sábado, 31 de janeiro de 2009

Comentando

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Pessoal,

Para nossa contínua troca de idéias:

Em relação a minha oposição a todas as guerras não significa que eu sou contra um povo ou contra uma religião. Sou contra a atitute e é assim que devemos pensar. Quando duas crianças brigam no Jardim de Infância e nenhuma delas quer ceder, rola beliscões, puxão de cabelo e só terminam quando uma professora interrompe a briga. Quando duas crianças são Estados e ninguém quer ceder, a briga só termina quando todos ficam sem nada, porque na guerra, olho por olho, ficaremos todos cegos, escreveu Gandhi. E a violência engendra a violência. Sempre.

Em relação à cegueira dos economistas, veio um comentário de um amigo do texto "El fin del crecimiento" do Marrero: Adorei este quote do Keneth Boulding: "Anyone who believes exponential growth can go on forever in a finite world is either a madman or an economist." Eu adicionaria: um dia defender crescimento econômico será considerado crime contra a humanidade. E a dúvida que resta é se essa defesa é feita por cegueira ou loucura ou se é em benefício próprio ou por reais más intenções.

Para finalizar, um amigo meu escreveu: "você já abraça a causa do meio ambiente, não vá abraçar a causa das guerras." Eu tenho que ser muito humilde em relação a importância da minha posição que é quase nenhuma e o que importa é a posição de todos nós em conjunto, somos todos iguais e igualmente importantes, embora a cultura materialista consumista de celebridades nos tenha feito pensar diferente. A soma de cada um define a posição final, não tem jeito e isso vale para tudo, inclusive para a nossa relação com o planeta. Enfim as guerras também são ambientais, elas são feitas no meio ambiente, quando as bombas explodem, matam a vida (pessoas) e a vida futura (o meio ambiente). E essa perda nos dois lados é irreparável e o sentimento é de dor para quem fica ao largo desses horrores com a sensação de não poder fazer nada.

Abraço a todos,

Hugo

NÃO À REDUÇÃO DAS RESERVAS FLORESTAIS. LOBBIES NÃO

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Pessoas, segue a sugestão do nosso amigo Carlos para lutar contra a mudança do Código Florestal.

Face a:
1 - Toda a desgraça ambiental climática e ao panorama devastador que se projeta para a Terra nos próximos anos;
2 - À ação interesseira de grupos ligados ao agronegócio, pressionando pela redução das áreas de reserva na reforma do Código Florestal.
Proponho alguma reação (ainda que virtual - por enquanto)... Acabo de entrar no site do MAPA (o Ministério da "Agrodestruição") e, no link "Central de Relacionamento" encaminhei o texto mais abaixo:
O link para acessar o MAPA é http://www.agricultura.gov.br/
clicar no link "Central de Relacionamento", daí é só preencher o campo e posicionar-se contra esta redução das áreas de reserva.
Eis meu texto:
"Tenho acompanhado nos noticiários a discussão a respeito da reforma no Código Florestal. É preocupante, na grave e visível situação amibiental em que estamos, discutir-se a redução das áreas de reserva (seja em que estado do Brasil for) com fins de ampliar áreas de exploração do agronegócio. Comomorador de área urbana, que já sofre as conseqüências dessa devastação absurda, clamo ao Ministério da Agricultura que não ceda a lobbies que íncensatamente estão pressionando para que se destrua mais das nossas reservas. Que o assunto seja discutido com toda a sociedade brasileira e que, através de campanhas concientizem a população e empresários de que uma nova postura de consumo e de produção deve prevalecer. Uma postura que compute sempre a sustentabilidade do ecossitema. A continuidade da destruição só ampliará mais ainda a nossa própria destruição."

Abraços
Carlos

Segue o texto do Hugo

Ao Sr. Ministro da Agricultura
Sobre a revisão do código florestal
Os ecossistemas não estão aí apenas para serem transformados em fronteiras agropecuárias, eles possuem função vital de reguladores químicos da atmosfera, da água, do solo através de vários processos que o ser humano não pode prescindir nem é capaz de reproduzir e tudo isso é feito através da biodiversidade, outro serviço gratuito que os ecossistemas nos prestam. Quando o Exmo. Sr. Ministro da Agricultura puser a mão no coração, quero que ele imagine: seu coração só bate porque há um ser vivo na Terra que armazena a luz do sol, seu pulmão só respira porque há um ser vivo nos oceanos que produz o oxigênio, sua comida chega até seu estômago graças as abelhas e a todo conjunto de vida na Terra. No livro Biomimicry a autora deixa bem claro que toda espécie que não é capaz de compartilhar o meio ambiente com as demais espécies está fadada a desaparecer. Ela estava se referindo a nós, humanos. O exemplo dos países ricos de megalomania de crescimento econômico e populacional apenas para enriquecer os mais ricos e que causou a destruição de 100% das suas florestas não é um exemplo a ser seguido. As nações ricas conseguiram ficar ricas desse jeito, expoliando o seu meio ambiente, sem causar um caos plaentário porque fizeram isso sozinhas. Agora se todos seguimos na mesma direção, iremos terminar em colapso. Os países ricos ao esgotarem todos os recursos e serviços ambientais de seus territórios começaram a importá-los a custo zero dos países que ainda os posssuem e é por essa única razão que não viveram seu colapso ambiental. Ao invés disso, criaram pela primeira vez na história da humanidade um risco de colapso global.
Não podemos fazer uso da seguinte lógica mais: "eu nunca morri, portanto nunca vou morrer." É a mesma lógica que aplicamos ao planeta: "o planeta nunca nos expulsou, portanto isso nunca vai acontecer." Não é o planeta com sua história de 4,5 bilhões de anos para a qual não temos relevância alguma que está ameaçado, somos nós! E nós já causamos a maior extinção da vida na Terra dos últimos 65 milhões de anos.
Por favor, ministro, mude a sua mente e ajude seus filhos, seus netos e seus bisnetos e toda a família humana a continuar aqui.
Hugo Penteado

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Vegetarianismo contra o aquecimento global

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Por Paula Schuwenck

Atualmente muitas pessoas falam sobre aquecimento global. Infelizmente nem sempre abordado pelos meios de comunicação como deveria. Porém, serei um tanto otimista em dizer que ao menos vem sendo muito mais debatido e que mais pessoas buscam saber o que podem fazer para reduzirem seu impacto.

Podemos afirmar que, ao adotar e praticar a dieta vegetariana, você está colaborando muito. Não é o suficiente. Todos devem estar atentos e pesquisar para, cada vez mais, praticar ações por uma vida sustentável e cautelosa a fim de minimizar seus efeitos maléficos ao clima, mas o vegetarianismo é uma imensa colaboração pela ótica do consumo responsável, ético e consciente, em diversos aspectos.

Sabemos, com comprovação científica pelo IPCC (Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas), que o aquecimento global é a conseqüência do uso de recursos naturais de forma exagerada e irresponsável – os gases que prejudicam nosso clima e potencializam o efeito estufa, ocasionando o aquecimento exagerado da Terra, são provenientes das utilizações de bens materiais altamente poluidores e hábitos errôneos, inclusive alimentares, arraigados ao cotidiano dos seres humanos.

No Brasil, a prática que mais libera dióxido de carbono (CO2) – um dos piores gases - é o desmatamento na Amazônia. E por que desmatam? Para plantar soja e outros grãos, a maior parte destinada à ração animal e não à alimentação humana como muitos pensam, para extrair madeira - ilegal em grande quantidade, para carvão e, principalmente, para dar espaço aos bois - a perversa e cruel pecuária. Segundo Gilney Vianna, secretário de políticas para o desenvolvimento sustentável do Ministério do Meio Ambiente, “75% das áreas desmatadas na Amazônia são ocupadas pela pecuária”, onde vivem torturados e infelizes 70 milhões de bois.

Além de acarretar problemas com desmatamento, a pecuária também produz, por meio do processo digestivo dos animais e seus dejetos, outro gás altamente perigoso e danoso ao clima, o metano. Cerca de 35% a 40% vêm da pecuária bovina. Sendo o metano 21 vezes mais prejudicial que o CO2.
Estudo realizado pela ONU - FAO (Organização das Nações Unidas para a agricultura e alimentação), diz que o setor pecuário é pior que os transportes para o clima, já que o CO2 liberado na atmosfera é ainda superior ao emitido por carros. Além do dióxido nitroso, que possui poder aquecedor 296 vezes maior que o CO2. Henning Steinfeld, um dos autores deste estudo, o concluiu da seguinte forma: "A pecuária é um dos causadores mais significativos dos problemas ambientais mais sérios da atualidade".
E não para por aí. O relatório também prova que 64% do total de amônia, principal causadora de chuvas ácidas, também vêm da pecuária e prejudica, entre outros, os oceanos – estes que também possuem papel fundamental para a saúde do planeta e estão em processo de degradação pela irresponsabilidade humana. "Os oceanos absorveram 48% do C02 emitido por nós para a atmosfera nos últimos 200 anos", afirma Christopher Sabino, do National Oceanic Atmospheric Administration, autor de um artigo sobre o tema publicado no jornal Science. Vegetarianos também colaboram imensamente para o clima por não alimentarem a indústria pesqueira. Atualmente, 75% dos peixes comercializados vêm da pesca predatória, ameaçando a existência de várias espécies como atum e linguado. Os corais estão se deteriorando pela acidez das águas e, como não poderia ser diferente, pela pesca – especialmente a realizada em águas profundas, a qual chega a destruir corais de centenas de anos. Para que a recuperação das vidas marinhas fosse viável, as águas precisariam estar limpas, o que está cada vez mais distante da realidade. Novamente a dieta vegetariana ganha força, já que uma das grandes causadoras da poluição das águas é a pecuária e, com grande eficiência, a criação de porcos.

