sexta-feira, 27 de março de 2009

Cuidado com os burros motivados

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Para mim tem tudo a ver com o movimento contracultura que o mundo precisa.
Hugo

A revista Isto é publicou esta entrevista de Camilo Vannuchi.

O entrevistado é Roberto Shinyashiki, médico psiquiatra, com Pós-Graduação em administração de empresas pela USP, consultor organizacional e conferencista de renome nacional e internacional.

"Cuidado com os burros motivados" Em "Heróis de Verdade", o escritor combate a supervalorização das Aparências, diz que falta ao Brasil competência, e não auto-estima.

ISTOÉ -- Quem são os heróis de verdade?

Roberto Shinyashiki -- Nossa sociedade ensina que, para ser uma pessoa de sucesso, você precisa ser diretor de uma multinacional, ter carro importado, viajar de primeira classe... O mundo define que poucas pessoas deram certo. Isso é uma loucura... Para cada diretor de empresa, há milhares de funcionários que não chegaram a ser gerentes.
E essas pessoas são tratadas como uma multidão de fracassados. Quando olha para a própria vida, a maioria se convence de que não valeu a pena porque não conseguiu ter o carro nem a casa maravilhosa. Para mim, é importante que o filho da moça que trabalha na minha casa possa se orgulhar da mãe.
O mundo precisa de pessoas mais simples e transparentes. Heróis de verdade são aqueles que trabalham para realizar seus projetos de vida, e não para impressionar os outros. São pessoas que sabem pedir desculpas e admitir que erraram.

ISTOÉ -- O sr. citaria exemplos?

Shinyashiki -- Quando eu nasci, minha mãe era empregada doméstica e meu pai, órfão aos sete anos, empregado em uma farmácia. Morávamos em um bairro miserável em São Vicente (SP) chamado Vila
Margarida. Eles são meus heróis. Conseguiram criar seus quatro filhos, que hoje estão bem. Acho lindo quando o Cafu põe uma camisa em que está escrito "100% Jardim Irene". É pena que a maior parte das pessoas esconda suas raízes. O resultado é um mundo vítima da depressão, doença que acomete hoje
10% da população americana. Em países como Japão, Suécia e Noruega, há mais suicídio do que homicídio. Por que tanta gente se mata? Parte da culpa está na depressão das aparências, que acomete a
mulher que, embora não ame mais o marido, mantém o casamento, ou o homem que passa décadas em um emprego que não o faz se sentir realizado, mas o faz se sentir seguro.

ISTOÉ -- Qual o resultado disso?

Shinyashiki -- Paranóia e depressão cada vez mais precoces. O pai quer preparar o filho para o futuro e mete o menino em aulas de inglês, informática e mandarim. Aos nove ou dez anos a depressão aparece. A única coisa que prepara uma criança para o futuro é ela poder ser criança. Com a desculpa de prepará-los para o futuro, os malucos dos pais estão roubando a infância dos filhos. Essas crianças serão adultos inseguros e terão discursos hipócritas. Aliás, a hipocrisia já predomina no mundo corporativo.


ISTOÉ - Por quê?

Shinyashiki -- O mundo corporativo virou um mundo de faz-de-conta, a começar pelo processo de recrutamento. É contratado o sujeito com mais marketing pessoal. As corporações valorizam mais a auto-estima do que a competência. Sou presidente da Editora Gente e entrevistei uma moça que respondia todas as minhas perguntas com uma ou duas palavras. Disse que ela não parecia demonstrar interesse. Ela me respondeu estar muito interessada, mas, como falava pouco, pediu que eu pesasse o desempenho dela, e não a conversa. Até porque ela era candidata a um emprego na contabilidade, e não de relações públicas. Contratei-a na hora. Num processo clássico de seleção, ela não passaria da primeira etapa.

ISTOÉ -- Há um script estabelecido?

Shinyashiki -- Sim. Quer ver uma pergunta estúpida feita por um Presidente de multinacional no programa O aprendiz? "Qual é seu defeito?" Todos respondem que o defeito é não pensar na vida pessoal: "Eu mergulho de cabeça na empresa. Preciso aprender a relaxar". É exatamente o que o Chefe quer escutar. Por que você acha que nunca alguém respondeu ser desorganizado ou esquecido? É contratado quem é bom em conversar, em fingir. Da mesma forma, na maioria das vezes, são promovidos aqueles que fazem o jogo do poder. O vice-presidente de uma as maiores empresas do planeta me disse: "Sabe, Roberto, ninguém chega à vice-presidência sem mentir". Isso significa que quem fala a verdade não chega a diretor?

ISTOÉ -- Temos um modelo de gestão que premia pessoas mal preparadas?

Shinyashiki -- Ele cria pessoas arrogantes, que não têm a humildade de se preparar, que não têm capacidade de ler um livro até o fim e não se preocupam com o conhecimento. Muitas equipes precisam de
motivação, mas o maior problema no Brasil é a competência. Cuidado com os burros motivados. Há muita gente motivada fazendo besteira. Não adianta você assumir uma função para a qual não está preparado. Fui cirurgião e me orgulho de nunca um paciente ter morrido na minha mão. Mas tenho a humildade de reconhecer que isso nunca aconteceu graças a meus chefes, que foram sábios em não me dar um caso para o qual eu não estava preparado. Hoje, o garoto sai da faculdade achando que sabe fazer uma neurocirurgia. O Brasil se tornou incompetente e não acordou para isso.

ISTOÉ -- Por que nos deixamos levar por essa necessidade de sermos perfeitos em tudo e de valorizar a aparência?

Shinyashiki -- Isso vem do vazio que sentimos. A gente continua acreditando em heróis. Quem vai salvar o Brasil? O Lula. Quem vai salvar o time? O técnico. Quem vai salvar meu casamento? O terapeuta.
O problema é que eles não vão salvar nada! Tive um professor de filosofia que dizia: "Quando você quiser entender a essência do ser humano, imagine a rainha Elizabeth com uma crise de diarréia durante um jantar no Palácio de Buckingham". Pode parecer incrível, mas a rainha Elizabeth também tem diarréia.
Ela certamente já teve dor de dente, já chorou de tristeza, já fez coisas que não deram certo. A gente tem de parar de procurar super-heróis. Porque se o super-herói não segura a onda, todo mundo o considera um fracassado


ISTOÉ -- O conceito muda quando a expectativa não se comprova?

Shinyashiki -- Exatamente. A gente não é super-herói nem superfracassado. A gente acerta, erra, tem dias de alegria e dias de tristeza. Não há nada de errado nisso. Hoje, as pessoas estão questionando o Lula em parte porque acreditavam que ele fosse mudar suas vidas e se decepcionaram. A crise será positiva se elas
entenderem que a responsabilidade pela própria vida é delas.


ISTOÉ -- Muitas pessoas acham que é fácil para o Roberto Shinyashiki dizer essas coisas, já que ele é bem-sucedido. O senhor tem defeitos?

Shinyashiki -- Tenho minhas angústias e inseguranças. Mas aceitá-las faz minha vida fluir facilmente. Há várias coisas que eu queria e não consegui. Jogar na Seleção Brasileira, tocar nos Beatles (risos). Meu filho mais velho nasceu com uma doença cerebral e hoje tem 25 anos. Com uma criança especial, eu aprendi que ou eu a amo do jeito que ela é ou vou massacrá-la o resto da vida para ser o filho que eu gostaria que fosse. Quando olho para trás, vejo que 60% das coisas que fiz deram certo. O resto foram apostas e erros. Dia desses apostei na edição de um livro que não deu certo. Um amigão me perguntou: "Quem decidiu publicar esse livro?" Eu respondi que tinha sido eu. O erro foi meu. Não preciso mentir.


ISTOÉ - Como as pessoas podem se livrar dessa tirania da aparência?

Shinyashiki -- O primeiro passo é pensar nas coisas que fazem as pessoas cederem a essa tirania e tentar evitá-las. São três fraquezas. A primeira é precisar de aplauso, a segunda é precisar se sentir amada e a terceira é buscar segurança. Os Beatles foram recusados por gravadoras e nem por isso desistiram. Hoje, o erro das escolas de música é definir o estilo do aluno. Elas ensinam a tocar como o Steve Vai, o B. B. King ou o Keith Richards. Os MBAs têm o mesmo problema: ensinam os alunos a serem covers do Bill Gates.. O que as escolas deveriam fazer é ajudar o aluno a desenvolver suas próprias potencialidades.


ISTOÉ -- Muitas pessoas têm buscado sonhos que não são seus?

Shinyashiki -- A sociedade quer definir o que é certo. São quatro loucuras da sociedade. A primeira é instituir que todos têm de ter sucesso, como se ele não tivesse significados individuais. A segunda loucura é: Você tem de estar feliz todos os dias. A terceira é: Você tem que comprar tudo o que puder. O resultado é esse consumismo absurdo. Por fim, a quarta loucura: Você tem de fazer as coisas do jeito certo. Jeito certo não existe! Não há um caminho único para se fazer as coisas. As metas são interessantes para o sucesso, mas não para a felicidade. Felicidade não é uma meta, mas um estado de espírito.. Tem gente que diz que não será feliz enquanto não casar, enquanto outros se dizem infelizes justamente por causa do casamento. Você pode ser feliz tomando sorvete, ficando em casa com a família ou com amigos verdadeiros, levando os filhos para brincar ou indo a praia ou ao cinema. Quando era recém-formado em São Paulo , trabalhei em um hospital de pacientes terminais. Todos os dias morriam nove ou dez pacientes. Eu sempre procurei conversar com eles na hora da morte. A maior parte pega o médico pela camisa e diz: "Doutor, não me deixe morrer. Eu me sacrifiquei a vida inteira, agora eu quero aproveitá-la e ser feliz". Eu sentia uma dor enorme por não poder fazer nada. Ali eu aprendi que a felicidade é feita de coisas pequenas. Ninguém na hora da morte diz se arrepender por não ter aplicado o dinheiro em imóveis ou ações, mas sim de ter esperado muito tempo ou perdido várias oportunidades para aproveitar a vida...

segunda-feira, 23 de março de 2009

Não sumam dessa rede...


