quinta-feira, 30 de junho de 2011

Pão francês - Miriam Leitão

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Nunca como neste caso da possível fusão Pão de Açúcar-Carrefour o governo pareceu tão fora da realidade. Não é verdade que o negócio é estratégico para o Brasil, não será a globalização de um grupo brasileiro, não abrirá portas para a exportação de produtos brasileiros. Os argumentos usados até agora servem apenas para mostrar uma visão rudimentar da economia. O negócio, se virar realidade, vai concentrar mais do que os 30% que o governo e os interessados estão dizendo. Em algumas regiões, pode ser muito mais. As pequenas redes se espalham pelo interior ou em áreas específicas da cidade. No estado de São Paulo, uma conta simples derruba o cálculo dos 30%. O faturamento do Pão de Açúcar está sendo estimado no setor como de R$ 25,3 bilhões; o do Carrefour, de R$ 17,4 bilhões. Isso representa 69,9% do total de faturamento do setor em São Paulo, que foi de R$ 61 bilhões em 2010. Em determinadas cidades pode ser até maior que isso. Quem perde é o consumidor que ficará refém de um grupo só — ou no máximo com uma ou outra opção. Perderão também os funcionários porque algumas lojas serão fechadas. Como já são grupos grandes e bem estruturados o ganho de escala não será muito importante, portanto a ideia de que isso resultaria em preços menores é falsa. Perderão também os fornecedores porque não terão poder de barganha. Capitalismo precisa de concorrência. A consolidação em alguns setores ajuda às vezes a aumentar a eficiência, formar grupos mais fortes, o que aumenta a competição. Certo nível de escala pode ser benéfico. Não é o caso aqui. Os dois já são grandes. Juntos, viram uma arma contra o consumidor e contra a economia. Seria um assunto para ser resolvido pela lei contra a formação de trustes. Mas o BNDES entrará no negócio como sócio. Confusão insolúvel: o Estado participará do negócio que depois o Estado vai julgar se pode ou não ocorrer. Ontem os interessados na fusão — ou seja lá o que for esta operação — tentaram influenciar os jornalistas conversando com alguns. Garantiam que era um excelente negócio para o BNDES. Detalhe curioso: preferem falar em off, ou seja, querem convencer os jornalistas de que é um excelente negócio para o país e o BNDES, mas não querem declarar isso publicamente.

Que venham à luz defender seus interesses e sustentar seus argumentos. Minha convicção é que a operação é ruim; a presença do Estado nela, desastrosa. O banco público brasileiro se tornará sócio de um negócio que pode ir parar na Justiça por acusação de quebra de contrato. O banco estatal não tem razão alguma para ser sócio de supermercado francês, porque é isso que o Pão de Açúcar vai se tornar. Virará um naco do grupo francês. OBNDES tem feito inúmeras operações controversas, ressuscitou o ideário de escolha de campeões do governo militar, beneficiou umas empresas em detrimento de concorrentes, forçou concentrações, salvou empresas quebradas. Neste caso, no entanto, ele extrapolou. O argumento de que a operação abrirá o mercado francês para os produtos brasileiros é, para usar uma palavra educada, ingênuo. O mercado francês é o mais fechado da Europa. Eles são protecionistas por convicção e vocação. Subsidiam ferozmente seus produtores para que não venha de fora nada do que produzam internamente. O Carrefour em todas essas décadas no Brasil não foi uma rota para essa inclusão de produtos brasileiros, por que passaria a ser só porque agora ele terá capital brasileiro minoritário? O Estado brasileiro é grande. Enorme. Recentemente a revista “Época” prestou um serviço ao país quando fez um levantamento e chegou à conclusão de que direta ou indiretamente 675 empresas no Brasil estão sob influência do Estado. Os jornalistas José Fucs e Marcos Coronato, que lideraram o estudo feito por uma equipe da revista, escreveram que: “A teia de interesses estatais nos negócios é tão complexa, tem tantas facetas e envolve tantos conflitos de interesse que o próprio governo não consegue avaliála.” Por isso eles levaram três meses, tiveram a ajuda de uma consultoria, a Economática, e se restringiram às empresas que têm participações diretas ou indiretas do governo Federal apenas. O BNDES sempre participou de empresas e sempre participará. Ele financia ou compra participações; entra e sai de negócios. Alguns bons, outros discutíveis. Mas o problema é que a partir da gestão Luciano Coutinho ele decidiu se transformar em fazedor de grandes grupos. No caso dos frigoríficos, decidiu que era preciso concentrar e por isso financiou o crescimento dos que ele considerou que deveriam ser os donos da carne. Virou sócio do Independência um pouco antes de o frigorífico quebrar. Só em uma das várias operações que fez com o JBS-Friboi ele comprou 99,9% de uma emissão de debêntures para a empresa comprar a Pilgrim’s nos Estados Unidos, e depois transformou os papéis em ações. Assim, ele virou dono de frigorífico nos Estados Unidos, na Argentina, e poderá ser sócio de supermercado francês. Em inúmeros casos, ele é o banco que financia e é sócio do negócio. Está dos dois lados do balcão. Agora, estará também no caixa do supermercado.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Como funciona o sistema, por Noam Chomsky

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O linguista estadunidense Noam Chomsky elaborou a lista das "10 estratégias de manipulação" através da mídia:

1- A ESTRATÉGIA DA DISTRAÇÃO.

O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. "Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais (citação do texto 'Armas silenciosas para guerras tranqüilas')".

2- CRIAR PROBLEMAS, DEPOIS OFERECER SOLUÇÕES.

Este método também é chamado "problema-reação-solução". Cria-se um problema, uma "situação" prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

3- A ESTRATÉGIA DA GRADAÇÃO.

Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.

4- A ESTRATÉGIA DO DEFERIDO.

Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como sendo "dolorosa e necessária", obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Em seguida, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que "tudo irá melhorar amanhã" e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a idéia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

5- DIRIGIR-SE AO PÚBLICO COMO CRIANÇAS DE BAIXA IDADE.

A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse um menino de baixa idade ou um deficiente mental. Quanto mais se intente buscar enganar ao espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por quê? "Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestionabilidade, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade (ver "Armas silenciosas para guerras tranqüilas")".

6- UTILIZAR O ASPECTO EMOCIONAL MUITO MAIS DO QUE A REFLEXÃO.

Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e por fim ao sentido critico dos indivíduos. Além do mais, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar idéias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos...

7- MANTER O PÚBLICO NA IGNORÂNCIA E NA MEDIOCRIDADE.

Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. "A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores às classes sociais superiores seja e permaneça impossíveis para o alcance das classes inferiores (ver 'Armas silenciosas para guerras tranqüilas')".

8- ESTIMULAR O PÚBLICO A SER COMPLACENTE NA MEDIOCRIDADE.

Promover ao público a achar que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto...

9- REFORÇAR A REVOLTA PELA AUTOCULPABILIDADE.

Fazer o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema econômico, o individuo se auto-desvalida e culpa-se, o que gera um estado depressivo do qual um dos seus efeitos é a inibição da sua ação. E, sem ação, não há revolução!

10- CONHECER MELHOR OS INDIVÍDUOS DO QUE ELES MESMOS SE CONHECEM.

No transcorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado crescente brecha entre os conhecimentos do público e aquelas possuídas e utilizadas pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o "sistema" tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele mesmo conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

O MEIO AMBIENTE É PARA SER RESPEITADO

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Artigo publicado no DP, domingo, 5 de junho de 2011

O MEIO AMBIENTE É PARA SER RESPEITADO

Clóvis Cavalcanti

Economista ecológico e pesquisador social

Na data de hoje transcorre o Dia Mundial da Ecologia e do Meio Ambiente. Infelizmente, no Brasil, não temos muito que celebrar na ocasião. Pelo contrário, são diversos os motivos de preocupação quanto aos sistemas e recursos naturais no país. A recente decisão dos deputados de ferir uma conquista nacional como é o Código Florestal em vigor contribui para isso. Não que se deva considerar a natureza intocável. É necessário modificá-la, usá-la, adaptá-la para atendimento das necessidades humanas. A questão é como fazer isso. Ora, digamos que a reforma do Código Florestal tenha sido resultado de uma necessidade. Mas que necessidade é essa que coloca, por exemplo, o MST, a SBPC, a Academia Brasileira de Ciências e muitas organizações da sociedade civil contra, sobretudo, do outro lado, o agronegócio? Será que quem se opõe ao parecer do deputado comunista Aldo Rebelo não têm consciência dos interesses nacionais? O problema é que a Natureza no Brasil é vista como um poço inesgotável de favores gratuitos a ser explorado à exaustão. Não se adota o princípio da precaução para saber quando se deve parar nesse processo. A Mata Atlântica, em Pernambuco, só tem 3-4% da cobertura que havia em 1500 – e não se pára de derrubá-la. O que se pretende é mais liberdade para prosseguir na rapina que dura há 500 anos.

Falta ao brasileiro uma atitude de reverência à natureza – e de prudência no seu uso. O Japão, no século XVII, tinha uma área de florestas de menos de 20% do território. Foi decidido então refazer os bosques. Resultado: o país, hoje, com 127 milhões de habitantes, 380 mil km2, super-industrializado e urbanizado, tem 74% de superfície coberta por matas. A China, desde 1998, diante de desastres naturais causados pelos desmatamentos, proibiu a derrubada de árvores. Aqui se quer relaxar uma lei que protege encostas de morro e matas ciliares, levando de roldão a massa de agentes econômicos que cometeu crimes ambientais e deve multas ao Estado. Ora, se nós, que estacionamos em local proibido e somos multados pesadamente, temos que pagar pelo ônus da infração, por que endinheirados produtores rurais que rasgaram leis devem ser perdoados?

Tive o privilégio de visitar no dia 1º deste mês de junho o túmulo de S. Francisco em Assis (Itália). S. Francisco é o padroeiro da ecologia. Seu amor à natureza é exposto no belo “Cântico das Criaturas”, que ele compôs no leito de morte, exaltando o irmão Sol, a irmã Lua, o irmão Vento, a irmãzinha Água, a mãe Terra. Ora, dirão os pragmáticos, isso é coisa de beato. Só que, sem a mãe Terra – a Pachamama dos povos andinos (que agora está inscrita na Constituição nova da Bolívia e do Equador) – não se pode fazer nada. Que o digam os habitantes da Ilha de Páscoa e o povo Maia, cujo fim foi o resultado de ações contra o princípio da precaução no uso da Natureza. Vendo a lista de deputados – alguns em que até já votei – que mostraram como sua visão de mundo se distancia da perspectiva de São Francisco, tenho não só a lamentar, mas a pedir que não votemos mais neles.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Realidade nua e crua…

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A realidade nua e crua é bem simples, completamente diáfana - não precisa nenhum tratado da academia com milhões de citações para rechear o artigo - e é tão óbvio ululante que espanta a qualquer um de nós imaginar falar algo assim, que até uma criança de 5 anos entenderia...

Enfim, vale difundir o texto abaixo, enquanto um bando de desavisados sem entender nada, usa a crítica de Malthus para desfazer a Economia Ecológica, sendo que o erro de Malthus vai contra o mainstream e serviu de grande alerta para a crença absurda na infinitude do planeta, crença absurda que Stiglitz, Krugman, Rogoff, Romer, Bernanke, Trichet, etc. defendem que sim, é possível, a economia pode ser maior que a Terra e isso ainda é ensinado nas universidades para todos os estudantes de economia. Surreal. Mas a gente chega lá, ou aqui ou no Valhala, a gente vai despertar para a realidade inescapável à nossa volta.

A escolha de como despertar é que ainda não foi feita, quanto mais demora, mais rude será.

Segue artigo abaixo no original, seguido da tradução via tradutor google.

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http://www.bbc.co.uk/news/business-13764242

Hundred dollar hamburger?

14 June 2011 Last updated at 14:31 GMT

A noted environmentalist and author has claimed that the value of most global resources is 'totally under

priced' and if the true economic and environmental costs of producing meat were factored into the price

of food, a hamburger would be worth 'about one hundred dollars'.

Speaking to the BBC's Business Daily, Chandran Nair told Lesley Curwen that the current Asian model

for economic growth is broken and unsustainable.

If economic development in Asia is to continue its rapid pace, 'draconian measures are absolutely

needed' in order to combat the deterioration of the environment.

Transcript is below.

Chandran Nair: There is so much discussion about the shift of economic power from the west to the east

and much of the narrative is a western narrative. And I argue that a sort of intellectual subservience in

BBC News - Hundred dollar hamburger? Page 1 of 4

http://www.bbc.co.uk/news/business-13764242 16/6/2011

the part of many Asian policy makers and economists has resulted in a denial of the scientific based

evidence that 5 billion Asians in 2050 cannot live like the average American.

Lesley Curwen: Why not?

