quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Ecoeconomia na FIESP

Ecoeconomia



São Paulo - 16/9/2008

É necessário repensar o modelo econômico, afirma estrategista de investimentos do ABN

O economista Hugo Penteado defende que o futuro da humanidade depende da mudança de paradigmas da economia


Hugo Penteado
O atual modelo de crescimento econômico leva à desfiguração dos ecossistemas e põe em risco a sobrevivência de diversas espécies, inclusive dos seres humanos.

Esse ponto de vista é defendido pelo economista Hugo Penteado, estrategista de investimentos do ABN AMRO Asset Management, que se reuniu com o Conselho Superior de Meio Ambiente (Cosema) da Fiesp nesta terça-feira (16).

Autor do livro Ecoeconomia - Uma Nova Abordagem, lançado em 2003, Penteado não tem medo de suscitar polêmicas e aponta a busca pelo “crescimento eterno” como o grande equívoco da economia mundial: “Busca-se o aumento da produção sem levar em conta que os recursos naturais são finitos”, afirma.

Por recursos finitos, leiam-se a água, o solo e o próprio equilíbrio climático-ecológico entre as espécies vivas, sem os quais a existência na Terra seria inviável.

Lembrando que o sistema econômico está sendo submetido a um crescimento exponencial, Penteado alerta: “Alguém ainda vai ganhar um Prêmio Nobel ao provar que o território americano tem um tamanho constante de 9,3 milhões de km², sobre o qual é impossível adicionar um fluxo crescente de carros, casas e coisas”.

Rever o PIB


Reunião do Cosema
O economista prossegue, ressaltando que ignorar o espaço físico finito e manter um crescimento suicida é um erro fundamental: “Nós colocamos as espécies animais e vegetais desse planeta na maior rota de extinção em 65 milhões de anos, de forma totalmente antropogênica”.

Penteado declara ser impossível desvincular a economia da questão ambiental e assegura que o risco econômico reside na necessidade de crescer para garantir a saúde financeira de três sistemas principais: o mercado financeiro, previdenciário e fiscal. “Dado que o crescimento econômico é impossível do ponto de vista do espaço físico e ambiental, esses sistemas estão fadados à falência”, acrescenta.

Na visão de Penteado, é imprescindível realinhar o sistema para uma rota de equilíbrio, no qual os valores humanos, sociais e ambientais passem a fazer parte da equação. “Até o cálculo do PIB deveria ser rediscutido, para que passasse a levar em conta essas variáveis”, conclui o economista.

Sílvia Lakatos, Agência Indusnet Fiesp
Fotos: Kênia Hernandes

Baixaria sobre o aquecimento global

TENDÊNCIAS/DEBATES
Baixaria sobre o aquecimento global
JOSÉ ELI DA VEIGA e PETTERSON VALE

BASTA UM pouco de conhecimento histórico para saber que a evolução cultural da humanidade passou por três saltos decisivos, com o domínio do fogo, da agricultura e da máquina a vapor. E não é preciso muito esforço imaginativo para prever que a quarta tarefa de Prometeu será a descoberta de novas fontes de energia que não sejam fósseis. Com ou sem aquecimento global, a esperança de continuidade do progresso material da espécie humana dependerá de utilizações mais diretas da energia solar.

Também se sabe que a chamada revolução agrícola do Neolítico não esperou que terminassem as fontes de caça e de coleta e que o aproveitamento do carvão mineral foi bem anterior a um possível desaparecimento da lenha. Aguardar comodamente a intensificação do processo de esgotamento das reservas de carvão, petróleo e gás só servirá para tornar ainda mais freqüentes e trágicos os conflitos bélicos motivados pelas crescentes desigualdades de acesso a tais recursos.
Assim, longe de ser opção apenas econômica, é eminentemente ética a necessidade de drástico direcionamento das atividades de ciência, tecnologia e inovação (CT&I) para o que tem sido chamado de "energias alternativas". E purairresponsabilidade etiquetar de desperdício o atual gasto mundial nessa área. Ao contrário, os baixíssimos investimentos em CT&I para a superação da era dos fósseis só atestam o atraso e a miopia das elites dirigentes.

Mesmo os mais recalcitrantes "céticos", que insistem em negar o aquecimento global ou que ele seja provocado por atividades humanas, deveriam apoiar investimentos na busca de novas fontes energéticas.

Por isso, chega a ser escandalosa a desonestidade intelectual dos que repetem como papagaios que já teriam sido gastos US$ 50 bilhões em tentativas de provar a influência climática das emissões antrópicas de CO2.

Por enquanto, a despesa total do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, na sigla em inglês) só atingiu uma minúsculafração desse montante: US$ 34,2 milhões, de 2001 a 2007.

Quem criou a lenda dos US$ 50 bilhões foi o paleontólogo australiano Robert M. Carter, porque é contra os esforços em CT&I focados na procura de usos mais diretos da energia solar. Prefere que se continue a esbanjar recursos fósseis e não lamenta os US$ 3 trilhões jáqueimados na Guerra do Iraque.

