segunda-feira, 25 de julho de 2011

Como mudar o paradigma econômico e evitar o precipício?

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No Cidades e Soluções desta semana, mostramos que já é possível calcular, em valores monetários, os serviços ambientais prestados pelos ecossistemas.

Em entrevista exclusiva, o economista indiano Pavan Sukhdev explicou a metodologia criada por ele (TEEB), que já vem inspirando políticas públicas (inclusive no Brasil) de remuneração dos serviços ambientais prestados por florestas ou manaciais de água doce. Em artigo exclusivo para o site Mundo Sustentável, o economista e escritor Hugo Penteado dá a opinião dele sobre o TEEB ( Economia dos Ecossistemas e da Biodiversidade)


Como mudar o paradigma econômico e evitar o precipício?


Por Hugo Penteado, economista com graduação e mestrado na Universidade de São Paulo e autor do livro Ecoeconomia Uma nova Abordagem, ed.Lazuli, 2008.


Valorar a natureza pela metodologia do TEEB – The Economics of Ecosystems and Biodiversity (A economia dos ecossistemas e da biodiversidade) pode ser uma proposta válida, desde que capaz de revogar nossos mitos. Por exemplo, o relatório Stern removeu a cegueira dos relatórios econômicos anteriores ao afirmarem que o custo de combater a mudança climática é muito maior que o seu efeito sobre o PIB num horizonte de 50 anos. A conclusão portanto antes do relatório Stern é que nada deveria ser feito então para evitar a mudança climática.Vários erros podem ser encontrados nesse relatório, mas destacamos a incapacidade de entender os processos sistêmicos, pelos quais as mudanças não estão sujeitas a variações graduais, mas abruptas a partir de determinados pontos de estresse e finalmente o pequeno horizonte temporal, de apenas 50 anos, que apenas exemplifica nossa incapacidade de projetar horizontes que vão além da nossa própria temporalidade. O primeiro mito que TEEB e Stern começaram a ajudar a resolver é o de total separação do nosso sistema sócio-econômico e o planeta e o reconhecimento que se o planeta revidar contra nós, tudo irá desaparecer, não só o progresso nada sustentável que dizemos ter atingido, como a vida terrestre.

Stern teve o mérito de mostrar justamente o oposto e que valeria a pena, em prol do PIB, combater a mudança climática. Apesar de seu retumbante sucesso de convencimento, não avançamos em absolutamente nada na direção de amenizar os efeitos das dramáticas mudanças climáticas já em curso e a margem de segurança estabelecida pelo IPCC, de não ultrapassar a concentração de 350 partes por milhão de gás carbônico equivalente na atmosfera foi revista, por dois motivos: atualmente a concentração jamais vista em um milhão de anos está na casa de 385 partes por milhão e os acordos climáticas, de Kyoto a Copenhagen, fracassaram. A régua de 350 foi escolhida porque todos os cenários do IPCC nessa concentração ficavam dentro de uma elevação máxima de 2 graus Celsius, cujas alterações climáticas permitiriam adaptação. A régua agora é 450 partes por milhão, com riscos de elevações máximas de até 4 graus Celsius, ou seja, incorpora cenários de grande ruptura e mesmo assim, para conseguirmos ficar nesse patamar, a emissão de gases do efeito estufa precisa ser reduzida em mais de 80% até 2050 e ficar nesse patamar para sempre. O único desafio é produzir 200 trilhões de dólares de PIB em 2050 com uma emissão per capita de 1,1 tonelada de gás carbônico equivalente para 9 bilhões de pessoas, lembrando que a emissão per capital atual é de 7,1 tonelada. Não pode haver dúvida alguma que isso jamais será possivel com o atual modelo de produção, consumo, desperdício, geração de lixo e destruição de ecossistemas disseminado para todas as pessoas do planeta. Não há dúvida que não iremos jamais conseguir com a disseminação dos maus hábitos de consumo das populações abastadas para todos. Tudo ainda está sendo estimulado hoje na direção de mais lixo, mais desperdício e dentro da economia do alto carbono e da agricultura baseada em conversão de florestas, ecossistemas e dependente de minerais não metálicos e combjustíveis fósseis.. Não dá para ficar otimista. Aquecimento global deriva da pressão sobre os ecossistemas do nosso sistema sócio-econômico que destrói todos os seus serviços ecológicos de sustentação da vida. Ambos irão resultar no fim da vida na Terra.

A contribuição para a necessária mudança de paradigma de Stern ficou no aspecto econômico relativo do custo de combater a mudança climática versus seu impacto no PIB, estatística que está mais do que na hora de ser execrada. Em uma conversa particular com o Sir Nicholas Stern, ao comentar sobre o excelente artigo da revista New Scientist, entitulado “The folly of growth” (A tolice do crescimento), Stern foi taxativo ao dizer que não há tolice nenhuma no crescimento, desde que sejamos capazes de mudar nossa matriz energética. Em outras palavras, Stern não enxerga o problema da matéria, apenas o da energia e esse é um dos grandes mitos da atualidade: as economias, disse-me ele, poderão crescer infinitamente se obtivermos uma fonte inesgotável e limpa de energia. Mal sabe ele que é tecnologicamente impossível até então e jamais será totalmente limpa, mesmo a solar ou eólica. Isso é revelador como profissionais de áreas alheias a esse conhecimento tecnológico tomam emprestado conclusões para suas assertivas que são absolutamente irreais e incapazes de ser implementadas em qualquer horizonte de tempo relevante para a questão em jogo: a sobrevivência humana na Terra. A esse mito de “só há problema de energia” soma-se o mito de energia limpa ou da economia do baixo carbono. Mitos porque são crenças infundadas na capacidade tecnológica de superação da finitude terrestre. Pois bem, vamos imaginar que a partir de hoje teremos uma fonte inesgotável e limpa de energia e não mais precisaremos carbonizar a nossa finíssima atmosfera nem colocar em risco a vida nesse planeta. Podemos crescer infinitamente? A resposta é não, porque a energia não é produzida apenas para ser admirada, mas para combinar com a matéria, construir, transformar, movimentar objetos, construções, num ambiente cuja primeira restrição é o espaço territorial finito e a segunda e mais importante é a ecológica ou a nossa dependência em relação aos ecossistemas. A Terra não aumenta de tamanho, como iremos acomodar uma recombinação (chamada erradamente de produção) de seus materiais finitos num espaço também finito, onde até a água é finita, sem esfacelar todos os mecanismos de sustentação da vida ligado aos ecossistemas e todos os seres vivos? Existe algo mais estúpido do que a idéia de crescimento econômico? Isso levou o economista chileno Manfred Max-Neef a escrever que qualquer um que acredite que crescimento exponencial ilimitado é possível em um mundo finito ou é um louco ou um economista.

