quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Em causa própria

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Miriam Leitão

Um Congresso que não consegue ter um relator para o Orçamento aprova um aumento salarial de 62% para os parlamentares e de 130% para ministros e presidente da República. Este é o resumo desse final de legislatura. O Orçamento está no terceiro relator e os três enfrentam o mesmo tipo de dúvidas: emendas que beneficiam entidades às quais estão ligados seus parentes ou assessores.

Qualquer aumento de salário de parlamentar vai sempre provocar reações na opinião pública, mesmo quando forem justificáveis. Mas, no caso, o Brasil desconhece reajustes de preços em percentuais tão altos desde que derrubou a hiperinflação. Nenhum trabalhador conseguiria seu objetivo se pedisse reajuste de 60% a 130%.

Continue lendo: http://oglobo.globo.com/economia/miriam/posts/2010/12/16/em-causa-propria-349920.asp

Os deputados e senadores brasileiros têm vários outros benefícios dos quais a imprensa tem falado com frequência. Auxílios para transporte, para correspondência, verba de representação, benefícios frequentemente usufruídos de forma ilegítima. Tantas notícias sobre os desvios no uso dessas verbas, e os escândalos, foramesgarçando a confiança dos eleitores nos deputados e senadores. Aí, no final de uma legislatura tumultuada, quando não se sabe se haverá relatoria para o Orçamento, os deputados aprovam um decreto legislativo legislando em causa própria, dos ministros, da próxima presidente e, indiretamente, para deputados estaduais do país todo. No mesmo dia, numa agilidade desconhecida em outras matérias, o Senado também aprova o projeto. Fazem neste 15 de dezembro por truque, e não por falta de tempo. Logo virá o recesso e, no ano que vem, assumirá novo Congresso.

Esse, que está velho, ficará com o desgaste. A aposta geral é que a reclamação não virá porque será esquecida nas festas de fim de ano.

Melhor é que o Congresso tivesse argumentos para defender o reajuste dos seus salários no início da Legislatura. Pior é a maneira como se faz: a 15 dias do fim do ano, vota-se que o tema é ´urgente` e, em seguida, aprova-se o mérito em votações simbólicas, porque assim não se sabe quem votou ou deixou de votar. A tese para justificar o aumento também não faz sentido algum: a de que é para que todos tenham ´isonomia` em relação aos ministros do Supremo Tribunal Federal. Eles, por sua vez, estão com novos pedidos de aumentos para o Judiciário também na casa dos 50%, num país em que 5% é inflação alta. O risco de um reajuste com esse motivo é de novo consagrar aquela corrida do passado. Na hiperinflação, os funcionários do Banco do Brasil pediam aumento alegando que era para ter isonomia com os funcionários do Banco Central. Aí os funcionários do Banco Central conseguiam outro aumento e começava de novo a rodada.

O Orçamento chegou ao Congresso inchado e com receitas superestimadas, o Congresso está elevando ainda mais os gastos, criando novas receitas fictícias para cobrir emendas de parlamentares. O presidente Lula avisou que o governo terá que cortar despesas. Em parte por culpa do presidente que deixa o cargo em duas semanas, que permitiu uma gastança espantosa neste último ano em que pagou qualquer preço - com o dinheiro dos contribuintes - para garantir a eleição da sua candidata. O novo governo tomará posse com um orçamento de faz de conta, isso se houver tempo de aprovação da peça orçamentária.

O Congresso passou o ano inteiro com mais sessões suspensas do que realizadas, por causa da campanha, e ontem aprovou com uma rapidez impressionante um aumento salarial para si mesmo. Fatos assim estão minando a relação com os representados. Ao contrário do que os políticos gostam de dizer, esse desgaste não é causado pela ausência de uma reforma política e sim pelo mau comportamento dos parlamentares. Que tivessem a coragem de explicar e justificar o reajuste, que votassem no tempo regulamentar, que convencessem a sociedade da necessidade do aumento e que cada congressista votasse com seu rosto e nome. O inaceitável é que os políticos tomem uma decisão polêmica em votação simbólica, em regime de urgência, na penúltima semana da Legislatura. Votam como se estivessem prontos para, em seguida, fugir do flagrante.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A estratégia de não crescimento ainda não consegue vencer a ideia de crescimento

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A estratégia de não crescimento ventilada por várias teorias, como a de Peter Victor, ainda está incompleta e difícil de vencer a hegemonia da idéia de crescimento
Seus principais articuladores não se dão conta disso...