Na contramão desse tipo de baixaria, está despontando aquilo que o jornalista Thomas L. Friedman havia apelidado de "green new deal" e agora chama de "revolução verde". Elétrons abundantes, baratos, limpos e confiáveis poderão solucionar cinco dos principais problemas contemporâneos: oferta e demanda de energia e de recursos naturais, ditaduras petroleiras, mudança climática, perda de biodiversidade e pobreza energética.

As nações que liderarem tal mudança serão detentoras da maior fonte de valor agregado deste século. E, nessa corrida, terão mais sucesso as que anteciparem políticas públicas e instituições capazes de induzir a nova onda das energias limpas. O que exigirá a combinação de pelo menos quatro instrumentos: precificação do carbono por impostos e contingenciamentos, subvenções às inovações, regulação da eficiência energética e educação para a mudança de hábitos.

É claro que a economia global também poderia ser impulsionada por uma nova onda bélico-tecnológica, como parecem preferir alguns dos detratores do IPCC. Mas essa é uma ética tão reacionária quanto a dos que teriam preferido continuar no Neolítico até que se manifestasse a escassez de pedras.
JOSÉ ELI DA VEIGA, 60, professor titular de economia da USP, e
PETTERSON MOLINA VALE, 25, mestrando em desenvolvimento econômico na Unicamp, são co-autores do capítulo sobre economia e política do livro "Aquecimento Global: Frias Contendas Científicas".

Neoliberalismo desvirtuado e em pedaços

Encaminhado por um amigo, esse texto, com excertos feitos por ele próprio, da Hazel Henderson é muito bom. Mais um texto que o professor Eduardo Giannetti da Fonseca deveria ler, ele pregador messiânico do crescimento eterno das economias e do neoliberalismo acima de qualquer crítica, disse-nos em uma palestra, porque não foi implementado no Brasil. Ainda bem. Ainda bem que a memória é curta de todos e que não se lembram que foram os neoliberais clássicos que deram origem ao imposto sobre grandes fortunas. Ah, as grandes fortunas que justificam tudo, inclusive o saque ao planeta, que deixaremos em escombros para poucos das gerações futuras sobreviverem. E ninguém fala um "a" sobre como o modelo dos ricos - países e pessoas - é imoral, egoísta, individualista e genocida. Planetariamente genocida. Enfim, divirtam-se, estamos num momento histórico, onde iremos repetir de novo todos os mesmos erros de sempre, como sempre fizemos, levando a corda de sustentação social e planetária ao limite até se romper, sem saber que todos, sem exceção, incluindo os mais poderosos, seguram nessa corda.
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Os "prejuízos" trilionários em Wall Street estão simplesmente anulando seus "ganhos" ilusórios. Nenhuma quantidade de salvamento federal ou impressão de dinheiro pode preencher o buraco negro de expectativas irrealistas criadas por uma economia enganosa.
A regulação no interesse público é hoje reconhecida como urgente [em função dos] excessos de Wall Street: transferir riscos sociais, custos e destruição ambiental para contribuintes e gerações futuras.
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Video didático em (humor) inglês.
"Como os mercados realmente funcionam":

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Proposta da ONU

Fizeram uma lavagem cerebral para a gente comer carne como se fôssemos carnívoros, só que não somos. A nossa saliva é alcalina, a do carnívoro é ácida, a carne já derrete na boca. O nosso estômago produz um pinguelo de ácido clorídrigo, o carnívoro produz quantidade dez vezez maior. Quando a carne chega no nosso intestino, percorre um percurso longuíssimo; no carnívero o trajeto é curto. Segundo os médicos, só conseguimos digerir de 30 a 40 gramas de carne a cada 3 ou 4 horas, o resto vira bolo fecal de carne podre, mandando toxinas e causando doenças diversas, entre elas o câncer. A indústria alimentícia que saqueia nosso planeta não agradece sozinha, a químico-farmacêutica também agradece!

Em relação a essa proposta da ONU eles esqueceram de avisar os chineses: o consumo de carne per capita lá aumentou 300%. De novo: a indústria alimentícia que saqueia nosso planeta não agradece sozinha, a químico-farmacêutica também agradece!

Somos um bando de pessoas que não entendemos nem a ecologia do nosso corpo, o que se dirá do planeta.

ONU propõe que se coma menos carne para lutar contra a mudança climática
da France Presse, em Londres


As pessoas deveriam reduzir o consumo de carne como contribuição pessoal para combater a mudança climática, segundo um especialista da ONU em entrevista neste domingo a um jornal britânico.
Rajenda Pachauri, presidente do IPCC (Painel Intergovernamental de Especialistas das Nações Unidas sobre Mudança Climática) declarou ao jornal "The Observer" que as pessoas deveriam começar a deixar de comer carne um dia por semana para, posteriormente, ir reduzindo ainda mais o consumo.
O economista indiano argumenta que uma mudança na dieta seria muito importante na luta contra a mudança climática porque, com a redução do consumo de carne, se reduziria também as emissões de gases de efeito estufa e problemas ambientais como a destruição de habitats naturais pela criação de gado.
O especialista de 68 anos, vegetariano convicto, oferecerá na segunda-feira uma palestra em Londres sobre "Aquecimento climático: o impacto da produção e o consumo de carne na mudança climática".
Em um relatório de 2007, o IPCC alertou que, se não forem tomadas medidas, a mudança climática provocará a fome, secas, tempestades e perdas em massa de espécies.
Este grupo ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 2007 junto com o ex-vice-presidente americano Al Gore.