Chandran Nair: Simply because there isn't enough to go around. Let me give you an example for

instance. Today China is already the world's largest car market and car ownership levels in China today

are about 150 per thousand people. In the OECD countries, the levels are about 800-750, depending on

which source you go to, per thousand people. India's car ownership levels today are at about 50; Indians

even haven't started driving. And the estimates are that between China and India alone, there will be

about 1.5 billion cars, which will be three times the current world population of cars.

Lesley Curwen: In what year would that be?

Chandran Nair: In the next 30 years. So this is simply not possible for a variety of reasons including just

the nature of the ability of cities to accommodate these amount of cars, but more importantly is that there

are some estimates that it will take the entire oil shipment of Saudi Arabia just to drive cars in China and

India if they reach these levels of ownership. And I can go on to talk about meat and everything else.

Lesley Curwen: What about meat?

Chandran Nair: Well, meat consumption is a particularly interesting one given the concerns about how

inefficient meat production is in terms of converting grain to meat et cetera and the water intensity. But,

again, here is an interesting stat. Americans today consume something like 9 billion birds per year. Asia

with a population of about over 10 times that today consumes about 16 billion birds. If Asian meat

consumption increases as it is projected to, Asians in 2050 will consume something like 200 billion birds.

This again is not going to be possible because on that journey to these levels of consumption, we will

see a huge amount of collapse in terms of the ecological systems that we are very much dependent on

here.

Lesley Curwen: You are talking here aren't you about the aspirations of people to do better for their

children than they have themselves. It is such a basic human urge. Isn't it unstoppable?

Chandran Nair: You could argue it's unstoppable and then we can all stop the conversation about

climate change making the world a better place. If we don't care, because we say human nature is all

selfish and it's unstoppable, then let's just hope for the best. But hope is not a plan.

Lesley Curwen: If policies are going to constrain economic growth in Asia, in particular, then how do you

get governments to adopt that, because surely in democracies people aren't going to vote for it and is it

likely that a country like China would willingly adopt that when so far what we have seen is 'let's have

more growth' from the Chinese government?

Chandran Nair: I think we need to move beyond this very simplistic notion about what economic growth

is. I think what we are all interested in is development. I argue in the book that it's actually in the interest

of governments in Asia to start addressing this problem immediately. A shift, a change in direction will

provide them with a better opportunity to uplift the majority.

Lesley Curwen: Are you actually saying there should be limits imposed on the number of people who

can own cars in Asian economies, the number of people who can eat meat, is that enforceable?

Chandran Nair: Draconian measures are absolutely needed. We have draconian measures in many

aspects of our lives today. I mean we have draconian measures, that don't allow you and I -I don't smoke

- to smoke indoors. Some governments might decide that there would be restrictions on car ownerships,

which some governments already do. These interventions can be very direct, but they can also be

through fiscal means and taxation, et cetera.

The current economic model is based on one very important thing and that is the under pricing of

resources. Most global resources have been totally under priced and extreme capitalism has thrived on

this. If you start pricing things properly, then clearly meat will be eaten, but people will pay a proper price

for this.

I would argue as some economists who have started to look at this issue have suggested that the price

of a burger which I think, I don't eat burgers but, range from US$3 to US$4. The actual price if you have

factored in the true economic cost of the externalities would be something like US$100. So the first step

in all of this is clearly pricing externalities properly.

Lesley Curwen: If you constrain growth in the fastest growing bit of the global economy, what does that

mean for all of us in the end?

BBC News - Hundred dollar hamburger? Page 2 of 4

http://www.bbc.co.uk/news/business-13764242 16/6/2011

Chandran Nair: This is actually the critical question, the fabricated narrative around issues of resource

limits, climate change, et cetera, would suggest that somehow free markets, technology and finance will

solve these problems.

One of the things that provoked me to write the book was, and I think this goes to the heart of the

question. When the financial crisis hit, you will remember that the urgings of most western economies

and governments was to ask Asians to consume. At the same time, we were being told that climate

change is probably the biggest challenge facing humanity. Any intelligent person knows that you cannot

reconcile asking billions of Asians to consume more like Americans and at the same time deal with

climate change.

_____

Tradução para o português via tradutor Google:

hambúrguer de 100 dólares?

14 June 2011 Last updated at 10:31 ET Help 14 de junho de 2011 Atualizado às 10:31 ET Ajuda

A noted environmentalist and author has claimed that the value of most global resources is 'totally under priced' and if the true economic and environmental costs of producing meat were factored into the price of food, a hamburger would be worth 'about one hundred dollars'. A ambientalista e escritora afirmou que o valor da maioria dos recursos globais é 'totalmente sob preço e se os custos econômicos e ambientais da produção de carne foram tidos em conta no preço dos alimentos, um hambúrguer valeria a pena "cerca de cem dólares" .

Speaking to the BBC's Business Daily, Chandran Nair told Lesley Curwen that the current Asian model for economic growth is broken and unsustainable. Falando aos negócios da BBC, Daily, Chandran Nair disse Lesley Curwen que o atual modelo de crescimento económico da Ásia está quebrado e insustentável.

If economic development in Asia is to continue its rapid pace, 'draconian measures are absolutely needed' in order to combat the deterioration of the environment. Se o desenvolvimento econômico na Ásia está a prosseguir o seu ritmo acelerado, "medidas draconianas são absolutamente necessários" para combater a deterioração do meio ambiente.

Transcript is below. Transcrição está abaixo.

Chandran Nair : There is so much discussion about the shift of economic power from the west to the east and much of the narrative is a western narrative. Chandran Nascimento: Não há tanta discussão sobre a mudança do poder econômico do oeste para o leste e grande parte da narrativa é uma narrativa ocidental. And I argue that a sort of intellectual subservience in the part of many Asian policy makers and economists has resulted in a denial of the scientific based evidence that 5 billion Asians in 2050 cannot live like the average American. E defendo que uma espécie de subserviência intelectual na parte de muitos políticos e economistas asiáticos resultou em uma negação da evidência científica, baseada asiáticos que 5.000 milhões em 2050, não pode viver como o americano médio.

Lesley Curwen : Why not? Lesley Curwen: Por que não?

Chandran Nair: Simply because there isn't enough to go around. Chandran Nair: Simplesmente porque não há o suficiente para ir ao redor. Let me give you an example for instance. Deixe-me dar um exemplo por exemplo. Today China is already the world's largest car market and car ownership levels in China today are about 150 per thousand people. Hoje, a China já está no mercado o maior do mundo automóvel e os níveis de aquisição de automóveis na China de hoje são cerca de 150 por mil pessoas. In the OECD countries, the levels are about 800-750, depending on which source you go to, per thousand people. Nos países da OCDE, os níveis são cerca de 800-750, dependendo da fonte que você vai, por lote de mil pessoas. India's car ownership levels today are at about 50; Indians even haven't started driving. carro da Índia posse hoje os níveis são cerca de 50, os índios ainda não começou a dirigir. And the estimates are that between China and India alone, there will be about 1.5 billion cars, which will be three times the current world population of cars. E as estimativas são de que entre a China e Índia, haverá cerca de 1.500 milhões de automóveis, que será três vezes a atual população mundial de automóveis.

