso ou espiritual, social, econômico, ou englobar todos esses aspectos. Não é nosso argumento igualar valor a preço. Na verdade, é bem o oposto. Nunca nos cansamos de esclarecer que os bens e serviços públicos têm imenso valor, mas não preço. Os mercados precificam produtos e serviços privados – não bens e serviços públicos. Isso explica por que eles não recebem o tratamento merecido nas contas da sociedade, tais como a poupança nacional e o PIB. E essa invisibilidade econômica de fato reduz o argumento a favor da conservação, porque usos extrativos, contrários aos usos da conservação, sempre possuem preço, são da esfera privada. O Teeb argumenta que algumas coisas podem ser valoradas sem ser medidas, algumas podem ser medidas sem ser monetarizadas. Outras, ainda, podem ser monetarizadas, mas não mercantilizadas. Menos coisas, ainda, podem ser mercantilizadas.

Fui a um seminário do Instituto Ethos sobre economia verde no final de fevereiro, realizado poucos dias após a publicação do relatório do Pnuma sobre o mesmo assunto, e ouvi algumas críticas à suposta ênfase na ideia de crescimento e timidez do estudo quanto a questionar os estilos de vida nas sociedades afluentes. O senhor vê sentido nessas críticas?

O relatório trata mais do lado da produção do que do consumo. Mas não é apenas sobre crescimento. É errado pensar assim. Digo isso categoricamente porque eu o escrevi. Todos esses países ricos, que se localizam na Europa e na América do Norte, terão de se mexer para serem sustentáveis. Isso significa que sua pegada ecológica terá de declinar com redução no consumo per capita ou no seu impacto ambiental. Essas são coisas que os economistas precisam começar a pensar, em vez de seguirem cegamente o PIB.

(Página 22)

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Bicicletas salvam 12 por ano em Barcelona

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Boas pedaladas!

Bicicletas salvam 12 por ano em Barcelona

Desde que foi implementado, em 2007, o Bicing, sistema público de aluguel de bikes catalão, ajudou a reduzir em 24% as mortes na cidade e as emissões de CO2

Bicing: sistema público de bicicletas de Barcelona

Bicing: sistema público de bicicletas de Barcelona

Segundo estudo do Centro de Pesquisa em Epidemiologia Ambiental (Creal), o sistema público de bicicletas da capital catalã, conhecido como Bicing, é capaz de evitar 12 mortes por ano e a emissão de mais de 9 mil toneladas de dióxido de carbono (CO2) na tamosfera. Desde que foi implementado, em março de 2007, o sistema ajudou a reduzir em 24% as mortes anuais na cidade.

A pesquisa "Transporte, Poluição do Ar e Atividades Físicas" foi a primeira a analisar o impacto na saúde do uso da bicicleta no centro urbano. Para realizar o trabalho, os autores levaram em conta não apenas o número de usuários de Bicing e taxa de mortalidade esperada para a população de Barcelona, mas os níveis de atividade física e os riscos de se dirigir carros na cidade.

São Paulo – Que andar de bicicleta faz bem para a saúde e para o meio ambiente, todo mundo sabe. Tanto que várias cidades do mundo vêm estimulando o uso do veículo não poluente através de sistemas públicos de aluguel. Mas a população de Barcelona agora tem um motivo a mais para abraçar as magrelas - já que elas podem salvar vidas.

De acordo com os cientistas, o grande destaque da pesquisa foi a conclusão de que os efeitos positivos das bicicletas, longe de serem associados a um esforço físico extenuante, refletiram pedaladas curtas, em média de 3,2 km, com duração de 14 minutos - como uma ida ao trabalho ou ao supermercado.

Os resultados do estudo, publicado no British Medical Journal, são baseados em dados dos usuários do Bicing em 2009, ano em que foram incluídos neste serviço 11% dos residentes de Barcelona. No período, 68% das viagens foram feitas para ir para o trabalho ou escola, e 37% deles foram combinados com outros meios de transporte. Atualmente, o Bicing conta com 6.000 bicicletas, 420 estações e 120 mil inscitos.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Serão necessários 27 planetas Terra

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por Stepehn Leahy, da IPS

Uxbridge, Canadá, 2/8/2011 – Ainda que se multiplicasse por dez as áreas dedicadas no mundo inteiro a conservar plantas, animais e outras espécies, não seriam suficientes para enfrentar os grandes problemas do Século 21: o aumento populacional, o consumo desenfreado e o uso ineficiente dos recursos. E se estas questões não forem enfrentadas, a humanidade chegará aos dez bilhões de pessoas em 2050 e precisará de outros 27 planetas Terra para pagar o custo ambiental da demanda por recursos, afirma um novo estudo publicado no final de julho pela revista Marine Ecology Progress Series.