VAMOS SALVAR AS ILHAS DO PARAÍBA

O governo trabalha para construir mais usinas hidrelétricas. O chocante disso tudo é que essa construção não tem a menor justificativa - exceto as piores que podemos imaginar - quando sabemos que a atualização tecnológica das turbinas das usinas existentes e das linhas de transmissão combinada com o uso de consumo eficiente nas construções aumentaria a oferta de energia em 90% em apenas um ano de investimentos bem menores que o dessas malsinadas construções.

Fazer isso debaixo dos nossos olhares é fazer de conta que não existe vida inteligente na face da Terra.

Estou começando a achar que não existe mesmo... por isso, CONTO COM A PARTICIPAÇÃO DE TODOS NESTA CAMPANHA!

FAVOR DIVULGAR PARA TODAS AS LISTAS.

Hugo

Ambientalistas, Estudantes, Sociedade Civil e Órgãos de Governo,

O maior arquipélago do rio Paraíba do Sul, com suas 700 ilhas, aproximadamente, correm sério risco de desaparecer.

A construção de 3 hidrelétricas (Itaocara, Barra do Pomba e Cambuci) no leito do rio Paraíba do Sul será o golpe fatal sobre a fauna e flora da região, o que será seriamente sentido pelas comunidades tradicionais ligadas a pesca. Espécies ameaçadas de extinção, como o cágado-do-Paraíba (Mesoclemmys hogei), único quelônio de água doce brasileiro ameaçado de extinção; as espécies de peixes piabanha (Brycon Insignis), o surubim-do-Paraíba (Steindacheneridion parahybae) endêmico da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul, o caximbau-boi (Pogonopoma parahybae) e o crustáceo lagosta-de-São Fidélis (Macrobachium carcinus) que ainda ocorrem no Domínio das Ilhas estarão comprometidas.

600 famílias dependem diretamente do pescado que se reproduz nesta região.

Por isso, a Rede de ONGs da Mata Atlântica está lançando a campanha: NÃO AFOGUEM AS ILHAS DO PARAÍBA!

Apóie esta iniciativa, acessando o site: http://www.ilhasdoparaiba.blogspot.com, inscreva-se para receber mais informações sobre as mobilizações e assine o abaixo assinado que será entregue ao Ministro Carlos Minc e ao Governador Sérgio Cabral.

VAMOS SALVAR AS ILHAS DO PARAÍBA, sua fauna, flora e comunidades.

Se você é dirigente de alguma ONG e quer apoiar a iniciativa, mande um e-mail para nós para que seja incluído no nosso blog, na área Entidades que Apóiam.

Se você é um(a) pesquisador(a) e sabe da importância de conservar esta região, mande seu nome e instituição de pesquisa para que seja incluído no blog, na área Pesquisadores que Apóiam.

Contamos com todos e todas neste empreitada!

Saudações Ecológicas,

Núcleo de Coordenação: Rede de ONGs da Mata Atlântica

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Mudanças de clima: quem tem medo de metas no Brasil?

Texto enviado pelo Fabiano Rangel

Mudanças de clima: quem tem medo de metas no Brasil?
Publicado em 19/9/2008 - Jornal Valor Econômico e Valor Online -
http://www.valoronline.com.br/

Rubens Born e Juliana Russar são membros do Vitae Civilis - Instituto para o Desenvolvimento, Meio Ambiente e Paz, ONG envolvida desde 1990 com as negociações internacionais em mudança de clima

19/09/2008
Rubens Born e Juliana Russar
Está prometida para esse mês a divulgação do rascunho do Plano Nacional sobre Mudança do Clima pelo governo brasileiro. Essa versão ficará disponível para consulta pública durante trinta dias e, em novembro, o Plano será lançado com a presença do presidente Lula, em evento que antecede a 14ª Conferência das Partes (CoP) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), em Poznan, Polônia.

Como signatário da UNFCCC, o Brasil está em débito há pelo menos 14 anos com esse tratado internacional, desde quando o Congresso Nacional ratificou a Convenção, ganhando, assim, status de lei no país. Essa lei, em seu artigo 4.1 (b), obriga o país a elaborar um plano e uma política nacional "que incluam medidas para mitigar a mudança do clima, enfrentando as emissões antrópicas por fontes e remoções por sumidouros de todos os gases de efeito estufa não controlados pelo Protocolo de Montreal, bem como medidas para facilitar a adaptação adequada à mudança do clima". Nesse sentido, somente em novembro de 2007, mais uma vez às vésperas de uma CoP, o decreto nº 6.263 instituiu o Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima (CIM) para elaborar o Plano Nacional sobre Mudança do Clima, cuja versão preliminar deveria estar pronta até 30 de abril de 2008.