Dados da Sociedade Vegetariana Brasileira mostram que uma criação média de porcos produz a mesma quantidade de excrementos quanto uma cidade de 12 mil habitantes. Até reservas subterrâneas de água são contaminadas, como o aqüífero Guarani. Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina realizaram um estudo em 2004 e descobriram que o risco de contaminação das águas, vindo do depósito de fezes e urinas da suinocultura, é extremamente preocupante.

O último relatório do IPCC trouxe diversas previsões assustadoras para nosso planeta – como fome, falta de água, inundações e extinções. E, cabe enfatizar, previsões essas para todas as espécies.

Contudo, é momento de nos enxergamos por outra ótica, deixarmos de inferiorizar os outros animais e de supervalorizar o ser humano.

Com bases científicas a favor do planeta, é hora de divulgarmos os benefícios do vegetarianismo como nunca!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

A Terra é Plana

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Não seja pessimista e não se preocupe, a Terra é Plana

Aqui no Brasil ser pessimista ou preocupado nos dias atuais é um pecado mortal. No mundo inteiro, parece que se você mostra preocupações reais sobre o planeta, sobre a nossa economia doente, a sociedade trucidada, imediatamente você se torna um inimigo do sistema. Essa reação é típica daqueles que defendem o status quo como sendo a única rota possível para todos. Se isso fosse verdade, olhando a forma como transformamos a Terra em uma lixeira e como nossa sociedade e os jovens estão cada vez mais sem oportunidades (de bem estar, de paz, de vida, de saúde, de trabalho), então estamos fritos. Aqueles que estão preocupados com a situação da humanidade não deveriam ser considerados inimigos por quem tivesse um mínimo de bom senso. Os verdadeiros inimigos do sistema não são os que se preocupam, mas sim os que teimam em ignorar as preocupações apesar dos sinais inequívocos de que a situação se deteriorou muito nos últimos 100 anos e que tudo indica só tende a piorar, pois não há, em lugar algum, nenhum sinal de mudança em relação às atitudes que tomamos e que nos criou todos esses problemas agora sistêmicos. No fundo, as pessoas preocupadas com os problemas, identificam as causas e podem achar as soluções, sempre foi assim, mas a resistência em relação ao trabalho dessas pessoas tem sido muito grande. As alegações nada científicas contra uma nova visão para mudar os processos econômicos destrutivos descritos no vídeo "The Story of Stuff" (que pode ser encontrado aqui) ganham força como se fosse possível discutir se é certo ou errado matar ou não matar criançinhas inocentes no Iraque. Bjorn Lomborg é um símbolo desse ataque, um mero estatístico que nunca foi um cientista da Terra conseguiu ganhar um destaque desmerecido, mesmo tendo sido condenado por desonestidade científica. Falar besteira não tem problema, o que importa é falar o que as pessoas querem ouvir.

Ao invés de prestar atenção nos cientistas e nas evidências, adotar um discurso Poliana tem sido melhor aplaudido e acolhido por todos aqueles - que não são poucos - que ainda acreditam na lupa que usam para ver o mundo e ignoram os já bilhões de seres humanos que não tem lupa alguma para dizer o mínimo e são refugiados do sistema. Obama vai ser vítima desse mundo Poliana e em poucos meses iremos ouvir que ele não foi capaz de fazer nada para mudar o destino de uma sociedade inteira, quiçá de uma civilização, dada a enorme influência que os Estados Unidos tem sobre os países. É um karma coletivo, resultado de más decisões feitas durante muito tempo e a conta só chegou agora. Obama não é Deus e apesar de tudo que aconteceu, mesmo assim ele venceu as eleições por uma margem muito pequena e porque a situação econômica dos Estados Unidos é a pior desde a Grande Depressão da década de 30. O mesmo vale para as guerras: pesquisas de opinião pública nos Estados Unidos mostram que a principal razão pela qual hoje são contra a guerra é pelo seu custo excessivo e o fato de terem sido derrotados. Não é porque 1.000.000 de pessoas inocentes foram mortas no Iraque. A mesma reação popular aconteceu na guerra do Vietnam, segundo livro da época de Noam Chomsky. Obama herdou uma sociedade cujo padrão de consumo o planeta só é capaz de sustentar 200 milhões de pessoas, de acordo com a matéria "The Folly of Growth" da revista News Scientist do ano passado que divulgamos nesse mesmo espaço. Para mudar isso, precisaria mesmo ser um Deus; está na hora de cada um mudar, ao invés de esperar um messias no lugar dessa mudança.

O mais surrealista não é existirem pessoas querendo viver com esse padrão de consumo, o mais surrealista é ver os economistas acharem que esse é o modelo certo para um planeta que já mostrou claros sinais que não vai mais manter os seres vivos se continuarmos com essa idéia. Discutir que a economia não pode ser maior que o planeta é uma discussão que significa perda da nossa humanidade, é a mesma perda de tempo ao discutir porque os judeus (ou qualquer outro ser humano com direito a vida) não poderiam nem deveriam ser mortos por Hitler. São discussões que não deveriam nem ter ponto de partida. A discussão hoje que vemos entre a economia tradicional com sua megalomania de crescimento e a dos cientistas da Terra e dos economistas ecológicos não deveria nem existir. É como se hoje ainda os economistas tradicionais acreditassem sem discussão que a Terra é plana, os segundos tentam provar que na verdade a Terra é redonda e embora eles já disponham de fotos de satélite, mapas, viagens espaciais investigativas, os primeiros não aceitam essa versão e trabalham freneticamente em cima do conceito de uma terra plana. Só irão mudar quando for tarde demais para isso.

Hugo Penteado

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Horrores 1 e 2; Alternativas 1 e 2

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Esses dois artigos mostram os horrores da guerra do Iraque onde foram mortos mais de 1.000.000 de civis iraquianos! Esse assunto chega a ser extenuante: não, não é certo matar civis, crianças e pessoas sob quaisquer razões, ainda mais sob alegações falsas. Não, não há o que discutir, sobre o que é certo e errado nesse caso. O mais impressionante é que tal qual na guerra do Vietnam, segundo Noam Chomsky e outros autores, o que incomodou a opinão pública norte-americana não foi a morte de centenas de milhares de inocentes ou criançinhas iraquianas, mas o custo da guerra ou o fato de não terem sido capazes de ganhar a guerra. Guerra sim, tudo bem, desde que não custe caro e venha com uma vitória rápida. Como alguém consegue apoiar tamanha atrocidade é ainda uma questão a ser respondida. Essa posição contrária já não era para ser unânime?

O novo presidente Obama ganhou com uma estreita margem e graças a pior crise desde a Grande Depressão, onde rezamos para que não a supere nem a iguale... Sorte mesmo seria uma mudança do paradigma depois de tantos erros e atropelos, mas isso ainda é sonho. Nessa direção, os dois artigos abaixo, do David Korten (que re-envio) e o do George Monbiot (fantástico), mostram que o legado da crise ainda produz os mesmos erros de sempre, apesar de tantas opiniões contrárias.

Horror 1
http://www.socialistworker.co.uk/art.php?id=10114

Horror 2
http://www.guardian.co.uk/world/2007/sep/13/usa.iraq

Alternativa 1 - David Korten


Alternativa 2 - George Monbiot

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Dia de chuva em São Paulo

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Quando em 1998 o ABN AMRO, banco onde eu trabalhava, comprou o Banco Real, eu fui premiado com a seguinte notícia: você irá trabalhar na Avenida Paulista. Eu morei perto de 1998 a 2008, portanto 11 anos, e caminhei a pé de casa para o trabalho e ainda almoçava em casa. Era uma delícia que eu havia me acostumado sem perceber o quanto é bom fazer as coisas num perímetro pequeno da cidade. Nos fins de semana, temos o hábito de ir a lugares por perto, outro privilégio é morar onde há tudo. Carro só para visitar amigos distantes ou viajar. Sem aborrecimento algum e eu não tinha noção do quanto essa cidade virou um inferno até o final de 2008, quando o Santander comprou o Banco Real. Recebi uma péssima notícia: você vai trabalhar do outro lado da cidade, num prédio na marginal, perto da Berrini.

Não tinha conta do quanto isso seria dificil de se ajustar, nem do tamanho da perda, mas decidi ser forte, porque eu sei que muitas pessoas vivem assim na cidade de São Paulo e em situação muito pior e que eles são os verdadeiros heróis, as pessoas que merecem meu total respeito e eu sou apenas um covarde. A covardia falou mais alto: informei ao meu chefe que para evitar os horários de tráfego intenso, eu iria entrar às 6 da matina e sair as 16 horas, alterando meu horário da Paulista que era das 8 até as 18 horas. Como sou analista, posso ter horários diferentes, não estou preso em mercados ou em atividades com hora certa. Foi aceito.

Comecei acordando 5 e 15 da manhã. Vi que de manhã levava 12 minutos mais ou menos para chegar até lá. Mudei para 5 e 30. Há dias que eu acordo 6 e 20 e entro às 7 horas. Sou honesto comigo mesmo, antes de com a empresa, qualquer coisa que fazemos de errado ou qualquer intenção escondida, para mim é karmático. Eu sempre vejo a hora que cheguei e coloco mais 10 horas e já sei: hoje vou sair tal hora. Isso decorre da minha incrível dificuldade de chegar cedo que aumentou no horário do verão: de um dia para outro estava tentando me levantar às 4 da matina. Realmente estou conseguindo, mas nem tudo é perfeito. Quem disse que consigo sair do banco às 16 horas todos os dias?

Foi aí que eu redescobri a cidade que sempre achei um erro, um atropelo, como um amigo meu me disse: cidades com mais de 1.000.000 de habitantes são aberrações em todos os sentidos e completamente insustentáveis. Eu tento respirar em São Paulo e não consigo, entendi muito bem o que ele quis dizer e lamento as autoridades não reconhecerem isso e não terem decretado imediatamente para São Paulo moratória: moratório de carros, de construções e de incrementos populacionais. Os economistas e os governos que os seguem só vão entender que isso é impossível num espaço urbano finito quando o perecimento for grande o suficiente para corrigir o desequilíbrio.