O tamanho e o número de áreas protegidas em terra e mar aumentaram drasticamente desde a década de 1980, totalizando hoje mais de cem mil e cobrindo 17 milhões de quilômetros quadrados de solo e dois milhões de quilômetros quadrados em oceanos. Entretanto, as espécies se extinguem mais rápido do que antes, alerta o estudo. “Para mim é incrível não termos conseguido enfrentar este fracasso das áreas protegidas”, disse o principal autor do trabalho, Camilo Mora, da Universidade do Hawai.

“Surpreendeu-nos que a evidência dos últimos 30 anos fosse tão clara”, disse Mora à IPS. A capacidade das áreas protegidas para frear a perda de biodiversidade – redução da variedade e do número de espécies vivas – foi superestimada por muito tempo, segundo os especialistas. A realidade é que a maioria não está realmente protegida. Muitas são apenas “parques de papel”, isto é, teoricamente protegidas. Mais de 70% se inserem nesta categoria, alertou. O estudo mostra, ainda, que os gastos mundiais com áreas protegidas são atualmente de US$ 6 bilhões por ano, e muitas não recebem fundos suficientes para uma administração adequada.

Gerir efetivamente estas áreas exige US$ 24 bilhões anuais, quatro vezes mais o investimento atual. “A perda de biodiversidade e suas consequências para o bem-estar da humanidade são de grande preocupação, o que desatou fortes apelos para expandir o uso de áreas protegidas para remediar o problema”, explicou o coautor do estudo Peter Sale, biólogo marinho e diretor-assistente do Instituto de Água, Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas. Mas estas “são uma falsa esperança”, disse à IPS.

Consultado a respeito do acordo mundial sobre biodiversidade alcançado em Nagoya, no Japão, para colocar 17% das terras e 10% dos oceanos do planeta sob proteção até 2020, Sale afirmou que “é muito pouco provável que essas metas sejam alcançadas”, devido à crescente necessidade de alimentos e outros recursos. “Mesmo que estes objetivos sejam alcançados, não se deteria a perda de biodiversidade”, acrescentou Sale. Uma das razões é que, uma vez criada uma zona protegida, a indústria se muda para outro lugar para extrair recursos.

Outro dos motivos pelos quais as áreas protegidas não são uma resposta é que não podem controlar o impacto da contaminação ou da mudança climática. Por fim, a pressão sobre os recursos do planeta aumenta tão rapidamente que “o problema foge de toda solução”, ressaltou Sale. A perda de biodiversidade é preocupante, pois se trata do único sistema de apoio que a humanidade tem para sua sobrevivência: fornece desde alimentos, água e ar limpo até recreação e turismo, disse Mora.

A única estratégia hoje é a criação de áreas protegidas, mas “isto é colocar todos nossos ovos em uma única cesta. É necessária uma grande mudança para enfrentar as raízes do problema”, acrescentou Mora. O aumento populacional é a principal causa da perda de biodiversidade. Quando o número de habitantes do planeta era de cinco bilhões, em 1985, o uso de recursos superava o que a Terra podia propiciar de forma indefinida, segundo várias estimativas, disse Mora. Hoje, a população mundial é de sete bilhões de habitantes, muito mais do que a Terra pode sustentar.

Para 2050, com população estimada em dez bilhões e sem mudanças nos padrões de consumo, o uso acumulado de recursos naturais equivalerá à produtividade de mais de 27 planetas Terra, segundo o estudo. Para manter os atuais sete bilhões de pessoas é necessária uma drástica mudança no uso de recursos. Atualmente, a pegada ecológica média de cada cidadão dos Estados Unidos é de dez hectares, enquanto a de um haitiano é de menos de um. O planeta poderia sustentar toda a humanidade se a pegada média de cada pessoa fosse de dois hectares, calcula Mora. Se há mais gente, simplesmente haverá menos recursos disponíveis para todos, por isso será necessário de um controle da população, afirmou. Envolverde/IPS

(IPS)

http://envolverde.com.br/noticias/serao-necessarios-27-planetas-terra/

terça-feira, 2 de agosto de 2011

A Rio+20 conseguirá obter bons resultados?