Mesmo não possuindo compromissos quantificados de limitação e redução de emissões (metas obrigatórias), o Brasil, assim como todos países da UNFCCC, tem obrigações internacionais, legais e morais para cumprir seus compromissos no âmbito da Convenção. Na CoP-13, em 2007, aceitou que para a melhor implementação da Convenção os países em desenvolvimento devem adotar ações nacionais de mitigação que sejam mensuráveis, reportáveis e verificáveis para o pós-2012, quando termina o primeiro período de compromissos do Protocolo de Kyoto. Assim, o Brasil deve começar a considerar que tipos de ações serão colocadas em prática para desacelerar o crescimento, estabilizar e reduzir suas emissões de gases efeito estufa nos diversos setores, ainda mais porque, apesar da grande maioria das emissões de gases de efeito estufa do país serem provenientes do desmatamento (75%), há a tendência de crescimento relativo das emissões associadas ao uso de combustíveis fósseis.

No entanto, pronunciamentos oficiais, notadamente originários dos Ministérios das Relações Exteriores (MRE) e de Ciência e Tecnologia (MCT), rejeitavam compromissos na forma de metas para países em desenvolvimento, interpretando isso como cortes obrigatórios de emissões, que até agora são exigidos somente de países desenvolvidos. Nem todos os compromissos são metas, e nem metas podem se restringir à limitação e redução de emissões quantificadas em nova fase do regime multilateral. Por exemplo, poderia haver metas ou parâmetros de emissões por unidade de produto em determinados setores da economia. Metas ou objetivos mensuráveis significariam para países como o Brasil, em uma primeira etapa, compromissos para estabilizar emissões ou pelo menos reduzir a taxa de crescimento de emissões de gases de efeito estufa ou a taxa de perda de sumidouros e reservatórios de carbono (ou seja, de desmatamentos).

Esperamos que o Brasil adote pelo menos metas internas de estabilização e de redução de emissões, já que, sendo um dos maiores emissores do planeta, não pode deixar de dar ouvidos aos argumentos científicos (necessidade de pico e declínio brusco das emissões na próxima década para impedir mudança climática perigosa); políticos (é signatário da Convenção, possui obrigações); éticos (é um dos maiores emissores, essa geração deve combater o problema); e de desenvolvimento sustentável (reduzir significa expansão de atividades econômicas ambientalmente sustentáveis). Além disso, é plausível supor que em uma ou duas décadas, no máximo, o Brasil terá que se comprometer internacionalmente, para o bem de sua população e para cumprir com sua responsabilidade global, com limites de emissões de gases de efeito estufa. Em pouco tempo, os órgãos governamentais em todas as esferas, empresas, entidades da sociedade civil deverão estar preparados do ponto de vista institucional, tecnológico, econômico e cultural para fazer frente a esse desafio da sustentabilidade ambiental. Então, por que não ampliar o debate e iniciar, de alguma forma (voluntária, por meio planos e políticas locais e nacional), a adoção de medidas e programas, privados e públicos, que contribuam para a mitigação das emissões brasileiras?

O Brasil possui metas para várias áreas, como, por exemplo, meta de inflação, meta de crescimento, meta de superávit primário, meta para saneamento básico, etc. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) guia-se por metas. Metas e objetivos mensuráveis são instrumentos de controle social, de transparência, que auxiliam a governabilidade e o rumo das políticas e das atividades sócio-econômicas. Enfim, muitos se perguntam: Por que o país não pode ter metas relacionadas a emissões de gases de efeito estufa? Quem tem medo desse tipo de meta? Que setores da sociedade resistem à adoção de compromissos para limitar as emissões de gases de efeito estufa no Brasil e por quê? Teria o governo federal estrutura capaz de envolver estados e municípios nesse desafio, assegurando uma divisão justa, eqüitativa e efetiva das responsabilidades, limitações e reduções das emissões? Estariam a Casa Civil, o Ministério da Agricultura, o Ministério de Minas e Energia e demais ministérios dispostos a assumir compromisso com um plano que prevê medidas sérias de mitigação e adaptação às mudanças climáticas a curto, médio e longo prazo? Por que setores privados, como os do agronegócio, de indústria e de energia manifestaram-se, nas consultas públicas para o plano nacional de mudança de clima, contra a adoção de compromissos nacionais de mitigação de gases de efeito estufa?

Um Plano Nacional sobre Mudança do Clima sério e responsável deve ter parâmetros (ou metas ou objetivos mensuráveis ou compromissos) para poder ser qualificado como "plano", e não ser meramente uma declaração de intenções.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Termodinâmica da sustentabilidade

Agência FAPESP – O matemático e economista romeno Nicholas Georgescu-Roegen (1906-1994) ficou conhecido por aplicar à economia o conceito de entropia, emprestado da termodinâmica. Ao mostrar que as concepções tradicionais da economia pecavam pelo extremo mecanicismo, o autor foi um dos precursores da chamada economia ecológica.

Um estudo realizado na Universidade de São Paulo (USP) mostra que as idéias de Georgescu-Roegen, hostilizadas por muito tempo na academia, podem ser fundamentais para o debate atual sobre o desenvolvimento sustentável e sobre os problemas relacionados à energia e ao meio ambiente.

O trabalho, uma pesquisa de mestrado realizada por Andrei Cechin, com apoio da FAPESP, foi defendido no Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental (Procam) da USP no fim de julho. O orientador da dissertação foi José Eli da Veiga, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP e pesquisador do Centro de Capacidade e Sustentabilidade da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.