Lesley Curwen: In what year would that be? Lesley Curwen: Em que ano seria esse?

Chandran Nair: In the next 30 years. Chandran Nair: Nos próximos 30 anos. So this is simply not possible for a variety of reasons including just the nature of the ability of cities to accommodate these amount of cars, but more importantly is that there are some estimates that it will take the entire oil shipment of Saudi Arabia just to drive cars in China and India if they reach these levels of ownership. Então, isso simplesmente não é possível para uma variedade de razões, incluindo apenas a natureza da capacidade das cidades para acomodar essas quantidade de carros, mas o mais importante é que existem algumas estimativas que vai levar à transferência de petróleo da Arábia Saudita inteira apenas para conduzir carros na China e Índia se alcançar estes níveis de propriedade. And I can go on to talk about meat and everything else. E eu posso ir a falar sobre a carne e tudo mais.

Lesley Curwen: What about meat? Lesley Curwen: Que sobre a carne?

Chandran Nair: Well, meat consumption is a particularly interesting one given the concerns about how inefficient meat production is in terms of converting grain to meat et cetera and the water intensity. Chandran Nair: Bem, o consumo de carne é uma interessante um sobretudo tendo em conta as preocupações sobre como a produção de carne é ineficiente em termos de conversão de grãos para carne et cetera e da intensidade da água. But, again, here is an interesting stat. Mas, novamente, aqui está uma estatística interessante. Americans today consume something like 9 billion birds per year. hoje os americanos consomem algo como 9000 milhões de aves por ano.Asia with a population of about over 10 times that today consumes about 16 billion birds. Ásia, com uma população de cerca de 10 vezes mais que hoje consome cerca de 16 bilhões de aves. If Asian meat consumption increases as it is projected to, Asians in 2050 will consume something like 200 billion birds. Se aumenta o consumo de carne asiáticos como a previsão é que, asiáticos em 2050, vai consumir algo como 200 bilhões de aves. This again is not going to be possible because on that journey to these levels of consumption, we will see a huge amount of collapse in terms of the ecological systems that we are very much dependent on here. E isso também não vai ser possível porque nessa viagem a esses níveis de consumo, veremos uma enorme quantidade de colapso em termos de sistemas ecológicos que estamos muito dependentes aqui.

Lesley Curwen: You are talking here aren't you about the aspirations of people to do better for their children than they have themselves. Lesley Curwen: Você está falando aqui não é você sobre as aspirações das pessoas a fazer melhor para seus filhos do que eles próprios. It is such a basic human urge. É como que um impulso humano básico. Isn't it unstoppable? Não é imparável?

Chandran Nair: You could argue it's unstoppable and then we can all stop the conversation about climate change making the world a better place. Chandran Nair: Você pode argumentar que é imparável e, em seguida, todos nós podemos parar a conversa sobre as mudanças climáticas tornando o mundo um lugar melhor. If we don't care, because we say human nature is all selfish and it's unstoppable, then let's just hope for the best. Se nós não nos importamos, porque dizemos que a natureza humana é tudo egoísta e é imparável, então vamos apenas esperar pelo melhor. But hope is not a plan. Mas a esperança não é um plano.

Lesley Curwen: If policies are going to constrain economic growth in Asia, in particular, then how do you get governments to adopt that, because surely in democracies people aren't going to vote for it and is it likely that a country like China would willingly adopt that when so far what we have seen is 'let's have more growth' from the Chinese government? Lesley Curwen: Se as políticas vão restringir o crescimento econômico na Ásia, em particular, então como você levar os governos a adoptar que, nas democracias, porque certamente as pessoas não vão votar por ele e é provável que um país como a China voluntariamente adotar essa medida, quando o que temos visto é "vamos ter mais crescimento" do governo chinês?

Chandran Nair: I think we need to move beyond this very simplistic notion about what economic growth is.Chandran Nascimento: Eu acho que precisamos de ultrapassar esta noção muito simplista sobre o crescimento econômico. I think what we are all interested in is development. Acho que todos nós estamos interessados ​​é o desenvolvimento. I argue in the book that it's actually in the interest of governments in Asia to start addressing this problem immediately. Eu argumento no livro que é realmente do interesse dos governos na Ásia para começar a tratar este problema imediatamente. A shift, a change in direction will provide them with a better opportunity to uplift the majority. Uma mudança, uma mudança de rumo irá proporcionar-lhes uma melhor oportunidade para elevar a maioria.

Lesley Curwen: Are you actually saying there should be limits imposed on the number of people who can own cars in Asian economies, the number of people who can eat meat, is that enforceable? Lesley Curwen: Você está realmente dizendo que deveria haver limites impostos ao número de pessoas que podem possuir carros nas economias asiáticas, o número de pessoas que podem comer carne, é que o executivo?

Chandran Nair: Draconian measures are absolutely needed. Chandran Nair: draconianas medidas são absolutamente necessárias. We have draconian measures in many aspects of our lives today. Nós temos medidas draconianas em muitos aspectos de nossas vidas hoje. I mean we have draconian measures, that don't allow you and I -I don't smoke- to smoke indoors. Quero dizer, nós temos medidas draconianas, que não permitem que você e eu, eu não fumo, fumar em ambientes fechados. Some governments might decide that there would be restrictions on car ownerships, which some governments already do. Alguns governos podem decidir que não haveria restrições posses carro, que alguns governos já fazem. These interventions can be very direct, but they can also be through fiscal means and taxation, et cetera. Essas intervenções podem ser muito directa, mas também pode ser através de meios fiscais e tributários, et cetera.

The current economic model is based on one very important thing and that is the under pricing of resources. O atual modelo econômico é baseado em uma coisa muito importante e que é a subavaliação dos recursos. Most global resources have been totally under priced and extreme capitalism has thrived on this. A maioria dos recursos globais foram totalmente sob o capitalismo ea preços extremamente prosperou sobre este assunto. If you start pricing things properly, then clearly meat will be eaten, but people will pay a proper price for this. Se você começar coisas preços corretamente, então é claro que a carne vai ser comido, mas as pessoas vão pagar um preço adequado para isso.