Comentários sobre o texto do Peter Victor:

1)Defender a extinção do crescimento “apenas” para os países desenvolvidos não vai funcionar se o tal crescimento às custas do meio ambiente continuar nos países em desenvolvimento, onde estão as maiores fileiras populacionais. Risco de colapso civilizatório seguirá inalterado se o modelo de crescimento não for revisto universalmente.

2) A estabilização populacional na Europa é falsa, porque o suprimento está vindo do fluxo migratório da África e do Oriente Médio. Adicionalmente, os governos estão desesperados e introduziram todos os meios possíveis (financeiros inclusive) para fazer os casais europeus terem mais filhos. A estabilização populacional, pelo menos na Europa, é aterradora para esses governos. Na China idem, a política de filho único está para ser abolida.

3) Para entender o dilema populacional e de não crescimento, basta pegar a adoção generalizada do sistema de repartição simples na previdência. Esse sistema foi concebido com a idéia estapafúrdia que as populações (e as economias) iriam crescer para sempre (idéia esta abraçada inclusive por Malthus, prova que o problema é antigo). O sistema correto deveria ser o de capitalização (cada um responsável pelo seu ciclo de vida). No Brasil, há estudos que mostram (André Lara Resente) que a simples transferência do sistema de repartição simples para um de capitalização, levando em conta o ônus do sistema antigo, custaria aos cofres 1 trilhão de reais (ao perder a coleta das contribuições que são distribuídas entre ativos e inativos ao longo das gerações).

4) Zero crescimento populacional ou zero crescimento econômico não é desejável, porque com isso o sistema deixa de ser financeiramente saudável e essa é a razão das políticas estarem totalmente voltadas apenas nessa direção.

5) Não pode haver a menor dúvida que um cenário de não crescimento irá gerar falência do sistema econômico, a dúvida maior é como manter a saúde financeira do sistema sem o crescimento econômico e populacional. A proposta de não crescimento é portanto incompleta, enquanto não fornecer uma saída para abandonar o crescimento sem colocar em falência os sistemas bancário, financeiro, tributário, fiscal, de saúde e de previdência, todos eles com sua vida útil diretamente atrelada enquanto houver crescimento. Essa é uma boa razão para as propostas de abandono do crescimento caírem no vazio, as pessoas não se sensibilizam com o fato do crescimento gerar o fim da vida na Terra nem de gerar infelicidade, mas se sensibilizam muito com o risco de falência sistêmica de todos os sistemas de sustentação da economia na sua ausência.

6) Não são os governos que se sensibilizam com a falta de crescimento, eles não passam de fantoches nas mãos da superclass. Um cenário de não crescimento não só irá gerar falência, mas também menor geração de riqueza nas mãos de poucos. Sem geração de riqueza e crescimento, a pressão em cima dos governos será gigante e exercida pela superclass, 6000 pessoas que comandam o planeta, são completamente insensíveis às questões socioambientais. É a superclass, que virou multibilionária e provavelmente que se tornar trilionária, que impede tal mudança ou redirecionamento.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Não somos únicos