De acordo com Veiga, o trabalho recebeu elogios do principal discípulo de Georgescu-Roegen, o economista Herman Daly, da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, que é considerado um dos mais importantes economistas ecológicos vivos.

"Pouca gente resgatou o trabalho de Georgescu-Roegen com essa profundidade. É raro que um estudo de mestrado tenha tal qualidade. E mais raro ainda que seja bem recebido por colegas do hemisfério Norte. Daly recomendou que o trabalho seja publicado em inglês e português", disse Veiga à Agência FAPESP.

Segundo Cechin, o objetivo do estudo foi resgatar as idéias de Georgescu-Roegen e contextualizá-las nos debates da atualidade, especialmente em relação ao que se chama hoje de desenvolvimento sustentável.

"Os manuais de economia sempre começam com o diagrama do fluxo circular, que mostra como o dinheiro, mercadorias e insumos circulam entre famílias e empresas. Para Georgescu-Roegen, isso é um sintoma claro do mecanicismo que predomina na economia", disse Cechin à Agência FAPESP.

Em seu livro A lei da entropia e o processo econômico, Georgescu-Roegen mostrou que o sistema econômico não era um moto-perpétuo, que alimenta a si mesmo de forma circular, sem perdas. Ao contrário, é um sistema que transforma recursos naturais em rejeitos que não podem mais ser utilizados.

"O autor mostrou que o sistema econômico não pode contrariar as leis da física. A segunda lei da termodinâmica estabelece que o grau de degeneração de um sistema isolado tende a aumentar com o tempo, impedindo a existência de moto-perpétuos. Da mesma forma, o sistema econômico não pode se mover para sempre sem entrada de recursos e saída de resíduos", explicou Cechin.

Os processo produtivos possuem diferentes agentes, como capital construído, trabalho e fluxos de recursos naturais, produtos e resíduos. "Ao desenvolver uma nova representação do processo, o autor destacou que ele não é circular e isolado, mas é linear e aberto", disse.

Respeitado pelos economistas convencionais entre as décadas de 1930 e 1960, Georgescu-Roegen foi praticamente banido dos círculos acadêmicos depois da publicação de seu livro, segundo Cechin. "A partir daí, ele passou a estudar as bases biofísicas da economia, conhecimento que ele chamou de bioeconomia. Esses estudos deram origem à economia ecológica, embora ele nunca tenha usado esse termo."

Desenvolvimento sem crescimento
Uma das principais conseqüências dos estudos do economista romeno foi a tese do decrescimento. Mas condenar o crescimento da economia – visto como solução para todos os males sociais e até ambientais – soou como um verdadeiro delírio.

"Era uma tese considerada muito radical não apenas para economistas conservadores, mas até para alguns ambientalistas. Ele dizia que um dia a humanidade terá que pensar em estabilizar as atividades econômicas, pois não haverá como evitar a dissipação dos materiais utilizados nos processos industriais. Isso certamente exigiria um encolhimento da economia", afirmou.

Para Cechin, as idéias de Georgescu-Roegen podem se conciliar com a noção de desenvolvimento sustentável. Mas isso depende do que se entende por desenvolvimento sustentável. "A idéia de um crescimento que se sustenta é incompatível com Georgescu-Roegen. Portanto, se desenvolvimento sustentável for a manutenção da capacidade produtiva da humanidade, o conceito é incoerente com as idéias dele."

Segundo o pesquisador, não seria correto dizer que o economista romeno se opõe ao desenvolvimento, mas que ele defende que a sociedade precisará se desenvolver decrescendo.

"Ele vê a economia não do ponto de vista monetário, mas da perspectiva material. Por isso enxerga que a devolução de resíduos precisará não apenas se estabilizar, mas diminuir efetivamente. A sociedade terá que produzir menos. Mas se o desenvolvimento é a ampliação das liberdades humanas – como defende o prêmio Nobel Amartya Sen –, diminuir o crescimento não significa deixar de se desenvolver", explicou.

Para Cechin, o ambiente hoje é mais propício para a aceitação das idéias de Georgescu-Roegen, seja em virtude da percepção dos problemas ambientais globais – incluindo o aquecimento global e a questão energética –, seja pela percepção científica contemporânea de que fenômenos complexos não podem ser compreendidos com arcabouços mecanicistas e reducionistas.

Fonte: http://www.agencia.fapesp.br/materia/9413/especiais/termodinamica-da-sustentabilidade.htm

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Curto e grosso e super verdadeiro

Embora o Tom Friedman - e muitos outros - vivam o mito da energia, essa citação dele é digna de nota.

O mito de energia é abraçado por economistas de várias vertentes, não só os tradicionais, mas também os revolucionários: "se a humanidade alcançar uma fonte infinita de energia, baseada em células de hidrogénio ou energia solar ou outro avanço tecnológico mais profundo, o problema da finitude planetária será revogado e o padrão de vida das pessoas poderá ser mantido e até incrementado. As populações e as economias poderão crescer infinitamente."