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Boa discussão.

Seminários quase apocalípticos pelas pegadas ecológicas de transporte transoceânico de pessoas equivalentes a do uso energético de alguns países africanos em um ano. Sem mudança alguma de paradigma depois de tanto blablablá; se houvesse, tornariam essas reuniões desnecessárias. Se tais reuniões existem, é que estamos longe da mudança, empurrando o Pão de Açúcar no Rio. O pior é que muitos tolamente acreditam que sua simples existência já é sinal de mudança e o mesmo vale para os ministérios de meio ambiente, órgãos ambientais, departamentos de sustentabilidade, etc. Se eles existem, eles personificam a mudança, quando na verdade a sua existência é simplesmente para deixar a mudança cada vez mais distante, fazendo sempre o mais do mesmo e na mesma direção, com pouquissimas e cada vez mais raras exceções. "Existem porque nada mudou" é apenas uma pálida constatação de "existirem para nada mudar". Na primeira hipótese, poderíamos crer que mudar é uma questão de tempo. Na segunda, a dura realidade do sistema não querer mudar, mas fazendo crer que estamos mudando. Nessa derradeira visão de mundo já sabemos que a mudança virá do planeta para baixo, contra nossa vontade e nossas leis e da forma mais dolorosa possível e ao que tudo indica com a crise atual ambiental se disseminando a olhos vistos mais rápido do que antes imaginado.

Hugo

A Rio+20 conseguirá obter bons resultados?

SIM


Ímpeto a ser aproveitado por líderes globais

ACHIM STEINER

Faltando menos de 12 meses para a conferência Rio+20, algumas pessoas podem estar se perguntando se esse evento -20 anos após a histórica Cúpula da Terra de 1992, que definiu os rumos atuais do desenvolvimento sustentável- será um fiasco ou um momento decisivo nos assuntos mundiais.
Com certeza o público global, incluindo cidadãos do Brasil, poderia ser perdoado por perguntar "Rio+o quê?". Hoje se vê uma escassez de cobertura da mídia sobre a política e as questões práticas que cercam esse evento, do tipo que só acontece uma vez em uma geração.
Mas a discussão intelectual e o interesse estão começando a aumentar em torno de dois temas: uma economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza e um quadro institucional para o desenvolvimento sustentável.
Se esse ímpeto puder ser aproveitado pelas lideranças políticas, e nos níveis mais altos, há boas chances de que a Rio+20 consiga cumprir o que promete.
Recentemente, na Guiné Equatorial, líderes africanos se reuniram em preparação para um encontro final em Adis Abeba, e encontros semelhantes vêm sendo ou serão realizados em outras regiões.
Parte do sucesso da Rio+20 vai depender do engajamento real de todos os setores, incluindo a sociedade civil e as empresas -ponto esse que é claramente compreendido pelo país anfitrião, como parte de sua Comissão Nacional para a Rio+20, criada pela presidente.
Até agora não há nada claramente definido, nem pelos governos nem pela sociedade mais ampla.
Ma s já há propostas cooperativas transformadoras e questões "grandes" sobre as quais os países talvez possam concordar em junho de 2012 -desde a intensificação das energias limpas até novas maneiras de administrar os oceanos, melhoras na segurança alimentar, na administração de desastres e da água.
O foco principal, até agora, vem sendo a economia verde. Os subsídios aos combustíveis fósseis variam entre US$ 400 bilhões e US$ 650 bilhões por ano, dependendo do preço do petróleo. Assim, de acordo com algumas estimativas, o custo de subsídios a tais combustíveis é quatro vezes o que custaria para elevar a ajuda oficial ao desenvolvimento até a meta de 0,7%.
Uma das muitas ideias ilustrativas consiste em compras públicas verdes. As compras públicas respondem por 23% do PIB, em média, em todo o mundo. Em alguns países, como Brasil e Índia, esses valores se aproximam dos 50%.
Segundo algumas estimativas, esses 23% poderiam ser suficientes para conduzir mercados inteiros para um caminho mais sustentável.
Enquanto isso, a Rio+20 poderia também encontrar uma nova maneira de definir a riqueza, que amplie o PIB para além de sua definição atual e estreita.
Uma das várias sugestões feitas é a de um Indicador de Progresso Genuíno, ou IPG, como medida alternativa ou evoluída, que meça "a sustentabilidade da receita" por meio de indicadores econômicos, mas também sociais e ambientais.
Portanto, os avanços em direção à Rio+20 estão acontecendo em ritmo crescente e de maneira que reflete o espectro geopolítico de uma nova era. O elo que está faltando e que precisa ser forjado nos próximos meses é o apoio político amplo de todos os países.
O Brasil, como país anfitrião, vem assinalando sua determinação em garantir essa liderança.
Se mais líderes de pensamento semelhante assinalarem apoio, então é possível que aqueles que no momento questionam se a promessa da Rio+2 0 poderá ser transformada em resultados profundos vejam sua posição contestada, mais do que nunca, por determinação e senso de objetivo reais que vêm se desenvolvendo entre os países.