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Essa apologia do crescimento precisa ser revogada, pois um dia, falar de crescimento será considerado crime contra a humanidade. Essa idéia aniquilou tanta vida, tanto futuro, tanto bem estar, que seu efeito é pior mil vezes que a soma de todas as guerras cruéis que o nosso egoísmo gerou. O crescimento econômico em primeiro lugar baseia-se em uma teoria econômica falsa, com axiomas e princípios de conservação mecânicos de 200 anos atrás, pelos quais os economistas e sua clientela interesseira acreditam que a natureza não só é inesgotável, como também um subsistema da economia. Na verdade, concluem eles corajosamente que a economia pode ser maior que o planeta. O pior de tudo é que embora seja inegável que o crescimento econômico é impossível de se concretizar num planeta fechado e finito como a Terra, sem causar extinção de todas as formas de vida, ele segue sendo pregado aos quatro ventos, porque muitas pessoas acreditam que essa é a única forma de acabar com a miséria. Isso já foi negado por mais de duas centenas de estudos a respeito dos resultados sociais do crescimento por universidades e instituições de renome, como o NEF e a Fordham University. O crescimento econômico ao invés de resolver problemas sociais, acentua todos eles, não passa de um mecanismo poderoso de concentração de riqueza e poder e de diferenciação social em definitivo e, acima de tudo, onde quer que tenha gerado resultados sociais favoráveis, sempre ocorreram às custas de exploração de meio ambiente e mão de obra barata em lugares estrangeiros. Além disso, de forma universal, todos os benefícios sociais como empregos são apenas temporários e efêmeros, posto que o crescimento só se justifica através de mais crescimento, sendo um fim em si mesmo. O crescimento também é um grande causador da extinção cultural que tantos serviços adaptativos prestou à humanidade. A extinção cultural ocorre ao tentar impor, até agora com sucesso, um modo único de produção e consumo para todos. Ou seja, a idéia de crescimento está associada com a extinção da vida e das culturas, com um futuro sombrio para todos nós, uma vez que dessa vez esse Titanic não terá botes salva-vidas nem para a primeira classe, porque nossa civilização conseguiu a proeza de se transformar numa ilha de Páscoa global, via comércio entre as nações, onde as transferências físico-ambientais são invisíveis e permitiu às nações usurpadoras evitar seu próprio colapso local, exportando-o para o resto do mundo. Não é à toa que vivemos a maior extinção da vida dos últimos 65 milhões de anos, ignorada por todos, porque todos, quase sem exceção, ignoram que do ponto de vista da biologia somos todos um.

Hugo Penteado

Míriam Leitão - Panorama Econômico O GLOBO 14/12/2010

Não somos únicos

O crescimento da América Latina este ano mostra que o bom desempenho do Brasil não é fato isolado: a região deve crescer 6% em 2010, segundo a Cepal, depois de cair 1,8% no ano passado. O crescimento do Brasil será o quinto maior, atrás de Paraguai, Uruguai, Peru e Argentina. Assim como aqui, o desemprego caiu e a inflação subiu. As exportações foram beneficiadas pela alta dos preços das commodities.

Alguns países nem chegaram a terminar o ano de 2009 com PIB negativo, como foi o caso do Uruguai. Cresceu 2,9% em 2009 e este ano terá o segundo melhor resultado da região, com alta de 9%. Em primeiro lugar, aparece o Paraguai, com previsão de crescimento de 9,7%. Mas assim como o Brasil, que terminou o ano passado com recessão de 0,6%, parte do crescimento paraguaio deste ano é recuperação do ano passado, quando o país terminou com queda de 3,8% do PIB. Peru e Argentina são dois outros países que conseguiram terminar 2009 com crescimento, de 0,9% em ambos os casos, e este ano vão crescer mais que o Brasil:8,6%, o Peru, e 8,4%, a Argentina. A previsão da Cepal para o Brasil é de crescimento de 7,7%.

´O crescimento observado em 2010 é a consolidação da recuperação que a maior parte das economias da região experimenta desde a segunda metade de 2009, impulsionadas pelo impacto das medidas anticíclicas que vários países implementaram, complementadas pela recuperação da economia internacional`, disse a Cepal, em relatório.