Eu achava uma aberração que andar a pé de casa para o trabalho mal conseguia respirar. Quando morava perto do trabalho, e lutava contra isso usando máscara, achando que isso era o pior dos mundos, não percebi que isso era o paraíso. Quando saio tarde do trabalho me deparo com uma marginal, uma Berrini e todos seus eixos completamente parados. Uma hora é o prazo mínimo para chegar em casa, mas rezando, claro, para que não chova. E foi isso que aconteceu quando choveu em São Paulo e os políticos e executivos se esquivando, enquanto os pontos de ônibus alagados ficavam repletos de pessoas esperando ônibus parados por mais de uma hora, cheio de gente. Esses são os heróis. Eu não sei como não entrei em depressão depois disso. Acho que entrei um pouco, disse para mim mesmo: eu vivia numa bolha. Não sirvo para nada mesmo.

As cenas da cidade que eu vejo de trânsito me parecem um cenário lúgubre de guerra. Quando chove, fico com a sensação de apocalipse. Teve um dia que choveu tanto que ficamos presos no prédio sem coragem para sair, olhando lá do alto da torre os carros enfileirados, amontoados e parados. Parados dentro das garagens dos prédios. Esse é o maior exemplo da estupidez do crescimento econômico que tantos economistas famosos – a lista é infinda – defendem. Defendem, mas não vivem, estão nas suas bolhas. Ainda escutamos políticos supostamente inteligentes falando em solução do trânsito sem falar na moratória que eu mencionei antes, como se o território das cidades e dos países e os serviços ecológicos que nossa espécie animal não pode prescindir crescessem e se tornassem infinitos. Essa discussão com pessoas que não acreditam nisso nem travo mais: é como se a gente discutisse se é ou não é correto explodir crianças em guerras estúpidas como assistimos toda hora.

Está crescendo em mim um protesto maior. Eu já protestei ao decidir que não compro mais automóvel, mantendo o meu velho e ineficiente Ford Ecosport 2003 até o fim da minha vida. Agora cogito mandar ele para o desmanche e ficar sem nada. Falta-me coragem, sou covarde e ainda tenho diante de mim os mesmos políticos de sempre e os de outrora com a mesma visão de mundo que nada nos foi útil e continuará sendo. Não se enganem meus leitores, quando vi na campanha política os clamores para mais crescimento da nossa cidade de São Paulo, senti um calafrio na espinha como se um asteróide estivesse na nossa direção. Não tem nesse modelo e nessa visão de mundo como as coisas melhorarem e eu lamento muito, muito e profundamente pelas pessoas nas janelas dos ônibus, nos carros, nos pontos de ônibus, totalmente encarceradas, tristes e miseravelmente esquecidas. Lamento pelo seu destino estar nas mãos de muitos homens que muito pensam valer, mas que mais valeriam se estivessem mortos e enterrados.

Outra fatalidade que enfrentei além das dificuldades do trânsito foi a saúde. Dores, sono e rigidez no corpo foram conseqüências dessa mudança. Mas a pior delas foi me submeter a comer comida fora de casa. Dois fatos me atropelaram e me colocaram nas mãos da comida industrializada que envenena a humanidade: minha empregada não pôde mais trabalhar comigo e eu não tinha mais jantar à noite; e o almoço, por estar longe de casa, era feito em restaurantes. Em pouco tempo, verifiquei que minha saúde fraquejou. Fiquei gripado pela primeira vez na minha vida, tive mais dores de cabeça do que o costume, aftas, herpes e mais indigestão ou alterações no intestino. Tudo isso porque minha comida era quase 100% orgânica, natural, eu não compro praticamente nada industrializado ou já pronto e de repente caí em comida industrializada. Costumava dizer para a Andréia que trabalhava comigo quando íamos no supermercado: “Embalou, coloriu, veneno.” “Andréia, não compra nem alho em pote para mim, você já viu como fica o alho depois de picado na geladeira?” Mudança de alimentação para pior teve resultado palpável: todos os meus exames de sangue da minha avaliação médica anual pioraram. Estão dentro do intervalo normal, mas caminharam para os limites inferiores. Pior que ainda há médicos que defendem que a alimentação moderna industrializada não é problema. Tem razão, trânsito e alimentação não são problemas mesmo, são atrocidades contra nós. Carros que tem velocidade média hoje igual às carroças do século XIX e corpos cuja alimentação traz como benefícios menos metabolismo, muita obesidade e muita doença e envelhecimento precoce, realmente não são problemas nem aberrações.

Em tempo: achei um restaurante vegetariano orgânico perto da Berrini e não sei o nome, embora vá lá quase todo dia e o dono vai ficar chateado comigo por conta disso...

Pergunta a Paul Krugman

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Paul Krugman nunca respondeu essa pergunta (que foi escrita no dia 28 de dezembro de 2007) e New York times nunca aprovou o meu comentário.
Recoloquei ele novamente na página: http://krugman.blogs.nytimes.com/2007/12/28/housing-how-far-is-down/#comment-106203

Segue o texto em inglês e logo abaixo a tradução em português:

Dear Mr. Krugman,
Caro Sr. Krugman,

I have a question to you and I will be glad if you could answer me by email: hugo.penteado@bancoreal.com or hugopenteado@uol.com.br.
Tenho uma questão que me deixaria muito feliz se respondesse no meu email hugo.penteado@bancoreal.com ou hugopenteado@uol.com.br.

Can economy be bigger than the planet? Is the planet finite or infinite? If US stop importing resources both in raw materials and finished goods from abroad, will the country able to avoid an environmental collapse?
A economia pode ser maior que o planeta? O planeta é finito ou infinito? Se os Estados Unidos parassem de importar recursos tanto em matérias primas brutas quanto em bens finais do exterior, o paíse seria capaz de evitar um colapso ambiental?

How is possible to grow goods and structures forever - including houses - in a finite space like the land of the countries, with finite water supply?
Como é possível crescer bens e estruturas para sempre - inclusive casas - num espaço finito como o território dos países e com uma oferta finita de água?

In other words, US in 1890 had 1.000.000 houses, today has more than 190.000.000 houses. The land has the same size (in the future, with ocean level
rising, will be smaller...).
Em outras palavras, em 1890 os Estados Unidos tinham 1.000.000 de moradias e hoje possuem mais de 190.000.000. O território é do mesmo tamanho (no futuco, com a elevação dos oceanos, será menor...).

Why do economists wrongly believe that economic system is environmentally neutral and that environment is inexhaustible? How far building expansion, growing populations and our greedy economic system will continue to grow in a limited planet before killing all forms of life, including human beings? Global warming and the biggest extinction of life in the last 65 millions of years caused by humankind are not enough to re-think our false economic theory and to create a new paradigm?
Porque os economistas erradamente acreditam que o sistema econômico é neutro para o meio ambiente e que o meio ambiente é inesgotável? Quanto mais expansão de construções e populações crescentes do nosso sistema econômico ganancioso pode continuar a crescer num planeta limitado antes de matar todas as formas de vida, inclusive os seres humanos? Aquecimento glboal e a maior extinção da vida dos últimos 65 milhões de anos causadas pela humanidade não são suficientes para repensar nossa teoria econômica falsa e criar um novo paradigma?


Best wishes,
Cordiais saudações,

Hugo Penteado

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Só falta a pá de cal

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Que estamos todos entregues às baratas, já sabíamos. Que o mercado mais lucrativo do mundo sempre foi a estupidez humana já sabíamos. O que não sabíamos até agora é que só falta a pá de cal e mesmo assim, as pessoas agem como se nada estivesse acontecendo.

Para se manter firme na mídia convencional, temos que fingir que nada está acontecendo. As previsões sobre o planeta, sobre as forças que sustentam as formas de vida na Terra, inclusive a nossa, são assombrosas, mas temos que fazer de conta que tudo vai bem no melhor dos mundos, como Leibniz.

Temos que fingir que as decisões corretas estão sendo tomadas. Dá vontade até de rir ao pensar nisso. Enquanto destruímos 42 campos de futebol em florestas por minuto, enquanto achamos que símbolo de sucesso econômico é construir, produzir, aumentar, vender, sem ver que isso só é possível via destruição, destruição, aniquilação e destruição. No final, deixaremos a Terra apenas à vida bacteriana, como previu Roegen. Quando nossa economia estará baseada em estoques e não em fluxos? Quando os economistas irão perceber que o território dos países não aumenta de tamanho e vai diminuir agora com o aquecimento global?

A crise, disseram alguns, pelo menos vai impedir maior destruição do meio ambiente. Outros, bem intencionados, disseram que é tolice preservar o meio ambiente às custas de um maciço desemprego, como se não pudéssemos optar: ou destruímos o meio ambiente ou mantemos um maciço desemprego. Em outras palavras: não dá para manter o emprego sem destruir o meio ambiente. Será? Se isso for verdade, acho que devemos aderir ao “kidsfree movement” (movimento sem filhos) que preferiu optar pela extinção voluntária da humanidade, ao invés de esperar pela extinção inevitável.

Nossa sina não pode ser essa. Ambos estão erradíssimos. Estão erradíssimos em dizer que não se ganha nada ambientalmente com a crise econômica, porque, de fato se ganha. O meio ambiente no modelo atual é sacrificado em prol dos tão propalados benefícios do sistema econômico, sempre submetido a crescimento exponencial, meta de todos os economistas sem exceção (na prática, essa visão é universal). Portanto, quando o crescimento desaparece numa crise econômica, isso até pode incomodar alguns, mas fato é que o meio ambiente agradece, pois diminui a velocidade com a qual transformamos a Terra em uma lixeira e o processo pelo qual tolamente insistimos em achar que a economia pode de fato ser maior que a Terra.