Essa crença absurda e não certificada por nenhum desenvolvimento científico até agora leva a proposições inviáveis que ao invés de evitar a atual rota de colisão da humanidade com a Terra, apenas a acelera. A primeira medida que precisa ser adotada imediatamente, dada a nossa limitação tecnológica que segue ignorada pelos iluminados salvadores da nossa espécie animal, é o fim do desperdício. Também na New Scientist ou em outros sites como o do WorldWatch Institute, sabemos que o desperdício de energia é da ordem de mais de 70% da produção mundial. Washington Novaes volta e meia toca nisso, mas combater o desperdício é algo que o sistema econômico atual não aceita, por ser ele todo medido em fluxo pelo conceito do PIB e desperdício entra com sinal positivo nessa estatística. Quanto mais desperdiçamos, melhor desempenho econômico apresentamos. O primeiro a perceber isso foi Nicholas Georgescu-Roegen, cujo alerta entre tantos da sua crítica até então irrefutável contra a teoria econômica, foi capaz de antecipar em décadas o que hoje os cientistas sabem. Escreveu Roegen: “Se a economia do descarte e do imediato desperdício dos bens continuar, seremos capazes de entregar a Terra ainda banhada em sol apenas à vida bacteriana.” A humanidade conseguiu a proeza de criar para si e para toda a vida terrestre pela primeira vez em 4,5 bilhões de anos risco de extinção total e já provocamos o maior processo de extinção da vida dos últimos 65 milhões de anos. Stephen Jay Gould declarou que é muita ingenuidade achar que essa extinção jamais irá se voltar contra os causadores. A extinção é para sempre, mas ela se aplica também à nossa espécia animal.

Portanto, somos um mundo de cegos guiando outros cegos. Para que o TEEB mude isso, é necessário mostrar que não adianta apenas valorar a natureza, mas mudar o nosso conjunto de valores, interromper e abandonar a idéia de crescimento econômico com seu impacto material crescente e criar um novo modelo de consumo e produção cujo foco saia do crescimento na direção da distribuição dos seus resultados que devem ser melhor mensurados na linha do que já vem propondo pessoas como Amartya Senn e Manfred Max-Neef. Os economistas, por seu turno, precisam parar de brigar entre si, por pura vaidade, e começar a revisar os erros crassos da sua teoria econômica, conforme apontado pelos trabalhos de Roegen décadas atrás. Não dá mais para não reconhecer esse erro epistemológico pelo qual economistas de renome como Joseph Stiglitz, Paul Krugman e tantos outros acreditam que o planeta é um subsistema da economia, que a economia pode ser maior que o planeta e que a economia está totalmente separada do meio ambiente. Para eles, economia tem que crescer e a questão do meio ambiente se resolve com uma boa política ambiental. Negam conhecimentos da física e da biologia, pelo qual todos nós sabemos que do ponto de vista da Terra, aqui somos todos um. Nossa interligação é crucial para manter a vida, os serviços ambientais são irreproduzíveis, basta dar um único exemplo em relação à Amazônia. Um dos serviços dessa imensa floresta com 600 bilhões de árvores, como explicou Antonio Donato Nobre na sua palestra do TEDxAmazônia, é a geração de vapor de água diário equivalente a 20 bilhões de toneladas de água que migram pelos ares e tornam a região abaixo de Cuiabá até Buenos Aires como a única não desértica nessa latitude. À guisa de comparação, o maior rio em volume do mundo, o Amazonas, produz 17 bilhões de toneladas de água por dia e para substituir esse serviço, seriam necessários o equivalente a 50.000 usinas Itaipu.

Podemos valorar a natureza, mas não poderemos substituí-la e o mito de perfeita substituição da natureza por outros fatores produzidos pelo homem está embutido na teoria econômica, embora seja impossível na realidade. Incrível esse e tantos outros erros da teoria econômica continuarem a frente das principais decisões à nossa volta e a pergunta é quanto esse estudo de valoração dos serviços ambientais será capaz de mudar o comportamento ganancioso e egoísta do ser humano, sua inconsciência em relação à sua dependência de todos os seres vivos e seus ecossistemas? O quanto isso será capaz de mudar o atual modelo de desenvolvimento econômico que nos quatro cantos do orbe está cada vez mais célere em direção ao precipício?


http://www.mundosustentavel.com.br/2011/07/como-mudar-o-paradigma-economico-e-evitar-o-precipicio/

quarta-feira, 20 de julho de 2011

QUANTO VALE A NATUREZA?

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Cidades e Soluções - INÉDITO!


QUANTO VALE A NATUREZA?

Refazendo as contas

Quanto valem as florestas? As barreiras de corais? A água doce e a terra fértil?