I would argue as some economists who have started to look at this issue have suggested that the price of a burger which I think, I don't eat burgers but, range from US$3 to US$4. Eu diria, como alguns economistas que começaram a olhar para esta questão têm sugerido que o preço de um hambúrguer que eu penso, eu não comer hambúrgueres, mas variam de EUA $ 3 a 4 dólares EUA. The actual price if you have factored in the true economic cost of the externalities would be something like US$100. O preço real se você tiver consignado no custo económico real das externalidades seria algo como 100 dólares EUA. So the first step in all of this is clearly pricing externalities properly. Então o primeiro passo em tudo isso é claramente de preços externos de forma adequada.

Lesley Curwen: If you constrain growth in the fastest growing bit of the global economy, what does that mean for all of us in the end? Lesley Curwen: Se você limitar o crescimento no cultivo pouco mais rápido da economia global, o que isso significa para todos nós no final?

Chandran Nair: This is actually the critical question, the fabricated narrative around issues of resource limits, climate change, et cetera, would suggest that somehow free markets, technology and finance will solve these problems. Chandran Nascimento: Esta é realmente a questão crucial, a narrativa fabricados em torno de questões de limites de recursos, as alterações climáticas, et cetera, sugiro que de alguma forma livres mercados, tecnologia e finanças irá resolver estes problemas.

One of the things that provoked me to write the book was, and I think this goes to the heart of the question. Uma das coisas que me provocaram a escrever o livro foi, e eu acho que esse vai ao cerne da questão. When the financial crisis hit, you will remember that the urgings of most western economies and governments was to ask Asians to consume. Quando a crise financeira, você vai se lembrar que a insistência da maioria das economias ocidentais e os governos asiáticos foi perguntar para o consumo. At the same time, we were being told that climate change is probably the biggest challenge facing humanity. Ao mesmo tempo, estamos sendo informados de que as alterações climáticas são provavelmente o maior desafio enfrentado pela humanidade. Any intelligent person knows that you cannot reconcile asking billions of Asians to consume more like Americans and at the same time deal with climate change. Qualquer pessoa inteligente sabe que não é possível conciliar a pedir bilhões de asiáticos que consomem mais, como os americanos e, ao mesmo tempo lidar com as mudanças climáticas.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Eu também tenho um sonho - Fernando Fernandez

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O texto do Fernando abaixo está muito em linha com os trabalhos de Nicholas Georgescu-Roegen. Quando a economia foi criada como ciência, Alfred Marshall defendia que fosse uma irmã siamesa da biologia, por ser um sistema aberto, como um organismo vivo. Venceu a idéia de ser uma irmã siamesa da física clássica, a mecânica, e isso criou um dos maiores erros científicos da atualidade e virou um dogma religioso, em cima do crescimento, que vai acarretar o fim da nossa espécie animal. Esse erro é tão grotesco que os economistas assumem em todas as suas vertentes que o sistema econômico é um sistema isolado, embora o único exemplo seja o universo. Os economistas acham que o planeta é um subsistema da economia, que não há limites de crescimento e a economia pode ser maior que o planeta. O mito mecânico assume que o sistema econômico é neutro para o planeta. Isso impede que essa ciência se preocupe verdadeiramente com as pessoas e o meio ambiente.

Parabéns pelo texto.


Hugo


Eu também tenho um sonho - Fernando Fernandez


No dia 28 de agosto de 1963, nas escadarias do Memorial de Lincoln em Washington, Martin Luther King falou para duzentas mil pessoas e para a História. Ele falava da possibilidade de brancos e negros um dia viverem em paz, nos Estados Unidos ainda divididos por um vergonhoso racismo. Depois de um começo contido, ele foi se empolgando aos poucos, crescendo em entusiasmo, e sua fala foi se transformando em um emocionado compartilhamento dos seus sonhos com a multidão. Talvez nada expresse melhor isso do que uma das várias frases maravilhosas que deram o nome pelo qual o discurso se imortalizou: “Eu tenho um sonho de que meus quatro filhos pequenos irão um dia viver numa nação onde eles não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo conteúdo do seu caráter.”


Continue lendo: http://www.oeco.com.br/fernando-fernandez/25122-eu-tambem-tenho-um-sonho



quarta-feira, 15 de junho de 2011

Pessimismo ou realismo?

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Sempre que falam que eu sou pessimista, eu sempre explico que o problema não está na primeira pessoa, que tentar personalizar o conhecimento que temos, que é de ordem coletiva, e tentar achar um culpado - eu - não é o caminho correto. Eu não gosto desse cenário tanto quanto você, mas ele é real e está bem debaixo dos nossos narizes e só não enxerga quem não quer. E qualquer tentativa que eu faço de achar um meio de convencer as pessoas que estamos caminhando errado, que não vamos chegar a lugar algum, sempre recai em uma ou mais das seguintes filosofias que derivam do nosso extremo individualismo e falso senso de importância:

1) N.I.M.B. - not in my backyard: fruto de uma pesquisa feita com as pessoas preocupadas com o problema ambiental e sustentabilidade na Europa, onde foi constatado o seguinte: reconhecem o problema planetário e o risco para nossa espécie animal, mas acreditam que isso não irá acontecer no seu quintal ou se acontecer, as instituições irão resolver o problema. A falha desse pensamento parecido com o de Leibniz, criticado duramente por Voltaire (tudo vai bem no melhor dos mundos) é que sim, vai acontecer no seu quintal, ninguém está à salvo e a Terra é um Titanic sem botes salva-vidas, em outras palavras, as classes mais privilegiadas como as nossas também serão abatidas e não será como sempre foi na história humana, onde os desastres caíram no colo dos menos favorecidos. A outra falha é que as instituições não brotam do nada, mas sim dos nossos valores, das nossas preocupações. As instituições não pensam, somos nós que pensamos! A falha final é achar que não somos uma unidade e que um quintal pode se manter próspero às custas da destruição do outro (os europeus vistos como mega sustentáveis, mandam bilhões de toneladas de lixos eletrônicos para famigerados asiáticos trabalharem em situações precárias...).