Deveria ser hora de pensar o que fazer a partir de então: recuperar a economia através do mesmo modelo destruidor do meio ambiente e acelerar o carro na direção do precipício que se avizinha cada vez mais ou mudar esse modelo de vez por todas? Será que não conseguimos dar emprego permanente, função permanente às pessoas que aqui estão e ao mesmo tempo preservar o meio ambiente para as gerações futuras? Se isso não for possível então estamos fritos. A resposta deveria ser: claro que é possível. Se cortarmos todas as gorduras das nossas mentes emburrecidas, se mudarmos todas as idéias estapafúrdias sobre comércio global, economia global, consumo e mundo empresarial, veremos que temos como fazer isso. Só não queremos fazer, por uma razão muito simples: somos egocêntricos demais para nos ocupar do próximo, somos cruéis demais para nos sentir obrigados a preservar a vida da Terra. Somos egocêntricos e arrogantes, essa é a raiz de todo mal. E pior, queremos mais, não importa quantos iates, fazendas, casas temos, mesmo que a maioria não tenha quase nada, nossa ganância não muda: queremos mais. Mesmo sabendo que a vida é curta, iremos ficar aqui apenas algumas décadas e que individualmente não temos valor algum, insistimos nesse modelo de sucesso. Somos a única espécie animal coisificada e isso é um horror, imagine os pingüins que lutam no frio extremo do pólo para sobreviver a um inverno glacial. Basta apenas dois deles naquela massa de indivíduos decidirem que o seu espaço material deveria ser 1000 vezes maior do que dos demais pingüins. Não se manteriam aquecidos e todos morreriam e é assim que todos morreremos. Em relação ao planeta nada será mais democrático que um colapso ambiental sistêmico.

O mais triste da crise global, que é uma crise de valores e uma repetição dos mesmos erros do passado, é que ainda não serviu para ninguém acordar para uma mudança real, exceto para aplicar a mesma dosagem de remédios que está envenenando o doente. Estamos caminhando para o apocalipse sem saber que em algum momento pode ser tarde demais para fazer algo. O pior de tudo é o exercício de lógica das mentes brihantes que nos guiam: “As crises sempre foram sucedidas por calmaria e nunca houve uma crise insuperável.” Chamar de crise o fato da humanidade ter decretado guerra contra o planeta Terra, guerra que jamais irá ganhar, é um eufemismo. Achar que uma crise insuperável jamais pode acontecer é o mesmo que dizer: “Nunca morri, portanto nunca morrerei.”

Parabéns a todos os economistas: a solução para o mundo é outra onda de consumismo, a mesma estúpida que houve nos Estados Unidos, onde 68 milhões de famílias possuem 190.000.000 casas. O tamanho das casas, para piorar, triplicou nas últimas décadas, apesar do número de pessoas por família ter caído de 10 para quatro. Ou seja: quanto mais estúpido o consumo, mais rica (e vulnerável) a economia, embora desapareça rapidamente a capacidade do planeta sustentar todas as formas de vida na Terra, inclusive a nossa (opa, nós somos uma forma de vida como outra qualquer e não uma divindade, desculpa ter que lembrar isso). Nunca sairemos dessa armadilha? E para quê ou para quem estamos fazendo isso, qual é o contrato social do crescimento? Que decisões os governos do mundo todo estão tomando para alterar isso?

Hugo Penteado

domingo, 25 de janeiro de 2009

A história das coisas

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A história das coisas é um vídeo bem elucidativo sobre como caminha a humanidade, os processos degenerativos antinaturais que criamos, nossa cegueira e nosso destino final. Nós iremos virar lixo porque tratamos o planeta como se fosse lixeira. Ser lixo planetário significa ser extinto. É isso que estamos perseguindo hoje, todos os dias, desde a hora que acordamos até a hora que dormimos.

Segue link para o vídeo: http://www.unichem.com.br/videos.php que também pode ser encontrado no www.youtube.com, basta para isso digitar "the story of stuff" no campo de busca, onde há também versões em português e legendadas.

Essa é a visão da economia ecológica do sistema defendido pelos economistas tradicionais. Mostra claramente a forma como os economistas ignoraram a relação do sistema todo com o planeta e isso será a causa do nosso extermínio, algo que as pessoas ainda não entenderem, principalmente aquelas que dão ouvidos a um estatístico que nunca foi cientista planetário como o Bjorn Lomborg, cuja conversão foi feita através da leitura de outro iluminado, chamado Julien Simon (in memorium) que dizia ser possível a humanidade ter um trilhão de pessoas num planeta finito como a Terra. De quais economistas estamos falando? Todos os assessores do governo Obama, todos os laureados pelo prêmio Nobel de economia (menos importante, para não dizer fajuto, pois não é o da fundação Nobel).

Vale uma correção: é a forma como as pessoas gostaram que os economistas ignorassem a relação do sistema todo com o planeta ao invés de falar a verdade e isso é que será nosso extermínio, afinal as pessoas gostam desse discurso, por interesse próprio e ai daquele que falar algo diferente. Quando nossos interesses estão em foco, somos os piores juízes das nossas ações, escreveu Aristóteles. Afinal os economistas tinham que agradar seus interlocutores e nem se importam mais com as besteiras que defendem quando se trata de recursos naturais, ecológicos, planeta versus economia. Até hoje eles ainda acreditam que economia e meio ambiente estão separados e pregam a necessidade de se fazer investimentos ambientais, como se existisse algum investimento na economia que não fosse ambiental.




sábado, 24 de janeiro de 2009

A encrenca de 2010

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A encrenda de 2010 = fim da vida na Terra, tal como a conhecemos hoje

Desde a tenra idade, a mente das pessoas e principalmente dos nossos dirigentes é orientada para uma catástrofe. São cegos baseados em medidas espúrias e numa teoria econômica falsa, cujos elementos de sucesso deveriam ser considerados fracassos. Não vejo mais oportunidade para mudarmos sem necessariamente cairmos numa derrocada maior do que qualquer um sonharia. Teremos sorte se alguns de nós sobreviver, mais sorte ainda se pudermos sobreviver em condições minimamente razoáveis, mas nem isso está garantido.

Eu vejo como os bem mais jovens que eu pensam e analisam negócios, empresas, mercados. A penetração da sustentabilidade nos mercados financeiros é zero, para dizer não dizer que é negativa, porque se fosse zero, seria neutra e não é. A questão ética e de responsabilidade nem chega perto da maior parte das mentes. Os que podem fazer algo, querem mais; os que não tem nada, vão se multiplicar e lutar pela sobrevivência como podem. De qualquer um dos lados, só vemos a nossa espécie animal se comportando como praga. Nem a questão do lixo - tão visível - será solucionada: estamos firmes no propósito de transformar a Terra numa enorme lixeira, como se isso fosse possível sem nos causar danos.

O que eu tenho lido dos economistas iluminados e suas soluções milagrosas são realmente uma prova viva do quanto estamos ainda envenenando o doente ou colocando um band-aid num tumor cancerígeno. A única coisa que importa para todos são os ganhos monetários. O resto, quiçá a divina providência dará um jeito, afinal, nós não somos uma espécie animal como as demais e podemos correr o risco de dilacerar a capacidade do planeta manter a vida na Terra. Nós estamos acima disso. Será?

Hugo

Para baixar o texto A Encrenca de 2010 clique aqui.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Entrevista Hugo Penteado - Portal Imprensa

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Essa entrevista pode ser lida aqui: http://portalimprensa.com.br/portal/entrevista_da_semana/2009/01/13/imprensa25387.shtml


Publicado em: 13/01/2009 08:22

"O meio ambiente ainda não se tornou um assunto indispensável na mídia", diz o economista Hugo Penteado

Por Eduardo Neco/Redação Portal IMPRENSA

Há mais de 20 anos no mercado financeiro e há cinco discutindo sustentabilidade e sua relação com o sistema financeiro, Hugo Penteado, economista, fala ao Portal IMPRENSA sobre a importância da abordagem do tema pela mídia e sobre o papel dos meios de comunicação na construção de uma consciência de preservação do planeta. O autor de "Ecoeconomia - Uma Nova Abordagem" comenta, ainda, o rebanho bovino brasileiro como um dos maiores poluidores; o Nobel de Al Gore; e a importância de Chico Mendes. Acompanhe.

Portal IMPRENSA - A pauta de sustentabilidade é largamente explorada pelos meios de comunicação. No entanto, nem sempre as matérias acerca, de fato, trazem alguma informação relevante. Você acredita que o mau uso do tema pode causar desinteresse ao grande público?
Hugo Penteado -
De forma alguma. Em mais de 200 palestras que fiz, a aderência das pessoas foi de 100%. As pessoas são entidades interligadas e inteligentes e já sabem tudo que está sendo feito de errado pelos governos e pelas empresas e por elas mesmas. Desse modo, o nível de cobrança vai crescer muito, porque o risco agora é da nossa sobrevivência como espécie animal e as evidências horríveis já se amontoaram o suficiente para disparar esse salto de consciência.

IMPRENSA Qual o papel da imprensa na preservação do meio-ambiente? Você acredita que as notícias sobre o tema podem ser encaradas pelo público simplesmente como mais uma informação e não como um aviso; um alerta?
Penteado -
Não, acho que a imprensa já vem desempenhando um papel de alerta há muito tempo, embora não nas matérias principais. Isso exerceu influência sobre mim e mudou minha forma de pensar, durante os últimos 12 anos que venho pensando nisso. Tudo que descobri livremente na mídia me ajudou a construir um pensamento voltado para eu mesmo mudar. Esse movimento está ganhando força e o meio ambiente está entrando na equação, mas não como mais um novo fundamentalismo, e sim com a consciência necessária de integrar planeta, ser humano e economia o tempo todo, sempre lembrando que o planeta e o meio ambiente são as entidades mais importantes, em segundo lugar vem as pessoas e por último, e menos importante, vem a economia.