Em entrevista exclusiva, o economista indiano Pavan Sukhdev explica a metodologia TEEB

(Economia dos Ecossistemas e da Biodiversidade) que vem sendo usada pela ONU

para valorar os serviços ambientais prestados gratuitamente pela natureza em favor da humanidade.

Conheça as opiniões da Ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, da Subsecretária de Economia Verde do Estado do Rio,

Suzana Kahn, do economista Hugo Penteado e do biólogo Ângelo dos Santos.


Hoje, 20/7 às 23h30 no Cidades e Soluções (Globo News)

Sexo e câmbio

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Delfim Netto adora espetar os economistas, pena que não o faça na linha da crítica de Roegen. O problema é que a crítica de Roegen vai contra ele mesmo, talvez seja essa razão, embora tal crítica seja irrefutável. De qualquer forma, está mais do que na hora dos economistas parar de brigar entre si, por pura vaidade, e comecar a rever sua teoria falsa, a começar pelo mito de total separação entre economia e meio ambiente ou pior, que a economia pode ser maior que o planeta e que o planeta na verdade é um subsistema da economia. Isso torna as baboseiras criticadas por Delfim pêlo em ovo, porque as crenças que todos abraçam são muito mais ridículas.

Hugo Penteado

ANTONIO DELFIM NETTO – FSP 20-7-11

Sexo e câmbio

O National Bureau of Economic Research organizou, em junho, o seu "22º Annual East Asian Seminar on Economics". Um dos mais originais trabalhos apresentados foi o dos economistas da Universidade Columbia (EUA) Qingyuan Du e Shang-jin Wei, a começar pelo título "Uma perspectiva darwiniana sobre a taxa de câmbio chinesa". Nele, afirmam (tradução livre) isto:"Em geral, é aceita como indiscutível a proposição de que um grande desvio da taxa de câmbio com relação à de equilíbrio (paridade do poder de compra), combinado com a existência de superavit em conta-corrente, é sinal de que a taxa de câmbio vigente está subvalorizada.Neste trabalho, dizemos que essa visão convencional deixa de levar em conta algo importante, ainda que não considerado na teoria corrente da taxa de câmbio.Nosso argumento é que a relação entre sexos, maior número de homens no mercado de casamentos (sic) na China, pode ter produzido, simultaneamente, um declínio na taxa de câmbio real de equilíbrio e um aumento do superavit em conta-corrente.Mostramos a lógica dessa afirmação por meio de dois canais: um da poupança e outro de uma efetiva oferta de trabalho. Neste modelo, uma taxa real de câmbio desvalorizada não é causa de superavit em conta-corrente, nem é consequência de manipulação monetária. Demonstramos, empiricamente, que as economias com elevada relação homens/mulheres tendem a ter uma menor taxa de câmbio real, além de... outros efeitos, como o maior nível de renda per capita, desenvolvimento do mercado financeiro, regimes de câmbio etc.Uma vez levados em conta todos esses efeitos, concluímos que a taxa de câmbio chinesa está mesmo subvalorizada, mas subvalorizada num nível relativamente trivial".Como demonstram isso? Com grossa artilharia matemática, usam 20 páginas em grego fora do texto (dois terços do original com divertido algebrismo), engenhosa econometria e rica imaginação e coragem para "calibrar" valores a parâmetros que não podem ser estimados diretamente.Para entender aonde chegam, leiam este trecho que encerra o trabalho: "Se o planejador central (talvez alguém com a visão do líder Mao?) puder reduzir a relação entre os sexos (agora matando os nascituros masculinos?), ele produzirá uma redução da conta-corrente de acordo com a proposição 2" (que exige uma fantástica coleção de hipóteses para ser demonstrada).

Como disse, nos anos 1910, Vilfredo Pareto, sociólogo e economista matemático sério, "concedam-me as hipóteses e eu lhes demonstrarei qualquer coisa". De que são capazes pequenos matemáticos supostos grandes economistas...


ANTONIO DELFIM NETTO escreve às quartas-feiras nesta coluna.

terça-feira, 19 de julho de 2011

A pior catástrofe ambiental de SP está em curso

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Para animar a semana. Cheiro eu sinto todos os dias na torre onde trabalho que é uma caixa fechada que suga odores de esgotos e do rio Tietê negro a ponto de causar náuseas. Meus dias são assim: uma vista linda para Rio Negro e Céu Marrom. E detalhe: assim como ninguém - ninguém mesmo - comentou comigo a revogação do código florestal, é comum ninguém comentar essa visão sombria e pior, quando há visitantes dizem: "que vista linda." Nós definitivamente enlouquecemos ao sequer estar em contato com a realidade que entra pelas nossas bocas e narinas.

A pior catástrofe ambiental de São Paulo está em curso

16/07/2011 - 17:53

O que os olhos não vêem, o coração não sente. Porém, o ar de São Paulo deixou de ser transparente há muito tempo. Ele tem cor, cheiro, às vezes gosto e forma – que pode ser vista quando decolamos de avião da cidade. Hoje, ao vir para o Rio de Janeiro, fiquei triste ao ver o cobertor cinza sobre a minha cidade e, depois, comparar com o céu da metrópole vizinha.

Na minha opinião, essa é uma das piores catástrofes ambientais do país, embrulhada em um pacote bonito de pôr-do-sol avermelhado, que nos faz chorar de emoção com a vista embotada de pó e sujeira. Um repórter na TV, dia desses, exaltou o lindo fim de tarde, chamando as pessoas para saírem das suas casas e sentirem o clima, fazerem exercícios. Afe! Em seu momento de desserviço à pólis, esqueceu de pedir para trazerem os inaladores para a criançada e os idosos.