Surrealista né? Mas isso é abraçado por gente muito séria: Al Gore, Jeremy Rifkin, Paul Krugman, Joseph Stiglitz, etc.

Por que é um mito? Porque não temos um problema só de energia mas de máteria também. A fonte de energia infinita pode resolver a discussão entre Herman Daly (estado estacionário) e Nicholas Georgescu-Roegen (estado declinante). Roegen dizia que um consequência inevitável da lei da Entropia era o decrescimento natural das nossas atividades e que a reciclagem não é gratuita e implica em mais uso de matéria e energia e de dissipação desses recursos. Por isso ele pregava (não sem razão e nem apenas por isso) a revogação total e absoluta de todas as forças armadas, que consomem energia e matéria do planeta para um fim inescrupuloso (dominação e destruição de povos, sempre por razões de conflito econômicos).

Com uma fonte inesgotável de energia isso desapareceria. Essa é uma discussão infinita, mas o fato é que o problema de matéria estará sempre presente em dois aspectos: serviços naturais e finitude espacial da Terra. A menos que a gente acredite que uma fonte inesgotável de energia seja capaz de criar um novo planeta para a humanidade, não há como revogar esse problema.

Quem acredita nesse mito - como Friedman e outros - supõe que seremos capazes de produzir um novo planeta. Apesar disso, essa cegueira não é tão ruim quanto a dos economistas tradicionais que pregam o crescimento eterno das economias diariamente em seus relatórios e discussões sérias, com gente de enorme credencial nos bancos centrais do mundo todo, sem entender o que isso realmente significa para o planeta, embora entendam muito bem o que isso significa para o futuro dos lucros empresariais e do resultado com as ações das empresas: os mercados financeiros sempre entrarão em colapso toda vez que o crescimento desaparecer (como agora) e isso irá deixar muito preocupado 20% da humanidade, para os 80% pouco importa se as ações caem ou sobem, mesmo para seus empregos, pois a geração de empregos (permanentes e com qualidade) não tem mais nada a ver com crescimento econômico.

Segue o comentário do Tom Friedman super pertinente:

What I always say to people when they say to me, "We're having a green revolution" is, "Really? A green revolution! Have you ever been to a revolution where no one got hurt? That's the green revolution." In the green revolution, everyone's a winner: BP's green, Exxon's green, GM's green. When everyone's a winner, that's not a revolution--actually, that's a party. We're having a green party. And it's very fun--you and I get invited to all the parties. But it has no connection whatsoever with a real revolution. You'll know it's a revolution when somebody gets hurt. And I don't mean physically hurt. But the IT revolution was a real revolution. In the IT revolution, companies either had to change or die. So you'll know the green revolution is happening when you see some bodies--corporate bodies--along the side of the road: companies that didn't change and therefore died. Right now we don't have that kind of market, that kind of change-or-die situation. Right now companies feel like they can just change their brand, not actually how they do business, and that will be enough to survive. That's why we're really having more of a green party than a green revolution.

(tradução livre - Hugo)
O que eu sempre digo para as pessoas que dizem para mim, "Nós estamos numa revolução verde" é, "Realmente? Uma revolução verde! Você já esteve numa revolução onde ninguém sai machucado? Essa é a revolução verde." Na revolução verde, todo mundo é vencedor: BP é verde, Exxon é verde, General Motors é verde. Quando todo mundo é vencedor, isso não é uma revolução - na verdade, isso é uma festa. Nós estamos numa festa verde. E é muito divertida - você e eu somos convidados para todas as festas. Mas isso não tem conexão alguma com uma revolução real. Você saberá que é uma revolução quando alguém sai ferido. E eu não suponho fisicamente ferido. Apenas a revolução das tecnologias de informação (TI ou internet) foi uma revolução real. Na revolução de TI, as companhias ou mudavam ou morriam. Por isso, você saberá que a revolução verde está acontecendo quando vir alguns cadáveres - cadáveres de empresas - ao longo da estrada: companhias que não mudaram e por essa razão morreram. Agora mesmo não temos esse tipo de mercado, essa situação do tipo mude-ou-morra. Nesse momento as companhias apenas sentem que precisam mudar sua marca, mas não realmente mudar seu jeito de fazer negócios e que isso será suficiente para elas sobreviverem. Isso explica porque estamos tendo muito mais uma festa verde do que uma revolução verde.

Outra post sobre o mesmo comentário do T. Friedman aqui.

domingo, 7 de setembro de 2008

Lixo, faça a sua parte

O Hugo enviou o seguinte e-mail para a L'Occitane.

Prezados Srs. e Sras. da L´Occitane

Recebi presente da loja de vcs com uma quantidade de embalagens muito maior que o presente em si, para jogar no lixo.

Na verdade, um amigo meu me trouxe um sabonete embrulhado no papel, ele já me conhece.

Mas o outro presente da loja de vcs me impressionou muito, eu não sabia o que fazer com tanto invólucro inútil.

Gostaria de avisar que toda e qualquer embalagem de presentes de vcs, eu irei devolver na loja, porque minha meta na vida é lixo zero. Se somos parte da natureza, temos que mimetizá-la: a natureza não joga nada no lixo.