IMPRENSA - Os EUA são os maiores poluidores da Terra e, ainda assim, não aceitaram as propostas feitas no Protocolo de Kyoto. Você acredita que a imprensa do país, se assim desejar, poderá mobilizar a sociedade norte-americana para que o governo aceite participar de algum tratado no futuro?
Penteado -
Acho que dar nomes aos poluidores é péssimo. Precisamos começar a entender que a flatulência dos 200 milhões de cabeças de gado e o enorme desmatamento coloca cada um dos brasileiros como um dos maiores poluidores do mundo. Acho que é hora do diálogo e de mudanças internas, ao invés de ficar olhando o que o outro está fazendo, devemos nós mesmos dar o exemplo de necessidade de negociar com a Terra e entender a gravidade da situação. Com isso poderemos negociar melhor na comunidade internacional, senão a discussão fica parecendo de crianças no Jardim de Infância: "ele fez, quero fazer também. Porque ele pode e eu não?".

IMPRENSA - Qual a importância do ex-vice-presidente norte-americano Al Gore na divulgação da pauta de sustentabilidade? O Nobel da Paz foi um prêmio que correspondeu as suas ações?
Penteado -
Al Gore teve uma enorme relevância em divulgar as informações científicas e colocar cada um da sua platéia como responsável pelo aquecimento global. Até agora as pessoas achavam que a prioridade delas era resolver seus problemas pessoais e esses problemas planetários cabem às instituições resolverem. Mas ainda em relação ao Al Gore, não me conformei ao ver a matéria "The Tale of Two Houses" que saiu no New York Times, onde a casa dele é muito mais sugadora do planeta que a casa do Bush, que revogou durante seu governo várias medidas de proteção ao meio ambiente, do muito pouco que sobrou nos Estados Unidos. Não dá para falar sobre isso [preservação do meio ambiente] e não dar o exemplo.

IMPRENSA - Há vinte anos, Chico Mendes foi assassinado em nome da luta pela preservação da floresta Amazônica. Você acredita que a morte dele serviu para mudar algo no panorama da devastação de nossas florestas?
Penteado -
O papel do Chico Mendes para a preservação e para o alerta foi e ainda é muito forte na mente de todos. Serve para mostrar que as florestas continuarão sendo destruídas se não mudarmos o modelo econômico que criou um bicho que não tem boca nem estômago (de onde vem os recursos pouco importa) e não tem intestino nem reto (para onde vão os resíduos pouco importa). Esse bicho dos economistas só tem sistema circulatório e não teria supostamente contato nenhum com o meio ambiente, nem estaria limitado a ele, o que é um absurdo, uma teoria claramente falsa, mas que ainda rege todas as decisões dos governos e das empresas, fazendo a humanidade caminhar cada vez mais aceleradamente em direção ao colapso.

IMPRENSA - Em que momento o meio-ambiente se tornou assunto indispensável na grande mídia, especialmente, a brasileira?
Penteado -
O meio ambiente ainda não se tornou indispensável na mídia, porque as pessoas ainda mantêm um modelo mental de separação entre economia e o meio ambiente, como se eles pudessem estar separados. Esse mito deriva de um auto-conceito humano, pelo qual ele acha que é capaz de fazer algo de realmente importante em relação ao universo. O mais importante que deveríamos fazer aqui é cuidar um dos outros o tempo todo, porque somos muito vulneráveis e dependentes. Temos que lembrar que tudo a nossa volta é matéria e energia e o ser humano não produz nem matéria nem energia. Em relação à natureza somos meros consumidores/transformadores e não podemos mais continuar nos comportando como pragas.



quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Crise e dois pequenos pensamentos

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Crise e dois pequenos pensamentos

A crise é uma prova de que há algo muito errado no sistema econômico, onde o crescimento é um fim em si mesmo e os empregos, única benesse social dele, são tão transitórios quanto todo o resto. Colocar uma economia dependendo de expansão de construção, produção, vendas é achar que essa economia pode ser maior que o planeta e acreditar que a economia não guarda nenhuma relação de dependência com o sistema planetário. Quando alguém vai perceber que o remédio é justamente o veneno que está nos matando a todos?

Os sinais são terríveis do quanto essa crise é séria e deverá ser, como muitos ainda não esperam, prolongada. Estive com um amigo americano e ele disse: "Toda vez que vem uma crise, muitos dizem que é o fim dos tempos e nunca é, outros tempos se sucedem, a crise é superada e pronto." Eu respondi, fazendo uso de um raciocínio de Roegen: "Eu nunca morri, isso significa que eu nunca vou morrer? Embora as crises sempre foram superadas, isso significa que não existe crise insuperável? Outras civilizações que não a nossa viveram crises insuperáveis, porque isso pode não se repetir mais? A corda ficou cada vez mais esticada e mais complicada a cada crise que tentamos resolver, pelo simples fato que em nenhuma delas mudamos a nossa forma de ação e só aumentamos a dosagem dos remédios que causaram a doença."

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Guerra de água

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CORREIO DA CIDADANIA

Guerra de água

Escrito por Danilo Pretti di Giorgi
16-Jan-2009

Em dias de calor paulistano, por falta de uma praia ou de um rio limpo para nadar, enchemos no quintal uma pequena piscina portátil. Dia desses, domingo de verão, deixei meu filho dentro da baleia azul de plástico e pedi para que mantivesse a mangueira ali dentro apenas até enchê-la. Saí de perto e, logo depois, quando voltei para ver a quantas andava o processo, vi que a piscininha estava cheia, mas meu menino não havia fechado a torneira: brincava com o jato d'água, direcionando-o para onde sua imaginação infantil mandava, ora regando o jardim, ora brincando de fazer chover.

Já me preparava para falar-lhe sobre a importância ecológica de economizar água, um recurso tão valioso e tal e coisa, quando me contive e resolvi deixá-lo brincar em paz pelo menos por mais alguns minutos. É que me lembrei que o uso doméstico corresponde a uma parcela ínfima da água doce usada pelos seres humanos no Brasil. Os dados variam um pouco dependendo da fonte consultada, mas, grosso modo, 70% do total é consumido no agronegócio, 20% na indústria e apenas 10% corre pelos canos das casas e apartamentos.

Entretanto, quando o problema é abordado pelos grandes meios de comunicação e em campanhas de órgãos públicos, é lembrado apenas o "comportamento leviano" dos urbanos, que aliviam o calor lavando um carro, uma calçada ou se divertindo numa piscininha. Ou que se refazem de um dia cansativo tomando um banho um pouco mais demorado no inverno. Reparem que o foco é sempre direcionado apenas para o consumidor doméstico: devemos tomar banhos de cinco minutos, usar a água da lavadora de roupas para lavar o quintal e fechar a torneira enquanto escovamos os dentes. Lavar o carro? Só se for com balde, porque assim você gasta não sei quantas vezes menos água do que com mangueira.

Por que esta patrulha, que faz-nos, cidadãos comuns, ficarmos neuróticos a ponto de censurar uma criança por brincar com a água? Por que não direcionam sua artilharia também para as gigantes da indústria alimentícia, como as processadoras de carnes, altamente poluidoras e que utilizam grandes quantidades de água limpa em seus processos, muitas vezes devolvendo-a contaminada para o ambiente?

Por que não questionam o sojicultor e o sucroalcooleiro que, ao irrigarem suas megaplantações com água limpa, levam de volta para os rios e impregnam a terra com venenos, como agrotóxicos e fertilizantes produzidos a partir de petróleo? Ou, ainda, por que não questionam a necessidade de alguns processos que consomem (e poluem) quantidades enormes de água, como, por exemplo, as indústrias de aço e de tecidos, refinarias de petróleo e cervejarias, entre muitas outras? Eu tenho um palpite: porque eles ganham rios de dinheiro com as atividades que poluem os rios.

O mesmo raciocínio pode ser utilizado com relação ao consumo de energia elétrica. Enquanto fazem-nos sentir culpados pelo banho quente ou por deixar a geladeira aberta por mais do que alguns segundos, a produção de alumínio responde sozinha por mais de 5% de toda a energia elétrica consumida no Brasil. Vale destacar que, na quase totalidade dos casos, os processos produtivos, sejam eles na indústria ou no agronegócio, não são eficientes, até porque muitas vezes as empresas contam com subsídios governamentais e pagam pouco pela água e pela energia elétrica que consomem. Quase sempre há perdas significativas desses insumos, que poderiam ser reduzidas com um pouco de boa vontade para a tomada de algumas medidas relativamente simples. Mas não se vê governo ou mídia cobrando a implementação dessas medidas. Um grande mistério.

É verdade que, na maior parte dos casos, a água usada no agronegócio e na indústria não passa por tratamento para tornar-se saudável para o consumo, como a que chega às nossas torneiras. São as chamadas águas de reuso ou aquelas captadas diretamente dos rios. Poder-se-ia, portanto, contra-argumentar por aí. Mas perceba que a alta cada vez mais acentuada no custo dos processos de purificação da água está ligada diretamente com o crescimento da poluição, a maior parte dela causada pelos, voltando para o começo, processos industriais e agropecuários. Trata-se de um ciclo interligado em todas as suas muitas fases, que não pode ser analisado separadamente.

Pior: o próprio poder público, que cobra da população uma atitude responsável, não parece importar-se: quase a metade (45%) de toda a água que se retira de mananciais para abastecer as capitais brasileiras é perdida antes de chegar às casas e atender à população, na maior parte dos casos por conta de vazamentos nas tubulações (ou, importa-se sim, mas importa-se apenas em nos culpar, não em resolver o problema). Não, não é brincadeira. São dados oficiais do Ministério das Cidades, a partir de informações fornecidas pelos órgãos estaduais: quase metade da água tratada pelas "Sabesps" Brasil afora não chega nas torneiras pela falta da manutenção. Então, ao invés de focar apenas no consumidor, os governos poderiam cuidar da parte que lhes cabe e consertar os canos. Mas, não!