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http://blogdosakamoto.uol.com.br/2011/07/16/a-pior-catastrofe-ambiental-de-sao-paulo-esta-em-curso/

sexta-feira, 15 de julho de 2011

A dependência do corpo animal com relação ao da biomassa

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A dependência ignorada... está mais do que na hora da humanidade descer do pedestal para sua flagrante insignificância, que só não seria tão flagrante, se valorizássemos o todo e a coletividade, no lugar do ego e da individualidade.

A dependência do corpo animal com relação ao da biomassa, artigo de Antonio Germano Gomes Pinto

A idéia principal deste modesto trabalho é conscientização dos leitores sobre a necessidade da manutenção e conservação da biomassa, do verde que nos cerca.

Os animais, dos quais fazemos parte, precisa do oxigênio para respirar, para viver. A ausência do oxigênio no ar que respiramos representa a fatalmente a morte.

Nós vivemos em “simbiose” unilateral com o vegetal. Dependemos do vegetal para sobreviver, mas o vegetal não precisa de nós. Muito pelo contrario, se a espécie humana fosse extinta, eliminada da face da Terra, o vegetal passaria a usufruir sua plenitude vital, livre de seu predador principal e implacável, o homem.

O vegetal, utilizando a energia solar, em presença da água, fixa o carbono do gás carbônico e libera o oxigênio, princípio vital da vida animal.

É o que conhecemos como fotossíntese.

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sábado, 9 de julho de 2011

Economia Mecânica: como se o sistema econômico estivesse em Marte

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Quando eu li o livro "O quê os economistas pensam sobre sustentabilidade" de Ricardo Arnt, uma das entrevistas que mais me assombrou foi a do Delfim. Ao ser perguntado sobre os riscos contra a vida de todos, ele respndeu que não estará aqui para presenciar, por ser muito velho. A noção do coletivo - e da nossa responsabilidade - como meros locatários desse planeta foi totalmente perdida. Esse é apenas um exemplo. Naquele fim de semana, ao ler a opinião dos magistrais para escrever a resenha para o jornalista Ricardo Arnt, os que realmente se salvavam com um pensamento completo, eram apenas os bem conhecidos Ricardo Abramovay e José Eli da Veiga. André Lara Resende um quase convertido. Eduardo Giannetti da Fonseca ainda mergulhado na economia neoclássica, sem nenhum insight.

O texto abaixo do professor Delfim, embora tenha no título a Amazônia, não passa da mera demonstração da mecânica implícita nessa estonteante visão manca do mundo. A Amazônia aí foi uma ironia contra os modelos PAP ("pencil and paper"), dos economistas, como ridicularizava Roegen, que hoje são de computadores. É a única ciência que ridiculariza a si mesma e os petardos ricocheteiam como bumerangues contra justamente quem os lançou. O gráfico mecânico do texto, não se assustem, realmente lembra uma máquina, que pode estar em marte e as conclusões seriam as mesmas.

Um dia, tarde demais, os economistas descobrirão que só no caso da Amazônia seriam necessárias 380.000 Itaipus para substituir o serviço gratuito que ela nos presta. Ah, e não percam tempo, coloquem preço em apenas esse item - 19 bilhões de toneladas de vapor de água diários que estabiliza o clima, forma chuvas e água para agricultura - e depois apresentem a fatura a quem de direito. Tenho certeza absoluta que vai ter uma fila infinita de pessoas querendo pagar por essas 380.000 Itaipus e Roegen vai ver realmente estava errado ao dizer que para certos itens da realidade, teriamos que nos conformar, a valoração é inútill, porque só possui valor intrinseco. E talvez, esteja errado também ao avisar que o sistema de preços não brota do nada, mas do nosso conjunto de valores e que de nada adianta a Comissão Stiglitz estudar novos sistemas de preços sem uma mudança geral de valores.

Ele estava errado, Roegen, embora as evidências apontem todas a favor dele e ele avisou muito antes delas terem acontecido.

A taxa de juro natural e a Amazônia

Antonio Delfim Netto | De São Paulo

21/06/2011 VALOR

http://www.valoronline.com.br/sites/default/files/crop/imagecache/media_library_default/254/9/677/848/sites/default/files/gn/11/06/arte21opin-101-espe-a16.jpg

A mais óbvia razão pela qual os economistas não foram capazes de antecipar a tragédia que se preparava no mercado financeiro internacional, e que se concretizou em 2008, talvez resida no fato que a Teoria Macroeconômica e a Teoria da Economia Financeira foram separadas, a ponto de se ignorarem, contrariamente ao sugerido por Keynes e Fisher. James Tobin chamou a atenção para isso em meados dos anos 80 do século passado. Uma provocação curiosa a respeito dessa questão. Aquela separação não encontrou eco na conflagrada economia marxista (Hilferding, Luxemburgo, etc.). Marx, aliás, já advertira que "quando há um colapso total do crédito, nada mais conta, só o pagamento em moeda...e que legislações bancárias como a de 1844-45 (na Inglaterra) podem intensificar a crise monetária. Profeticamente, acrescentou, "nenhuma legislação bancária pode eliminar a crise", como mais um século depois estamos aprendendo...

O Brasil está vivendo um momento interessante depois de ter superado muito bem a crise. Há, entretanto, uma dúvida ampla, geral e irrestrita sobre: 1) a natureza do processo inflacionário que atinge, em grau maior ou menor, todos os países do mundo e 2) as consequências no longo prazo da supervalorização do Real que está destruindo a sofisticada indústria nacional.

Todo processo inflacionário se explica por uma combinação variável de três causas: 1) um desequilíbrio persistente entre a oferta e a demanda global de bens e serviços; 2) uma desancoragem (por múltiplas razões, inclusive a anterior) da "expectativa" inflacionária, e 3) um "choque de oferta" interno ou externo. No caso brasileiro é preciso incluir a indexação ainda generalizada que sobrou como resíduo do bem-sucedido Plano Real e para cuja eliminação se fez muito pouco (de fato, acrescentou-se mais veneno) nos últimos oito anos.

