quinta-feira, 28 de agosto de 2008

A verdade que dói

A riqueza, a hipocrisia e o fim do mundo

Querem saber qual é o problema ambiental mais grave do planeta? Não titubeio em dizer: a riqueza, ou melhor, o "desenvolvimento". Os padrões ocidentais de riqueza e desenvolvimento. E não me refiro apenas à riqueza dos países desenvolvidos com seus padrões de consumo irresponsáveis. Em países "em desenvolvimento" também há o tipo de riqueza a que me refiro. Não queremos todos alcançar um nível de vida típico de classe média americana, nós da classe pensante brasileira? Até onde posso ver, é comum o desejo de possuir carros. Para aplacar a consciência, exigimos carros flex, ou a álcool, ou doravante movido a qualquer biocombustível, mas ignoramos tranqüilamente as montanhas de minério de Minas Gerais e do Pará literalmente transportadas para as siderúrgicas para retirada de ferro e alumínio destes mesmos carros. Alguém tem idéia do impacto disto? Alguém se predispõe a protestar contra o desejo de possuir um carro? Não, é melhor ser hipócrita. Bastam os biocombustíveis, aliás cultivados utilizando-se insumos agrícolas produzidos com o uso de combustíveis fósseis ou de recursos minerais não renováveis. Sim, porque pouquíssimos estariam dispostos a pagar por biocombustíveis totalmente orgânicos (alguém já viu os preços de hortaliças orgânicas?). Um outro grande desejo humano é ter casa, e a classe média bem informada prefere apartamentos, talvez na beira da praia, tirando a vista dos outros do mar. Uma surpresa para os que acham que só os grandes empresários e os agricultores do mal produzem gases de efeito estufa: a produção do cimento de seu apartamento comprado a suadas prestações é feita a partir da calcinação do carbonato de cálcio: CaCO3 → CaO + CO2. Este CO2 aí no final é o dióxido de carbono, principal gás de efeito estufa. Alguém se propõe a combater a construção de casas? Não, é melhor ser hipócrita. A vaquinha que produziu a picanha que entusiasticamente queimamos no fim de semana produz uma quantidade não desprezível de metano, um gás de efeito estufa mais poderoso que o CO2, imaginem quanto metano produzem vaquinhas para alimentar 6 bilhões de bocas. Ah, você não come carne? Um dos maiores produtores de metano no planeta são os plantios de arroz inundado. Você é um ambientalista ativamente preocupado com a possibilidade de construção de usinas nucleares? Orgulhoso porque o Brasil produz energia a partir da água, um recurso natural renovável? As hidrelétricas estão bem, obrigado, produzindo quantidades nada desprezíveis de metano. Creiam-me, pouquíssimos estão dispostos a realmente fazer as mudanças necessárias para que vivamos numa sociedade realmente sustentável. Modernizando a imagem que Cristo utiliza no Novo Testamento para descrever os hipócritas, preferimos ser sepulcros caiados exalando metano pelas mal disfarçadas rachaduras.

Ítalo M. R. Guedes

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Sem as abelhas não viveremos, sem os oceanos idem, a vida terrestre e marinha é uma só

Mónica SalomoneEm SantanderUma loja de lembranças de praia parece um lugar inócuo, incapaz de deixar alguém de mau humor. Exceto se o cliente for o oceanógrafo Carlos Duarte, presidente do Conselho Superior de Pesquisas Científicas (CSIC na sigla em espanhol), presidente da Sociedade Americana de Limnologia e Oceanografia e Prêmio Nacional de Pesquisa 2007. Duarte fotografou esta semana a vitrine de um desses - para ele - templos do horror, para mostrar o motivo de sua revolta. Restos de espécies ameaçadas como o Tridachna gigas, um molusco bivalve gigante do Indo-Pacífico; o Strombus gigas, um caracol do Caribe; e vários corais aparecem em uma fila perfeita. Souvenires baratos de verão, desgraças ambientais caríssimas. "As espécies ameaçadas são exibidas em total impunidade em lojas de todo o mundo. Afinal, quem sabe o que é Strombus gigas?", lamenta Duarte. Mas a coisa vai muito além. Para ele e muitos outros pesquisadores, o desconhecimento social e científico agravam problemas como a pesca excessiva, a mudança climática e a poluição, que estão levando muitos ecossistemas marinhos a uma situação limite. E, depois do alerta, uma advertência: a vida da humanidade e a dos oceanos correm paralelas e muito próximas.A mensagem "Salvem os oceanos" não é nova. Mas ecoa cada vez mais alto. Nos últimos meses se acumulam relatórios alarmantes, e não é por acaso. Os especialistas em ciências marinhas sentem necessidade de chamar a atenção, admite Duarte. "Há evidências de que chegamos a pontos de não-retorno." Há algumas semanas Jeremy Jackson, veterano pesquisador americano, publicou na revista "PNAS" uma revisão dos ecossistemas marinhos. Entre suas conclusões está a previsão de que a pesca excessiva levará à extinção de espécies comestíveis e terá um efeito indireto sobre toda a cadeia alimentar. Além disso, as chamadas zonas mortas, nas quais a falta de oxigênio impede o desenvolvimento da fauna marinha, se estenderão cada vez mais ao longo da costa e as correntes, alteradas pela mudança climática, modificarão os ciclos de nutrientes.Jackson menciona os efeitos combinados da destruição do hábitat, da pesca excessiva, do aquecimento, da acidificação dos oceanos e da perda maciça de nutrientes entre os principais culpados por uma grande e rápida transformação de ambientes antes ricos e complexos, com redes ecológicas intricadas, em ecossistemas simples, dominados por microorganismos, algas tóxicas e medusas. "As coisas estão piorando muito depressa", diz Jackson. "Assim como a mudança climática, é um problema que ignoramos durante muito tempo. A situação dos oceanos poderia ser ainda pior, porque em muitos sentidos estamos muito perto do precipício."Em fevereiro passado a revista "Science" publicou um Mapa Global do Impacto Humano nos Ecossistemas Marinhos. Mostra que em mais de 40% dos oceanos a ação humana tem um impacto maior do que se esperava. Um dos mares mais afetados é o Mediterrâneo. Entre os ecossistemas mais frágeis estão os corais. Um estudo recente publicado em "Science" indica que estão mais ameaçados do que se acreditava. Uma equipe de especialistas dirigida por Kent Carpenter, da União Mundial para a Natureza, avaliou o estado de conservação das 845 espécies conhecidas de corais que constroem barreiras e vivem em simbiose com algas. Concluíram que cerca de um terço está em risco de extinção. As causas: os poluentes, a pesca destrutiva e o aquecimento. Dentro de algumas gerações mergulhar entre barreiras de corais será um luxo raro. Todos esses resultados são agravados por duas questões. Uma é que, apesar de tudo, ainda se sabe muito pouco sobre o que acontece nos mares. O universo microbiológico marinho está muito pouco explorado, e os pesquisadores temem que muitos seres desapareçam antes de ser estudados e que alguns países comecem a explorá-los por conta própria. A ONU criou um grupo de trabalho sobre isso. A outra preocupação é que muito mais verbas são destinadas à pesquisa da terra do que à da água.O Painel Intergovernamental para a Mudança Climática (IPCC na sigla em inglês) incluiu em seu último relatório apenas 85 mudanças biológicas relacionadas ao aquecimento detectadas em ecossistemas marinhos, contra 28.500 terrestres. E isso quando há evidências de que os organismos marinhos podem estar reagindo à mudança climática ainda mais depressa do que as espécies terrestres. Mas os oceanógrafos pedem, além de verbas, medidas políticas: criar reservas marinhas, respeitar os regulamentos sobre a pesca, combater o despejo de fertilizantes, aplicar seriamente as medidas para reduzir emissões de gases e promover medidas de conservação em escala local. Não parece haver outra receita para salvar os oceanos. Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Sinais preocupantes