A Venezuela será o único país da região a ter dois anos seguidos de recessão. Caiu 3,3% em 2009, e cairá 1,6% este ano. E isso mesmo com a valorização de 32% no preço do petróleo. A previsão para o ano que vem também é modesta: alta de 2%. O caso da Venezuela é um mistério que só a péssima administração chavista explica. Na lanterna da região está o Haiti, devastado pelo terremoto do início do ano que deixou mais de 220 mil mortos, com recessão projetada de 7%. A boa notícia é que para o ano que vem espera-se a maior taxa de crescimento da região: 9%. Já o Chile, também atingido por um terremoto,conseguirá manter um crescimento de 5,3%.

Os números mostram tendências muito parecidas entre o Brasil e o resto da América Latina e Caribe: o desemprego cairá este ano - de 8,2% para 7,6%; e a inflação subirá, em grande parte por causa dos preços dos alimentos, cotados internacionalmente, e combustíveis. A previsão da Cepal é de que os preços aos consumidores subam de 4,7% no ano passado para 6,2% este ano. As semelhanças não param por aí. Crédito, renda e mercado de trabalho têm sido o motor do crescimento do consumo interno:

´A evolução dos indicadores de mercado de trabalho, o aumento do crédito e a melhora generalizada das expectativas contribuíram para impulsionar o crescimento do consumo privado que, junto com um significativo aumento dos investimentos em máquinas e equipamentos, constitui um dos principais motores em que se assentou o crescimento da demanda.`

Se por um lado o aumento dos preços dos produtos agrícolas foi ruim para a inflação, por outro, contribuiu para melhorar a balança comercial devários países exportadores. Itens como café, cacau, trigo e soja tiveram valorização principalmente a partir do segundo semestre deste ano. A mesma coisa aconteceu com as commodities metálicas. Entre janeiro a outubro, o cobre teve aumento de 52%, o alumínio, 35%, e o ouro, 27%. Com isso, a Cepal estima um crescimento de 25% das exportações, em valor, depois de uma queda de 22% no ano passado.

Para 2011, a previsão também é de um PIB mais fraco, assim como no Brasil. De 6% para 4,2%. A desaceleração é motivada pela piora no cenário internacional - leia-se Europa -, pelo fim dos estímulos econômicos dos governos e também pelo esgotamento da ocupação da capacidade ociosa.

A região recebe a mesma advertência da Cepal que caberia perfeitamente ao Brasil: o risco de que o crescimento aprofunde muito o déficit em transações correntes. A região já se queimou no passado exatamente por manter por tempo demais o rombo externo.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Comendo os irlandeses

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http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101127/not_imp645943,0.php

O Estado de São Paulo - ECONOMIA - Pág. B9
São Paulo, 27 de novembro de 2010 – Sábado

Comendo os irlandeses
É o caso se perguntar o que será preciso para as pessoas sérias perceberem que punir a população pelos pecados dos banqueiros é pior que um crime; é um erro

Paul Krugman*

Estamos precisando de um novo Jonathan Swift. A maioria das pessoas conhece Swift como o autor de As viagens de Gulliver. Mas os acontecimentos recentes me fizeram pensar em seu ensaio de 1729, "Uma proposta modesta", no qual ele observou a pobreza estarrecedora dos irlandeses e ofereceu uma solução: vender as crianças como alimento.

"Asseguro que essa comida será um pouco cara", ele admitiu, mas isso a tornaria muito apropriada para proprietários de terras , que, como já haviam devorado a maioria dos pais, pareciam ser os mais indicados para os filhos. Tudo bem que desta vez não são os proprietários de terras, mas os banqueiros - e eles estão apenas empobrecendo o população, não a comendo. Mas somente um satírico para fazer jus ao que está se passando hoje na Irlanda.

A história irlandesa começou com um verdadeiro milagre econômico.

Esse, porém, acabou dando lugar a uma orgia especulativa provocada por bancos e incorporadoras imobiliárias fora de controle, numa relação promíscua com políticos de peso. A orgia foi financiada com empréstimos enormes captados por bancos irlandeses, em geral de bancos de outros países europeus.

Aí a bolha estourou, e esses bancos enfrentaram prejuízos imensos.