"Temos hoje, praticamente, uma taxa de câmbio fixa. Trata-se de um mecanismo de legítima defesa."

No regime de câmbio flutuante, quando o choque externo é um grande aumento das relações de troca, ele é "filtrado" por uma valorização da taxa de câmbio. O cabo de guerra estabelecido entre os "falcões" e o governo parece estar amainando, com o reconhecimento que o ajuste dos juros pelo Banco Central (BC) será suficientemente prolongado para promover a convergência da taxa de inflação para o centro da meta de 2012.

Aparentemente isto está sendo conseguido: a taxa de juros real produzida pela Selic (que importa mais para o custo da dívida pública) tem sido elevada moderadamente, mas a taxa de juros real do setor privado que controla o consumo e boa parte dos investimentos (não privilegiado por programas especiais), tem se elevado mais fortemente. Este ano a despesa com juros da dívida pública deve beirar a R$ 180 bilhões, uma respeitável Bolsa-Rentista.

A comunicação do Banco Central deve ser dirigida à sociedade e não apenas ao sistema financeiro. No fundo, os seus clientes são os cidadãos comuns que só podem ser informados por meio da mídia. São eles (e não apenas os analistas financeiros) que lhe conferem credibilidade. É fundamental para o sucesso da política econômica a informação preventiva, rápida, transparente e honesta do Banco Central, para contrarrestar a natural diversidade de opiniões.

Há muitos anos os economistas reconheceram as estreitas relações que existem entre o movimento de capitais, os regimes da taxa de câmbio e a autonomia monetária de cada país. Teorizando sobre situações limites: 1) liberdade absoluta ou controle absoluto dos movimentos de capitais nas relações externas; 2) taxa de câmbio absolutamente flutuante ou taxa de câmbio absolutamente fixa; 3) liberdade absoluta ou constrangimento absoluto para que a política monetária atenda às condições econômicas domésticas e estabilize a economia; e 4) adicionando a hipótese que os agentes são absolutamente racionais e exploram qualquer oportunidade de lucro que possa ser apropriado pela livre arbitragem, demonstra-se, logicamente, que a política econômica de um país não pode satisfazer, simultaneamente, mais do que duas, das três primeiras condições expostas acima. Essa construção lógica constitui o já velho e famoso trilema que condiciona o exercício da política econômica.

"A ascensão social da última década produz um desequilíbrio entre a demanda e a oferta."

Em outras palavras, ela pode incorporar quatro situações resumidas a seguir:

1) Liberdade de movimento de capitais e câmbio fixo. Nessa circunstância, o país não pode ter uma política monetária que cuide dos seus interesses internos. Para que haja equilíbrio no longo prazo, a sua taxa de inflação deve ser igual à externa e a taxa real de juros deve ser igual à do "resto do mundo". Se a taxa de juros interna for maior do que a externa, a acumulação de reservas produzida pela entrada de capital precisa ser neutralizada com o aumento crescente da dívida pública (e do seu custo) e, no limite, será monetizada, criando as condições para a emergência de um processo inflacionário;

2) Controle do movimento de capitais e câmbio fixo. Nesse caso há plena liberdade para a política monetária perseguir os interesses internos do país. Nestas circunstâncias, a taxa de câmbio fixo deve ser o preço relativo que equilibra o valor do fluxo dos bens e serviços exportados com os importados. Se a taxa de inflação gerada pela política monetária autônoma for sistematicamente maior do que a do mundo, a taxa real de câmbio sofre uma lenta valorização e, mais dia, menos dia, acumula-se um déficit em conta corrente. Este regime induz a política monetária a perseguir uma taxa de inflação parecida com a do "resto do mundo". Trata-se do sistema construído originalmente no Acordo de Bretton Woods que foi erodido pela dominança abusiva do dólar como unidade de conta internacional e moeda reserva;

3) Liberdade de movimento de capitais e câmbio flutuante. Nesse caso a política monetária precisa manter a taxa real de juros interna igual à externa para construir o equilíbrio de longo prazo. Para reduzir a volatilidade da taxa de câmbio ele deve manter também sua taxa de inflação parecida com a de seus parceiros internacionais; e

4) Controle do movimento de capitais e taxa de câmbio flutuante. Nesse caso pode-se ter uma política monetária que atenda aos interesses internos do país. A taxa de câmbio flutuante volta a ser o velho preço relativo que equilibra o valor do fluxo de bens e serviços exportados com o valor do fluxo de bens e serviços importados.

A experiência mostra que nenhum país pratica políticas econômicas com a "pureza" suposta na construção lógica do "trilema". Todos tendem a acomodar (de acordo com as circunstâncias que enfrentam dentro e fora do país e dos interesses do poder incumbente), uma combinação variável da liberdade do movimento de capitais, do regime cambial e da política monetária.

Assistimos isso agora no Brasil. Com três instrumentos de intervenção, o Banco Central transformou o regime cambial. Temos hoje, praticamente, uma taxa de câmbio fixa. Trata-se de um mecanismo de "legítima defesa" justificado pela destruição interna causada pela supervalorização do Real. Ninguém discute que a tendência do Real é de valorizar-se, se não por outras causas, apenas pela velha teoria e empiricamente reconhecida relação da taxa de câmbio real com a elevação do Produto Interno Bruto (PIB) per capita. No momento essa tendência é ajudada pela enorme melhoria das relações de troca (enquanto durarem). O que se discute é a "super" valorização causada pelo imenso diferencial entre as taxas de juros reais interna e externa.