Coluna da Marina Silva dessa semana na Folha de S. Paulo.

O MOVIMENTO ambientalista conquistou respeito e apoio por defender as imensas riquezas naturais do Brasil e questionar o crescimento a qualquer custo. Hoje, com a sociedade mais atenta, e disso tive prova durante os anos em que estive à frente do Ministério do Meio Ambiente, temos uma poderosa união de esforços que dá base política para reposicionar o modelo predatório de uso de nossos ativos ambientais.

Essa base deu suporte ao governo do presidente Lula para adotar medidas contundentes de freio ao desmatamento na Amazônia. Decreto de dezembro de 2007 determinou a regularização fundiária nos 36 municípios de maior desmatamento, a responsabilização das cadeias produtivas e o agravamento das sanções em caso de descumprimento de embargo. Em janeiro, foi anunciada a operação Arco de Fogo, da Polícia Federal e do Ibama. Em fevereiro o Conselho Monetário Nacional editou resolução que condiciona o crédito rural na Amazônia à regularidade fundiária e ambiental da propriedade. Essa resolução entrou em vigor em 1º de julho e certamente contribuiu decisivamente para os primeiros resultados positivos, ainda que parciais, desse esforço.

No entanto, ao mesmo tempo, surgem sinais preocupantes de mudança na postura do governo. Primeiro, a edição da Medida Provisória 422, que estimula a grilagem de florestas públicas na Amazônia; depois, o veto presidencial ao único dispositivo que disciplinava minimamente a aplicação da MP. Recentemente, o governo anunciou acordo que, na prática, reduz a reserva legal na Amazônia para 50% e permite o plantio de espécies exóticas. Anunciou também a redução do ritmo de criação de unidades de conservação e promete alterar o decreto recém-publicado que regulamentou a Lei de Crimes Ambientais.

Há 15 dias, manifestei meu estranhamento com declarações do ministro Mangabeira Unger, de que a legislação ambiental brasileira não fora construída "para valer". Estava em dúvida se o ministro expressava alguma nova visão do governo federal sobre política ambiental.

Os sinais aqui relatados reduzem o espaço da dúvida.
Para a sociedade brasileira, que avalizou as corajosas medidas de combate ao desmatamento e recebeu de forma entusiasmada a declaração do presidente de que não haveria retrocesso na política ambiental, será difícil aceitar mudanças na contramão do que foi dito há apenas três meses. Caso o compromisso assumido pelo presidente simplesmente tenha sido ignorado pelos ministérios que deveriam zelar por ele, resta a esperança de urgente correção de rumos.

É sustentável a sustentabilidade?

Post do Idéias Cretinas.

Comentário do Hugo: Com isso dá para “esculhambar” todas as falsas idéias dos economistas, dos governos e das empresas. “Esculhambar” no bom sentido, tipo acordar para a realidade. A corda vai estourar, resta saber se vamos trabalhar para fazê-la estourar em décadas ou em milhares de anos...

É sustentável a sustentabilidade?

Outro dia estava pensando sobre a questão do desenvolvimento sustentável e a promessa de um crescimento econômico que devolva ao ambiente tanto quanto tira, mas eis que me lembrei da Segunda Lei da Termodinâmica. Daí, surgiu a dúvida: sustentabilidade, no limite, não é apenas mais uma tentativa de criar a máquina de moto perpétuo?

Antes que me interpretem mal: este aqui não é mais um daqueles argumentos “desesperacionistas”, do tipo, ok, tudo já foi pra cucuia mesmo, então vamos relaxar e gozar enquanto esperamos o apocalispe, e vai ser ótimo ver aquelas loirinhas nórdicas de biquíni pegando um bronze na Groenlândia. É claro que todo dano à natureza que pudermos evitar, reduzir ou reparar deve ser evitado, reduzido ou reparado, mas: isso nunca vai ser 100% eficiente. Então, mesmo se administrarmos o planeta Terra da forma mais eficiente possível, vai dar pra esticar a corda até quando?

Uma conta de fundo de envelope (que pode muito bem estar obscenamente errada, já que eu tenho o hábito pouco saudável de escorregar nas potências de dez): o fluxo de energia solar na órbita da Terra é de 1,4 kW/m2, sendo que cerca de 10% disso chega à superfície do planeta — o resto é refletido de volta. A área da Terra é de uns 4 x10^12 metros quadrados, então o total de irradiação solar disponível no planeta é da ordem de 6×10^12 kW, ou 6×10^15 J/s.

Um ser humano precisa de umas 2.000 calorias alimentares, ou 8×10^6 J, ao dia. Um dia tem cerca de 90.000 segundos, o que dá uns 90 J/s. Com 6×10^9 seres humanos na Terra, estamos consumindo 54×10^10 J/s, ou, arredondando, 6×10^11. A humanidade consome, então, algo como 0,01% de toda a energia disponível para a vida na Terra, descontando as fontes geotérmicas. E isso só para manter nossos corpos vivos, tirando carros, computadores, geladeiras, DVDs.

Supondo que a população ganhe uma ordem de grandeza a cada 200 anos, estaremos comendo toda a energia solar disponível na Terra em… uns 1000 anos?

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Por onde começa a sustentabilidade

Primeiro ponto

Porquê sustentabilidade? Porque o mundo todo não tem mais sustentação alguma. Como dizer isso sem colocar as pessoas em desespero, sem mostrar que elas podem ser a solução desse problema?