2) Somos deuses, não somos uma espécie animal: embora duramente refutada até por Charles Darwin que escreveu que nada diferencia o ser humano dos demais animais e mais recentemente pela clara declaração dos cientistas que do ponto de vista biológico e planetário somos todos um, muitas pessoas ainda se comportam como se fossem deuses e acreditam que irão conseguir superar qualquer restrição imposta pela realidade física e ecológica com mirabolantes tecnologias. E isso vale para o problema dos alimentos: sim, corremos o risco mais do que nunca de perda de água (com mudança climática, com desmatamento, com super populações e impermeabilizações) e isso acarretar problemas alimentares. Na verdade episódios de Grande Fome foram registrados aqui e acolá na história desse planeta e ceifou dezenas de milhões de pessoas. Dessa vez, incrivelmente, conseguimos criar um problema em escala global. A respeito de Malthus, ele cometeu o mesmo erro dos economistas tradicionais e Roegen explica muito bem isso: Malthus acreditava que uma grande forme ocorreria porque o crescimento populacional era geométrico e o crescimento dos alimentos era aritmético. Mas se eu pudesse fazer uma viagem no tempo e contar para Malthus que a nossa tecnologia agrícola iria conseguir a proeza de obter uma produção agrícola também geométrica, ele diria: então não há nenhum problema com o crescimento populacional. O erro do Malthus não foi prever uma fome que nunca aconteceu, nem não prever o avanço da produção agrícola (a custos que só agora estamos descobrindo em vértices gerais de problemas sistêmicos). O erro do Malthus foi o de acreditar que para a humanidade o planeta não oferece restrição alguma de finitude. É muito engraçado o mainstream citar Malthus para desfazer a crítica da Economia Ecológica.

3) Filosofia do Nunca Morri: nossos cérebros não são capazes de entender escala de bilhões de anos, sequer de milhões de anos, portanto, a confiança cega na nossa sobrevivência deriva da nossa falsa crença na presença marcante que tivemos nesse planeta, não obstante o fato de dentro dessa escala termos aparecido somente no último segundo e o planeta não ter o menor interesse na nossa espécie animal. Essa filosofia é fácil de ser explicada: eu estou escrevendo esse email agora, por isso nunca morri, por acaso isso significa que nunca morrerei? O planeta nunca expulsou a humanidade daqui, embora tenhamos aparecido no seu último segundo. Por acaso isso significa que nunca o fará?

4) Falsa noção de normalidade e controle: todos os cientistas sabem que enquanto a resiliência não é atingida, as mudanças tendem a ser graduais e passam a sensação de normalidade ou pior, de que nada está acontecendo, embora as evidências até agora no planeta inteiro sejam estonteantes: estações de esquis desapareceram, aldeias milenares no pólo norte abandonaram as matilhas de cães usadas para caça em prol de barcos, espécies de aves mudaram suas rotas de migração, extremos climáticos pipocam agora em todos os lugares, etc. Esse é um tema complexo, porque a consequência está distante da causa e não deflagra uma reação de todos. Pior, sobre a relação da humanidade com o planeta e suas consequências, onde não há unanimidade alguma, tudo continua como antes e todos os formadores de opinião estão na zona do conforto. Os sistemas de comunicação e até mesmo os cientistas (como o IPCC que entrou na onda do mito de só temos problema de energia) deixam de falar a verdade clara e abertamente e até alguns que professam nessa área, dizem fazer isso para não perder seus interlocutores, mas no fundo, tudo indica que é por pura vaidade mesmo.

5) Há escassez por todos os lados: não há como ignorar os problemas sócio-econômicos da humanidade, particularmente nos países ricos, como nos Estados Unidos, onde a concentração de riqueza é recorde, onde há 30 milhões de miseráveis e a desigualdade é flagrante. O paradigma atual universal é que há escassez por todos os lados (de bens e riquezas) que podem ser produzidos com a abundância por todos os lados (de natureza e territórios) e que esse é o melhor caminho para trazer bem estar a todos mas, claro, façam tudo isso sem esquecer de preservar o meio ambiente. Esse pensamento é um oxímoro assustador, que rege a visão dominante e nunca, como agora, esse pensamento esteve tão voraz e desesperado e talvez isso se explique como reacendeu na cabeça de todos a razão pela qual estamos em um colapso econômico e de falta de empregos: falta de crescimento econômico. Já estávamos debruçados sobre o precipício, imagina agora quando ficou claro que o modelo econômico imposto a todos os países a partir do Ocidente rico é falho na sua estrutura. Dá-me calafrios lembrar que a tentativa de expansão quando esbarra em limites gera guerras sangrentas, como foi no século XX, que não podemos jamais esquecer.

Por isso tudo posto, que não se aplica a primeira ou a minha pessoa - mas à coletividade e é algo que faz parte da realidade que combatemos, a situação está longe de ter um desfecho feliz.

É inegável que continuamos na direção oposta que não queremos. Mas as cinco filosofias acima estão firmes como uma rocha e com elas não conseguimos nem de longe escamotear a realidade. Não é uma questão de ser pessimista ou não. Mas de acreditar que conseguiremos um dia mudar a tempo, embora até agora não seja possível encontrar um elemento sequer que nos indique isso. Não importa quando, nem porquê, mas o que fazer agora para evitar isso.


Alimento em um planeta aquecido

Por JUSTIN GILLIS
Ciudad Obregón, México


O rápido crescimento da produção agrícola no final do século 20 desacelerou tanto que não está suprindo a demanda, conduzida por aumentos da população e pela crescente afluência em países antes pobres.O consumo dos quatro alimentos básicos que fornecem a maior parte das calorias humanas -trigo, arroz, milho e soja- superou a produção na maior parte da última década. O desequilíbrio resultou em dois grandes aumentos nos preços internacionais dos grãos desde 2007, com alguns deles mais do que duplicando de preço.Esses aumentos agravaram a fome de dezenas de milhões de pobres, desestabilizando a política de dezenas de países, do México, passando por Usbequistão, até o Iêmen. O governo do Haiti foi deposto em 2008 em meio a revoltas por alimentos, e a carestia teve um papel nas recentes revoltas árabes.Hoje, pesquisas sugerem que um fator antes desprezado está ajudando a desestabilizar o sistema alimentar: a mudança climática.Muitas colheitas fracassadas da última década foram consequência de desastres climáticos, como inundações nos EUA, seca na Austrália e ondas de calor escorchante na Europa e na Rússia. Os cientistas ligam alguns desses eventos ao aquecimento global induzido pelos seres humanos.