Não existe o jogar fora num sistema fechado como a Terra. O ser humano ter transformado a Terra numa lixeira, conosco vivos dentro não é um sinal de grande inteligência, ao contrário, põe em risco nossa sobrevivência como espécie animal.

Nâo sei se vcs estão acompanhando o problema de lixo nas grandes cidades e em particular na Grande São Paulo, mas de qq forma, vcs poderiam contribuir muito se trabalhassem para reduzir embalagens e pedissem para os clientes devolverem elas nas lojas para reutilização e reciclagem.

Aguardo informação de vcs sobre sua política em relação ao meio ambiente e ao lixo,

Atenciosamente,


As pessoas se queixam também do material publicitário impresso que nos entregam à nossa revelia. O Natal está chegando, está mais do que na hora de abandonarmos o excesso de embalagens!!!!!! O planeta não pode ser uma lixeira, aterro sanitário é algo que NUNCA deveria existir.

Minha sugestão é pegar o email ou buscar no site e escrever o seguinte email (que deve ficar estacionado na sua caixa postal):

Prezados Srs. e Sras. da empresa XPTO

Recebi material impresso da sua empresa e por razões ecológicas não desejo receber nenhum material impresso.

Por favor, tire meu nome da sua lista para material impresso e utilize o email xxx@yyy.www.zz para enviar apenas material eletrônico.

Agradeço a contribuição e gostaria de deixar claro que o atendimento dessa solicitação é um critério que utilizo para ser cliente da sua empresa.

Atenciosamente,

Fulano de tal


Caso não encontrem um email, telefonem.

Abraço

Hugo

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Um dia teremos que colocar o lixo em cima das nossas cabeças...

A maior prova de como a teoria econômica é falsa, falha, errada, equivocada é a situação do lixo no mundo. São Paulo planeja colocar um aterro sanitário do lado da Serra Cantereira numa área de proteção ambiental. A natureza não joga nada no lixo. A humanidade joga tudo no lixo, de forma degenerativa, ou seja, elementos para os quais não há ciclo natural. A humanidade não é mais parte da natureza e sim seu opositor e por essa razão terá que desaparecer se não mudar.
Continuem consumindo e jogando fora, na economia do descarte, até carros nós descartamos, como se fosse possível acreditar nisso, num planeta que é um sistema fechado. Não existe o jogar fora, se nós fomos forçados a acreditar nisso, com certeza não foi pelo nosso bem.
Na sequência do excelente artigo de Washington Novaes segue mais esse para aumentar nossa preocupação.

SP estuda aterro sanitário ao lado da Serra da Cantareira
Há um ano sem aterros sanitários próprios para destinar as mais de 13 mil toneladas de lixo produzidas diariamente na capital, São Paulo corre contra o tempo para conseguir licenciar novos lixões junto aos organismos estaduais. Uma área na zona noroeste deverá abrigar um novo aterro sanitário para depósito de parte do lixo da cidade.
Outra, na zona leste, está em fase mais adiantada, mas aguarda licença de instalação para início das obras.
O novo aterro em estudo, cuja localização não está sendo divulgada para evitar invasões e especulação imobiliária, fica em Perus, e está localizado ao lado da Serra da Cantareira, área de proteção ambiental. A Secretaria Municipal de Serviços informou que foram apresentadas três áreas na região administrada pela empresa Loga, na região, que passam por uma análise de viabilidade de uso e ocupação.
O aterro substituirá o Bandeirantes, já esgotado e com licença de funcionamento expirada desde março de 2007. "A Prefeitura recebeu os estudos pertinentes e obrigatórios por contrato. Por razões estratégicas - e para não haver especulação imobiliária -, os locais apresentados são sigilosos", disse o presidente da Loga, Luiz Gonzaga Alves Pereira
Esse novo lixão, com vida útil estimada de dez anos, deverá receber aproximadamente 6,5 mil toneladas por dia. Hoje, o lixo que tinha como destino o aterro Bandeirantes vai para uma área particular em Caieiras. São Paulo não tem custos sobre a operação, mas perde a médio prazo com a venda de créditos de carbono, gerados com a utilização do gás produzido no aterro e transformado em energia. Atualmente, a usina
instalada no Bandeirantes gera energia para abastecer cerca de 200 mil pessoas em Perus.
A área onde deve ficar o novo aterro já teve declaração de utilidade pública decretada em 2004. (AE)

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Transformamos a Terra numa lixeira, conosco dentro: todos acreditando no mito do jogar fora

Um drama que vem embalado
Washington Novaes

A campanha eleitoral na TV e no rádio mostra, principalmente nos grandes centros urbanos, uma temática semelhante, que quase se resume às questões dos transportes, da violência, da educação e da saúde.

Quase não está presente nas propostas e discussões a questão dos resíduos, do lixo.

E, no entanto, é das mais graves que enfrentam as cidades, das mais populosas às menores. Convém relembrar que já em 2002 eram coletadas 230 mil toneladas diárias só de lixo domiciliar e comercial no País (1,3 quilo por pessoa/dia), sem falar em resíduos de construções (mais que o domiciliar e comercial), lixo industrial, de estabelecimentos de saúde, lixo tecnológico e - ausência absoluta - lixo rural produzido principalmente pelos excrementos de mais de 200 milhões de cabeças de gado bovino, dezenas de milhões de suínos, bilhões de aves.