Segundo ponto

Somos insustentáveis, como nos tornaremos sustentáveis? Não depende de mim nem de você, caro leitor, mas de todos. O nosso destino coletivo está nas mãos de todos, ou mudamos ou perecemos, escreveu Leonardo Boff. Ou mudamos (coletivamente) ou perecemos, completaria. Mas Gandhi deixa bem claro por onde devemos começar: "você deve ser a mudança que gostaria de ver no mundo". Al Gore que me perdoe, mas falar de aquecimento global e dos riscos do planeta, morando numa casa que gasta mais energia que uma pequena cidade, viajando para lá e para cá em seu jato particular, é um total disparate. Quantos planetas compõem a pegada ecológica dele? Não dá para falar e não fazer mais. Sinto muito. E desculpa mais uma vez, temos só um planeta e não vários. Não serve de exemplo, foi útil para dar popularidade ao problema, mas inútil por não poder ser um exemplo de mudança que a coletividade precisa encarar.

Terceiro ponto

Do que depende para sermos sustentáveis? Depende de reconhecermos duas verdades (supondo claro que verdades existem...): 1) somos dependentes da natureza e 2) o planeta é finito, pelo menos do ponto de vista da matéria, embora não seja verdadeiro do ponto de vista da energia, a finitude só desapareceria se tanto matéria quanto energia fossem inesgotáveis. A Terra não é uma ampulheta de matéria e energia que possa ser virada toda vez que terminar.

Nossa dependência da natureza é tão grande que é chocante que tenhamos ignorado. Segue um pequeno exemplo e de resto, todos os pontos finais desse texto, dependem de você, meu leitor, assim como meu futuro depende de cada um de vocês, inexoravelmente.

Abelhas

SUMIÇO DE ABELHAS TAMBÉM NA ALEMANHA

Após os Estados Unidos, agora também a Alemanha começa a se alarmar com o desaparecimento de abelhas no seu território. A conceituada revista alemã Der Spiegel publicou uma reportagem com o título: “Será que plantações de transgênicos estão matando as abelhas? E num trecho do artigo:

“Uma dizimação misteriosa das populações de abelhas preocupa os apicultores alemães, enquanto um fenômeno semelhante nos EUA está assumindo gradualmente proporções catastróficas”.

E mais adiante, o vice-presidente da Associação Europeia de Apicultores Profissionais, Walter Haefeker faz uma grave advertência: “a própria existência da apicultura está em risco”. Segundo Haefeker, as causas mais prováveis seriam o ácaro Varma, oriundo da Ásia, os herbicidas, a monocultura e o uso crescente de engenharia genética na agricultura.

Ele fez ainda referência a uma citação de Albert Einstein no periódico “Der Kritischer Agrarbericht” (Relatório Agrícola Crítico):

“SE A ABELHA DESAPARECER DA SUPERFÍCIE DO PLANETA, ENTÃO AO HOMEM RESTARIAM APENAS QUATRO ANOS DE VIDA.COM O FIM DAS ABELHAS, ACABA A POLINIZAÇÃO, ACABAM AS PLANTAS, ACABAM OS ANIMAIS, ACABA O HOMEM.”

Frase atribuída a Albert Einstein.

Quando cruzar uma abelha, pode referenciá-la, porque a comida só chega no seu prato graças a ela e não apenas ao empreendimento humano (nunca nada foi devido somente ao empreendimento humano...). Einstein realmente deve ter reconhecido nossa vulnerabilidade e dependência, espanta termos esquecido, espanta ainda mais nossa teimosia em não querer lembrar.




quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Verdades esquecidas pela nossa ganância...

Esse artigo bastante lúcido, também do site Eco-Finanças, vale muito a pena. Se você acha que os governos no mundo todo estão conscientes em relação aos riscos do nosso futuro, pode desistir dessa idéia e trabalhar para que eles se tornem conscientes.

A pergunta é: você está consciente dos riscos?

A Inflação dos Alimentos e o Meio Ambiente
Por Mauro Kahn e Pedro Nóbrega em 14/08/2008


ENTRE A FOME, A SEDE E OS CARROS - capítulo II

Quando nos deparamos com alguma crise, nossa atenção tende sempre a recair sobre relações de causalidade direta. Ao se falar, por exemplo, na crise da água, é natural que transbordem campanhas apelando para a redução do consumo doméstico. No entanto, ao assumirmos este tipo de abordagem, ignoramos outros hábitos que, postos em números, demonstram-se muito mais prejudiciais. Neste artigo, nos dedicamos a analisar um deles - o alto consumo de recursos naturais para produção de carne bovina - que consiste em um pequeno capricho na nossa dieta, porém um grande impacto em nosso meio ambiente.

Pesquisas apontam para um explosivo aumento per capita no consumo de carne no lugar de vegetais, e estima-se que até 2020 esse aumento seja de mais 50% (em especial graças às adesões de China e Índia aos hábitos alimentícios do Ocidente). Nossa razão para preocupação vai muito além de uma alimentação saudável: engloba os expressivos gastos envolvidos na produção da carne. Ainda permanecendo na questão da água, é suficiente lembrar que, para produzir-se 3 kg de carne bovina, gasta-se tanta água quanto uma pessoa tomando um banho diário (de chuveiro), durante cinco minutos, por um ano.

A partir de estimativas do Conselho Mundial de Água (CMA), para produzirmos um quilo de batata gastamos de 100 a 200 litros de água (lembrando que é possível produzir mais de 23.000 kg por hectare de batata no Brasil). Entretanto, se desejamos carne bovina acompanhando a batata, devemos nos preparar para consumir em média 13.000 litros por quilo (com uma produção em torno de apenas 47 kg de carne equivalente-carcaça/ha). A situação se agrava ao analisarmos a energia gasta através de todo o processo. Fora os gastos com combustível para transportar os grãos que alimentam o gado, é necessário manter em funcionamento tratores, caminhões e equipamentos para preparar o gado até ele chegar em nossas mesas. Ao confrontar estes aspectos, enxergamos com maior nitidez o impacto que o aumento do petróleo causa na inflação dos alimentos.

Outro ponto de interesse para nós é a poluição causada pela criação de gado. Segundo um relatório das Nações Unidas de 2006, o gado é responsável pela emissão de 18% dos gases poluentes. Além disso, a pecuária também apresenta altos índices de esgotamento do solo. Sabe-se, por exemplo, que um terço de todo o território próprio para cultivo dos EUA foi definitivamente perdido por erosão.

A poluição das águas é um caso à parte. Estima-se que a quantidade de resíduos gerados pela agropecuária (durante todos os níveis do processo) supere todas as fontes industriais e municipais combinadas. Segundo a Embrapa, a poluição gerada pelo gado entre os anos 1990 e 1994 praticamente igualou a poluição gerada pelo setor energético.

Embora não seja de maneira alguma a pretensão de nossos argumentos formular uma sociedade vegetariana - seria exagero propor a exclusão da carne de nossa dieta - não é difícil constatar que existe um excesso em nosso consumo, desnecessário e prejudicial para todos: para nossa saúde, nosso meio ambiente e nossa economia. Percebam que com a entrada no mercado de milhões de novos consumidores asiáticos, a situação se desenha de maneira perturbadora.