O "trilema" não é apenas uma proposição logicamente deduzida. Pesquisas empíricas que se vão acumulando, mostram sua relevância. É preciso insistir que não importa qual seja a combinação escolhida pela nossa política econômica: é pouco provável que ela seja exitosa no longo prazo se a taxa de juro real interna continuar 4 vezes maior que a externa!

Há dezenas de explicações para tal "fenômeno" produzidas por sofisticados e tecnicamente bem apetrechados economistas, às vezes apoiados numa econometria de "pé quebrado". Em algumas de suas "regressões" só não acrescentaram, ainda, como variável "explicativa", os quilômetros quadrados desmatados na Amazônia. Todo o resto já foi tentado".

Do nosso ponto de vista a melhor explicação para o fato é a que tem sido trabalhada e promovida há muito tempo, entre outros, pelo ilustre professor Yoshiaki Nakano: continuamos a praticar as regras operacionais que, também em "legítima defesa", inventamos no período de hiper-inflação e que foram funcionais naquele momento. Para começar a desmontá-las precisamos reduzir o financiamento da dívida pública com títulos remunerados à taxa Selic, exatamente o objetivo perseguido pela Secretaria do Tesouro Nacional (STN). É preciso criar condições e estímulos para que o mercado reduza em seu portfólio os papéis remunerados pela taxa Selic, o que será muito positivo, inclusive, para aumentar a potência da política monetária convencional.

A notícia mais importante do Plano Anual de Financiamento (PAF) da STN para 2011, é que existe tal possibilidade durante o atual mandato da presidente Dilma Rousseff: 80% da dívida remunerada em Selic vence entre 2011 e 2014. Como afirma a STN, o ajustamento será lento, cauteloso e oportunístico, refletindo o "desenvolvimento do mercado financeiro". O fundamental é saber que a janela está aí e que o seu aproveitamento depende, apenas, de uma forte coordenação entre um seguro esforço fiscal e uma fina política monetária que deem musculatura à STN para fechá-la.

A nossa situação cambial é ainda mais delicada devido à extrema liquidez proporcionada pelo Federal Reserve (Fed, banco central americano) para acelerar a taxa de crescimento dos EUA, sem o que não haverá solução para sua dívida interna. O problema dos EUA é que sua política econômica não conseguiu, até agora, conquistar credibilidade e reduzir o nível de incerteza que continua a cercá-la. O gráfico tenta mostrar nossas dificuldades.

A falta de confiança tem levado a uma recuperação lenta de economia americana (particularmente no nível de emprego). Isso produziu uma política monetária extremamente laxista - o "quantitative easing" 1 e 2 (QE1 e QE2) - que levou a taxa de juro nominal a zero, o que tende a desvalorizar o dólar. Como ele é a unidade de conta no mercado internacional, a sua desvalorização aumenta ainda mais os preços nominais das commodities (petróleo, metais e alimentos), já pressionados por uma aceleração da demanda global dos emergentes (China, Índia etc.). O aumento do petróleo por sua vez, corta a renda dos americanos e diminui o consumo de outros bens, dificultando ainda mais a recuperação. Além do mais, deteriora o saldo comercial dos EUA e exige maior desvalorização do dólar.

Quais os efeitos disso sobre a nossa taxa de câmbio? Primeiro, uma valorização do Real pela melhoria das nossas relações de troca. Paralelamente, os preços externos são internalizados pela taxa de câmbio. Quando o câmbio não pode mais valorizar-se pelo estrago que está produzindo, aumenta a taxa de inflação interna. Isso leva o Banco Central a aumentar a taxa de juro real, o que estimula ainda mais o fluxo de capitais que vem arbitrar a diferença de juros e reforça a valorização do Real. A arbitragem não termina porque o juro real interno não cai devido à política monetária que absorve os reais vendendo papéis do governo à taxa Selic. Estamos presos numa armadilha. Ela se agravará ainda mais se o FED, diante da fraqueza da economia americana, decidir por um terceiro "quantitative easing" (QE3).

Com relação à inflação, a política econômica destina-se a controlar diretamente a demanda global e ajustá-la à oferta global, e, indiretamente (por sua credibilidade), fixar a expectativa de inflação que ancora a formação dos preços e dos salários. Trata-se de um processo não trivial, cheio de armadilhas conceituais e largamente determinado pelas crenças sobre o estado da economia e sobre as respostas dos agentes à própria política (o efeito do déficit fiscal nominal, os efeitos da relação dívida/PIB os efeitos das manobras de juros etc.), de forma que os efeitos diretos e indiretos se auto-estimulam.

Choques internos, rapidamente superados, como é o caso de uma quebra de safra em que os preços têm a tendência de retornar à média, precisam de um tratamento cauteloso porque, se incorporados pela indexação aos salários, elimina-se o papel principal do aumento dos preços que é cortar temporariamente a demanda física para ajustá-la à oferta física. O mesmo acontece quando se trata de desequilíbrios estruturais produzidos por uma redistribuição de renda que altera a demanda de serviços. É exatamente o aumento dos seus preços relativos que estimulará a expansão da oferta para atendê-la. Logo, o ajuste deve ser acompanhado por ações não monetárias ("estruturais") que ajudem e acelerem o efeito das manobras com a taxa de juros.

Toda mudança de preços relativos exerce uma pressão sobre a inflação devido à rigidez para baixo de todos os preços. Um movimento de ascensão social como vimos vivendo na última década, tende a produzir um desequilíbrio qualitativo entre a demanda e a oferta de serviços e nos preços dos produtos consumidos pelas classes em ascensão. Imagine a destruição de PIB, do emprego e o aumento da pobreza que seriam necessários para desconstruir aquele processo civilizatório apenas com manobra da taxa de juros.