Mais alguns dados alarmantes relacionados ao governo (e perceba que "governo" quando tratamos desse tipo de questão são todos, os atuais e passados, desde sempre): apesar de ser bastante divulgado que mais de 60% das residências no Brasil já contam com coleta de esgoto, pouca gente lembra que apenas 6% do esgoto é tratado. O restante é despejado in natura em rios e lagos, novamente encarecendo o tratamento da água que chega às casas e alimentando o ciclo da sujeira e do descaso.

A moral dessa história é que continuamos nós, cidadãos comuns, arcando com todo o ônus e passando longe do bônus. Para não mexer com interesses poderosos (dos quais são parte integrante), governo e mídia preferem transferir o problema para o elo mais fraco, eu, você e nossos filhos, mesmo que possamos fazer muito pouco pela solução do problema. Veja só: somos 180 milhões, responsáveis por 10% do consumo. Não seria mais inteligente compartilhar os esforços com aqueles que consomem os 90% restantes, ainda mais considerando que eles são em número infinitamente inferior? E trabalhar arduamente para eliminar as perdas na rede de distribuição e para universalizar o tratamento de esgotos?

Não vou, por conta disso, deixar de economizar água. Vou também continuar adotando as práticas defendidas nas reportagens especiais que sempre surgem nos meios de comunicação sobre o colapso do abastecimento nas grandes cidades - até porque elas são "tecnicamente" incontestáveis. Varrerei a calçada, apesar de saber que a vassoura hidráulica é muito mais divertida. Aproveitarei a água da piscininha e captarei água da chuva para regar meus vasos nos dias de seca, apesar do trabalho que dá. Fecharei a torneira enquanto escovo os dentes, apesar de adorar o barulhinho da água correndo enquanto medito durante minha higiene bucal. Farei tudo que venho fazendo, sabendo que minha parte faz diferença. Mas não me peça para não deixar as crianças se divertirem brincando de guerra de água no quintal num dia de calor.

Danilo Pretti Di Giorgi é jornalista.


E-mail:
digiorgi@gmail.com

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Marina Silva: *MAU SENSO*

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Marina Silva: *MAU SENSO*

EM 2001 , quando o Congresso Nacional estava para alterar o Código
Florestal, reduzindo a reserva legal (área de proibição de desmate em
cada propriedade rural) na Amazônia, 287 entidades da sociedade civil
lançaram na internet a campanha SOS Florestas, para pressionar contra
a medida.

O provedor do Senado Federal entrou em colapso: num único final de
semana, meu endereço eletrônico recebeu 35 mil mensagens.

O mesmo aconteceu com todos os deputados e senadores. Outra avalanche
de e-mails chegou ao Palácio do Planalto. Na comissão, os ruralistas
ganharam por 13 a 2 (Fernando Gabeira e eu), porém, antes da votação
final em plenário, a pressão foi vitoriosa. O presidente Fernando
Henrique, respaldado pela sociedade, retirou o projeto que continha a
proposta.

Agora, tenta-se uma espécie de "liberou geral", na contramão do
combate ao desmatamento.

Proposta apresentada pelo ministro da Agricultura quer reduzir a
reserva legal na Amazônia, anistiar desmatadores de áreas de
preservação permanente -como topos de morros, encostas e margens de
rios- e transformar o zoneamento ecológico-econômico obrigatório em
mera peça de "orientação". Também dispensa transgressores de recuperar
áreas degradadas e os habilita a receber financiamentos hoje vedados
na Amazônia.

Não bastasse, o ministro Mangabeira Unger (Assuntos Estratégicos)
propõe regularização fundiária dissociada do zoneamento e com alto
risco de legalizar terras públicas griladas.

Não sobrou nem o bom senso. O mundo enfrenta mudanças climáticas
severas; entre nós, Santa Catarina tenta emergir de um desastre
provocado, em grande medida, pela imprevidência ambiental, mas o mau
senso quer premiar a ilegalidade. É total a contradição com planos do
governo (mudanças climáticas, combate ao desmatamento, Amazônia
sustentável) e com o discurso do Brasil na conferência de mudança do
clima, no qual acertadamente assume metas de redução do desmatamento.

ONGs que participavam de grupo de trabalho informal com os ministérios
da Agricultura, do Meio Ambiente e a Frente Parlamentar Ruralista
comunicaram a decisão de deixar as discussões. Vêem a proposta do
ministro como bomba-relógio para novos casos como o de SC, ao
incentivar, na prática, a ocupação de áreas de risco.

O que fazer? A sociedade brasileira não pode permitir tal retrocesso.
De várias formas, ela já demonstrou ser sensível à proteção ambiental.
Um exemplo são os 41 milhões de protestos contra desmatamentos e
queimadas na Amazônia no site Globo Amazônia em apenas três meses de
funcionamento. Que essa força se mostre, porque o momento é grave.

contatomarinasilva@uol.com.br
________________________________________
Folha de S. Paulo, segunda-feira, 08 de dezembro de 2008, p.2
MARINA SILVA escreve às segundas-feiras nesta coluna.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Um pedaço de mim morreu

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Inventamos uma cidade que tem que servir aos automóveis. Não temos uma cidade voltada para as pessoas, mas para se transformar num inferno. São Paulo tinha que fazer uma moratória de carros e investir em ciclovias e em transporte público, mas essa cidade está atrasada 100 anos. A indústria automobilística empregava 150.000 em 1950 e só 50.000 hoje, embora produza muito mais carros. Está na hora dessa indústria mudar para obter um equilíbrio urbano, humano com o planeta e com a vida. Está mais do que na hora disso acontecer, no entanto, estamos querendo esticar a corda até rompê-la e o mais assustador é que quando a corda romper, não haverão vencedores, todos, sem exceção, irão cair com ela. Sei que é difícil: mas lutem contra o automóvel, ele não é mais importante que seu bem estar, que a sua vida e nem pode ser fonte de felicidade. Fico horrorizado quando ouço alguém dizer: "Estou tão feliz por comprar tal automóvel." As pessoas precisam entender que a felicidade não se acha nas coisas, muito menos numa das coisas mais feias que existem na Terra, que são os carros.

Segue mensagem de André Pasqualini sobre a morte de Márcia Prado:

Aos amigos, não era eu a vitima fatal, mas uma grande amiga minha, cicloativista e participante ativa da Bicicletada.

Minha homenagem a ela esta no meu site, que por 7 dias estampará a minha home.

http://www.ciclobr.com.br/

Eu não morri, mas um pedaço de mim se foi com ela. Poderia ter sido eu, como qualquer um dos mais de 300 mil ciclistas que lutam nessa cidade com uma arma não letal.

Abraços de uma pessoa com coração em frangalhos.


André Pasqualini
www.ciclobr.com.br
andre@ciclobr.com.br

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Sem Amazônia, região sudeste ficará sem água

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As pessoas ficam surpresas quando comento esse fato nas palestras de Ecoeconomia: 95% dos recursos hídricos da região sudeste vem através do regime de chuvas e rios aéreos da Amazônia, de acordo com muitos cientistas e com os trabalhos do Smithsonian Tropical Institute. Não é só São Paulo. Sem a Amazônia, a região sudeste inteira ficará sem água. Assim como sem o Cerrado o aqüífero fóssil Guarani morre e deveria ser a meta número um de todos os governos: estancar a destruição dos ecossistemas dos quais dependemos para viver e sobreviver. Nós e todos os seres vivos da Terra, que já estão na maior rota de extinção dos últimos 65 milhões de anos por nossa culpa.

Nisso tudo, é assustador acharmos que conseguimos superar o problema da falta de alimentos ao lado de uma população humana gigantesca. Mesmo desconsiderando as enormes disparidades de acesso às calorias, toda essa comida está sendo produzida através do esgotamento de aqüíferos fósseis, que não possuem taxa de reposição. Aprendi com Eduardo Passeto que nem toda água é renovável, como eu pensava e isso só me fez entender o alerta da queda do nível de água desses recursos da crosta terrestre, fenômeno preocupante nos Estados Unidos e na China.

Outro ponto importante é que o aquecimento global pode causar alterações na Amazônia e depois no regime de chuvas da região sul e sudeste e muitos atribuem a seca e enchente lado a lado na região sul recente a esse fenômeno. Estava vendo Planet Earth com a narração da Sigourney Weaver e fiquei impressionado como tudo está interligado: altas montanhas do Tibete com as Monções da Índia, com o deserto do Saara cuja tempestade de areia atravessa o Atlântico e faz parte do processo de fertilização da Amazônia. Cada lâmpada que se apaga no planeta, afeta outro lugar, muitas vezes distante, pois tudo está interligado. É assustador. E muitos, a grande maioria, seguem suas vidas alegremente inconscientes desse fato.

Por isso tudo é que acredito que o elemento humano precisa ser integrado e não negado no meio ambiente, visão retrógrada até o advento do livro Silent Spring, onde fica bem claro que a visão de separar áreas naturais para ficarem fora do alcance do ser humano de nada adianta, porque os processos que estamos criando e na escala atual, sempre crescente, irão destroçar qualquer santuário ecológico que exista na Terra, mesmo que não tenha nenhuma presença humana. O DDT provocou nas aves a produção de ovos sem cascas, por isso, nenhum filhote nascia e isso explica o título, primavera silenciosa. Os ambientalistas fundamentalistas precisam entender que sem o elemento humano nada irá ser conseguido na direção da preservação do meio ambiente. Nós somos parte do meio ambiente, somos nós que precisamos de preservação, somos nós que estamos ameaçados.