Se no passado muitas vezes não havia solução senão caçar (quando não era tempo de colheita, etc.) - e mesmo assim nossos ancestrais consumiam muito menos carne (além de não precisarem alimentar sua caça) - hoje temos uma vasta gama de possibilidades de nutrição, consideravelmente mais adequadas para a quantidade de pessoas que habitam o planeta e para os novos bilhões que habitarão em um futuro próximo. A plantação de frutas e vegetais - os quais demandam gastos naturais mínimos e são compostos de um importante valor nutritivo - em larga escala é um exemplo. Outros são a soja, o trigo e assim por diante. Em um mundo sem alimentos, fica a dúvida: é válido gastar 7 quilos de soja para gerar um quilo de carne?

Mauro Kahn & Pedro Nóbrega - Clube do Petróleo - Leia outros artigos acessando o site www.clubedopetroleo.com.br

Não acreditar mais no "jogar fora": um salto de consciência

Assim como André Trigueiro e Washington Novaes, o jornalista Danilo Pretti Di Giorgi vale a pena ser acompanhado:

Jogar fora não existe
14/08/2008
Fonte: Correio da Cidadania

Esse artigo pode ser lido no site Eco-Finanças aqui.


Ouvi recentemente o economista Hugo Penteado, dono de um excelente blog, questionando a idéia de "jogar algo fora". Ele lembrou como temos o estranho costume de olhar o planeta como uma grande lata de lixo onde podemos descartar tudo. O "fora" na verdade não existe, se considerararmos que estamos todos "dentro" da Terra e que daqui não podemos sair, apesar dos delírios tecnológicos tão apreciados pelos que defendem a manutenção e até mesmo a ampliação dos níveis de produção e consumo atuais. Muito daquilo que produzimos e transformamos a partir dos recursos retirados do planeta vai continuar nos acompanhando na nossa caminhada.

Aquela garrafinha de PET - uma maravilha da engenharia que teria perfeitas condições materiais de continuar sendo reutilizada por muitos anos - não vai "desaparecer" dentro da lata de lixo depois de consumido seu conteúdo. Vai continuar presente, num lixão, testemunhando como nós a passagem do tempo, e por um período de tempo muito mais longo do que a duração de nossa vida.

Para quem consegue compreender a idéia da Terra como "nossa casa", é apenas uma questão de escala a diferença entre nossos lares e o planeta. Afora a questão do tamanho, não há maiores diferenças. O terreno onde está construída a casa onde moramos é limitado. É a mesma coisa com a nossa casa-planeta, o único lugar conhecido onde nossa espécie tem condições de sobreviver.

Mesmo assim, apenas uma minoria parece estar realmente preocupada com as conseqüências ambientais da sociedade do consumo, que a cada ano produz uma quantidade de lixo maior, sem nenhum tipo de cuidado de larga escala com o seu tratamento. É inacreditável que ainda se discuta a responsabilidade das indústrias sobre os resíduos dos produtos que fabricam. É incrível que se fale tão pouco em redução da produção e do consumo quando sabemos que nossos resíduos não desaparecem simplesmente quando o caminhão do lixo passa pela rua onde moramos. Na realidade o lixo desaparece apenas de nossas vistas.

É desesperador, por exemplo, se dar conta de que a maior parte da população mundial sequer tem conhecimento dos perigos ambientais representados pelo descarte inadequado de pilhas e baterias e que por isso milhares delas continuam se encaminhando diariamente aos lixões. Pior ainda é testemunhar que aqueles que têm acesso a essa informação e que têm sob sua responsabilidade a gestão pública não se dedicam a criar mecanismos sérios e efetivos para impedir que pilhas, baterias e outras fontes de venenos continuem contaminando irreversivelmente a terra e a água. Por que cuidamos tão bem das nossas casas e tão mal do nosso planeta?

É difícil responder a essa pergunta, mas não é preciso ser nenhum gênio para perceber que estamos cegos, de cara na lama. Esse chafurdar, porém, se disfarça bem porque acontece ao mesmo tempo em que estamos envoltos numa aura de "modernidade" (no sentido besta do termo), cada vez com acesso mais facilitado a aparelhos eletrônicos de desenho futurista, cheios de luzinhas que fazem muita gente acreditar que o máximo da sutileza e da capacidade criadora humana está nas linhas arrojadas ou no acabamento interno de um automóvel de "alto padrão" ou numa ampla cobertura localizada em "área nobre" da cidade, montada com o que há de melhor na indústria da decoração de interiores.

Os que não vivem essa realidade, ou seja, quase todos, se alimentam do sonho de um dia vir a vivê-la ou da chance de ter acesso a pelo menos alguns desses ícones do consumo. Transformamos-nos de cidadãos em consumidores. E com isso vamos consumindo o que resta do planeta, como cupins roendo lentamente as estruturas de um castelo que um dia virá abaixo.

Danilo Pretti Di Giorgi é jornalista.

sábado, 9 de agosto de 2008

Dia de luto, mais uma guerra


Se você não enxergar Deus no próximo ser que cruzar seu caminho, pode desistir de procurar por ele. Gandhi


Essa foto fala mais do futuro da humanidade do que qualquer teoria econômica que nada diz sobre nós, nossa sociedade, nosso planeta.

Essa segunda foto fala mais do que nós somos capazes de fazer contra a vida, do que qualquer idéia errada concebida a nosso respeito.


Essas fotos, essas guerras, esse sistema irá cair sobre todos nós, sem exceção.

Enquanto continuamos vendo as Olímpiadas do governo cruel da China como se isso não tivesse nada a ver conosco, enquanto vemos os outros sendo cruelmente açoitados pelo destino, como se isso não tivesse nada a ver conosco, o mundo vai descendo fundo até o limite de não ter mais volta alguma. Para ninguém.
Comentário pós-leitura de Ricardo Peres: Existe uma correlação causal entre estilo de vida neoliberal e as guerras. A questão sempre volta para nós mesmos e nossas escolhas como seres humanos produtores de cultura, como um bumerangue. No final, é aquilo que o Bismarck dizia: "Ninguém quer as guerras, mas ninguém está disposto a viver sem aquelas coisas que só a guerra é capaz de trazer".

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Da economia ecológica à socioambiental

Por José Eli da Veiga
(publicado no Jornal Valor em 05/08/08)

A maioria das pessoas age segundo convicção bem explicitadapelo chefe-de-gabinete do presidente Lula: meio ambiente atépode ser importante, mas não é decisivo. Nem chega asurpreender, então, que a cúpula palaciana sempre prefira sojase a alternativa for "um cerradinho". O que poderia ser melhorque esse pejorativo desprezo pelo bioma cerrado para rebaixar a dimensão ambiental diante da social? Afinal, a primeira só podemesmo parecer bem menos decisiva que a segunda sob a óticapolítica imediatista, embora seja grave equívoco estratégico,decorrente de ignorância histórica.