ACHIM STEINER é subsecretário-geral da ONU e diretor executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).


A Rio+20 conseguirá obter bons resultados?

NÃO


Duplo impasse

JOSÉ ELI DA VEIGA

A cúpula global sobre desenvolvimento sustentável convocada pela ONU não dará conta do recado, mesmo que ultrapasse o estigma de mera "Rio+20". Até poderá catalisar o incipiente processo de ruptura com o crescimento econômico marrom, mas não desencadeará aquilo que boa parte do establishment já começa a chamar de crescimento verde, em vez de usar o eufemismo "economia verde".
Bastam duas razões umbilicalmente ligadas para justificar tal ceticismo. A conferência não terá mandato para mexer no arcabouço institucional que enquadra o enfrentamento da questão climática.
Pior: a comunidade internacional está muito longe de assumir que só haverá sustentabilidade socioambiental com drástica redução das desigualdades.
As mudanças que um dia poderão libertar as matrizes energéticas da predominância fóssil não foram impulsionadas pela Convenção do Clima (1992) e seu Protocolo de Kyoto (de 1997, em vigor desde 2005, com dezesseis conferências das partes). Ao contrário, nas últimas décadas houve desaceleração da transição tecnológica inaugurada pelas crises do petróleo dos anos 1970, como mostra o recente "World Economic and Social Survey 2011".
Essa publicação anual do departamento de assuntos econômicos e sociais da ONU -desta vez intitulada "The Great Green Technological Transformation" (GGTT)- alerta que será impossível atingir nos próximos 40 anos o grau de descarbonização sonhado pelos compromissos de Cancún.
O GGTT também revelou que o desenvolvimento humano de qualquer país deixa de avançar a partir de um patamar de consumo energético equivalente a 2 toneladas de petróleo per capita (110 gigajoules).
Em decorrência, chega mesmo a discutir a proposta de adoção de tetos ("caps") para o uso de energia nos países mais ricos, o que seria extremamente benéfico para o mundo inteiro.
Reduzir ou contigenciar o setor energético das nações mais avançadas não levaria necessariamente a uma menor expansão ou estabilidade de seus sistemas econômicos.
Mas está justamente nesse tipo de "decrescimento seletivo" o cerne da tese de que a vanguarda do Primeiro Mundo já deve dar início às mudanças que a conduzirão à "prosperidade sem crescimento".
Claro, nessa questão o GGTT opta pela mais realista das prudências.
Lembra apenas que não se percebe qualquer propensão a encarar as necessárias "grandes transformações estruturais das economias e das sociedades".
Isto é, as transformações globais e nacionais de caráter redistributivo que nenhum setor da ONU, da OCDE, do FMI ou do Bird ousaria sugerir ou aconselhar.
Afinal, esse é o maior tabu nas relações internacionais, apesar das evidências de que as desigualdades atrofiam o bem-estar. Não apenas dos mais pobres, mas de todos, os ricos inclusive, como tão bem ressaltou André Lara Resende no "Valor" de 28/1/2011.
Em suma, o mundo está num duplo impasse. O fatalismo de que as desigualdades são ossos demasiadamente duros para que possam ser roídos se combina à angústia de não se conseguir avançar na mitigação do efeito estufa.
Como a Rio+20 não serve para desentravar a imprescindível transição energética, dela só se pode esperar uma linda resolução sobre a tão ilusória quanto cômoda bandeira da "economia verde".