Um problema interessante com relação à escassez de mão de obra refere-se, por exemplo, à engenharia. Devido à pequena demanda e baixos salários da profissão nos anos 90 do século passado, quase 40% do estoque de nossos engenheiros trabalham fora da sua especialidade, principalmente na administração e finanças. Para trazê-los de volta (e estimular a formação de novos) o sistema de preços já está funcionando e os salários deverão ajustar-se relativamente às outras atividades. Isso, entretanto, também não é "prova" de que exista um desajuste sério entre a demanda e a oferta globais de mão de obra, o que exigiria uma redução da taxa de crescimento do PIB. É preciso pensar em outras soluções, inclusive estimular a volta ao trabalho dos engenheiros que se aposentaram e dos que abandonaram o País por falta de oportunidades. E por que não importar profissionais estrangeiros oferecendo-lhes condições adequadas de vida e de trabalho como fazem vários países? Isso fez inteligentemente o Canadá (inclusive conosco).

O Brasil está com sinais vitais bastante razoáveis. Seu problema principal, entretanto, é preparar a nossa estrutura produtiva interna para dar emprego de boa qualidade a 145 milhões de brasileiros - com idade entre 15 e 64 anos - em 2030. Isso não será feito apenas com o nosso modelo agrominerador extremamente eficiente, mas induzido e dependente do crescimento externo. Não tenhamos ilusões. Com tempo suficiente (e que não será coisa muito superior a 4 anos ou 5 anos) a oferta mundial de alimento e petróleo criada pelos próprios países que hoje exercem a pressão de demanda, crescerá estimulada pelo aumento dos preços. Aí tudo mudará.

É hora, portanto, de aproveitar o tamanho e estimular a expansão do nosso mercado interno para ampliar o setor industrial e o de serviços (sem desestimular a agricultura e a mineração) para atender ao crescimento inclusivo que nos impõe a própria Constituição de 1988. Para atender ao aumento da oferta demográfica de mão de obra, o Brasil precisa de um crescimento anual nos próximos 20 anos, da ordem de 5% ao ano, com estabilidade interna e externa.

Para consegui-lo temos de fazer muita coisa. Fundamentalmente, elevar a taxa de poupança interna para qualquer coisa parecida como 24% a 25% do PIB (com um déficit em conta corrente não maior do que 1%), o que exige estímulo à poupança privada e um grande aumento da poupança governamental (sem aumentar a carga tributária), ou seja, cumprir o que foi anunciado pela presidente Dilma: "Fazer um pouco mais com um pouco menos". Em poucas palavras, gerir mais eficientemente o setor público.

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Pode parecer pedestre (e até enganoso), mas todos os nossos problemas (inclusive o cambial) podem ser minorados com tal programa. Ao fim e ao cabo - como insiste em dizer um velho amigo -, tudo se resume em: 1) ter uma rigorosa política fiscal (equilíbrio fiscal cíclico e relação dívida/PIB estritamente controlada; 2) melhorar a qualidade da gestão pública e reduzir o crescimento dos gastos de custeio e transferências abaixo do crescimento do PIB; 3) assegurar a boa regulação concorrencial do mercado e coordenar, com ele, o papel do Estado-Indutor com o uso de estímulos adequados; e 4) resistir à permanente sedução (que costuma cegar o poder incumbente), de tentar violar as identidades da contabilidade nacional.

O resto é creme chantilly para enfeitar a receita...

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

Este é o sexto de uma série de artigos sobre a conjuntura econômica atual, com foco maior nos problemas de câmbio, juros e inflação, feitos por renomados economistas a pedido do 'Valor'. Amanhã publicaremos o artigo de Luiz Gonzaga Belluzzo.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Desafio do desperdício

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Escrevi para o Abramovay após ler seu excelente texto que combater o desperdício é uma das tarefas mais difíceis que existem, porque entra como sinal positivo no PIB. O desperdício é sinônimo de prosperidade, tudo que o nosso sistema mais faz e nos induz a fazer é desperdiçar alucinadamente e descartar despreocupadamente, sem que ninguém honre por essas externalidades, apenas as entidades adjacentes (os ecossistemas e os demais seres vivos, humanos ou não, que sofrem com esse descalabro em perdas de todos os tipos). Externalidades são geradas e absorvidas por quem menos merece, não é uma questão de gerações futuras, mas atuais, que já sofrem com o lixo que fica ou que viaja mares e oceanos e sai da Europa e dos Estados Unidos e termina na Índia e na China e em outros lugares de muita miséria para fazer parte da única luta possível de sobrevivência para milhões de nossos semelhantes.


A primeira medida que precisa ser adotada imediatamente, dada a nossa limitação tecnológica que segue ignorada pelos iluminados salvadores da sustentabilidade, é o fim do desperdício. Pela New Scientist ou em outros sites como o do WorldWatch Institute, sabemos que o desperdício de energia é da ordem de mais de 70% da produção de energia mundial. Washington Novaes volta e meia toca nisso, mas combater o desperdício é algo que o sistema econômico atual não aceita, por ser ele todo medido em fluxo pelo conceito do PIB e desperdício entra com sinal positivo nessa estatística. Quanto mais desperdiçamos, melhor desempenho econômico apresentamos. O primeiro a perceber isso foi Nicholas Georgescu-Roegen, cujo alerta entre tantos da sua crítica até então irrefutável contra a teoria econômica, foi capaz de antecipar em décadas o que hoje os cientistas sabem. Escreveu Roegen: "Se a economia do descarte e do imedia to desperdício dos bens continuar, seremos capazes de entregar a Terra ainda banhada em sol apenas à vida bacteriana." A humanidade conseguiu a proeza de criar para si e para toda a vida terrestre pela primeira vez em 4,5 bilhões de anos risco de extinção total e já provocamos o maior processo de extinção da vida dos últimos 65 milhões de anos. Stephen Jay Gould declarou que é muita ingenuidade achar que essa extinção jamais irá se voltar contra os causadores e ele também escreveu que a humanidade não faz nem mossa à vida bacteriana. A extinção é para sempre, mas ela se aplica também à nossa espécia animal, por sorte não às bactérias. Podemos ficar felizes, talvez, com isso e atingiremos a nossa imaterialidade.