Não há certeza sobre o que realmente ocorreu há cerca de 50mil anos, quando a jovem espécie humana deu a volta por cima,após sacudir poeira acumulada nos milhões de anos que aseparavam do último ancestral comum de chimpanzés. Faltamevidências suficientes para que se tome como incontroversa atese biológica de que a aurora da humanidade moderna foi determinada por uma mudança cerebral provocada por mutaçãogenética.

Todavia, é o inverso que se aplica à constatação de que a partirdaí a cultura foi se tornando tão poderosa que virou a mesa:passou a influenciar o rumo da evolução biológica, retardando-a. Reduziu as diferenças entre genes bem-sucedidos e fracassados, dificultando as mudanças por seleção natural. E em prazo que naescala evolucionária não passa de um piscar de olhos, os humanos foram paulatinamente ocupando todos os cantos doplaneta, alterando a evolução de milhões de outras espécies edemonstrando incomparável capacidade de adaptação.

Não é difícil perceber, então, que a sociedade mantém com o chamado meio ambiente uma relação cujo cerne é justamenteesse formidável processo de adaptação à imensa variedade deecossistemas. Daí ser inadmissível em termos científicos qualquer raciocínio que não se baseie no entendimento daevolução, seja ela mais social, ou mais ambiental. Só que talinsuficiência continua bem recorrente, principalmente entre aschamadas ciências humanas, mas também nas naturais. Ambas mostram certa incapacidade de entender como metabólicas asrelações que os humanos estabelecem com a natureza. Pior, contribuem para aprofundar a falha metabólica resultante darevolução industrial, ao nutrirem a ilusão de que a segunda leida termodinâmica seja algo de muito específico e poucosignificativo.

Não será uma simples troca semântica, "socioambiental" em vez de "ecológica",que acabará com o reducionismo econômico no ensino/pesquisa. Todas as formas de energia são gradualmente transformadas emcalor que acaba ficando tão difuso a ponto de se tornar inútil. Enão há organismo vivo que não esteja sujeito a esse fenômeno,chamado de entropia crescente. Ela precisa ser compensadapela extração de elementos de baixa entropia disponíveis nomeio ambiente. E um dos maiores sucessos adaptativos dahumanidade foi justamente sua capacidade de extrair a baixíssima entropia contida nas energias fósseis, como carvão,petróleo e gás. Mas que também se revelou a principal causa doaquecimento global, fenômeno que paradoxalmente dificultará aadaptação, tendendo a acelerar o processo de extinção da própria espécie.
Bem antes disso certamente surgirão formas mais diretas deexploração da energia solar, e talvez também a fusão nuclear.Mas nada poderá contrariar o segundo princípio datermodinâmica, que muito provavelmente exigirá a descobertade vias de desenvolvimento humano que sejam compatíveis como decréscimo da produção material, o contrário dessecrescimento econômico medido pelo PIB que hoje aparece amuitos como uma espécie de lei natural. E se a humanidaderesistir em abrir mão de vulgaridades que prejudicarão a vida de futuras gerações, estará confirmando sua opção preferencial poruma existência mais excitante, mesmo que bem encurtada.

Só pode ser mera coincidência que comece pela letra "e" essepar de palavras-chave que mais evidencia as atuais limitações das ciências, principalmente as sociais aplicadas: evolução eentropia. Com grande destaque para aquela pequena parte doconhecimento econômico que pode ser considerado ciência, já que todas as suas dimensões práticas, ou normativas, pertencem de fato à ética. Mas certamente não é coincidência que duassingelas manifestações da reação a esse retardamento ocorramna USP praticamente em simultâneo. A revista "EstudosAvançados" 22 (63), que está para ser lançada, trará uminteressante dossiê sobre "Evolução Darwiniana e CiênciasSociais". Poucas semanas depois da defesa de dissertação sobre aentropia, de autoria do economista e agora mestre em ciênciaambiental Andrei Domingues Cechin: "Georgescu-Roegen e o desenvolvimento sustentável".

São dois modestos e concomitantes sinais de um mesmomovimento de renovação do pensamento científico que aindanão decolou porque esbarra em fortíssima inércia doscompartimentos estanques criados pelas diversas disciplinas emsuas respectivas fases de afirmação. No caso da economia, porexemplo, foi necessário reduzir o sistema econômicoexclusivamente às trocas de curto prazo entre os agentes, pois ainclusão do tripé darwiniano (variação, herança e seleção) e datermodinâmica (entropia) engendra necessariamente uma complexidade com a qual é mesmo dificílimo lidar.

Parecia ter sido esse o desafio assumido em 1988 pelo pequenogrupo de pesquisadores que fundou a Sociedade Internacional deEconomia Ecológica (ISEE). Entretanto, dois decênios depublicação regular de seu periódico "Ecological Economics"evidenciam as imensas dificuldades epistemológicas dessamudança paradigmática. Os artigos ali publicados pouco têm aver com a ruptura que teria sido provocada por uma realincorporação dos conceitos de evolução e entropia. Ao contrário,fortalecem a abordagem convencional ao adotarem, porexemplo, a suposição de que tudo possa ser precificado.

Claro, não será uma simples troca semântica - socioambiental em vez de ecológica (ou ainda pior "ambiental") - que poderá garantir a superação do reducionismo econômico na pesquisa eno ensino. Mas terá a vantagem de retirar a questão dessaespécie de "banho Maria" em que permanece há 20 anos.

José Eli da Veiga é professor titular do departamento de economia da FEA-USP, pesquisador associado do "Capability & Sustainability Centre" da Universidade de Cambridge, e autor do livro "A Emergência Socioambiental" (Senac, 2007). Página web: www.zeeli.pro.br

A falsa dicotomia entre economia e meio ambiente

Essa é uma dicotomia inexistente, por teoria e modelo mental falsos e aí seguimos adiante com a receita do desastre que tantos alertas vem sendo dados, por pessoas que se dedicam a isso intensamente.

Quando iremos mudar tudo isso, virar a mesa, para fazer entender que não é uma coisa ou outra, são as duas, que não é economia e meio ambiente, são os dois, que não existe opção aí e sim cegueira total e suicídio coletivo?
Não estamos numa crise ambiental, estamos numa crise de entendimento, de valores, de ética.

Em entrevista, Gilberto Carvalho, chefe de gabinete do presidente da República, diz que
"A cabeça de Lula é a do peão do ABC. O núcleo da preocupação do presidente é com emprego e salário. Vejo isso todo dia. Assim, se o banqueiro tiver lucro, tudo bem. Ele diz: 'Eu prefiro que esses caras tenham lucro do que fazer um Proer para eles depois'. Mesmo em relação à reforma agrária, eu não sinto que ele se empenhe tanto, quanto por salário e emprego. Nem quanto ao ambiente."