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Eu tenho que dizer isso: a quantidade de pessoas que eu conheço na internet, por causa do blog, do livro, dos trabalhos que se cruzam, é algo surpreendente. Quando eu digo: somos igualmente importantes, preciso reforçar, cada um de vocês que falam comigo me adicionam força e eu preciso retribuir. Não se trata de uma causa pessoal, é uma causa humanitária. Eu fiz mais de 200 palestras sobre Economia Ecológica, nunca cobrei por elas, exceto quando decidiram me pagar pró-labore em quatro ocasiões. Aí aceitei. Mas o dinheiro que eu ganho eu uso – todo mundo sabe isso – para ajudar muitas pessoas. Os meus pensamentos sobre a vida vão além do que as pessoas acham que devem fazer e um dia eu acordei com uma frase: “nossa importância não deriva daquilo que fazemos para nós mesmos, nem do que temos, nem da nossa inteligência ou sabedoria; nossa importância deriva de tudo aquilo que fazemos para os outros seres vivos e para o planeta, nada mais.” A importância que se busca numa vida espiritual quase sem respostas e cheia de segredos só pode entender quem é um corpo com alma. Num planeta de corpos sem alma, não se espantem com o se sentir um extravagante, porque é assim mesmo. Corpos sem alma, porque a pior morte que existe não é a do corpo, mas a do espírito. Infelizmente, é o principal destino – aterrorizande - dos caronistas da Terra.

Foi por isso que cheguei na economia ecológica e tentei fazer eco, com o pouco que eu ainda aprendi, das vozes que algumas já nem estão mais aqui, mas que só falaram a verdade. Nicholas Georgescu-Roegen, Kenneth Boulding, Clóvis Cavalcanti, Herman Daly, Bastian Reydon, Rachel Negrão, Carlos Lessa, Leonardo Boff, etc. A lista é infinita e não está aí em ordem de importância, as omissões são igualmente importantes, porque somos igualmente importantes e nosso futuro não depende de um ou de outro, mas de todos. Para nos salvar de nós mesmos e continuarmos navegando com esse planeta, teremos que abandonar o pronome na primeira pessoa: eu, meu não podem existir mais. Nosso, é a vez do nosso. É o tempo dos bons.

Vai existir um momento que esse grupo vai se unir de forma única, desesperada para conseguir falar. Precisamos e precisaremos disso em um momento no qual, por conta do que fizemos ao planeta, ele irá nos ameaçar sem chance de evitarmos várias tragédias. O pior do Tchernobyl, por exemplo, ainda nem aconteceu. O pior de muitas coisas que já fizemos ainda nem aconteceu. Desculpa a sinceridade, mas é o que eu vejo andando nas ruas impermeabilizadas da cidade de um povo que não toca mais na terra nem com as mãos, nem com os pés e vivem como zumbis, a maior parte do grupo sem despertar!

Sei que é tudo muito esotérico o que eu disse, mas precisava dizer. Foi uma força imperiosa escrever o que senti ao receber vários emails hoje em casa, ouvindo os ruídos lamuriantes da cidade e de um cachorro com medo nas ruas sempre despertas com seus carros em explosão. Quase toda noite existe uma serra elétrica na minha janela (são 20 horas, isso é permitido). Quase toda noite carros buzinam para o porteiro e os ônibus sobem a ladeira como trovões. Essa é a minha cidade, a cidade cheia de luz, impermeabilizada, inumana.

Não sumam dessa rede. Ela terá seu tempo certo para se formar.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Colapso global como freio de arrumação

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VALOR 17/03/2009

Colapso global como freio de arrumação
José Eli da Veiga
O colapso global ajuda a pensar no seu contrário: o crescimento econômico, um dos mais amplos e profundos anseios coletivos contemporâneos. E oportuna referência está no trabalho de uma comissão formada por 18 sumidades de 16 países, sob a liderança de Spence, Solow e Leipziger, publicado em meados de 2008 pelo Banco Mundial: "The Growth Report - Strategies for Sustained Growth and Inclusive Development".

A comissão propôs que o mundo se mirasse no exemplo de 13 países que, desde 1950, conseguiram que seus PIB crescessem a uma taxa média igual ou superior a 7% em período de ao menos 25 anos: Botsuana, Brasil, China, Hong Kong, Indonésia, Japão, Coreia, Malásia, Malta, Omã, Cingapura, Taiwan e Tailândia. Sem sequer discutir se poderia ser possível para o conjunto aquilo que foi possível para uma de suas partes, caindo assim na conhecida falácia da composição, o relatório pretende que o PIB mundial possa mais do que quintuplicar em um quarto de século.

Isso não quer dizer que tenham sido ignorados problemas como o do aquecimento global, ou de disparada dos preços relativos de produtos energéticos e alimentares. Ao contrário, na quarta parte do documento eles são considerados como "novas tendências globais", junto com temas mais políticos, como as resistências à globalização. Só que tudo isso é entendido como exógeno. Nada teria a ver com o próprio crescimento econômico. Nem mesmo as dificuldades para se reduzir emissões de gases de efeito estufa chegam a ser consideradas nesse cenário de multiplicação do PIB mundial por 5,4 em um quarto de século.

Por que essas 18 altas autoridades em ciência econômica imaginam que aumentos do PIB não tenham custos socioambientais? A resposta aponta um raciocínio muito comum, que também é dos mais falaciosos. Como em um dólar de PIB é declinante a participação relativa de recursos como petróleo e minérios, deduz-se que não existam limites naturais ao crescimento econômico. Um duplo sofisma. Ignora que continua a aumentar o fluxo de recursos naturais que atravessa a economia, mesmo que diminua no PIB seu peso monetário relativo. E também ignora que o valor é sempre acrescentado pelos humanos, mediante sua força e meios que criam para produzir (trabalho e capital), o que inclui evidentemente conhecimento e inteligência. Raciocina-se como se fosse possível a criação de valor adicionado sem uma coisa à qual ele se adicione, em geral recursos naturais.

Quem ler esse relatório também ficará sem saber que desde meados da década de 1990 outros economistas comparam as evoluções do PIB às evoluções de indicadores de bem-estar. E que o fenômeno constatado nas nações mais avançadas foi de clara divergência a partir do início dos anos 1980, mostrando que em países de alto consumo os custos do crescimento passaram a superar seus benefícios, tornando-o antieconômico.

A constatação empírica de divergência entre desempenho econômico (medido pela evolução do produto) e a efetiva qualidade de vida, assim como entre ela e as perspectivas das gerações futuras (sustentabilidade ambiental), são os primeiros sinais daquilo que no plano teórico havia sido antecipado desde 1966 pela genial contribuição de Nicholas Georgescu-Roegen (1906-1994). Foi quem mostrou que as teorias da ciência econômica simplesmente fazem de conta que não existe a termodinâmica, porque seria muito incômodo aceitar a sua segunda lei, da entropia.

Toda transformação energética envolve produção de calor que tende a se dissipar. E calor é a forma mais degradada de energia, pois embora parte dele possa ser recuperada para algum propósito útil, não é possível aproveitá-lo totalmente por causa de sua tendência à dissipação. A degradação energética tende a atingir um máximo em sistema isolado, como o universo. E não é possível reverter esse processo. O que quer dizer que o calor tende a se distribuir de maneira uniforme por todo o sistema. E calor uniformemente distribuído não pode ser aproveitado para gerar trabalho.

Como as mais diversas formas de vida são sistemas abertos, elas só se mantêm como oposição temporária ao

processo entrópico. Há entrada de energia e materiais, mas nem toda energia pode ser utilizada: o calor dissipado não é capaz de realizar trabalho. Energia e matéria aproveitáveis são de baixa entropia, e quando utilizadas na manutenção da organização do próprio sistema, são dissipadas, tornando-se de alta entropia. Os organismos vivos existem, crescem e se organizam importando energia e matéria de qualidade de fora de seus corpos, e exportando a entropia.

Também é assim que a economia mantém sua organização material e cresce em escala: é aberta para a entrada de energia e materiais de qualidade, mas também para a saída de resíduos. Toda a vida econômica se alimenta de energia e matéria de baixa entropia, e gera como subprodutos resíduos de alta entropia. Por isso, não pode ser entendida como moto-perpétuo.

No entanto, obcecados pelo fluxo circular monetário, os economistas convencionais se esqueceram do fluxo metabólico real. Por isso chegam ao absurdo de pensar que o crescimento econômico nada tenha a ver com a capacidade do ambiente de assimilar os resíduos, colocando em risco suas funções de suporte à vida. E não há como se saber qual será o nível de impacto a partir do qual os danos ao ambiente serão irreversíveis.

A mais prática decorrência é que poderá ser muito melhor que o PIB mundial aumente, por exemplo, a uma taxa média de 2%, dobrando em 35 anos, em vez de 7%, quintuplicando em 24. Mais importante ainda será que essa média resulte de taxas das mais elevadas em uma centena de países periféricos e das mais baixas nas duas ou três dezenas de países centrais. Só isso poderá permitir que a qualidade do crescimento econômico seja compatível com a conservação ecossistêmica, gerando algo bem mais próximo do generoso ideal que só emergiu no final do século passado: o desenvolvimento sustentável. E, neste caso, o colapso global terá sido um bem vindo freio de arrumação.

José Eli da Veiga, professor titular do departamento de economia da FEA-USP e autor de diversos livros sobre desenvolvimento sustentável, escreve mensalmente às terças. Página web: www.zeeli.pro.br

quarta-feira, 18 de março de 2009

Sinais da crise planetária

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Estou doente, com gastrite em casa, enjoado até dizer chega, gastrite que eu adquiri tomando café demais. Tomei café demais por nervoso, talvez. É tudo, a crise econômica e a cegueira à nossa volta, tudo me aflige. O dia de ontem enquanto deitado na cama me sentia como se estivesse nauseado num navio, vi a chuva forte, protegido, mas rezando baixinho, sabia que não era assim que as coisas estavam lá fora.

Acordei nauseabundo ainda, com a gastrite e assisti quatro vídeos no uol. Abaixo os endereços dos vídeos e os comentários que fiz.