Pouco se sabe também de quanto lixo urbano não é coletado. Fala-se em mais de 10 mil toneladas/ dia. E em mais de metade dos municípios todos os resíduos vão para lixões a céu aberto.

Para demonstrar a gravidade da situação basta relembrar que a cidade de São Paulo está com seus aterros esgotados e terá de definir, em curtíssimo prazo, onde depositará as pelo menos 14 mil toneladas diárias de lixo domiciliar e comercial que gera.

Curitiba também esgotou seu aterro. Belo Horizonte tem de mandar seu lixo para dezenas de quilômetros de distância. O Rio de Janeiro, que não tem área no município para colocar suas 9 mil toneladas diárias de resíduos e esgotou o Aterro de Gramacho - onde já há trincas perigosas e expulsão do lodo da base (era um manguezal) por causa do excesso de peso acumulado -, tenta licenciar outro aterro em Paciência.

Convém lembrar ao eleitorado de todas essas cidades o que aconteceu em Nova York (EUA), que deixou esgotar seu aterro e tem e mandar 12 mil toneladas diárias para mais de 500 quilômetros de distância, em caminhões.

Ou em Toronto (Canadá), que também manda 3 mil toneladas diárias para mais de 800 quilômetros de distância, em trem diário especial, a custos astronômicos. Não bastasse o volume do lixo, é preciso acrescentar que a reutilização e reciclagem de materiais no País é muito insuficiente.

As estatísticas dizem que só se reciclam em empresas 45,5% (2,8 milhões de toneladas/ ano) do papel e papelão descartados, 45% do vidro, 24,2% das embalagens longa-vida (9,2 bilhões), 1 milhão de toneladas de plásticos e 95% das latas de alumínio. As usinas públicas de reciclagem paulistanas operam com menos de 1% do lixo total.

E a esse panorama assustador veio, há poucas semanas, agregar-se mais uma preocupação: a liberação, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), do uso de embalagens de PET para acondicionar alimentos e bebidas. Hoje, quase 50% do PET usado no País já não é reciclado. E se toda a produção de cervejas no País (9 bilhões de litros/ ano) passar a ser envasada em PET, serão descartados entre 14 bilhões e 18 bilhões anuais de garrafas - agravando o problema dos aterros e das embalagens não recolhidas, já que não há retorno e reutilização.

Não se sabe ainda como se resolverá juridicamente a questão de haver sido concedida pela Justiça Federal, em Marília (SP), medida que exige aprovação, pelo Ibama, de estudo de impacto ambiental para essa utilização do PET em cervejas.

Também no âmbito do projeto de Política Nacional de Resíduos Sólidos enviado pelo Executivo ao Congresso Nacional não se vê otimismo. Isso ficou patente em recente seminário promovido no Rio de Janeiro pelo Movimento PET Consciente.

O relator da matéria, deputado Arnaldo Jardim, mostrou ali que se prevê uma "logística reversa" a ser implantada nas cadeias produtivas para dar destinação a embalagens; mas isso só será decidido, na prática, numa regulamentação posterior ao projeto.

E a experiência mostra, em projetos anteriores, que esse caminho tem sido barrado no Legislativo pela força dos lobbies dos setores interessados.

Segundo o deputado, a responsabilidade do gerador de resíduos em geral "cessa com a disponibilização adequada dos resíduos sólidos para a coleta". Será lamentável se for esse o rumo decidido.

Porque não haverá solução para o problema se todo gerador de resíduos (industrial, comercial, domiciliar, rural, tecnológico e qualquer outro) não arcar com o custo da coleta e destinação - como a experiência em muitos países tem demonstrado (e é lamentável que a reduzida discussão sobre esse tema na capital paulista se resuma à afirmação da ex-prefeita de que se arrepende de haver criado a "taxa do lixo", abolida pela administração posterior - a criação é que era correta e imprescindível).

No mesmo seminário, o professor Gil Anderi, da Universidade de São Paulo, sugeriu que se crie uma taxa por produto descartado "proporcional ao impacto ambiental".

E este deveria ser avaliado por uma "análise do ciclo de vida" do produto: no caso do PET, o impacto desde a extração do petróleo, a refinação, a produção da resina, sua transformação em embalagem e até o impacto na reciclagem (energia, água, transporte, etc.).

Para isso seria preciso implantar um banco de dados regional por produto, que no caso do PET levasse em conta 13 possíveis utilizações e cinco opções diferentes de garrafas. Seja como for, não será possível avançar - como assinalou no seminário o jornalista André Trigueiro - "sem que se explicitem os conflitos". Eles precisam ser discutidos.

Talvez um caminho seja o proposto pelo Movimento PET Consciente: moratória em novas utilizações do PET, até que se alcance o índice mínimo de 80% na reciclagem; e a indústria de bebidas ter obrigatoriamente pelo menos 50% de sua produção envasada em embalagens retornáveis - sejam elas de vidro, PET, alumínio ou outras. ?

Washington Novaes é jornalista
E-mail: wlrnovaes@uol.com.br