"Vou ser bem claro aqui: ele acha importante a preservação, mas, entre um cerradinho e a soja, ele é soja."

"O ambiente é uma questão importante, mas não é decisiva. O que é decisivo é a economia. Gilberto Carvalho afirma também que, para assuntos considerados importantes o governo conta com a mão forte da ministra Dilma Roussef, da Casa Civil, para acelerar os processos, como no caso da "guerra" com a Ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, para que houvesse o leilão das hidrelétricas do Rio Madeira"

Veja, 2/7, p.11 a 15.

Crise da teoria econômica e dos resultados

Esse texto do Harvard Business Publishing em inglês é bem interessante para nossa reflexão.
Infelizmente, está apenas em inglês.


America’s Addiction and the New Economics of Strategy
Posted by Umair Haque on July 28, 2008 1:58 PM


Troublingly, the macroeconomic crisis that’s engulfed the world shows no signs of ending. Why not - why is it grinding on with the grim relentlessness of a drought? Because it’s not a simple financial crisis: it’s a broader economic one. What are the contours of that broader crisis?

We’re not just addicted to cheap oil, as Tom Friedman and Al Gore have eloquently argued. There’s a deeper economic truth at work here. We’re addicted to consumption. Let’s re-examine the house of cards that is the global financial system. Emerging markets seek export-led growth: they undervalue their currencies, so their exports are more competitive purely in terms of price. That’s essentially a subsidy to consumers on the other side of the table – those in the developed world. As emerging markets accumulate surpluses, they recycle them: they lend them back to the US and UK in the form of government and mortgage debt, stabilizing their economies, and amplifying the existing consumption subsidy through leverage.

Amplifying that artificial cheapness is the simple fact the true costs of production haven't been factored in - until now: very real costs like pollution, community fragmentation, and abusive labour standards. So we’ve been able to consume mercilessly and remorselessly – with no regard for the human, social, or environmental consequences, to us or to others.

It’s not just cheap oil we’re addicted to: it’s cheap everything. And the world we’re entering isn’t really of Peak Oil as it is one of Peak Consumption. But consumption wasn’t the only choice we could have made. We could have chosen, instead, to invest. In what? In anything: anything would have been a more sensible choice than naïve consumption – education, energy, healthcare, transportation, even a more sensible and rational kind of finance.

Why didn’t we? Part of the reason is surely deregulation. But a larger part is strategy itself: our economy is built on firms whose very purpose is to sell; to relentlessly push people into endlessly consuming, without ever considering the long-run consequences.

In a world where consumption itself must slow, the boardroom faces tough choices. Does it continue to hawk stuff that “satisfies” largely artificial needs? Or does it choose to do something authentic, meaningful, and purposive – something that makes us all radically better off than we were before?
Do we need razors with ten blades – or a single blade that never dulls?
When the economic history of the early 21st century is written, I suspect it will read something like this. Emerging markets – and the people that broke their backs in them – lent the developed world tremendous amounts. What did the developed world do with it? Instead of investing it in tomorrow, they spent it on McMansions, Hummers, and strip malls.

And that leads us squarely back to strategy: because the addiction has left us strung-out. At the heart of next-generation advantage is, paradoxically, being able to break yesterday’s maladaptive consumption addiction – not fuel it. It is firms who can shift past nihilistic, meaningless industrial-era corporate purpose – beyond acting as mere pushers of an addiction – who will power the next global financial system.

Companies like this are tomorrow’s revolutionaries – companies, as tiny and fumbling as their steps may be, as diverse as Whole Foods, Threadless, Google, and Marks & Spencer. Let’s track down more companies that are living this set of next-generation economics already. Fire away in the comments and suggest some – or fire away with questions, challenges, and your own thoughts.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Ecologizando a economia

Por Maurício Andrés Ribeiro (*)

Incluir a economia na ecologia é uma tarefa inadiável para evitar o desastre resultante da desvinculação de um e outro campo do conhecimento.
O divórcio entre economia e ecologia é denunciado por economistas com visão ecológica, que questionam os falsos pressupostos da economia e os indicadores econômicos, tais como o PIB- Produto Interno Bruto.
A partir dos trabalhos pioneiros de Nicholas Georgescu Roegen (A lei da entropia e o processo econômico), de James Tobin, de Herman Daly, de Ignacy Sachs, de José Eli da Veiga, ainda são poucos os que se dedicam a essa valiosa tarefa de desconstrução de mitos.
No Brasil, um desses economistas com visão ecológica é Hugo Penteado, que trata desses falsos pressupostos e propõe a harmonização entre as questões ecológicas e econômicas.
Aponta que todos os sistemas econômicos (indústria, agricultura, transportes, comércio, e seus derivados) são lineares (extrai-produz-descarta), são degenerativos e submetidos a crescimento exponencial infinito; e que a insustentabilidade tem sido mascarada pelo comércio global. Ele trata o sistema econômico (linear, infinito, degenerativo) como um subsistema da natureza (circular, finito, regenerativo) ao afirmar que a “economia é um subsistema da natureza. Por essa razão, tem que imitar o seu funcionamento. Qualquer empreendimento/projeto ou país para contribuir para o desenvolvimento sustentável tem que ser: circular, regenerativo e finito.”
Nessa mesma linha, o livro “Reconsiderar a riqueza”, de Patrick Viveret, recorre à origem grega das palavras economia e ecologia:
“Em grego, de fato, oikos nomos significa a organização, a lei, a ordem da casa. A função da economia, portanto, seria cuidar de nossas pequenas casas, aquelas que só podem perseverar em suas atividades se a teoria da grande casa – nosso planeta ou nossa biosfera – for capaz de abrigá-las. Ao mesmo tempo, é igualmente legítimo que a teoria da grande casa, oikos logos, ou, dito de outra maneira, a ecologia, seja a teoria primordial, da qual a oikos nomos constitui um dos pontos de aplicação. Assim, qualquer inversão que faça da ecologia o complemento anímico simpático-marginal da economia será propriamente suicida para a humanidade”. (Pg. 14)
Hugo Penteado aponta os três mitos da Teoria econômica tradicional: o mito mecanicista (que considera o sistema econômico neutro para o meio ambiente); o mito tecnológico (de que o meio ambiente é inesgotável) e o mito neoliberal, que difunde a idéia de que todas as benesses sociais dependem do crescimento.
Reportando-se ao caso do colapso da ilha de Páscoa, que ao destruir suas florestas se autodestruiu, ele considera que a questão desses limites é hoje global. (A ilha de Páscoa é caso estudado no livro Colapso, de Jared Diamond, que também fala da ilha de Tikopia, na qual a população soube a tempo tomar decisões para evitar o desastre). Hoje, a Terra pode ser vista como uma ilha no universo, com limites físicos bem definidos.
Hugo Penteado defende que a Sustentabilidade implica em:
· mudança de valores
· revisão do modelo e teoria econômicos, com abandono do mito da infinitude e do crescimento eterno
· promoção de atividades socioambientalmente sustentáveis
· inclusão nos preços do custo ambiental via tributação
· abandono da extração a favor da reciclagem
· abandono do desperdício a favor da reutilização
· mudança da matriz energética
· focar no estoque e não no fluxo
· focar em serviços e não na produção (desmaterializar a economia)
· estancar o crescimento econômico material e populacional
· desvincular os sistemas fiscais, empresariais, financeiros e políticos da necessidade de crescer sempre
· abandonar o grande a favor do pequeno, o global a favor do local
· adotar a sustentabilidade no núcleo de negócios ou atividades de cada um, de cada família, de cada empresa
· buscar equilíbrio entre gerações atuais e futuras, entre os seres humanos e os demais seres vivos, entre as nossas atividades e a natureza, ao invés de pensarmos apenas em crescimento, sem discutir suas conseqüências, como concentração de riqueza e destruição dos ecossistemas e dos empregos.
Ele mantém o Blog www.nossofuturocomum.blogspot.com
Essas idéias estão expostas em seu livro Ecoeconomia – Uma nova abordagem (2003) Ed. Lazuli, disponível para aquisição no site www.lazuli.com.br