JOSÉ ELI DA VEIGA, 63, é professor da pós-graduação do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI/USP) e do mestrado profissional em sustentabilidade do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ).
Site: www.zeeli.pro.br.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Novas tecnologias a serviço do meio ambiente. Entrevista especial com Antonio Nobre

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“O Brasil dispõe de imensas áreas para expansão tanto da produção agrícola de alto rendimento quanto para proteção e recuperação dos ecossistemas e seus serviços ambientais”, menciona pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – Inpa.

Confira a entrevista.

“O substitutivo proposto já nasce ‘velho’”, diz Antonio Nobre referindo-se ao texto do novo Código Florestal, que, segundo ele, não avança no delineamento inteligente das Áreas de Preservação Permanente – APPs. Na avaliação do engenheiro agrônomo, o “novo Código não aproveitou as tecnologias modernas para aperfeiçoar e otimisar um desenho mais orgânico das APPs, de acordo com potenciais, fragilidades e riscos naturais dos terrenos”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Nobre explica que novas tecnologias são capazes de indicar quais áreas devem ser destinadas à agricultura e à preservação. “Com estas imagens em 3D, podemos identificar no computador onde estão os brejos, a que profundidade está a água, quais as declividades e outras várias propriedades diagnósticas dos terrenos. Com estas valiosas informações espaciais, podemos definir classes de potencial de uso, acessar outras classes de fragilidades e mesmo identificar regiões de risco natural (cheias e deslizamentos, por exemplo)”. O uso dessa tecnologia, enfatiza, “resulta numa ampliação inteligente, econômica e não obstrutiva para a agricultura das áreas de conservação da biodiversidade”.

Antonio Donato Nobre
é engenheiro agrônomo e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais – Inpe e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – Inpa.


IHU On-Line – De que maneira o novo Código Florestal poderá impactar as Áreas de Proteção Permanente – APPs?

Antonio Nobre –
Afeta de muitas maneiras. Primeiramente, pelo fato de que o novo Código não aproveitou as tecnologias modernas para aperfeiçoar e otimisar um desenho mais orgânico das APPs, de acordo com potenciais, fragilidades e riscos naturais dos terrenos. Neste sentido, o substitutivo proposto já nasce “velho”, uma vez que não avança no delineamento inteligente de APPs. Essas novas tecnologias, que utilizam maquetes virtuais da paisagem e modelagem matemática de terrenos, já foram demonstradas como poderosas ferramentas na indicação dos melhores solos para agricultura, o que se traduz em considerável aumento de produtividade e de produção, sem incremento de área; e de áreas mais propícias para produção de serviços ambientais por ecossistemas naturais, o que resulta numa ampliação inteligente, econômica e não obstrutiva para a agricultura das áreas de conservação da biodiversidade.

Mesmo antes de ser aprovada na Câmara, a proposta de anistia, o tal prêmio da impunidade, já motivou preocupante piora nos números de desmatamento, com reflexos também no aumento da violência no campo. APPs como definidas no Código Florestal atual são áreas com terrenos em sua maior parte impróprios ou pouco próprios para atividade agrícola. No entanto, são regiões de grande importância ambiental para os agricultores e para a coletividade, porque lá é produzida água filtrada e de boa qualidade; é de lá que saem animais silvestres predadores de pragas agrícolas e também polinizadores sem os quais cai a produção de muitas culturas. São também essenciais para a segurança geológica e hidrológica, para a manutenção de solos e para a prevenção do assoreamento de canais e lagos. Quase ninguém discorda destas verdades científicas, quais sejam, as de que as APPs não são somente importantes mas também essenciais.

No entanto, um pequeno número de poderosos e influentes proprietários rurais, especialmente os que atuam na pecuária – mas também aqueles associados a imensos desmatamentos –, não querem ser imputados pelos crimes ambientais que cometeram.

IHU On-Line – Uma das propostas do novo Código Florestal é ampliar o espaço territorial para a agricultura. Que espaço físico o Brasil dispõe para investir nesta área? É possível ampliar o espaço para plantação e, ainda assim, conservar a biodiversidade?

Antonio Nobre –
O Brasil dispõe de imensas áreas para expansão tanto da produção agrícola de alto rendimento quanto para proteção e recuperação dos ecossistemas e seus serviços ambientais. Como o espaço ocupado pelas plantações é função direta do rendimento, se aumentarmos a intensidade de produção em vastas áreas degradadas ou de baixa produtividade, teremos espaço mais do que suficiente para ampliação das duas frentes. A percepção de oposição entre produção agrícola e conservação não tem fundamento científico demonstrado.