As temperaturas estão aumentando rapidamente durante a temporada de plantio em alguns dos países agrícolas mais importantes, e um trabalho recente revelou que isso havia cortado vários pontos percentuais de colheitas potenciais, aumentando as variações de preços. Durante quase duas décadas, os cientistas haviam previsto que a mudança climática seria relativamente administrável para a agricultura, sugerindo que, provavelmente, levaria até 2080 para que os preços dos alimentos dobrassem.
Em parte, eles supuseram que o aumento dos níveis de dióxido de carbono, o principal fator do aquecimento global, atuaria como um poderoso fertilizante e compensaria muitos dos efeitos daninhos da mudança climática.
Mas a desestabilização do sistema alimentar, e o aumento dos preços abalaram muitos cientistas.
"O sucesso da agricultura foi surpreendente", disse Cynthia Rosenzweig, pesquisadora da Nasa que ajudou no estudo pioneiro da mudança climática e da agricultura. "Mas acho que começa a haver previsões de que poderá não ser para sempre."
Alguns pesquisadores que assessoram o governo sobre perspectivas agrícolas estão indicando o que consideram lacunas nas previsões dos computadores. Essas incluem uma falha ao considerar os efeitos do clima extremo que estão aumentando conforme a Terra se aquece.
Uma crescente preocupação sobre o futuro do suprimento alimentar do mundo apareceu durante entrevistas neste ano com mais de 50 especialistas agrícolas que trabalham em nove países. Eles dizem que, nas próximas décadas, os agricultores terão de suportar choques climáticos e duplicar a quantidade de alimentos que produzem para atender à demanda. E eles precisam fazer isso enquanto reduzem os danos ambientais causados pela agricultura.
A situação é longe de desesperadora. Do México à Índia, agricultores estão mostrando que talvez seja possível tornar a agricultura mais produtiva e resistente à mudança climática. Eles alcançaram enormes ganhos de produção no passado, e o aumento dos preços é um poderoso incentivo para que o façam novamente.
Mas há necessidade de novas variedades agrícolas e novas técnicas, dizem os cientistas. Apesar da urgência, eles acrescentaram, o financiamento prometido demora a se materializar, grande parte do trabalho necessário ainda não começou e, quando o fizer, é provável que leve décadas para produzir resultados.
"Existe uma tremenda desconexão, com pessoas que nÍ o compreendem que a situação em que estamos é altamente perigosa", disse Marianne Bänziger, vice-diretora do Centro Internacional de Aperfeiçoamento do Trigo e do Milho, um importante instituto de pesquisa no México que faz parte de uma rede global de centros que analisam as principais plantações do mundo. Outros ficam na China, na Colômbia, na Turquia, na Geórgia e nas Filipinas.

Agricultores veem mudança de padrões
No vale do Yaqui, no deserto de Sonora, região norte do México, plantadores de trigo, como Francisco Javier Ramos Bours, acreditam que a mudança climática poderá ser responsável por falta de água. "Todo mundo está falando sobre isso", disse Ramos.
Agricultores de toda parte enfrentam a escassez de água, assim como inundações repentinas. Suas colheitas são atacadas por pragas, por doenças emergentes e pelo calor inédito.
No nordeste da Índia, um plantador de arroz chamado Ram Khatri Yadav tamb ém se queixou. "Não chove na estação de chuvas, mas na estação da seca", ele disse. "A estação do frio também está diminuindo."
Décadas atrás, os agricultores de trigo do vale do Yaqui eram a vanguarda da Revolução Verde, que usou variedades aperfeiçoadas e métodos de agricultura intensivos para aumentar a produção de alimentos na maior parte do mundo em desenvolvimento.
Norman E. Borlaug, um agrônomo americano, começou a trabalhar aqui na década de 1940. Seus êxitos na hibridação ajudaram a aumentar em seis vezes a produção de trigo do México. Nos anos 60, ele levou seu conhecimento para a Índia e para o Paquistão, onde se temia uma fome em massa. A produção lá também disparou.
Outros países aderiram à Revolução Verde, e a produção de alimentos superou o crescimento da população na última metade do século 20. Em 1970, o doutor Borlaug tornou-se o único agrônomo a vencer o Prêmio Nobel da Paz.
Mas, em Oslo, el e fez uma dura advertência: "Podemos estar na maré alta hoje, mas a vazante poderá chegar cedo se nos tornarmos complacentes". Como ele havia previsto, os cortes de verbas para pesquisa e desenvolvimento agrícola começaram a se mostrar no sistema alimentar mundial perto do fim do século.
Esse período ocorreu exatamente quando a demanda de alimentos e rações começava a decolar, graças em parte à crescente afluência na Ásia. Milhões de pessoas acrescentaram carne e laticínios a suas dietas, exigindo a produção de grãos. A política de transformar grande parte da safra de milho americana em etanol contribuiu para a demanda.
O clima irregular, como uma onda de calor em 2003 na Europa e uma longa seca na Austrália, ambas possivelmente ligadas à mudança climática, reduziu a produção de trigo e arroz.
Em 2007-2008, com os estoques de cereais baixos, os preços duplicaram ou triplicaram. Os países começaram a acumular comida e ocorreu um pâ nico de compras. Tumultos alimentares irromperam em mais de 30 países.
Os agricultores reagiram plantando o máximo possível, e colheitas saudáveis em 2008 e 2009 ajudaram a reabastecer os estoques. Esse fator, ao lado da recessão global, fez cair os preços em 2009. Mas, no ano passado, mais fracassos nas colheitas ligados ao clima os fizeram disparar novamente. Neste ano, os estoques de arroz estão adequados, mas o clima ruim ameaça as safras de trigo e milho em algumas áreas.
Especialistas temem que a era da comida barata tenha terminado. "Nossa mentalidade era de excedentes", disse Dan Glickman, um ex-secretário da Agricultura dos EUA. "Isso, simplesmente, mudou do dia para a noite."
Os recentes aumentos de preços ajudaram a causar os maiores surtos de fome no mundo em décadas. A Organização de Alimentos e Agricultura (FAO) da ONU estimou o número de famintos em 925 milhões no ano passado. O Banco Mundial diz que, neste ano, poderá chegar a 940 milhões.
Hans-Joachim Braun, o atual diretor do instituto mexicano do trigo e do milho, diz que o crescimento das cidades está consumindo terra agrícola e competindo com os agricultores por água. Em alguns dos celeiros, os agricultores estão bombeando a água do subsolo muito mais depressa do que a natureza pode repor.
Os agricultores do vale do Yaqui plantam seu trigo em um semideserto. Sua água vem por aqueduto de montanhas próximas, mas, durante partes da última década, a chuva foi abaixo do normal. E o norte do México está em um cinturão global que deverá secar ainda mais por causa dos gases do efeito estufa.
O doutor Braun está liderando esforços para produzir novas variedades de trigo capazes de suportar estresse, incluindo falta de água. Mas os orçamentos estão rígidos. "Se não começarmos agora, vamos enfrentar sérios problemas", ele disse.