(*) Autor de Ecologizar e Tesouros da Índia

WWW.ecologizar.com.br
mandrib@uol.com.br

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

China, sempre a eterna única culpada... nunca o modelo...

O Estado de São Paulo
Domingo, 3 de agosto de 2008
INTERNACIONAL
Gigante chinês tem pés de barro
Problemas sociais e econômicos impedem país de se tornar superpotência
John Pomfret
(ver em negrito, comentários meus)

Nikita Kruchev disse que a União Soviética enterraria os Estados Unidos, mas hoje em dia, todos parecem achar que é a China quem está segurando a pá. A República Popular está em marcha – em termos econômicos, militares e até mesmo ideológicos. Os economistas esperam que o seu Produto Interno Bruto (PIB) ultrapasse o dos Estados Unidos até 2025; a sua frota de submarinos está supostamente crescendo num ritmo cinco vezes superior à de Washington; até seu autoritarismo capitalista é chamado de alternativa real à democracia liberal do Ocidente. A China, segundo se diz, está pronta para dominar o século 21, assim como os EUA dominaram o século 20.

A não ser pelo fato de que isto não ocorrerá.

Desde que voltei aos Estados Unidos em 2004 depois de meu último emprego na China, como chefe da sucursal chinesa de The Washington Post, tenho reparado na maneira quase sem fôlego com que falamos a respeito daquele país. Com freqüência, nossa percepção do lugar está mais relacionada à maneira com que enxergamos a nós mesmos do que às coisas que de fato estão acontecendo por lá. Preocupado com o sistema americano de educação? A China torna-se um modelo. Inquieto por causa da nossa falta de prontidão militar? Os mísseis chineses aparecem como ameaça. Incomodado com a minguante influência mundial dos EUA? A China parece pronta para assumir o nosso lugar.

Mas será que a China se tornará de fato uma outra superpotência? Duvido. Não sou um crítico da China. Fui ao país pela primeira vez em 1980 como estudante e acompanhei a notável transformação nos últimos 28 anos. Conheci minha mulher lá e considero a China meu segundo lar. Obviamente não espero que a China imploda. Mas o sonho de domínio não se realizará tão cedo.

Há muitas limitações inseridas nos sistemas social, econômico e político do país. Por causa de quatro principais motivos – uma demografia falida, uma economia superestimada, um meio ambiente sob ataque e uma ideologia que encontra dificuldades para ser exportada – é mais provável que a China permaneça como o adolescente musculoso do sistema internacional, em vez de se tornar a mestra do mundo.

(aqui falha em reconhecer que o meio ambiente sob ataque é uma característica do sistema mundial inteiro e que os países ricos só conseguiram viabilizar seu progresso sem um colapso planetário porque fizeram isso sozinhos e que quando os demais países forem atrás do mesmo progresso, o planeta colapsará; falha também em reconhecer a existência de colapso ambiental local nos países ricos, como os Estados Unidos, que só foi evitado através das trocas ambientais gratuitas e invisíveis do comércio global).

No Ocidente, a China é conhecida como a "fábrica do mundo", a terra da mão-de-obra ilimitada onde milhões estão ansiosos por trocar a precariedade do interior pela oportunidade de apertar parafusos em aparelhos de microondas. Se o país vai atingir o status de superpotência, diz a sabedoria popular, o fará apoiado nas costas da sua força de trabalho maciça.
PAÍS DE VELHOS
Mas a demografia chinesa vai mal. Nenhum país está envelhecendo tão rápido quanto a República Popular, que está a caminho de se tornar o primeiro país do mundo a envelhecer antes de enriquecer. Por causa da famosa política de filho único do Partido Comunista, o número médio de filhos nascidos para as mulheres chinesas caiu de 5,8, na década de 70 para 1,8 atualmente – abaixo da taxa de 2,1necessária para manter a população estável.

(aqui falha em perceber que uma estrutura demográfica por idade estável é uma das consequências da estabilização do crescimento populacional, mas que implica numa deterioração do quociente entre população ativa e população inativa e que essa passagem é realmente dolorosa, quando ocorre, posto que a saúde financeira desse sistema, seja em que base for, mesmo para a China que não tem previdência, inviabiliza; o problema não está na demografia, mas na dependência do nosso sistema de uma demografia que trabalha com o mito que podemos povoar a terra ininterruptamente; portanto, o problema não está na demografia, mas no sistema econômico dependente da megalomania do crescimento; isso é muito grave, porque recomenda fazer a população voltar a crescer e abandonar a política de filho único...)

Enquanto isso, a expectativa de vida subiu bastante, de apenas 35 anos em 1949 para mais de 73 anos hoje. Os economistas preocupam-se com a redução da população chinesa em idade economicamente ativa, que aumentará os custos do trabalho, erodindo significativamente uma das principais vantagens competitivas da China.