Chuva em São Paulo: vídeo 1, vídeo 2 e vídeo 3

Isso mostra que o homem não manda na natureza, é limitado por ela, dependente do planeta e da natureza e agora, pela sua alucinação coletiva, irá colher os piores desastres enquanto os governos do Brasil e do mundo todo insistem no erro de manter a idéia de crescimento econômico infinito como se isso fosse feito pelo bem da coletividade, sem prestar atenção que o crescimento econômico é um mecanismo de diferenciação social e opressão que deixa só os ricos mais ricos e a natureza cada vez mais vingativa. É hora de abolir essas idéias retrógradas e voltar vários passos para trás, se quisermos salvar parte da humanidade. Do jeito que vai, com mais carros, mais construções, mais pessoas, sempre aumentando num espaço finito, um dia São Paulo não vai parar apenas por um dia, vai parar de vez. Espero que a gente possa mudar nossa consciência antes disso. Hugo Penteado

Frangos morrem por falta de energia: vídeo 4


Por isso parei de comer carne, a crueldade a qual são submetidas as criaturas de Deus, que não sei porque razão achamos que não sentem dor e podem ser "usadas por nós" é um dos maiores horrores que existem na nossa civilização atual. O frango industrializado, confinado, cheio de hormônios é visto como causador de doenças e nas mulheres câncer de mama. Se ao invés de comermos tanta carne, comêssemos mais vegetais, a oferta de alimentos aumentaria muitas vezes, porque não comemos a vida dos bichos, comemos a sua morte. A vida horrenda, aterrorizante e karmática que eles viveram ficaram para eles. E nós não temos falta de alimentos, temos excesso de gente, ainda alguém vai ganhar um prêmio nobel ao lembrar que o território dos países é constante e não aumenta de tamanho. Porque então podemos aumentar a produção de coisas, pessoas, bens, casas, carros, infinitamente se o espaço é finito? E pelo bem de quem isso é feito? Nosso? Hugo Penteado




terça-feira, 17 de março de 2009

Transformamos a Terra em lixeira e não queremos arcar com as consequências...

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Só existe uma solução: lixo zero. A natureza da qual dependemos não joga nada no lixo. Nós, os seres humanos coisificados individualizados achamos que temos o direito divino de transformar a Terra, nossa casa e a casa de todos os seres vivos, em lixeira. Pior, achamos que nossas almas irão fazer isso sem consequência alguma, revogando a lei universal de causa e efeito...

O planeta está ameaçado pela poluição

Entre o litoral da Califórnia e o Havaí, uma área enorme ganhou um triste apelido: o Lixão do Pacífico. Levadas pela corrente marítima, toneladas e toneladas de sujeira, produzidas pelo homem, se acumulam num lugar que já foi um paraíso.

Um oceano de plástico, uma sopa intragável, de tamanho incerto e aproximadamente 1,6 mil quilômetros da costa entre a Califórnia e o Havaí e que, segundo estimativas, seria maior do que a soma de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Goiás.

É o Pacífico, o maior dos oceanos, agredido pela humanidade onde a humanidade raramente chega. Há plástico e plâncton, lixo e alimento, tudo misturado. Poluindo o paraíso, confundindo as aves, criando anomalias - como a tartaruga que cresceu com um anel de plástico em volta do casco - e matando os moradores do mar.

Mas qual será afinal o tamanho exato gigantesca massa de lixo que se acumula no Oceano Pacifico? Será que a gente ainda tem tempo para limpar tudo isso? E os animais? Se adaptam ou sofrem as consequências?

Charles Moore viajava pelo Pacífico, entre o Havaí e a Califórnia, quando resolveu arriscar um novo caminho. "Foi perturbador. Dia após dia não víamos uma única área onde não houvesse lixo. E tão distantes do continente”, lembra o capitão.

Como um descobridor nos tempos das Navegações, Charles Moore foi o primeiro a detectar a massa de lixo. E batizou o lugar de Lixão do Pacífico. Primeiro, viu pedaços grandes de plástico, muitos deles transformados em casa para os mariscos. Depois, quando aprofundou a pesquisa, o capitão descobriu que as águas-vivas estavam se enrolando em nylon e engolindo pedaços de plástico. O albatroz tinha um emaranhado de fios dentro do corpo.

"Antes não havia plástico no mar, tudo era comida. Então os animais aprenderam a comer qualquer coisa que encontram pela frente. Você pode ver que eles tentaram comer isso [pedaço de embalagem]. Mas não conseguiram", diz o capitão.

Com a peneira na popa, o capitão e sua equipe filtram a sopa de plástico e fazem medições. Já descobriram, por exemplo, que 27% do lixo vem de sacolas de supermercado. Em uma análise feita com 670 peixes, encontraram quase 1,4 mil fragmentos de plástico.

São informações valiosas, fonte de pesquisa e argumentos para a grande denúncia de Charles Moore: "Gostaria que o mundo inteiro percebesse que o tipo de vida que estamos levando, isso de jogar tudo fora, usar tantos produtos descartáveis, está nos matando. Temos que mudar, se quisermos sobreviver".

Um gesto despreocupado, uma simples garrafa de plástico esquecida em uma praia da Califórnia. Muitas vezes ela é devolvida pelas ondas e recolhida pelos garis. Mas grande parte do material plástico que é produzido nessa região acaba embarcando em uma longa e triste viagem pelo Oceano Pacifico.

Pode ser também depois de uma tempestade. O plástico jogado nas ruas é varrido pela chuva, entra nas galerias fluviais das cidades e chega até o mar; ou vem de rios poluídos que desembocam no oceano.

No caminho, os dejetos do continente se juntam ao lixo das embarcações e viajam até uma região conhecida como o Giro do Pacífico Norte. Diversas correntes marítimas que passam às margens da Ásia e da América do Norte acabam formando um enorme redemoinho feito de água, vida marinha e plástico.

Mas, outra vez uma tempestade, um vento forte, talvez, e parte do lixo viaja para fora da sopa, até uma praia distante.

Estamos numa praia linda e deserta de uma região praticamente desabitada do Havaí. Não era para ser um paraíso ecológico? Mas Kamilo Beach recebe tantos dejetos marítimos que acabou virando um lixão a céu aberto. Basta procurar um pouquinho para entender a origem de todo o plástico que chega até a praia. Em uma embalagem, caracteres chineses. Uma bóia de pescadores provavelmente veio do Japão. Um pouco mais adiante, há o pedaço de um tanque de plástico com ideogramas coreanos.

E olha que Kamilo Beach está mais de 1 mil quilômetros distante do Lixão do Pacífico, no extremo sudoeste da ilha de Hilo, no Havaí. Kamilo Beach dificilmente vê um gari. O plástico que chega lentamente pelo mar vai ficando esquecido no paraíso.

Há dois anos, depois que se mudaram para cá, Dean e Suzzane Frazer resolveram fazer de Kamilo um alerta planetário. Suzanne pergunta: "Será que o governo japonês, por exemplo, sabe quanto plástico o Japão está mandando para o Havaí?"

Dean vem trazendo um galão que, sem dúvida, chegou da Ásia. Tem também tubo de shampoo usado nos Estados Unidos e sacos de plástico sabe-se lá de onde. Agora, são todos farrapos do mar. As mordidas impressas no plástico levaram os ambientalistas a mudar de alimentação.

"O que acontece é que as toxinas estão se acumulando ao longo da cadeia alimentar. Os predadores no topo da cadeia, que somos nós, estamos comendo plástico também", alerta Suzzane Fraser.

O casal toma notas, calcula as quantidades, recolhe o equipamento de pesca para saber os pesos e as medidas de cada tipo de poluição. Não é pessimismo. Por enquanto, praticamente nada está sendo feito e não dá para dizer que existe um ou outro culpado. Estamos todos com as mãos completamente sujas de plástico.

Maldivas têm ilha só de lixo

Haveria depósito de lixo em cinco régios dos oceanos. Nas Ilhas Maldivas, no Oceano Índico, uma nova ilha está sendo criada. É uma ilha de lixo. Em pouco menos de duas décadas, a ilha já tem 50 mil metros quadrados e abriga indústrias e depósitos. Caminhões chegam em barcos o tempo todo.

O lixo orgânico é queimado na hora. Garrafas de plástico e pedaços de metal são separados e exportados para Índia, onde são reciclados. O resto forma a base do território que avança sobre o oceano.

O nativos das Maldivas se recusam a fazer esse tipo de trabalho. Eles ganham mais se passarem o dia inteiro na praia, só pescando. Por isso, os trabalhadores do lixão são 150 imigrantes de Bangladesh, que aceitam trabalhar ganhando o equivalente a US$ 60 e US$ 100 por mês.

A maior parte do lixo vem da capital, Malé, que concentra 100 mil habitantes, um terço da população do país. Mas os 10 mil turistas que visitam as ilhas por dia provocaram uma explosão na produção de lixo e a criação da ilha das Maldivas que ninguém quer visitar.

Fonte: Globo.com

segunda-feira, 16 de março de 2009

A destruição das florestas é contínua - a cada dia amanhecemos com menos natureza

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Sem a Amazônia e o Cerrado milhões de brasileiros irão morrer. Leiam o artigo abaixo.