Crenças abaladas
Os cientistas acreditaram por muito t empo que a dependência de combustíveis fósseis, apesar de todos os seus problemas, ofereceria um enorme benefício. O dióxido de carbono, o principal gás liberado pela combustão, também é o combustível básico para o crescimento das plantas. Usando a energia da luz do sol, elas transformam o carbono do ar em substâncias densas em energia como a glicose. Toda a vida funciona com essas substâncias.
Os seres humanos já aumentaram o nível de dióxido de carbono na atmosfera em 40% desde a Revolução Industrial e estão prestes a duplicar ou triplicar o volume neste século. Estudos sugeriram por muito tempo que o gás extra daria uma sobrecarga às colheitas alimentares do mundo.
Mas muitos desses estudos foram feitos em condições artificiais. Na última década, cientistas da Universidade de Illinois colocaram o "efeito fertilizante do dióxido de carbono" em teste no mundo real.
Eles plantaram soja em um campo, depois borrifaram dióxido extra de um tanque gigante. Esperavam que o gás pudesse aumentar a produção em até 30%. Mas, na colheita, o aumento foi de apenas 15%. Seus testes com o milho, a safra mais valiosa dos EUA e a base para a produção de carne e a indústria de biocombustível, foram ainda piores. Não houve aumento.
Esse trabalho e o de outros sugere que o dióxido de carbono extra atua como fertilizante, mas os benefícios, provavelmente, ficam aquém do necessário para evitar a escassez de alimentos.
Outra evidência recente sugere que antigas suposições sobre a produção de alimentos em um planeta mais quente podem ter sido demasiado otimistas. Dois economistas, Wolfram Schlenker da Universidade Columbia, e Michael J. Roberts, da Universidade Estadual da Carolina do Norte, compararam a produção de colheitas e a variabilidade da temperatura natural em uma escala fina. Seu trabalho mostra que, quando as colheitas são submetidas a temperaturas além de certo limite -cerca de 29 g raus para o milho e 30 para a soja-, a produção cai acentuadamente.
Um trabalho de David B. Lobell, da Universidade Stanford na Califórnia, e do doutor Schlenker sugere que os aumentos de temperatura na França, na Rússia, na China e em outros países já estão reduzindo as colheitas.
Essa pesquisa é controversa. As conclusões vão um pouco além das de um relatório de 2007 do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática da ONU, que descobriu que, embora a mudança climática provavelmente apresentasse graves desafios para a agricultura nos trópicos, ela seria benéfica em regiões mais frias do hemisfério norte, ajudada pelo efeito do dióxido de carbono.
Na Universidade de Illinois, um importante cientista por trás daquele trabalho, Stephen P. Long, criticou o relatório. "Eu achei que deveria ser muito mais honesto ao dizer: este é o nosso melhor palpite no momento", ele disse.
O grupo de ajuda internacional Oxfam projetou recentemen te que os preços dos alimentos mais que duplicarão até 2030, sendo a mudança climática responsável por cerca da metade do aumento. A doutora Rosenzweig, cientista climática da Nasa, teve um papel destacado na formação do antigo consenso. Mas está fazendo uma nova análise. Ela está reunindo um consórcio global de pesquisadores cujo objetivo será produzir previsões de computador mais detalhadas e realistas.

Necessidade de dinheiro e convicção
Em junho passado, na remota aldeia indiana de Samhauta, o agricultor Anand Kumar Singh plantou uma nova variedade de arroz. Em 23 de agosto, uma enchente severa submergiu seu campo durante dez dias. No passado, essa enchente teria destruído a plantação. Mas a nova variedade produziu uma colheita robusta.
"Foi um milagre", disse Singh.
O milagre ilustrou até onde os cientistas podem ir para ajudar os agricultores a adaptar-se, mas alguns importantes pesquisadores não têm tan ta certeza de que seja possível adaptar as colheitas para suportar o calor extremo, embora a engenharia genética possa eventualmente ter sucesso.
Décadas de trabalho foram necessárias para melhorar a nova variedade de arroz, e o dinheiro estava justo; a distribuição para os agricultores não foi garantida. Então, a Fundação Bill e Melinda Gates entrou com uma verba de US$ 20 milhões para financiar o desenvolvimento e a distribuição final do arroz na Índia e em outros países. Ele poderá chegar às mãos de um milhão de agricultores neste ano.
A Fundação Gates doou US$ 1,7 bilhão para projetos agrícolas desde 2006, mas os governos percebem que há necessidade de maior esforço de sua parte.
Em 2008-2009, em meio às crises provocadas pelos preços dos alimentos, os governos se superaram na oferta de apoio. Em conferência em L'Aquila, na Itália, eles prometeram cerca de US$ 22 bilhões. Mas o financiamento não se materializou totalmente. "Í uma decepção", disse Gates.
O presidente Obama prometeu US$ 3,5 bilhões, mais do que qualquer outro país, e os EUA lançaram uma iniciativa para apoiar o desenvolvimento agrícola em 20 dos países mais necessitados.
Mas, em meio a dificuldades orçamentárias em Washington, o governo conseguiu US$ 1,9 bilhão do Congresso. Talvez o sinal mais esperançoso seja que os países pobres começam a investir em agricultura de maneira séria, como muitos não fizeram nos anos em que a comida era barata.
Na África, cerca de 12 países estão à beira de cumprir a promessa de dedicar 10% do orçamento ao desenvolvimento agrícola, contra 5% ou menos antes. "Em meu país, cada centavo conta", disse Agnes Kalibata, a ministra da Agricultura de Ruanda. Com dificuldade, Ruanda cumpriu a promessa de 10%, e Kalibata citou um projeto de terraços nas montanhas do país que aumentou a produção de batatas em 600%.
A ONU recentemente projetou que a população glob al atingirá 10 bilhões até o fim do século, 3 bilhões a mais do que hoje. As projeções significam que a produção de alimentos poderá ter de duplicar até o final do século.
Diferentemente do passado, essa demanda deve ser satisfeita de algum modo, em um planeta onde há poucas novas terras disponíveis, os suprimentos de água estão diminuindo, a temperatura aumenta, o clima se tornou imprevisível, e o sistema alimentar mostra sérios sinais de instabilidade.
"Nós já duplicamos a produção alimentar do mundo várias vezes na história, e hoje temos de fazê-lo mais uma vez", disse Jonathan A. Foley, pesquisador da Universidade de Minnesota. "A última duplicação é a mais difícil. É possível, mas não será fácil."

Colaborou Hari Kumar, de Samhauta, que fica na Índia