Estou lendo Noam Choamsky, um livro de 1969, um concerto de artigos dele, muitos sobre a guerra do Vietnã. Lá ele mostra como os intelectuais conseguem com argumentos equivocados e tendenciosos defender as piores causas, muitos sem perceberem. Isso, como nós sabemos, é uma crítica que se aplica a muitos ambientalistas.

O nosso maior problema é quando esquecemos que todos somos iguais. Não pode mais haver guerras, a destruição ecológica e humana delas é irreparável e para todo o sempre. Estamos num planeta de monstros, essa é a verdade e essa monstruosidade causa um sofrimento tremendo. Nada que povo algum tenha feito de ruim e nem em que quantidade de cadáveres justifica novas atrocidades. Corremos o risco de uma argumentação insana e de perda de humanidade quando tentamos nos defender acusando os outros. O que precisamos entender é que tudo que vive merece viver e isso se aplica a cada ser humano na Terra e a cada outro ser vivo, que teimamos em trucidar. Estou lendo um livro sobre a guerra do Vietnam desse autor e estou atônito como fica claro a participação dos intelectuais numa conspiração ideológica a favor da morte e que a oposição à guerra não ocorreu por causa das crianças mortas, mas por causa do custo. O mesmo aconteeu com a guerra do Iraque: a opinião pública dos Estados Unidos não condenou Bush por causa da guerra, mas por causa dele ter perdido a guerra (como ganhar aquela guerra insana do Iraque é algo difícil de responder).

Estamos vivendo uma tecnocracia em que os únicos valores que restaram são os monetários, como se o custo de alguma coisa pudesse falar mais alto que as vidas humanas perdidas para sempre. No caso da guerra do Hitler, era uma loucura ver que para derrubar a intelligentsia nazista os intelectuais perguntavam-se: “Seria tecnicamente viável dispor de milhões de cadáveres? Quais as provas que os eslavos são seres inferiores? Deverão ser moídos ou triturados ou mandados de volta para seu habitat natural no Leste para que essa grande cultura possa florescer em benefício da humanidade?” (do livro de Noam Chomsky, O Poder Americano e os Novos Mandarins). Quando li isso, descobri o quanto a ideologia da guerra se assemelha a ideologia dos mercados financeiros e dos economistas: ficamos insistindo em discutir pontos que jamais deveriam ser discutidos. Tentar provar que a vida humana não pode ser trucidada, como fizeram os intelectuais na época do massacre do Hitler, foi perda de humanidade, para dizer o mínimo. O mesmo vale para o planeta e nossa relação doente com ele: tentar provar aos economistas que a economia não pode ser maior que o planeta e que o lucro é a parte menos importante também é uma discussão insana. Não precisamos nem parar para provar que as pessoas e o planeta são as entidades maiores. Fazer isso seria perder também nossa humanidade - ou sanidade, principalmente agora que se avizinha pela primeira vez na história da humanidade nosso próprio risco de extinção.

Sem chuva da Amazônia, SP vira deserto

Daniela Chiaretti, de São José dos Campos (SP)

12/01/2009

São Paulo tem vocação natural para deserto. Só não é terra seca porque existem os Andes e a Amazônia. "Os Andes não vão sair de lá, a não ser que aconteça um cataclisma. Mas destruir a Amazônia para avançar a fronteira agrícola é dar um tiro no pé do agronegócio." O agrônomo Antonio Nobre, 50 anos, 22 deles vividos na Amazônia e autor da frase acima, tem se dedicado a estudar e dar visibilidade aos trabalhos de colegas sobre o regime de chuvas no país, uma área difícil, de poucos dados, e fundamental no horizonte do aquecimento global. "A Amazônia é uma bomba hidrológica gigantesca que traz a umidade do Oceano Atlântico para dentro do continente e garante que a região responsável por 70% do PIB da América do Sul seja irrigada", continua. Davilym Dourado/Valor

Antonio Nobre, pesquisador do Inpe: "Temos cinco ou seis anos para impedir que uma catástrofe maior se estabeleça"

Antonio Nobre vem de família rara. O pai era jogador de futebol, a mãe, pintora. Criaram seis filhos com DNA dominante de cientista. O irmão mais velho é Carlos Nobre, um dos maiores climatologistas do país. Paulo estuda como a destruição da Amazônia afeta os oceanos e é pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), onde também trabalham Carlos e Antonio. Outro irmão é professor da Fundação Getúlio Vargas, o caçula faz doutorado em ecoturismo no Colorado (EUA). A única mulher do time é psicóloga e astróloga - "faz pesquisa no sutil", diz Antonio, casado com uma pesquisadora do Inpe.

Com mestrado em biologia tropical pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (o Inpa, de Manaus), e doutorado em biogeoquímica pela Universidade de New Hampshire, há cinco anos Antonio é o homem do Inpa dentro do Inpe. Em sua sala em São José dos Campos (SP), rodeado por quadros da mãe, busca conectar a experiência amazônica com o que os satélites enxergam do espaço. Como todos os cientistas que se dedicam à mudança climática, o que vê não é promissor. "Temos cinco ou seis anos para impedir que uma catástrofe maior se estabeleça."

Entre os mais novos estudos que vem recolhendo sobre o regime das chuvas, há dados impressionantes. A Amazônia evapora, em um único dia, 20 bilhões de toneladas de água. "Este rio voador, que sai para a atmosfera na forma de vapor, é maior que o maior rio da Terra", diz Antonio, comparando o potencial de chuvas da Amazônia às 17 bilhões de toneladas de água que o Amazonas lança todos os dias no Atlântico. "Está se descobrindo que a floresta é dez vezes mais importante do que se imaginava", diz ele. "Estudos mostram que, nas regiões com floresta, a chuva continua igual por 500 km, 2 mil km; nas regiões do mundo onde ela foi tirada, dentro do continente é deserto", explica.

O cientista lembra que as primeiras conseqüências do desmatamento já são sensíveis. Em Tocantins, Pará e Mato Grosso já se detectam temperaturas muito altas. O Rio Grande do Sul está perdendo safras. "Não é para parar com o desmatamento da Amazônia em 2015. Era para parar ontem. Tem que ser zero, nenhuma árvore mais derrubada. Precisamos replantar a floresta." Aqui, Nobre explica como chuvas, ventos, oceanos e florestas estão interligados e por que alterar este equilíbrio pode trazer danos irreversíveis à vida:

Valor: Como o senhor interpreta as chuvas que castigam Santa Catarina, Minas, Espírito Santo?

Antonio Nobre: O único comentário que tenho é que lamentavelmente isso pode ser fichinha diante do que está vindo. Eventos extremos sempre aconteceram, mas a Terra tem mecanismos de atenuação. Agora, como a humanidade tem perturbado esses mecanismos, estamos tendo um aumento de freqüência desses eventos. Professores da Universidade Federal de Santa Catarina disseram que o sofrimento que esta chuva produziu é quase 100% responsabilidade da forma como foi feita a ocupação naquela região. É o mesmo que acontece em Minas, no Rio e está sendo imposto na Amazônia. Um sofrimento decorrente de construir em encostas íngremes, de cortar floresta e deixar a região fragilizada. O problema não é da natureza, é humano. Santa Catarina é uma região propensa a esse tipo de evento, infelizmente. Mas também é uma prova da falência do sistema político brasileiro, que só atende ao imediatismo. O Código Florestal, desrespeitado, é de 1965 e nem leva em consideração as mudanças climáticas. Se levasse, seria muito mais restritivo, porque só temos cinco ou seis anos para impedir que a catástrofe maior se estabeleça sem chance de retorno.

Valor: O Brasil está enxergando a Amazônia com outros olhos?

Nobre: O imaginário coletivo coloca nas florestas tropicais de modo geral, e na Amazônia, de modo particular, a sensação de algo de muito valor, de coisa grandiosa, mística. A Amazon.com não escolheu seu nome à toa. As pessoas atribuem esse valor ao sentido de paraíso perdido, de riqueza, de vida. Isso é senso comum. Exceto por um povo no mundo: o brasileiro.

Valor: Por quê?

Nobre: Porque o brasileiro médio acha que está deitado eternamente em berço esplêndido. E ele entende por isso vastas áreas propícias para agricultura, chuvas plenas, clima ameno, rios caudalosos que permitem geração de energia, um eldorado de minerais e agora o petróleo. É um país abençoado. Isso define a visão ufanista de que temos valores extraordinários no Brasil.

Valor: E não é assim?

Nobre: Analise o que falei: área para agricultura, água nos rios para energia, biocombustíveis, minerais, não tem nada vivo! Bem, a agricultura é viva, mas não é natural. O berço esplêndido do brasileiro é a terra aberta, não há registro da nossa herança viva. É a nossa visão cultural. O verde está lá, tremulando na bandeira, mas não o valorizamos.

Valor: Por que não?

Nobre: Várias razões. Uma é a que chamo herança maldita dos invasores. O europeu que chegava aqui, na colonização, era o que tinha de pior naquela sociedade. Mercenários que encontravam uma terra sem lei nem rei, onde havia uma floresta de vigor incrível, ouro, povos sem exército nem pólvora. Toda essa abundância ofertada obscenamente para pilhagem. E com o agravante da Igreja, que dizia que os povos da terra não tinham alma enquanto não fossem batizados. Portanto, o conhecimento da natureza que esses povos tinham valia zero. Assim se removeu o saber indígena do "pool" cultural do brasileiro e o pouco caso com o ambiente passou a fazer parte do nosso caráter.

Valor: Como se muda isso?