16/03/2009 - 16h31

Relatório mostra que 42% de matas perdidas em cinco anos no planeta são do Brasil

Da Agência Estado


Em Genebra

sábado, 14 de março de 2009

O fracasso da economia acadêmica

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O fracasso da economia acadêmica
Antonio Delfim Netto
10/03/2009

Em 1609, Galileu Galilei, (1564-1642) depois de ter aperfeiçoado um instrumento construído um pouco antes por óticos holandeses, produziu uma luneta que chamou de "Perspicillum". Com ela deu origem a uma revolução na astronomia. Por isso, a União Astronômica Internacional e a Unesco elegeram 2009 como o Ano Internacional da Astronomia. Qual é a profunda importância de Galileu? A resposta é simples, como nos informa o ilustre prof. Antonio Augusto Passos Videira (revista "Ciência Hoje", jan./fev. 2009: 18): "Suas descobertas contribuíram para minar a primazia da concepção aristotélica do cosmo, baseada na beleza dos corpos celestes e na imutabilidade dos céus. Em longo prazo, suas ideias - sustentadas pela matemática, por medidas e por uma retórica afiada - ergueram uma visão do mundo na qual se buscavam leis para os fenômenos naturais".
Mas qual a importância disso agora, há de perguntar-se, irritado, um daqueles economistas que se pensa portador da "verdadeira" ciência econômica? Eu também uso a matemática! A pequena diferença é que o seu "tipo" de conhecimento tem muito mais a ver com Aristóteles esteticamente matematizado do que com Galileu. Em lugar de tentar entender como funciona o sistema econômico, tenta ensiná-lo como deveria funcionar em resposta à beleza dos seus axiomas...
Essa é uma crítica antiga, mas que a corrente majoritária dos economistas (que à falta de nome melhor chama-se a si mesma de neoclássica) recusava-se a considerar diante do aparente sucesso da sua teoria na "explicação" do mundo dos últimos 25 anos. A cavalar crise financeira (em parte produzida pelos equívocos propagados pela própria "teoria") desconstruiu essa ilusão. Um grupo de oito importantes economistas (todos um pouco mais ou um pouco menos críticos, mas sem dúvida, competentes membros do "mainstream" e senhores da mais sofisticada matemática e econometria) acabam de publicar um trabalho, "A Crise Financeira e o Fracasso Sistêmico da Economia Acadêmica" 1. É um verdadeiro réquiem de corpo presente para a economia pré-galileliana, que foi dominante na última geração.
A síntese do artigo (em tradução livre) é a seguinte:
"A profissão dos economistas parece ter ignorado a longa construção que terminou nesta crise financeira internacional e ter significativamente subestimado as suas dimensões quando ela começou a manifestar-se. Na nossa opinião, essa falta de entendimento foi devida à má alocação dos recursos de pesquisa na economia. Fixamos as raízes profundas desse fracasso na insistência da profissão em produzir modelos que - por construção - ignoram elementos fundamentais que controlam os resultados no mundo dos mercados reais. A profissão falhou, lamentavelmente, na comunicação ao público das limitações e fraquezas e, mesmo, dos perigos que caracterizam os modelos de sua preferência. Esse estado de coisas deixa claro a necessidade de uma fundamental reorientação das pesquisas que devem ser feitas pelos economistas e, também, do estabelecimento de um código de comportamento ético, que exija deles o conhecimento e a comunicação (para o público) das limitações e dos maus usos potenciais possíveis de seus modelos".
O final do trabalho é ainda mais preocupante:
"Acreditamos que a teoria econômica caiu numa armadilha de um equilíbrio subótimo, no qual o grosso do esforço de pesquisa não foi dirigido para as mais angustiantes necessidades das sociedade. Paradoxalmente, um efeito retroativo, que se autorreforça dentro da profissão, levou à dominância de um paradigma que tem base metodológica pouco sólida e cuja performance empírica é, para dizer o menos, apenas modesta. Pondo de lado os mais prementes problemas da moderna economia e fracassando na comunicação das limitações e das hipóteses contidas nos seus modelos mais populares, a profissão dos economistas tem certa responsabilidade na produção da crise atual. Ela falhou na sua relação com a sociedade. Não produziu tanto conhecimento quanto seria possível sobre o comportamento da economia e não a alertou dos riscos implícitos nas inovações que criava. Além do mais, relutou em enfatizar as limitações da sua análise. Acreditamos que o seu fracasso em sequer antecipar os problemas gerados pela crise do sistema financeiro e a sua incapacidade de prover qualquer sinal antecipado dos eventos que iriam se passar exigem uma reorientação fundamental dessas áreas e uma reconsideração de suas premissas básicas".
Trata-se de um trágico "requiescat in pace", não para a teoria econômica, mas para o "mainstream" pré-galileliano, que se apropriou dela com imensa irresponsabilidade. Podemos voltar agora à modesta e útil economia política?
1 Os autores são David Colander, Katarina Inlesuis, Alan Kirman e outros

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras

sexta-feira, 13 de março de 2009

Crise significa oportunidade de mudança, mas até agora significa mais do mesmo

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A economia depende do planeta em primeiro lugar e das pessoas em segundo lugar. Embora isso seja uma verdade irrefutável, nosso sistema econômico resolveu inverter a relação: as pessoas dependem da economia para viver. Essa inversão teve consequências extraordinariamente nefastas, evidenciadas na crise que ora vivemos. Os Estados Unidos colocaram todo seu motor de crescimento em cima das famílias americanas que começaram a se endividar sem correlação alguma com seus ganhos de renda e de trabalho, nem com a sua devida importância social. O consumo insustentável das famílias não foi a única base de sustentação, pois durante esse período, intensificou-se o gasto com armamentos, uma política keynesiana para geração de empregos. O problema de desenvolver armas é quando se desenvolve tecnologia para destruir e matar, não necessariamente conseguirá dar uma aplicação pacífica a esta tecnologia (bom isso é contra um dos principais argumentos dos neokeynesianos armamentistas).

Os Estados Unidos precisam gerar 3.000.000 de postos de trabalho todos os anos só para acomodar o crescimento populacional e não tem conseguido fazer isso há décadas. O emprego total das 500 maiores corporações já caiu acumuladamente milhões de postos desde o final dos anos 90 e cai em termos absolutos ano a ano. A finalidade do crescimento não é emprego, isso é uma reação tautológica do ciclo: aparece timidamente quando pode e desaparece rapidamente quando não se faz mais necessário. Custo disso: 28 milhões de mendigos nos Estados Unidos, população tradicional. O país mais rico do mundo com essa estatística mostra que é hora de tentar o novo. Com tanta demanda social, a produção de armamentos é uma peça-chave para não deixar tanta gente marginalizada no sistema. O problema é que você incentiva o inimigo a fazer o mesmo (para se ter uma idéia da insanidade militar planetária, ogivas de plutônio têm que ser reprocessadas a cada 10 anos aproximadamente, use ou não, terá que re-confeccionar seu brinquedinho). Essa parte da crise ninguém menciona: crise de modelo de emprego, crise de modelo de relações entre países, crise militar.

Ganhar mais para essa sociedade ter mais bens e serviços não passou necessariamente por uma relação meritória e sim apenas pelo acesso a uma exorbitante oferta de crédito sem critério algum. É o fim do mérito, todos valem a mesma coisa (ou seja, nada) e ninguém investe no seu próprio desenvolvimento (mental, intelectual, espiritual, habilidades e aptidões). É nesse ponto que começa o colapso e é quando se descobre tardiamente que a economia depende das pessoas e não o inverso. A falência das famílias americanas, norteada por um consumo irresistível, financiado por dívida, lastreado por ativos e riquezas intangíveis e irrealizáveis, criou um sistema de ganhos que se mostrava insustentável desde a sua largada e essa crise era aguardada já há muitos anos e o único exercício de imaginação que nos restava fazer era: quando? Estamos repetindo a história, segundo Ortega Y Gasset a crise de Roma começou internamente e é um ledo engano achar que foi invadida: os romanos se barbarizaram!

O mais assustador de tudo isso é acharem que a solução está nas mesmas causas desse problema: mais consumo, mais crédito, mais investimentos em infraestrutura, como se a economia pudesse ser maior que o planeta ou como se fôssemos deuses. Devíamos pensar como os epicuristas: ou os deuses não existem ou eles não se importam conosco. Usar o mesmo remédio que causou a doença é um pecado mortal, avisado por vários autores conscientes, como Noam Chomsky, Stephen Roach, Max-Neef, Herman Daly, Roegen, etc. Os desavisados de plantão pedem para o governo apertar as mesmas teclas de destruição dos valores humanos e da capacidade do planeta sustentar a vida na Terra. Isso só produz mais famílias que não são sustentáveis financeiramente e não são capazes de sustentar os ganhos econômicos de curto prazo observados nos últimos anos de euforia. A falta de sustentação desse sistema não se restringia, portanto, apenas à questão ambiental, planetária e social. Era também financeira. O pior que agora tudo isso pode ser resolvido com armamentos. Nada mal, o encouraçado alemão Bismark gerou 2.000 empregos em plena crise alemã. Duzentas horas de operação e quase 2.000 viúvas, coisas de guerra. Pelo menos, 2.000 desempregados a menos.

Essa crise é seríssima, profunda, sem solução e ainda não atingimos a falta de sustentação maior que será a crise planetária que iremos viver logo mais, por conta da contínua antropomorfização do planeta, como se isso fosse possível, como se fôssemos deuses, como se nós ou alguns de nós estivéssemos imunes às regras bioplanetárias. Não estamos, nada será mais democrático do que a crise planetária causada pela contínua e incansável antropomorfização da Terra, estimulada pela crença estúpida no crescimento econômico baseado em investimentos em infraestrutura e exportações, como se a economia pudesse ser maior que o planeta e como se as insuficiências do nosso sistema de preços em reconhecer os danos ecológicos e planetários fossem alguma garantia que eles não existissem. Julien Simon tolamente acreditava nisso e passamos a ser garantidores da Natureza e não o contrário! Estranho, mas para os "otimistas tecnológicos" (cornucopianismo tecnológico) está tudo ok. Pergunta: conseguiremos alternar nosso DNA para viver no lixo e na radiação? Esperamos que sim, afinal estamos diligentemente transformando a Terra numa lixeira conosco dentro e vivos, pelo menos por ora.

Outro aspecto assustador da crise não foi apenas a economia americana estar dependente de famílias falidas, mas o mundo inteiro globalizado rapidamente ter engatado seus vagões nessa massa falida como se isso fosse sinônimo de sucesso e ainda exaltar a necessidade de adotarmos o mesmo modelo de consumo anti-ecológico e suicida do ponto de vista biológico como salvação econômica (de quem?), do contrário, estaríamos fritos. Nós não estamos fritos assim mesmo? Conta-se muito a história de um país cuja população era imensamente miserável e que exportava tudo que produzia, até que em um dia, um desastre natural impediu o escoamento da produção para o exterior e eles se tornaram prósperos, felizes e acima de tudo, com mais equilíbrio. É isso que significa a globalização, além dos custos inimagináveis de emissão de carbono de transporte e de consumo excessivo além da capacidade do planeta suportar, há o desequilíbrio social utilmente ignorado.