Desafios da economia verde

RICARDO ABRAMOVAY


Não está afastado o desafio de repensar nossos padrões de consumo, os estilos de vida e o próprio lugar do crescimento econômico nas sociedades




A eficiência energética do petróleo é, até hoje, inigualável: três colheres contêm o equivalente à energia média de oito horas de trabalho humano. O crescimento demográfico e econômico do século 20 teria sido impossível sem esse escravo barato. No entanto, além de seus efeitos sobre a qualidade do ar nas grandes cidades e dos impactos nas mudanças climáticas globais, seu uso traz um problema adicional.
Cada unidade de energia investida para produzir petróleo nos anos 1940 rendia o equivalente a 110 unidades de energia. Ao longo do século 20, esses retornos foram declinando. A estimativa internacional para exploração em plataformas de alto mar, como o pré-sal, hoje, é de um para dez.
Embora as fontes alternativas de energia estejam se ampliando de maneira espetacular, nada indica que, nos próximos 40 anos, consigam substituir a dependência em que se encontram as maiores economias d o mundo de carvão, petróleo e gás. D aí a urgência de acelerar a transição para a economia verde, título de documento lançado em Nairóbi pelo Programa das Nações Unidas sobre Meio Ambiente.
O físico e economista norte-americano Robert Ayres, o nome internacional de maior destaque em ecologia industrial, coordenou o capítulo sobre indústria desse documento. O desafio mais importante da economia verde, a seu ver, consiste em reformar a gestão do atual sistema, baseado na economia fóssil, para que se dobre o montante de energia que se extrai de um barril de petróleo (ou do equivalente em termos de carvão ou de gás).
É para enfrentar esse desafio que deve se voltar o essencial do processo de inovação industrial nas sociedades contemporâneas.
Ayres calcula que o sistema econômico desperdiça nada menos que 80% da energia extraída da Terra. É apenas um indicativo do potencial da reciclagem e da reutilização industriais para atenuar a co nhecida escassez de energia e de matér i as-primas.
No coração da economia verde está um esforço de desenho industrial, não apenas no interior de cada empresa, mas na própria relação entre empresas: parques tecnológicos devem se converter em parques ecológicos, garantindo a simbiose no uso de materiais e energia entre diferentes indústrias, como já ocorre, por exemplo, na Dinamarca.
Esse é um exemplo dos promissores processos capazes de promover um relativo descasamento entre o crescimento da produção e o uso de materiais e energia em que, até aqui, ela se apoia.
Mas até onde vai esse descasamento? É verdade que cada unidade de produto hoje é obtida com o uso de menos materiais e energia, e até com menos emissões de gases de efeito estufa que há alguns anos.
Em 2002, cada unidade do PIB mundial foi produzida, em média com 26% menos de recursos materiais que em 1980.
Caiu a intensidade material da produção de riqueza. No ent anto, o crescimento do PIB mundial compe ns ou esse ganho de eficiência: apesar do declínio relativo, o consumo absoluto de materiais aumentou 36%.
E o horizonte 2002/2020 é de que o aumento na produtividade por unidade de produto seja contrabalançado por um consumo quase 50% maior de materiais, com um impacto devastador sobre o clima e sobre os ecossistemas.
Portanto, apesar da importância estratégica de que a economia verde ocupe o centro da inovação, isso não afasta o desafio de repensar os padrões de consumo, os estilos de vida e o próprio lugar do crescimento econômico, como objetivo autônomo, nas sociedades contemporâneas. Inovação e limite são as duas palavras-chave da economia verde.

RICARDO ABRAMOVAY é professor titular do Departamento de Economia da FEA e do Instituto de Relações Internacionais da USP, coordenador de seu Núcleo de Economia Socioambiental, pesquisador do CNPq e da Fapesp.
Site: www.abramovay.pro.br/.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Números que contam

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Míriam Leitão, embora não seja economista de formação, consegue fazer análises mais puras, mais reais e mais apropriadas sobre aquilo que essa ciência deveria versar: a vida e o bem estar das pessoas.

Por trás das estatísticas frias - número de casas construídas, números de televisores e carros vendidos, números de pessoas contratadas - não há nessa ciência a menor profundidade sobre o que isso significa de bem estar, criatividade, liberdade, sustentabilidade ambiental, impacto sobre o planeta do qual dependemos. Economia é uma ciência cega guiando cegos. Míriam Leitão contribui e muito para tirar as vendas.


Míriam Leitão

Números que contam

Quando se quer ter uma dimensão da crise espanhola, costuma-se usar o número do desemprego: 20%. Quando se quer mostrar que o Brasil está muito bem, um dos dados exibidos é a menor taxa de desemprego da série iniciada em 2002. Em maio, ela foi de 6,4%. Naquele mesmo mês, para uma jovem de 18 a 24 anos, negra, a taxa brasileira ficou em 20%. O mercado de trabalho brasileiro está num bom momento, sem dúvida. Há maior formalização, maior oferta de oportunidades, a renda está em alta e os empresários estão reclamando que falta gente para contratar. Mas, como tenho sempre registrado aqui, ele não é igual para todo mundo. Ainda que esteja ficando melhor para todos, as distâncias permanecem marcantes. Veja os dois gráficos abaixo preparados com dados fornecidos pelo IBGE na Pesquisa Mensal de Emprego (PME) de maio.

Continue lendo:
http://oglobo.globo.com/economia/miriam/posts/2011/07/05/numeros-que-contam-390465.asp