Nobre: Primeiro reconhecendo que tem carrapato em cima da vaca. Por que o brasileiro chama floresta de mata? Mata é coisa sem valor. Porque era assim para o invasor e nós perpetuamos a rapina. Continua ativa a mesma mentalidade, hoje disfarçada de direito, que faz parte do nosso sistema de valores, foi incorporada no governo e se disfarçou. Agora se chama desenvolvimento. Temos que reconhecer esse fardo ignaro e pensar positivamente para frente. Parar de brigar ambientalista com desenvolvimentista e redescobrir nossa identidade. O brasileiro tem uma reação forte contra pirataria: "Estão roubando os nossos bens", diz, indignado. Mas um ataque sem precedentes aos biomas, com tratores e correntões, motosserra e fogo não desperta revolta. É claro que temos que desenvolver, precisamos de agricultura. O Blairo Maggi [governador do Mato Grosso e um dos maiores produtores de soja do mundo] perguntou outro dia se queremos árvores ou se queremos comida. É um dilema totalmente falso.

Valor: Por quê?

Nobre: Porque sem árvores não tem água e sem água não tem comida. Uma tonelada de soja consome várias toneladas de água para ser produzida. Quando exportamos soja, estamos exportando água doce para países que não têm esta chuva e não podem produzir. É o mesmo com o algodão, com o álcool. Água é o principal insumo agrícola. Se não fosse assim, o Saara seria verde, porque tem solos fertilíssimos.

Valor: As pessoas acreditam que chuva é um fenômeno eterno...

Nobre: Pois é. Mas pense numa caixa d´água. Se tem só um cano saindo e nenhum entrando, vai esvaziar. Os rios saem dos continentes e vão para o oceano. Precisa ter alguma volta de água ou seca o continente.

Valor: De onde vem essa água?

Nobre: Essa é uma pergunta que ninguém se faz. Aprendemos assim na escola: a água salgada do mar evapora pela ação do sol, o sal fica no mar e a água doce forma as nuvens. O vento sopra a umidade, chove no continente e a água volta para os rios.

Valor: Está errado?

Nobre: Então devia ter água em todos os continentes da Terra, mas existem desertos, não é? É só olhar o globo e ver que em toda a zona equatorial tem florestas. Ou tinha, as estamos destruindo. Mas nas áreas contíguas, a 30 graus de latitude norte e sul, existem desertos. O Kalahari, deserto da Namíbia, o Atacama, o Saara. Isso tem uma explicação, chama-se circulação de Hadley: a parte central do planeta recebe maior radiação solar, ilumina muito, é uma área muito quente, evapora muita água, a evaporação produz chuvas na região. A produção de chuva faz com que o ar circule assim: sobe no Equador e desce a uns 30 graus norte e sul. O ar que sobe, perde umidade, chove; quando desce rouba umidade da superfície e formam-se os desertos. Só há duas exceções, no Sul da China, um lugar atrás do Himalaia, e na região que produz 70% do PIB da América do Sul, o quadrilátero que vai de Cuiabá a Buenos Aires e de São Paulo aos Andes. Toda essa atividade econômica depende de chuva. Se prevalecesse a circulação de Hadley, seria deserto também. Teria floresta na Amazônia e aqui não teria nada.

Valor: E por que não é deserto?

Nobre: Por duas razões. Uma, publicada pelo José Marengo [outro especialista em clima, do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Inpe]. Se esta região deveria ser deserto e não é, tem algo na América do Sul que é diferente. O quê? Os Andes, uma parede de 6 mil metros de altura, que corta o continente até a Patagônia. Funciona assim: a massa de ar gira sempre de leste para oeste em cima do Equador e o vento sopra ao contrário na faixa entre a zona equatorial e a polar. A umidade do Atlântico entra sobre a Amazônia, a floresta a mantém, e se não existissem os Andes passaria direto ao Pacífico. Mas o ar bate na cordilheira e no verão consegue chegar ao sul e irrigar o nosso quadrilátero produtivo.

Valor: É uma chuva importante?

Nobre: Significa mais de 90% da chuva que cai na região. A transmissão de umidade da Amazônia para o centro agrícola da América do Sul é o que faz produzir e não deixa a área virar deserto. A condição dos Andes é importante, é por isso que o pessoal diz que o Acre é onde o vento faz a curva. Mas é o segundo fator que considero o mais importante: temos uma esponja verde como cabeceira de água na América do Sul, a floresta amazônica. As árvores conseguem evaporar mais água do que os oceanos por unidade de área.

Valor: Como é esta comparação?

Nobre: Uma árvore grande, com copa de 20 metros, chega a evaporar 300 litros de água por dia. No oceano, 1 m2 é 1 m2 de superfície evaporadora. Mas 1m2 de floresta chega a ter 8, 10 m2 de folha. Evapora oito, dez vezes mais que o oceano. A floresta é como um radiador de automóvel, é um evaporador otimizado. As folhas são distribuídas em vários níveis por 40 m de altura. O vento vem, encontra a superfície cheia de galhos, faz turbulência, gira, entra pelo meio. Isso ajuda a remover umidade da superfície. Medimos o quanto a Amazônia evapora, é um número astronômico: 20 bilhões de toneladas de água em um dia. Para ter idéia do que é este volume, o rio Amazonas lança 17 bilhões de toneladas de água por dia no Atlântico. Este rio voador, que sai para a atmosfera na forma de vapor, é maior que o maior rio da Terra.

Valor: É por isso que o senhor diz que avançar a fronteira agrícola para a Amazônia é dar um tiro no pé?

Nobre: Claro. A Amazônia é uma gigantesca bomba de água. A evaporação precisa do sol para acontecer. Calculamos quanta energia seria necessária para evaporar toda aquela água. Quantas Itaipus precisaríamos para evaporar um dia de água da Amazônia? Precisaríamos de 50 mil Itaipus a plena carga.

Valor: Como atua essa bomba?

Nobre: Cerca de 50% da chuva cai de novo na floresta. O fato de ela absorver essa energia toda na superfície e liberar em altitude, onde condensam as nuvens, produz circulação atmosférica. A floresta gera uma bomba que puxa o vento do oceano para dentro da terra. Chega este ar cheio de umidade, chove, a floresta evapora, o ar úmido continua seu caminho para dentro do continente, chove de novo. São 4 mil km até os Andes. Quando alcança os Andes, ainda está carregado de umidade, bate na cordilheira, desce e vai irrigar as plantações de soja do Centro-Oeste, Sudeste, Sul e segue. Estudos mostram que nas regiões com floresta, a chuva continua igual por 2 mil km. Nas regiões onde foi tirada, lá para dentro do continente é deserto. As primeiras conseqüências do desmatamento já estão disponíveis. O Rio Grande do Sul já está perdendo safras. Se desmatarmos e enfraquecermos a bomba, a região toda vai secar, porque é seu destino natural.

Valor: A Amazônia, então, é fundamental para a agricultura?

Nobre: Está se descobrindo que a floresta é dez vezes mais importante do que se imaginava. Tem outros fatores, também: a floresta faz chover. Essa foi uma descoberta fantástica do projeto LBA (Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia). Gotas precisam de alguma coisa sólida para se formarem, é fácil perceber quando se tira uma garrafa de refrigerante da geladeira e formam-se gotinhas em volta. A floresta emite vapores orgânicos para a atmosfera, que funcionam como sementes de nuvens. Mas precisa ser a quantidade certa para chover, se tiver demais não chove. A fumaça das queimadas introduz partículas demais na atmosfera, seca as nuvens e elas não chovem. Durante o período seco, das queimadas, a floresta sempre mantinha uma chuvinha que a deixava úmida e não-inflamável. Agora passam dois meses sem chover. A floresta começa a ficar muito seca e o fogo entra por ela. As árvores da Amazônia, diferente do Cerrado, não têm resistência ao fogo. Um fogo bobo mata todas as árvores que têm raízes rasas, e aquela floresta está condenada. Existem árvores imensas sendo destruídas assim.

Valor: Então é um mito que a Amazônia é muito forte?

Nobre: É forte quando o regime de chuvas está perfeito, mas com fogo, correntão e motosserra fica difícil. Em Tocantins, está dando 40 graus. No Pará e no Norte do Mato Grosso, registramos temperaturas muito altas. Cuiabá é quentíssima. Já está em curso um processo que a gente não sabe se é sem volta e temos que acabar com a hipocrisia que acende esse debate. Não é para parar com o desmate em 2015. Era para parar ontem, zero, nenhuma árvore mais derrubada. Temos que replantar a floresta.

Valor: O sr. faz uma espécie de militância científica?

Nobre: Foi o efeito da floresta no meu espírito. Eu me senti muito frustrado com tudo o que vivenciei na Amazônia. Tive uma fase de militância ambientalista, depois vi que temos que ter pé no chão e não falar só "não pode". Mas, se destruirmos as florestas, vamos estourar o nosso sistema climático. A condição do sistema terrestre hoje é a de já estarmos na UTI com falência múltipla de órgãos. Isso é o aquecimento global. A queima de combustíveis fósseis tem papel importante, mas a destruição dos órgãos de manutenção do clima, florestas e oceanos é o principal fator para o descontrole global. Não adianta todos os carros virarem elétricos se continuarmos a desmatar.

Valor: Quem conhece as coisas da Amazônia?

Nobre: Os povos nativos, intuitivamente. Mas são desrespeitados, não são valorizados. Temos que considerá-los um dia, se quisermos ser uma grande nação. E existe o conhecimento científico disperso em uma enorme variedade de disciplinas. Eu sou um garimpeiro de pérolas, em diferentes áreas. É isso que faço, ligo uma coisa à outra.

Valor: O senhor é otimista sobre a nossa mudança de consciência?

Nobre: Não consigo ver a mudança sem passarmos, infelizmente, por uma catástrofe. Aqui, o crescimento sem controle do agronegócio está danificando o funcionamento hidrológico da América do Sul. Enquanto lá fora se fala em serviços ambientais, aqui é só agronegócio, aço, minério, assuntos do século XX. A gente só chega depois, temos mentalidade de colônia até hoje. Mas o mundo vai depender cada vez mais dos nossos serviços ambientais. O Brasil não é só grãos.