A tentativa de resolver o problema agora só irá agravá-los. George Monbiot escreveu no seu blog: dar mais crédito ao canal de consumo entupido de crédito não é justamente aquilo que causou o problema em primeira instância? Na sequência ele sobrevoa sobre as enormes críticas existentes e abafadas no mundo todo sobre a razão de existirem bancos centrais detentores da soberania de emissão de moeda. Nesse caso a discussão é gigante, para não entrar no mérito, vale dar uma olhada nos trabalhos de E. F. Schumacher, que em suma, vai de encontro com a hipertrofia das estruturas globais que se transformaram em monstros sagrados, impossíveis de serem aniquilados, embora sua própria existência possa ter consigo o germe de aniquilação de todos nós.

Em síntese, nenhuma das medidas preconizadas até agora reconhecem a necessidade de mudar o paradigma, de navegar por mares nunca dantes navegados, de fazer uma redução de escalas, de metas, de objetivos, de tecnologias e de ações empresariais, sociais e humanas, de estancar de vez o crescimento exponencial das unidades ambientais, como pessoas, construções, carros e coisas, e de ir numa outra direção que na verdade nunca experimentamos. Por essa razão, todas as iniciativas fracassarão retumbantemente e embora todos digam que nenhuma crise foi insuperável, esse é um exercício de lógica semelhante a dizer: “Até agora, nunca morri, portanto, nunca morrerei.” “Nunca houve uma crise insuperável, portanto nunca haverá uma.” O mesmo vale para a afirmação dos descrentes, como do estatístico Bjorn Lomborg em relação às descobertas assustadoras das ciências da Terra: “Nunca o planeta expulsou a humanidade da Terra, portanto, nunca expulsará.” Será mesmo?

Hugo Penteado
Mestre em Economia pela USP e autor do livro Ecoeconomia – Uma nova Abordagem – 2ª.edição 2008

Eduardo Passeto
Mestre em Planejamento Energético pela UNICAMP

quinta-feira, 12 de março de 2009

Recomendações dos analistas

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É muito comum ouvir em tempos de crise ou de prosperidade indicações dos analistas sobre o que deveria ser feito, seja para manter um quadro bom, seja para reverter um ruim. As medidas são sempre da mesma natureza: manter fluxos de demanda crescentes requer instituições sólidas e agora, no seio dessa crise bancária sem precedentes, há urgência em estabelecer marcos regulatórios que evitem as enormes oscilações causadas pelos mercados financeiros, como disse Ben Bernanke agora pouco. No caso dos países emergentes, antes dessa onda da gastança dos Estados Unidos sem se preocupar com nada, os analistas urgiam os governos para implementarem reformas: previdência, tributária, comércio externo, política, etc. Diziam enfaticamente que sem essas reformas os países do dito Terceiro Mundo não iriam para lugar algum, nem crescer o suficiente. Nos anos recentes de bonança ninguém prestava atenção à falta de reformas que, por exemplo, no caso brasileiro foi marcante. Até porque a última reforma feita aqui, em 2003, no auge do final da crise de 2002, sequer foi regulamentada e desde então quase 200.000 novos servidores públicos foram contratados no regime previdenciário antigo, como se essa reforma nunca tivesse existido. Aquela recomendação ao governo brasileiro não foi seguida, mas quem se importava com isso, se a arrecadação crescia dois dígitos todos os anos, surfando na onda da globalização enriquecida pelos gastos das famílias estadunidenses que, mais tarde, provaram-se falidas e incapazes de sustentar a farra de todos. No final de tudo isso, essas recomendações - privatização, reformas, marcos regulatórios, regras de comércio externo, liberalismo, etc. - parecem que mesmo se fossem implementadas não seriam suficientes para revogar a base precária na qual todo o sistema econômico se assenta: a necessidade de crescer sempre, em variações percentuais de fluxos, como o PIB, fazendo de conta que o planeta é inesgotável e a economia pudesse ser maior que o planeta. Essa necessidade insana justifica qualquer atitude nessa direção, mesmo aquelas que quase causaram o maior desastre global da história da humanidade - se é que isso ainda não está para acontecer. Em suma, a raiz do problema é muito mais profunda, tem a ver com os objetivos que foram escolhidos pelo sistema, as metas, os meios e as decisões que tomamos para continuar nessa mesma rota, sem se preocupar com limites sociais e ambientais inescapáveis. Rota da qual incrivelmente e apesar de tudo ainda não temos a coragem e a capacidade de abandonar, pelo menos enquanto não atingirmos o limite da biosfera planetária atender todas as nossas demandas desnecessárias e irracionais, num sistema de desigualdade social e concentração de riqueza extremas, fato que não causa, pelo menos para a maioria, embaraço algum.

Hugo Penteado

quarta-feira, 11 de março de 2009

Quer salvar o planeta?

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Quer salvar o planeta? Não tenha filhos. Leia dados aqui.

Do ponto de vista individual, ter um filho é um ato de amor. Do ponto de vista coletivo, da nossa espécie animal, é uma das atitudes mais egoístas que exigem. Nós perdemos totalmente de vista a perspectiva coletiva, só nos importa a individual e eu acho sui generis que ainda sejamos pessoas que só amamos quem tem nosso sangue, como se todos nós ou todos os seres vivos não pertencessem a uma única família. Nós somos hoje a espécie animal que mais ignora a prole de crianças ou filhotes abandonada a nosso redor, ainda temos critérios de adoção que vão da criança branca de olho azul, como se as crianças afrodescendentes ou de mais idade, não fossem lindas por si só. Nossa espécie animal coisificada e individualizada é aterrorizante e está programada para desaparecer mais rápido e por sua própria culpa do que qualquer outra espécie animal que já surgiu na Terra. Está na hora de todos amarem a todos, como se não houvesse amanhã. Todos os seres vivos dependem de todos os seres vivos. Deixar crianças abandonadas no mundo enquanto planejamos colocar mais uma é uma visão individual. Por onde anda a visão coletiva, a que garantirá nossa continuidade na Terra?

Hugo Penteado

terça-feira, 10 de março de 2009

Carlos Minc sobre a Amazônia

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Sempre lembrando que sem a Amazônia e o Cerrado (80% do Brasil) milhões de brasileiros como eu e você, meu leitor, irão morrer. Todas as políticas propostas e preconizadas pelo ministro vão na direção da defesa da vida, que é mais importante que a economia. Por isso, recuperar áreas degradadas, que somadas hoje são maiores que a França e o Reino Unido juntos, com mais de 650.000 km2 transformados em deserto praticamente, faz muito mais sentido do que destruir as áreas intactas.

Pelo bem de todos nós. Pelo bem da economia, mas não podemos esquecer que as pessoas e o planeta sempre são e serão sempre mais importantes que a economia. A economia depende das pessoas e do planeta, não o inverso.

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Esse artigo pode ser lido no site da Folha aqui.
TENDÊNCIAS/DEBATES
Legalidade ambiental na Amazônia
CARLOS MINC
Hoje é mais fácil e barato um agente desmatar a floresta nativa do que produzir mais em área degradada. Temos de inverter esse quadro

A DEGRADAÇÃO ambiental da Amazônia não pode ser enfrentada apenas com o Ibama e a Polícia Federal. Sem o ordenamento fundiário e o planejamento territorial, sem o incremento da pesquisa e das tecnologias florestal e regional, a falta de alternativas sustentáveis e a impunidade ameaçarão sempre o ecossistema e provocarão sucessivos aumentos de emissão de CO2.
O ZEE (Zoneamento Ecológico-Econômico) é vital para o combate ao desmatamento, à violência, à exclusão e para melhorarmos a qualidade de vida de 24 milhões de habitantes da Amazônia, preservando o bioma. O MMA (Ministério do Meio Ambiente) organizou com o IBGE, a Embrapa e a CPRM (recursos minerais) o consórcio ZEE Brasil para apoiar os Estados na elaboração dos seus zoneamentos. Dois Estados já os tinham concluído -Acre e Rondônia.
Outros três os enviaram às Assembleias Legislativas. Em fevereiro, o Estado do Amazonas concluiu o ZEE e o enviou ao Parlamento. O Pará apresentou a lei estadual que aprovou o ZEE para a área de influência da BR-163 (Cuiabá-Santarém). Essa lei não admite nenhum aumento de desmatamento ou expansão de agropecuária em áreas preservadas. Em duas das áreas demar- cadas ao longo da BR-163, com mais de 80% de desmatamento e atividades econômicas consolidadas, o ZEE possibilita a intensificação e a legalização das atividades, mediante a recomposição da reserva legal de no mínimo 50% da área, mais as APPs (áreas de preservação permanente).
Isso implicará o reflorestamento de 1,5 milhão de hectares de matas nativas. A base para defender a Amazônia, colocar as atividades na legalidade e intensificar as operações de combate ao crime ambiental passa por estabelecer uma regra clara, o que pode ser feito, como e onde. Nos últimos nove meses até janeiro de 2009, houve uma redução de 50% da área desmatada, em comparação com os mesmos meses do período anterior.
Isso devido à intensificação das operações, à entrada em vigor da resolução do Banco Central que veda o crédito para quem está na ilegalidade fundiária ou ambiental, aos leilões do boi pirata e da madeira pirata e ao controle de alguns entroncamentos rodoviários. A essa lista devem ser acrescentados os pactos públicos com setores produtivos, como foram a Moratória da Soja, o Pacto da Madeira Legal e Sustentável e o Pacto da Carne Legal -a ser assinado em março com os exportadores.
Mas esse resultado ainda é precário e insuficiente. A destruição da floresta continuará se não houver a regularização fundiária, o ordenamento territorial por meio do ZEE, o Fundo Amazônia, o financiamento de um modelo de desenvolvimento inclusivo e não predatório, a transformação e a valorização da cadeia de produtos do extrativismo, o manejo florestal e a implementação do PAS (Plano Amazônia Sustentável). Isso representaria um atentado à biodiversidade, às populações tradicionais e às comunidades indígenas. Representaria também o não-cumprimento do Plano Nacional sobre Mudança do Clima, festejado em dezembro passado na Conferência do Clima na Polônia pelo secretário-geral da ONU e por Al Gore como um significativo avanço da posição do Brasil.
Estamos monitorando outros biomas -como a caatinga, o cerrado e a mata atlântica. Na atualização do Plano Clima, em março de 2010, avançaremos com metas de redução do desmatamento nesses biomas. Hoje é mais fácil e barato um agente desmatar a floresta nativa do que recuperar e intensificar a produção em uma área degradada. Ele não paga a terra, não assina a carteira, não paga multas e tem sempre um político para protegê-lo. Temos de inverter esse quadro, ao combater a impunidade, impedindo que criminosos ambientais enriqueçam com o produto de atos ilícitos (com leilões de boi e madeira pirata). Devemos criar apoios técnicos e econômicos e um marco legal que incentivem a recuperação de áreas degradadas, base para o desmatamento zero. Isso fará avançar a regularização fundiária das terras da Amazônia, a qual o governo pretende concluir em três anos, até mesmo cassando o título de quem desmatar áreas protegidas, com a finalização do ZEE e a implementação do PAS. Outra linha relevante de inclusão da população no combate à degradação é o pagamento por serviços ambientais. Já fazemos isso com 200 agricultores das margens do rio Guandu, principal manancial de água do Rio de Janeiro.Essa é uma das modalidades previstas de uso do Fundo Amazônia e também será usada para adaptação, sobretudo no Nordeste, com a recuperação de solos erodidos e de mananciais. Em defesa da Amazônia, de sua população e do clima do planeta.
CARLOS MINC BAUMFELD, 57, geógrafo, é ministro do Meio Ambiente.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br