Seria de esperar que os que emprestaram dinheiro aos bancos dividiriam os prejuízos. Afinal, eles eram adultos responsáveis por seus atos, e se não conseguiram compreender os riscos que estavam assumindo isso não foi por culpa de ninguém além deles. Mas, não, o governo entrou em cena para garantir a dívida dos bancos, transformando prejuízos privados em obrigações públicas.

Antes do estouro da bolha, a Irlanda tinha uma pequena dívida pública.

Mas, com os contribuintes subitamente ameaçados por prejuízos imensos dos bancos, enquanto a arrecadação despencava, a credibilidade do país foi colocada em xeque. Assim, a Irlanda tentou tranquilizar os mercados com um programa austero de corte de gastos.

Parem por um minuto e pensem nisso. Essas dívidas foram contraídas, não para pagar programas públicos, mas por espertalhões privados que buscavam apenas seu lucro pessoal. Agora, cidadãos comuns irlandeses pagam a conta.

Ou, para ser mais preciso, eles estão arcando com um ônus muito maior que a dívida - porque aqueles cortes de gastos causaram uma severa recessão, de modo que além de assumir as dívidas dos bancos, os irlandeses sofrem com a queda das rendas e o alto desemprego.

Agora o quê? Na semana passada, a Irlanda e seus vizinhos montaram o que foi amplamente descrito como um "salvamento". O que realmente se passou, porém, foi que o governo irlandês prometeu impor sofrimentos ainda maiores à população em troca de uma linha de crédito que, presumivelmente, daria mais tempo para a Irlanda, bem, recuperar a confiança. Os mercados, compreensivelmente, não se impressionaram quando as taxas de juros dos bônus irlandeses subiram ainda mais.

As coisas precisariam mesmo ser dessa maneira? No início de 2009, circulava uma piada: "Qual a diferença entre a Islândia (em inglês, Iceland) e a Irlanda (em inglês, Ireland)? Resposta: "Uma letra e cerca de seis meses." Isso era para ser uma piada de humor negro. Por pior que fosse a situação da Irlanda, ela não poderia se comparar ao completo desastre que era a Islândia.

Neste ponto, porém, a Islândia parece estar se saindo melhor que sua quase homônima. Sua recessão econômica não foi mais profunda que a da Irlanda, suas perdas de empregos foram menos graves e ela parece melhor posicionada para a recuperação. Os investidores, aliás, agora parecem estar considerando a dívida islandesa mais segura que a irlandesa. Como isso é possível? Parte da resposta é que a Islândia deixou que os emprestadores estrangeiros a seus bancos descontrolados pagassem o prelo de seu mau julgamento, em vez de colocar seus próprios contribuintes na linha para garantir as dívidas privadas ruins. Enquanto isso, a Islândia ajudou a evitar um pânico financeiro em parte impondo controles temporários ao capital - isto é, limitando a capacidade de os locais tirarem fundos do país.

A Islândia também se beneficiou do fato de que, diferentemente da Irlanda, ela ainda tem sua própria moeda: a desvalorização da coroa, que deixou as exportações islandesas mais competitivas, foi um importante fator para limitar a recessão na Islândia, Para os sabichões, nenhuma dessas opções heterodoxas está à disposição da Irlanda. A Irlanda, dizem eles, precisa continuar infligindo sofrimento a seus cidadãos - porque fazer qualquer outra coisa fatalmente solaparia a confiança.

Mas, a Irlanda já está em seu terceiro ano de austeridade, e a confiança continua se exaurindo. É o caso se perguntar o que será preciso para as pessoas sérias perceberem que punir a população pelos pecados dos banqueiros é pior que um crime; é um erro.

* É Prêmio Nobel de Economia
Tradução de Celso M. Paciornik

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A pedido de Marina, Senado vai debater posição brasileira sobre clima

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A pedido de Marina, Senado vai debater posição brasileira sobre clima

Brasília, 24 de novembro de 2010

A senadora Marina Silva (PV-AC) aprovou ontem, dia 23, dois importantes requerimentos na reunião da Comissão de Meio Ambiente do Senado. Serão promovidas audiências públicas sobre questões de alta relevância para a proteção do meio ambiente e para a qualificação do processo de desenvolvimento do país.