Ainda pior, os demógrafos chineses, como Li Jianmin da Universidade Nankai, agora prevêem uma crise envolvendo os idosos da China, um grupo que vai inchar, passando de 100 milhões acima dos 60 anos de idade hoje para 334 milhões até 2050, incluindo impressionantes 100 milhões de pessoas acima dos 80 anos de idade. Como a China fará para cuidar destas pessoas? Por meio de pensões? Menos de 30% dos habitantes urbanos as têm, e nenhum dos 700 milhões de agricultores dispõe delas. E o sistema chinês de pensões financiadas pelo Estado faz o sistema de bem-estar social americano parecer o Fort Knox. Nicholas Eberstadt, demógrafo e economista do Instituto American Enterprise, chama a bomba-relógio da demografia chinesa de "construção de uma tragédia humana em câmera lenta". Não se passa um único mês sem que algum estrategista em Washington papagueie que a economia chinesa está ultrapassando a americana. Mas há dois problemas nestas previsões. O primeiro é que, no universo onde estes relatos são produzidos, os gráficos representando a China são sempre ascendentes, nunca descendentes. O segundo é que, apesar de os documentos incluírem possivelmente algum nuance, o mesmo desaparece quando os estudos são publicados para o restante de nós.

Demografia falida, ideologia sem apelo popular e poluição ameaçam futuro

Um nuance importante que insistimos em esquecer é o tamanho da população chinesa: cerca de 1,3 bilhão de pessoas, mais de quatro vezes a população americana. A China "deveria" ter uma grande economia. Mas em termos per capita, o país não é um dragão – é um lagarto de tamanho médio, instalado no 109º lugar do índice econômico mundial elaborado pelo Fundo Monetário Internacional, entre a Suazilândia e o Marrocos. A economia chinesa é grande, mas o seu padrão médio de qualidade de vida é baixo, e permanecerá assim por muito tempo.

O grande número utilizado como prova de que a China está devorando nosso almoço econômico é o déficit comercial americano em relação ao país, que no ano passado chegou aos US$ 256 bilhões de dólares. Mas quase 60% do total de exportações chinesas são realizadas por empresas pertencentes a não chineses. Em se tratando de exportações de alta tecnologia, como computadores e artigos eletrônicos, 89% delas são de empresas pertencentes a não chineses. A China faz parte do sistema global, mas ainda ocupa a posição de fábrica e linha de montagem de baixo custo – e são firmas estrangeiras, não chinesas, que estão recolhendo o grosso dos lucros.
POLUIÇÃO E DITADURA

Em 2004, quando me mudei com a família para Los Angeles, a capital americana da poluição, os freqüentes ataques de asma e as infecções pulmonares constantes de meu filho pararam. Quando as pessoas me perguntavam por que nós havíamos nos mudado para L.A., eu comecei a brincar: "Por causa do ar puro." Os problemas ambientais da China não são piada. Este ano, o país vai superar os EUA como maior emissor de gases associados ao efeito estufa. A China é a maior destruidora da camada de ozônio e a maior poluente do Oceano Pacífico. Das 20 cidades mais poluídas do mundo, 16 estão na China; 70% de seus lagos e rios estão poluídos e metade de sua população não dispõe de água potável limpa. Até 2030, o país enfrentará uma escassez de água equivalente à quantidade do líquido que é consumida hoje; as fábricas do noroeste já foram obrigadas a fechar porque simplesmente não há mais água. Até os economistas do governo chinês estimam que problemas ambientais consumam anualmente 10% do PIB nacional. E há ainda o filme Kung Fu Panda, que personifica o motivo final pelo qual a China não se tornará uma superpotência: as idéias animadas de Pequim simplesmente não são lá muito animadas.
(como se o problema ambiental da China fosse uma peculiariadade desse país, ignorando, portanto que nos Estados Unidos 50% dos rios, lagos e zonas estuárias também estão poluídos e que esse país só não atingiu seu colapso ambiental por conta do comércio global; falha portanto em reconhecer que é o modelo que está fracassado e não é apenas a China que vai soçobrar, mas o mundo rico inteiro).

O recente sucesso de Hollywood, que trata de um urso panda que faz uso dos ancestrais ensinamentos chineses para se transformar num lutador de kung fu, quebrou os recordes chineses de bilheteria – e provocou um espremer de mãos entre os glamourosos do país. "O protagonista do filme é um tesouro nacional chinês e todos os elementos são chineses, então por que não fomos nós que fizemos um filme como este?", disse Wu Jiang, presidente da Companhia Nacional Chinesa de Ópera de Pequim, à agência oficial de notícias Nova China.

O conteúdo do filme pode ser chinês, mas sua irrelevância e criatividade são 100% americanas. A China continua sendo um Estado autoritário administrado por um partido que restringe o livre fluxo da informação, sufoca a ingenuidade e não entende como corrigir a si mesmo. Os grandes sucessos do cinema não nascem a partir do cano de uma arma de fogo. E nem o fazem as superpotências na era da globalização. Ainda assim, parece que nos deleitamos ao superestimar a China. Recentemente fui a uma festa na qual uma das principais assessoras de um senador democrata estava comentando a respeito do negócio firmado no início do ano por meio do qual uma empresa de investimentos pertencente ao governo chinês comprou uma grande fatia do Blackstone Group, um afirma americana de investimentos. A empresa chinesa perdeu mais de US$ 1 bilhão, mas a assessora não queria acreditar que se tratava apenas de um investimento mal calculado. "Tem de fazer parte de uma estratégia mais ampla", insistia ela. "É a China, afinal." Tentei convencê-la do contrário. Mas não acho que tenha conseguido.

John Pomfret é editor da seção analítica Outlook do jornal The Washington Post. Ele é ex-chefe da sucursal chinesa em Pequim da mesma publicação e autor de Chinese Lessons: Five Classmates and the Story of the New China ("Lições Chinesas: Cinco Colegas e a História da Nova China").
TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

sábado, 2 de agosto de 2008

Nossa secular cruel relação com os animais


Os defensores da caça e das touradas e de outras atrocidades reivindicam o aspecto cultural e social e histórico dessas horríveis crueldades.

Não há jeito. Elas são apenas um reflexto da nossa cruel relação com todos os seres vivos, humanos ou não, da nossa incapacidade de respeitar a integridade física de outro semelhante. A nossa crueldade horrenda revela o quanto somos capazes de ser cruéis contra outro ser humano. As estatísticas estão aí: o número de crianças sofrendo maus tratos e abusos pode ser contado por minuto em todos os países. A classe de seres vivos que não podem se defender (idosos, crianças e pequenos animais) é totalmente dilacerada em dores e sofrimento atrozes, alimentando o karma da humanidade até o limite.

A indústria alimentícia, as pesquisas com animais vivos, a caça para casacos de pele, as touradas. Está mais do que na hora de abandonar a desculpa da história e reconhecer que tudo que fazemos só revela o péssimo trato que damos a nós mesmos, aos nossos pares e aos demais seres vivos. O nosso sistema de karma e morte. Ignorando que todos os seres vivos dependem de todos os seres vivos.

A frase mais importante que eu li em toda minha vida veio de Gandhi:

"Se você não enxergar Deus no próximo ser que cruzar seu caminho, pode desistir de procurar por ele."

É tudo que não fazemos.