segunda-feira, 9 de março de 2009

Leis da física sempre determinaram que o ser humano é dependente da natureza ...

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A CHINA E A CRISE GLOBAL

Uma interpretação termodinâmica

José Lisboa

“É impossível fazer justiça à magnitude do sacrifício

que os camponeses fizeram no sentido de viabilizar

o acúmulo de capital para a industrialização da China.

É seguro dizer que o edifício da indústria chinesa está

alicerçado na carne e no sangue dos trabalhadores

camponeses, e o desenvolvimento urbano pôde apenas

ser alcançado através de sua dor e abnegação”.

Chen Guidi e Wu Chuntao - O Segredo Chinês

(Rio de Janeiro,Record,2008)

Antoine-Laurent Lavoisier (1743-1794) descobriu,no século XVIII,uma das leis fundamentais da ciência,o princípio da conservação da massa.Embora,com a descoberta da radioatividade,esse princípio tivesse que admitir uma exceção,o enunciado geral da Lei de Lavoisier permanece válido para todo o sempre:”Na natureza nada se cria,nada se perde,tudo se transforma”.

Um século mais tarde,esse princípio foi estendido à energia por Lord Kelvin (1824-1907),que enunciou a 1ª Lei da Termodinâmica:”A energia total envolvida num processo é sempre conservada.Pode mudar de forma do modo mais complicado,mas nenhuma porção dela se perde” (1).

Einstein ampliou essa idéia na famosa relação de equivalência E=mc², em que E é energia, m é massa e c é a velocidade da luz.Isto é,energia e massa se conservam em conjunto.

Pela 2ª Lei da Termodinâmica,a energia se conserva,mas a energia útil diminui.Essa lei foi formulada em 1850 por Rudolf Clausius que,em 1865,descobriu uma fórmula para medir a parte da energia que não pode mais ser transformada em trabalho.Deu a essa medida o nome de entropia.

“O estilo de vida criado pelo capitalismo industrial sempre será o privilégio de uma minoria.O custo em termos de depredação do mundo físico,desse estilo de vida,é de tal forma elevado que toda a tentativa de generaliza-lo levaria inexoravelmente ao colapso de toda uma civilização,pondo em risco as possibilidades de sobrevivência da espécie humana (...).A idéia de que os povos pobres podem algum dia desfrutar das formas de vida dos atuais povos ricos é simplesmente irrealizável”(Celso Furtado,O Mito do Desenvolvimento Ecnômico,Rio de Janeiro,Paz e Terra,1974.p. 75).

Em decorrência da 1ª Lei da Termodinâmica,o homem não tem capacidade para criar ou destruir matéria ou energia;não há forma de aumentar os recursos do planeta.Do ponto de vista global,o crescimento econômico é apenas um mito.

Os países ricos,os emergentes e as classes ricas de todos os países são ilhas de afluência,rodeadas por mares cada vez maiores de desordem.É por esse motivo que a entropia também pode ser considerada uma medida da desordem.

.A China não é um país rico.Mas,com uma população de 1.300.000.000 de habitantes e um governo ditatorial,conseguiu espremer os seus pobres e dotar-se de um mercado de 250 milhões de pessoas com poder de compra.Ora,um mercado com essa dimensão,maior que toda a população da Rússia,tornou-se um atraidor de capitais e um devorador de recursos próprios e alheios..

Esse imenso mercado acelerou a desordem no mundo e é o pano de fundo da atual crise,embora a causa próxima desta sejam as hipotecas de alto risco.

Se um 1.300.000.000 de chineses fossem pobres,a desordem ficaria só por conta do consumo dos Estados Unidos e,em menor escala,do consumo dos demais países ricos e das classes ricas de todos os países.

Notícia recente diz que a China já consome 15% de toda a capacidade biológica do planeta.Nos próximos anos,o consumo da China provavelmente continuará a impor desafios ao próprio sistema chinês e pressionará a biocapacidade dos demais países do mundo.

Nota: 1) James Prescott Joule (1818-1889) já havia demonstrado experimentalmente,entre 1843/47, que a energia não se perde..

Bibliografia: Jeans, Sir James- L’ évolution des sciences physiques, Paris,Payot,1950.

Capra,Fritjof-A teia da vida, São Paulo,Cultrix, 1997.

domingo, 8 de março de 2009

Noam Chomsky: entrevista sobre Obama e a crise

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Cético Autor de mais de 70 livros, Chomski diz que Obama não será muito diferente de Bush e que o Brasil está no caminho certo

Entrevista

Noam Chomsky

"Capitalismo só existe no terceiro mundo"

Intelectual americano critica protecionismo dos EUA e diz que o poder do capital é imposto à força nos países pobres

por Maíra Magro

Ele foi considerado o intelectual mais importante do mundo pelo jornal The New York Times. Em 2005, ficou no topo da lista dos principais acadêmicos do planeta,segundo pesquisa feita pelas influentes revistas Foreign Policy, dos Estados Unidos, e Prospect, da Inglaterra. Aos 80 anos, Noam Chomsky, americano descendente de judeus russos, é reconhecido também como o papa da linguística moderna, por ter revolucionado a área com suas pesquisas sobre aquisição de linguagem. Professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) há mais de meio século, Chomsky é também filósofo e comentarista político. A decisão de nadar contra o pensamento político dominante veio com a guerra do Vietnã, nos anos 60. Publicou mais de 70 livros e mil artigos. Em geral, obras de repercussão mundial sobre atentados terroristas, neoliberalismo e política internacional. Um dos maiores críticos da política internacional americana, Chomsky está lançando no Brasil Estados fracassados: o abuso do poder e o ataque à democracia (Bertrand, 349 págs., R$ 45), no qual argumenta que os Estados Unidos assumiram as características de um Estado fracassado e padecem de um déficit democrático. Nesta entrevista concedida à ISTOÉ, o intelectual diz que não vê perspectivas de mudanças com o presidente Barack Obama, mas deposita um mar de esperanças na América do Sul: "Neste momento, é a região mais interessante do mundo."

ISTOÉ - Barack Obama pode mudar o que o sr. chama de "Estado fracassado"?

Noam Chomsky - Possibilidades sempre existem, mas não há nada que aponte para isso. As nomeações têm sido basicamente do lado dos falcões (defensores da guerra), e as ações também. Obama intensificou a guerra no Afeganistão, aumentou os ataques ao Paquistão e rejeitou os apelos dos presidentes desses países para eliminar os bombardeios que atingem alvos civis. Quanto à questão de Israel e da Palestina, ele já deixou bem claro que não tem a intenção de buscar um acordo. Em sua primeira declaração sobre política internacional, afirmou que a responsabilidade primária dos Estados Unidos é proteger a segurança de Israel, e não a dos palestinos, que são os que precisam de proteção.

ISTOÉ - O sr. está dizendo que Obama é igual a George W. Bush?

Chomsky - Para começar, há uma distinção entre o primeiro e o segundo mandato de Bush. O primeiro foi muito arrogante e agressivo, desconsiderou as leis internacionais e foi tão abusivo que se distanciou de países aliados. O segundo mandato amaciou a retórica e as ações, que estavam causando danos demais aos interesses dos Estados Unidos. É possível que Obama dê continuidade às políticas do segundo mandato. Em alguns aspectos, Obama ainda é mais agressivo, como no Paquistão e no Afeganistão, que, pelo que vejo, são suas principais preocupações internacionais.

ISTOÉ - Os Estados Unidos são uma democracia fracassada?

Chomsky - Se você comparar as eleições de 2008 com as de um dos países mais pobres do hemisfério, a Bolívia, o processo é radicalmente diferente. Você pode gostar ou não das políticas do presidente Evo Morales, mas elas vêm da população. Ele foi escolhido por um eleitorado popular que traçou suas próprias políticas. As questões são muito significativas: controle dos recursos naturais, direitos culturais...
A população não se envolveu apenas no dia das eleições, essas lutas estão ocorrendo há anos. Isso é uma democracia. Os Estados Unidos são exatamente o oposto. O melhor comentário sobre as eleições foi feito pela indústria da publicidade, que deu à campanha de Obama o prêmio de melhor campanha de marketing do ano.

ISTOÉ - Alguns presidentes sul-americanos são chamados de populistas.

Chomsky - Populista quer dizer alguém atento à opinião popular.

ISTOÉ - Mesmo quando a distribuição de recursos não é sustentável?