A pauta da primeira audiência pública aprovada aborda três pontos: a)a implementação da lei 12.187, de 29 de dezembro de 2009, que instituiu a Política Nacional sobre Mudança do Clima; b) os compromissos assumidos pelo governo brasileiro durante a Conferência das Partes da Convenção de Mudanças Climáticas (COP 15), que ocorreu
em Copenhagen (Dinamarca) em 2009; e c) as posições e os novos compromissos que serão assumidos pelo governo brasileiro durante a COP 16 que acontecerá no México, entre os dias 29 de novembro a 10 de dezembro deste ano.

Os debatedores convidados serão representantes do Ministério das Relações Exteriores, da Casa Civil da Presidência, do Ministério do Meio Ambiente, do Greenpeace e da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Em razão de a Conferência do México ter início na próxima semana, a audiência pública será realizada nesta quinta-feira, dia 25. O debate é aberto ao público e pode ser acompanhado pela internet (www.senado.gov.br). Quem quiser enviar perguntas para os
participantes poderá fazê-lo por meio do endereço eletrônico da senadora Marina Silva (marinasi@senado.gov.br). Algumas das questões serão sorteadas e encaminhadas aos debatedores.

A segunda audiência pública foi convocada por Marina para tratar do projeto de lei complementar nº 01/2010, que promove a regulamentação do artigo 23 da Constituição Federal.

O objetivo original do projeto, que foi encaminhado pelo governo federal em 2007, após amplo processo de debate, era o de deixar mais claras as atribuições da União, dos Estados e dos municípios na formulação e na gestão da política ambiental. Dessa forma, esperava-se dirimir os conflitos de competência, que muitas vezes acaba impondo prejuízos à aplicação da legislação e aos investimentos.

No entanto, o projeto original foi profundamente alterado durante a tramitação na Câmara dos Deputados e, caso seja aprovado como está, representará um grave retrocesso para a legislação ambiental e para a proteção dos recursos naturais. Isso porque, para além de fixar as competências entre os entes da federação, a proposta revisada pelos deputados altera dois pontos essenciais na legislação ambiental:
fragiliza o licenciamento ambiental e limita fortemente o poder de fiscalização do Ibama.

Para esta audiência, que deverá ocorrer na segunda semana de dezembro, os debatedores convidados pelos senadores são integrantes do Ministério do Meio Ambiente, da Associação Nacional dos Municípios e Meio Ambiente, do Instituto de Pesquisas da Amazônia e do Instituto Socioambiental (ISA).

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A embriaguez da ciência econômica

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Paul Krugman

Quando leio artigos tratando de Novas Ideias para a Economia, costumo sentir um certo déjà vu: já não passamos por tudo isso antes? Justin Fox se encarrega do trabalho braçal da pesquisa e descobre um artigo de 1988 a respeito de Novas Ideias que, com pequenos ajustes, poderiam muito bem ter sido propostas nos dias de hoje.

Neste caso, entretanto, o problema não está nas novas ideias de 1988, ainda vendidas como novidade no ano de 2010: em particular, Shiller tinha razão quanto à irracionalidade do mercado naquela época, e sua conclusão continua válida até hoje – exemplificada pelas duas bolhas cuja formação ele soube apontar corretamente.

Mas a pergunta que deveríamos fazer é: Por que os economistas profissionais têm resistido tanto em aceitar o óbvio?

Eu me lembro de 1988; 1988 foi um grande amigo meu. Quando 1988 chegou, o fracasso da teoria do equilíbrio no ciclo econômico já tinha se tornado óbvio. Shiller já tinha demonstrado contundentemente que o preço dos ativos era volátil demais para ser explicado pelos fundamentos da economia, e a quebra do mercado em 1987 consistiu numa lição objetiva sobre o tema do pânico. Vale lembrar que a bagunça dos empréstimos e poupanças ilustrava os problemas de uma regulação financeira inadequada.