A meu ver, o novo texto surgiu de ponderações políticas, contaminado por ideologia e interesses de lobbies econômicos, e está baseado em apenas um trabalho técnico, trabalho não devidamente publicado em revistas cientificas de sua área (geociências) e fortemente contestado pela comunidade científica.

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC e a Academia Brasileira de Ciências – ABC aportaram uma revisão de centenas de trabalhos científicos, com inúmeras sugestões construtivas para a melhoria do texto, pedindo para ser escutada a comunidade científica, mas até o momento com pouco eco no poder Legislativo. Não obstante o desinteresse prático, quase todos os deputados e senadores, com quem a SBPC e a ABC interagiram para ofertar as contribuições científicas, demonstraram receptividade. Então, parece mesmo que não existem argumentos verdadeiros contra a entrada da ciência, mas existem, sim, interesses políticos inconfessáveis que não suportariam a confrontação com a verdade.

IHU On-Line – Quais são os maiores dilemas e desafios da agricultura brasileira?

Antonio Nobre –
O primeiro dilema é permanecer com a abordagem envelhecida da produção a qualquer custo (que pode significar continuação de lucro imediato de poucos poderosos, mas resultar na estigmatização da agricultura brasileira como inimiga da natureza – o que pode refletir-se em barreiras comerciais) ou adotar a abordagem da produção harmonizada com os reclamos ambientais (o que pode custar algo mais no início, mas resultar em apreço social e segurança comercial).

O segundo dilema é manter a artificial luta política contra grupos ambientalistas ou buscar associação com a força do ambientalismo (como já ocorre em países desenvolvidos, gerando muitas sinergias e lucro direto).

O principal desafio é aumentar a produção sem aumentar a área ocupada pela agricultura. (É demonstravelmente alcançável, mas exige investimento em aplicação de tecnologias amplamente disponíveis.) Além disso, é preciso aumentar ou manter a produção com as mudanças climáticas reduzindo ou aumentando os extremos de chuvas, e recuperar os serviços ambientais das florestas que promovem e regulam as chuvas.

IHU On-Line – O senhor apresentou aos senadores novas tecnologias para mapeamentos e estudos sobre os recursos naturais brasileiros. Que tecnologias são essas?

Antonio Nobre –
São poderosas tecnologias de imageamento remoto da superfície, que utilizam radar, laser e outros instrumentos, com os terrenos sendo realçados e evidenciados em resolução muito fina, de poucos metros. Com estas imagens, obtidas por aviões ou satélites, constroem-se maquetes computacionais da paisagem. A partir destas maquetes, e utilizando-se modelagem matemática de terrenos, descobrimos e desenvolvemos um novo modo de mapear a profundidade do lençol freático remotamente. Isto é, com estas imagens em 3D, podemos identificar no computador onde estão os brejos, a que profundidade está a água, quais as declividades e outras várias propriedades diagnósticas dos terrenos. Com estas valiosas informações espaciais, podemos definir classes de potencial de uso, acessar outras classes de fragilidades e mesmo identificar regiões de risco natural (cheias e deslizamentos, por exemplo). Com tais tecnologias já construímos um protótipo de visualizador para o Google Earth, onde cada pessoa com acesso à internet poderá ver quais os terrenos são apropriados para determinado tipo de uso. Essas tecnologias vão democratizar o acesso à informação sobre os terrenos, ajudando poderosamente a melhor alocação de culturas agrícolas, de acordo com a aptidão dos solos.

Também, indicará onde as APPs precisam ser recompostas, quais áreas oferecem riscos para residências, etc.

IHU On-Line – Qual sua expectativa em relação à aprovação ou não do Código Florestal pelos senadores?

Antonio Nobre –
Tenho forte esperança de que o debate emocional, ideológico e da baixa política que assistimos na Câmara dos Deputados durante a geração do novo texto do Código Florestal seja sucedido no Senado por uma séria análise racional, propositiva e responsável.

Quando o Brasil era pouco desenvolvido, em 1934, os cientistas foram escutados para a construção do primeiro código florestal. Depois,em 1965, novamente o melhor da ciência informou a construção da lei ainda em vigor. Seria surreal se, em 2011, com os inegáveis e espetaculares avanços da ciência e da tecnologia, o Senado aprovar inalterado o texto da Câmara, que infelizmente ainda se encontra desprovido de ciência.