Chomsky - Distribuição de recursos tem a ver com política econômica. Nos Estados Unidos, o país mais rico do mundo, a política econômica é definida por instituições financeiras, por pessoas que levaram o país à ruína e estão levando boa parte do mundo à ruína. Isso não é populismo, é política econômica destinada a enriquecer um setor bem pequeno. Você pode até discutir se a forma que Evo Morales distribui recursos é correta, mas chamar isso de populismo é usar palavras feias para políticas que desagradam aos ricos.

ISTOÉ - O presidente Hugo Chávez acaba de passar por um referendo que permite suareeleição ilimitada. Isso é aceitável em uma democracia?

Chomsky - Você acha que os Estados Unidos foram um Estado fascista até 1945, quando tínhamos a mesma regra? O presidente (Franklin) Roosevelt foi eleito quatro vezes seguidas. Eu,pessoalmente, não aprovo, mas não posso dizer que isso seja incompatível com a democracia, a não ser que você diga que os Estados Unidos nunca foram uma democracia. Isso é uma hipocrisia total. Isso vale também para outras democracias parlamentaristas, em que o primeiro-ministro pode ser reeleito de forma indefinida.

ISTOÉ - O sr. avalia o governo Chávez positivamente?

Chomsky - A pergunta que importa é: o que os venezuelanos pensam do governo? Em pesquisas feitas pelo Latinobarômetro, uma organização chilena muito respeitada, desde a eleição de Chávez, a Venezuela fica no topo ou perto do topo de uma lista de países quanto ao apoio popular ao governo e à democracia.

ISTOÉ - O sr. acha que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva representou alguma mudança para o Brasil?

Chomsky - De forma geral, suas políticas têm sido bastante construtivas. A disposição inicial de aceitar a disciplina das instituições financeiras internacionais foi questionável. Até havia justificativa para isso, mas ele poderia ter escolhido políticas alternativas que teriam estimulado mais a economia. Acho também que as políticas poderiam dar mais apoio a organizações como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Mas, em geral, o País parece estar andando na direção certa. A disposição de lidar com os problemas internos de desigualdade extrema, da fuga de capital, entre outros, está pelo menos na agenda. Além disso, há a tendência de integração regional e independência. A União de Nações Sul- Americanas (Unasul) é um exemplo, mas existem muitos outros, e a integração é um pré-requisito para a independência. De maneira geral, isso torna a América do Sul, do meu ponto de vista, o lugar mais interessante do mundo atualmente.

ISTOÉ - E qual o papel do Brasil?

Chomsky - O Brasil tem um papel central na integração regional, pois é o país mais rico e poderoso da região. O presidente Lula tem tomado uma posição muito boa, garantindo que países que os EUA tentam arruinar, principalmente a Bolívia e a Venezuela, estejam integrados ao sistema. O Brasil também está aumentando as relações com outros países do Sul. Mas a dependência das exportações agrícolas é uma forma questionável de desenvolvimento. Deveria haver tentativas de desenvolvimento que não dependessem tanto de exportações, como a da soja.

ISTOÉ - Como o sr. vê o ressurgimento de medidas protecionistas nos Estados Unidos e na União Européia?

Chomsky - Antes de falar sobre isso, temos que eliminar uma grande quantidade de mitologia. Os Estados Unidos, o país mais rico do mundo, sempre foram altamente protecionistas. Sua economia avançada depende crucialmente do setor estatal. Se você pensa em computadores, internet, tecnologia da informação, laser, tudo isso foi financiado pelo Estado. Você não pode falar em livre mercado porque eles não acreditam nisso.

ISTOÉ - O capitalismo está entrando em colapso com a crise?

Chomsky - O único lugar onde o capitalismo existe é nos países do Terceiro Mundo, onde ele é imposto à força.

ISTOÉ - Os anticapitalistas têm algum modelo para oferecer?

Chomsky - Existem diversas pessoas propondo coisas interessantes, basta ver o encontro em Belém (Fórum Social Mundial). Elas não são totalmente novas, vêm dos movimentos dos trabalhadores no século XIX. São propostas de se democratizar a sociedade inteira. Isso significa o controle democrático da manufatura, das finanças, dos sistemas de informação, e por aí em diante.

ISTOÉ - Vê algo de positivo no papel dos Estados Unidos atualmente?

Chomsky - Sim. Mas não se deve esperar que os países mais poderosos sejam agentes da moralidade. Não faz sentido ficar elogiando esses países pelas coisas decentes que fazem. Os Estados Unidos deveriam, por exemplo, ter um papel fundamental na reconstrução de Gaza depois das terríveis agressões feitas junto com Israel - foi um ataque em conjunto, pois eles estavam usando armas dos EUA, é claro. A estrangulação de Gaza pelos Estados Unidos e Israel, apoiada pela União Européia, começou imediatamente após as eleições, que foram reconhecidas como livres e justas, mas os Estados Unidos não gostaram do resultado e punem as pessoas. É uma boa indicação da aversão extrema que as elites ocidentais nutrem pela democracia.

ISTOÉ - O sr. concorda que os intelectuais de hoje são menos engajados que nos anos 60 e 70, por exemplo?

Chomsky - Não concordo com isso. É uma ilusão pensar que intelectuais eram diferentes no passado. De modo geral, os intelectuais são altamente fisubordinados ao poder. Isso também era verdade nos anos 60. Veja, por exemplo, a guerra do Vietnã, que era uma questão importantíssima na época. Se você olhar o The New York Times ou outro jornal importante nos quais intelectuais se expressavam, a crítica mais forte que poderá encontrar da guerra é - bem, estou citando a crítica mais extrema - de que a guerra começou com esforços de fazer o bem, mas se transformou em um desastre com custos muito altos para nós mesmos.

ISTOÉ - O sr. dedicou a vida a pensar as questões mais importantes do mundo.Como se sente hoje?

Chomsky - Há passos em direção a um mundo mais livre, justo e democrático. Isso não cai do céu como um presente, vem da luta popular engajada. E, sim, ela tem sido muito bemsucedida. Então, na medida em que sou parte dela, eu me sinto feliz. Os movimentos populares que se desenvolveram a partir dos anos 60 tiveram um impacto muito significativo no mundo, de diversas formas. Veja um exemplo óbvio,das últimas eleições nos Estados Unidos: o Partido Democrata tinha dois candidatos, uma mulher e um afro-americano. Isso seria inconcebível 20 anos atrás.

sábado, 7 de março de 2009

Sem a Amazônia só alguns milhões de brasileiros sobreviverão

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Esse título em uma postagem anterior chamou muita atenção dos meus leitores. Aqui devo alguns esclarecimentos, não muito profundos, mas que remetem, espero, à necessidade de entendermos a nossa relação com o planeta Terra e o reconhecimento do quão erradas estão as decisões dos economistas, dos governos, das empresas no mundo todo e o quanto estamos profundamente ameaçados num futuro próximo.

Espero que essa curta mensagem sirva de alerta para todos mudarmos. Não queremos mais mensagens ambientais frias, queremos a verdade e é sobre ela que poderemos agir. Lá vai:

A
atmosfera possui um equilíbrio químico que é fruto de várias causas, por exemplo, os ecossistemas e sua biodiversidade contribuem para manter o equilíbrio químico da atmosfera (do solo e do ar também). Por isso, os cientistas dizem com segurança que todos os seres vivos dependem de todos os seres vivos, é uma teia de vida interdependente. Enquanto estamos aqui na Terra, respiramos, comemos e vivemos graças a uma série de seres vivos que trabalham incessantemente em conjunto para nós.

Esse equilíbrio vem sendo ameaçado pela antropomorfização do planeta. Antropo = homem. Morfo = forma. Alteração do equilíbrio pelo homem e suas formas. Por exemplo, em relação à atmosfera, nós decidimos introduzir nela quantidades enormes de gás carbônico e gás metano, entre outras coisas, criando um desequilíbrio atmosférico inegável (na verdade, podemos dizer que a humanidade hoje trabalha incessantemente para obter a mesma composição química da atmosfera dos planetas mortos do nosso sistema solar). Mas não é só isso que fazemos: destruímos os ecossistemas e a biodiversidade, que são reguladores químicos desses elementos cruciais para todas as formas de vida na Terra. No livro "Os Senhores do Clima" de James Lovelock eu li que sem a biodiversidade e os ecossistemas que regulam quimicamente a Terra, esse planeta seria uma tocha incandescente. Não estaríamos vivos.

Essa relação de dependência da vida de cada um de nós da vida de cada um dos seres vivos é que foi ignorada totalmente. É nossa grande ameaça, acharmos que criamos ambientes artificiais como cidades e estruturas humanas, quando tudo não passa de mera transformação do ambiente natural, sem que o ser humano com isso tenha sido capaz de se desvincular das leis da natureza, mesmo nessas estruturas. Nós estamos tão dependentes da natureza quanto qualquer formiga ou ser vivo da Terra. É hora do sistema educacional ensinar isso a todos e parar de omitir essa informação. De que adianta um aluno aprender a fotossíntese se ele não aprende que nossos corações só batem porque há um ser vivo na Terra capaz de armazenar a luz do sol?

Precisamos de uma dimensão mais exata do problema que estamos vivendo: a antropomorfização justificada pelas empresas e governos sob o rótulo do crescimento econômico, das exportações e geração de empregos é a rota suicida em direção ao colapso - dos seres humanos, não do planeta! Só reforçando: sem a Amazônia apenas alguns milhões de brasileiros irão sobreviver. Motivo: a Amazônia produz os recursos hídricos da maior parte do Brasil e determina o regime de chuvas. Água é o bem da vida, sem ela morreremos e da pior forma. Indo um pouco além: o aquecimento global ainda não convenceu o governo brasileiro a tomar medidas internacionais seriamente voltadas para uma mudança e um protocolo humano a favor da vida, além dessas negociações pífias como a do Kyoto. O aquecimento global será suficiente para produzir o fim da Amazônia sem nenhum pecuarista ou motosserra precisar derrubar mais árvores.

Não podemos só pensar em conter a pressão econômica doméstica e internacional sobre a Amazônia, mas também em mudar todo um sistema econômico que transformou a Terra em uma lixeira, no qual o aquecimento global é apenas um dos problemas e a consequência daquilo que estamos fazendo.