E nada ocorreu. A teoria do ciclo econômico real continuou a prosperar, fortalecendo seu controle sobre as publicações do setor. As finanças comportamentais permaneceram na margem. Os discípulos do equilíbrio não aprenderam nada nem esqueceram coisa nenhuma; e quando chegamos a 2008, os devastadores efeitos do tempo reduziram muito, em relação a 20 anos atrás, o número daqueles que de fato compreendiam os choques de demanda.

Resumindo: nosso problema não está na falta de novas ideias engenhosas, e sim na recusa de um grande número de economistas em reconhecer o fato de que algumas de suas teorias favoritas simplesmente não funcionam – fato que se tornou óbvio há décadas.

A estupidez da ciência econômica

Krugman deveria ler Roegen (Krugman nunca respondeu um email meu, tentem escrever para ele, pkrugman@nyt.com). Herman Daly também o provocou num artigo histórico com as proposições do Roegen. Ele respondeu, mas melhor teria não ter respondido, pois se expôs ao ridículo. O que ele reclama dos seus pares, aplica-se a ele. Essa pseudociência –Economia – é uma cujo respeito entre os pares é o pior possível. Roegen também chamou atenção sobre isso.

Sua postura em muito se assemelha ao debate trazido à tona entre George Monbiot e uns farsantes, cujos nomes não merecem ser lembrados. Um deles disse em seu livro que todos deveriam ter a coragem de assumir um erro. Monbiot expôs um deles: segundo esse farsante, o banimento global do DDT, que nunca ocorreu, principalmente para questões de saúde, foi responsável pela morte de milhões de crianças. Ele jamais aceitou ter errado. Suas respostas também o expuseram ao ridículo.

O mesmo vemos em Krugman, com a sua teoria econômica enxovalhada na teoria neoclássica. Basta ler The Return of Depression Economics e sua enorme apologia da expansão fiscal e monetária para criar demanda, como se a oferta brotasse do nada e não houvesse restrições físicas e planetárias. Ou sua resposta ridícula e ridicularizada de forma perfeita por Herman Daly sobre seu erro de considerar os recursos produzidos pelo homem perfeitos substitutos da natureza. Andrei Cechin comenta isso no livro Economia do Meio Ambiente organizado por Peter May, um dos artigos mais interessantes do livro.

Krugman está entre os que acreditam que a economia pode ser maior que o planeta. Pior, ele vê o planeta como um subsistema da economia.

Sua visão de mundo – que é dominante – já causou a maior extinção da vida na Terra dos últimos 65 milhões de anos. Assusta, porque nada mudou e o projeto IIRSA (o primo-monstro do PAC no Brasil) está aí para chegar e destruir o pouco que resta do balanço natural da América do Sul, ao tentar transformar o nosso continente numa plataforma exportadora de produtos ao maior mercado consumidor “potencial” da Terra, a Ásia. Resta saber como uma economia como a China conseguirá a taxas de 8% ao ano dobrar em pouco tempo, sem que os problemas ambientais não se transforme em uma restrição e retrocesso. Jacques Cousteau dizia que a maior razão do desastre ambiental era o enorme aumento da população. Assunto esquecido, vivemos como pragas na Terra, o artigo “The Planet of Weeds” escolheu quatro pragas por características comuns: rato, pombo, barata e seres humanos. Nosso comportamento virótico só tem uma lástima: não somos capazes de matar o hospedeiro. Mal fazemos mossa ao planeta. O Titanic planetário não tem bote salva-vidas, outra questão eternamente esquecida.

Reza uma lenda que um país pobre exportava tudo que produzia, até o dia no qual um acidente natural bloqueou a saída das suas exportações. Desse momento em diante, a população tornou-se feliz, menos explorada e com uma produção que realmente lhes interessava... Pena que seja lenda...

Hugo Penteado