Precisamos mudar o que estamos fazendo. Do contrário, iremos todos nós, quem puder, claro, terminar essa conversa no Valhala.

Hugo Penteado



sexta-feira, 6 de março de 2009

Sem a Amazônia poucos brasileiros irão sobreviver

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06/03/2009 - 08h44
Após estiagem, Amazônia não é mais capaz de frear aquecimento global
EDUARDO GERAQUE
da Folha de S.Paulo

A dramática falta d'água no ambiente amazônico em 2005 não afetou apenas a vida dos moradores da região. Com a seca, a floresta, que normalmente absorve carbono, passou a emiti-lo no ambiente.
As sequelas deixadas pelo grande estiagem, segundo medições inéditas divulgadas hoje, vão durar por décadas. Com menos água, as árvores morreram mais. Cresceram menos. E a floresta passou a colaborar para a piora do aquecimento global.
Folha de muda de árvore desnutrida na seca amazônica de 2005; contribuição para agravar o aquecimento global não será imediato

"A Amazônia, antes de 2005, absorvia 400 milhões de toneladas de carbono por ano. Durante o fenômeno [seca], não absorveu nada e passou a emitir 900 milhões de tonelada de carbono", diz Luiz Aragão, brasileiro pesquisador da Universidade de Oxford (Inglaterra).
Os 400 milhões de toneladas de carbono que a floresta costuma sequestrar por ano, segundo Aragão, servem para empatar com todo o carbono que é lançado no ar por causa do desmatamento e das queimadas.
O número apresentado pelo pesquisador, um dos 66 dos autores de artigo científico publicado hoje na revista científica "Science", foi o primeiro extraído de dados concretos com medidas sistemáticas em toda a Amazônia. Estudos anteriores sobre a seca eram estimativas com imagens de satélite.
O grupo de Aragão monitorou árvores em 136 parcelas --áreas de floresta-- de 100 m por 100 m, em várias regiões da Amazônia.
"Temos estudos, por exemplo, na Bolívia, no Peru, na Guiana e na Colômbia", disse o pesquisador, que trabalha na Floresta Nacional de Caxiuanã, no Pará, onde o Museu Goeldi, de Belém, mantém uma estação de pesquisa.
A contribuição da seca de 2005 na Amazônia para o agravamento do aquecimento global não será imediato, afirma Aragão. O carbono que passou a ser emitido pelo sistema não está ainda todo liberado na atmosfera, explica. Ele continua preso, por exemplo, em folhas ou galhos mortos.
"A seca acabou jogando mais combustível no sistema. A floresta, de uma forma geral, ficou mais vulnerável. Isso amplia o problema das queimadas, um dos fatores que vão contribuir para que o carbono excedente do sistema vá para o ar", afirma o pesquisador brasileiro. "Esse processo dura décadas."
Outro estudo já publicado pelo mesmo grupo, segundo Aragão, havia mostrado que em determinadas regiões da floresta a seca de 2005 aumentou o número de queimadas em 33%.'Esses resultados podem ser projetados para o futuro', diz o pesquisador.
Segundo ele, o círculo vicioso visto para os meses de seca da floresta em 2005 poderá ficar cada vez mais intenso nas próximas décadas. "Os modelos mostram que a floresta vai ficar mais seca em alguns locais. Claro que esse balanço desfavorável de carbono poderá ser mais frequente", disse.
O resultado disso é que enquanto a seca de 2005 é atribuída a um fenômeno natural --anomalias climáticas no Atlântico--, a culpa sobre as estiagens futuras provavelmente vai recair sobre a humanidade.
Dados não coincidem
Os dados obtidos nas 136 áreas reais da floresta amazônica durante vários anos, diz o pesquisador brasileiro Luiz Aragão (Universidade de Oxford), não estão de acordo com a tese de que, mesmo com a drástica seca de 2005, a pior em 60 anos, a floresta amazônica verdejou.
"Nossos dados não mostram a mesma coisa. A perda de biomassa ocorreu em grandes áreas", diz Aragão.
De acordo com o cientista, os dados apresentados antes sobre o verdejar da floresta, na mesma revista 'Science', foram obtidos apenas por meio de satélites.
"Talvez isso explique as diferenças dos resultados", afirma. A validação dos dados dos satélites muitas vezes não se confirma nas medições reais, diz Aragão.
A tese do verdejar na seca poderia significar que o sistema antiestresse da floresta amazônica teria funcionado bem durante uma forte, mas curta, estiagem.
Endereço da página:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ambiente/ult10007u530345.shtml

domingo, 1 de março de 2009

Agentes da mudança sustentável

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Agentes da mudança sustentável

Por Ricardo Voltolini, da Revista Idéia Socioambiental

Com base no conceito de "campeões da responsabilidade socioambiental", Wayne Visser, autor do livro Making a Diference (ainda sem tradução no Brasil), estabeleceu quatro categorias para definir os profissionais que atuam em sustentabilidade nas empresas. Eles podem ser especialistas, facilitadores, catalisadores e ativistas.

Para chegar a essa classificação, o professor da Universidade de Mannheimm (Alemanha) usou como fator distintivo o modo como cada indivíduo se envolve, sente-se mais confortável, satisfeito e feliz com o seu trabalho. Na prática, todo profissional que trabalha com responsabilidade socioambiental têm um pé nas quatro categorias e se orienta pelo mesmo desejo de fazer a necessária mudança. Mas a fonte principal de satisfação está associada, segundo Visser, a um certo dado do seu perfil psicológico, decorrendo normalmente da maneira com que ele se motiva e se identifica mais com as atividades.

O primeiro tipo de agente de mudança é o especialista. Para este indivíduo, sustentabilidade representa um campo de oportunidades técnicas. Por ser um conceito sistêmico, desenvolver soluções sustentáveis requer inteligência e especialização. Exatamente como uma criança que se dedica a montar um quebra-cabeça, pelo simples prazer de superar-se, o que motiva o especialista é o desafio de colocar sua capacidade de observação e análise a serviço da mudança de processos e produtos. O engajamento se dá primeiro em um nível intelectual. Nesse perfil, incluem-se, por exemplo, os engenheiros ambientais que trabalham para construir processos mais limpos, com os quais geram economia de insumos e ganhos de produtividade. A racionalidade que imprimem às suas atividades os torna imprescindíveis. Sua lógica costuma ser aliada importante no esforço de derrubar as barreiras que se interpõem às mudanças socioambientais.

Na segunda categoria estão os facilitadores. Ao contrário dos que compõem o primeiro grupo, esses indivíduos são generalistas e mais preocupados com o modo com que os diferentes elementos de um time se apropriam do conceito para promover a mudança. A fonte primária de significado à qual recorrem é o empoderamento de pessoas. Satisfazem-se em desenvolver as condições internas, removendo eventuais obstáculos comportamentais e assegurando uma gestão eficaz de recursos humanos e técnicos.

Um bom facilitador ajuda a criar cultura. Enquanto o especialista diverte-se com o poder da solução, o facilitador sente prazer em ver os profissionais trabalhando a solução no cotidiano da empresa. Fazer funcionar é a sua missão. E ele sabe que, para cumpri-la, terá de extrair o melhor de um grupo que precisa estar motivado para abrir mão de práticas consagradas em nome de outras mais inovadoras. Nos tempos de hoje, não se concebe mais que o facilitador seja um chefe, com autoridade concentrada no velho binômio de comando-controle. É fundamental que se mostre um líder. Nesse perfil, vale destacar os gestores de áreas estratégicas gerais como as de recursos humanos, ou de específicas do universo da sustentabilidade, como as de segurança, saúde e meio ambiente.

Os catalisadores são indivíduos normalmente localizados em posições estratégicas nas corporações. Visionários e bons observadores de tendências, eles compreendem que não há alternativa para a empresa senão a de incorporar a sustentabilidade nas estratégias de negócio. Líderes e gestores qualificados, procuram cercar-se de especialistas e facilitadores competentes para garantir a realização cotidiana da macrovisão sustentável que estabeleceram para a empresa. Não precisam ser aficcionados pelo tema, a ponto de o adotarem como mote principal de seus discursos. Mas nunca deixam de considerá-lo entre as prioridades da organização. Nem se furtam de estabelecer metas ousadas, cobrar o cumprimento de diretrizes ou de analisar o quanto a empresa está caminhando na direção de ser sustentável.

No quarto grupo encontram-se os ativistas. O nome já sugere o que os distingue dos demais. Enquanto os indivíduos das três primeiras categorias extraem prazer de gerar benefícios sustentáveis para o negócio, os ativistas valorizam a contribuição maior para o planeta e a sociedade. Eles precisam ter certeza de que trabalham em corporações nas quais os resultados econômico-financeiros não ocorrem em prejuízo da conservação ambiental ou da justiça social. Bastante colaborativos, destacam-se também pela convicção com que questionam comportamentos potencialmente danosos às comunidades e ao meio ambiente. Como o personagem Grilo Falante, de Walt Disney, fazem o papel do superego nas organizações e estão sempre prontos a apontar eventuais falhas mas também os melhores caminhos. Na maioria das empresas há muitos ativistas de sustentabilidade, ocupando todas as posições hierárquicas. Quando não possuem o poder das grandes mudanças, dedicam-se às pequenas (redução de consumo de recursos ou mudanças de hábitos perdulários) como se fossem adeptos de uma religião, o que os torna muitas vezes incompreendidos. Caracteriza-os a obstinação, a paixão pela causa e o espírito coletivista.

Na impossibilidade de contar com indivíduos fortes nos quatro perfis, o ideal para as organizações seria ter, em seus quadros, especialistas, facilitadores e catalisadores com, pelo menos, um décimo da paixão dos ativistas. A mudança virá não apenas mais rápida, mas também com mais consistência.

Existem 4 categorias que atuam em sustentabilidade nas empresas, são elas: especialistas, facilitadores, catilisadores e ativistas

* Ricardo Voltolini é publisher da revista Ideia Socioambiental e diretor de Idéia Sustentável: Estratégia e Conhecimento em Sustentabilidade.
ricardo@ideiasustentavel.com.br / http://www.ideasocioambiental.com.br